As visitas são muito espaçadas e breves. Só não me perco na parte nova porque tenho algum sentido de orientação pois existem locais que desconheço completamente, conheci bem muitos deles quando eram olivais e terras de semeadura.
Naturalmente a parte que procuro mais é a que tem a ver com as minhas vivências e os meus afectos, aquela onde vivi, que conheci bem incluindo grande maioria das pessoas que lá viviam. Quase que me apetece dizer como o meu pai dizia nos seus últimos anos de vida: “Hoje já não conheço ninguém e no meu tempo (queria referir-se à sua juventude) conhecia toda a gente e toda a gente me conhecia.”
Comigo já não foi bem assim mas foi muito diferente do que é hoje.
A cidade, como nós dizíamos sem o perceber bem, era a antiga urbe, a parte medieval que se situava dentro das muralhas que a protegiam e de que já poucos vestígios restavam. Era lá que fervilhava o comércio em ruas, becos e travessas, onde a rua dos Correios e do Central faziam a diferença pela sua largura, alinhamento de construções e tipo de serviços.
Os edifícios dos antigos conventos situavam-se na periferia tal como alguns palacetes.
Era nova então a zona luxuosa de vivendas no planalto de S. Bento, onde tinha sido construído o Liceu Sá da Bandeira. Dos beneditinos penso que ainda resta a cisterna.
O Bairro dos Combatentes era outra zona nova e em construção, mas para gente mais modesta.
O próprio Bairro do Pereiro, ainda que dentro do perímetro que foi amuralhado, ficava um pouco distante e foi lá que se construiu no século XIX o cemitério que ainda serve a cidade e que conheci pela quarta parte do que é hoje.
Campo Fora de Vila, Rafoa, Monte Cravo, Calçada do Monte e Estrada de S. Domingos era tudo considerado arrabaldes. Quem destes locais se deslocasse à parte velha do burgo, dizia que ia à cidade, o resto sendo-o, não o era na linguagem quotidiana.
Mas esta croniqueta tem por título a VOLTINHA DOS TRISTES como os jovens de então lhe chamavam.
Ao domingo era dia de ir à cidade para quem vivia na periferia. Vestia-se uma roupinha melhor e lá se ia em pequenos grupos saber os resultados da bola, postos pouco depois dos desafios terminados, no Placard do jornal diário O Século no stand do Leitão.

Eram ali colocadas várias notícias entre as quais os falecimentos.
Após o conhecimento dos resultados, íamos dar uma volta, a voltinha dos tristes, percorrendo a Rua de S. Nicolau em direcção ao Canto da Cruz. Tínhamos à direita o Café Portugal e a seguir a Barbearia de José de Oliveira que também vendia telefonias, Telefunkein, se não estou em erro. Do lado esquerdo a Casa Nobre, que penso ainda existir e era uma grande casa comercial da cidade no campo dos tecidos, logo a seguir o consultório do médico Dr. Ramiro Nobre, figura bem carismática da cidade pelo seu profissionalismo e dirigente desportivo.

Do lado oposto e onde se encontra um pequeno painel de azulejos, lembra-me o que nunca me esqueci, um acidente que ali ocorreu e ceifou a vida a um jovem. Isto aconteceu há sessenta e tal anos!
A Capela de S. Pedro, anexa à Igreja de S. Nicolau e que naturalmente lá continua, com o túmulo do arganilense Fernão Roiz Redondo e de sua mulher Marinha Afonso (Séc. XIV.
Depois, uma travessa à direita, em cuja esquina se veio instalar já nos meus dias a Costa Modas, com grande montra virada para a rua principal, na altura um estabelecimento moderno e muito para a frente. No início desta travessa, situou-se a Tipografia Tejo, onde mais tarde se fixou a firma António Eloy Godinho & Irmão, Lda, especializada em veículos de duas rodas, a pedal ou motorizados.

No seguimento da Costa Modas , a sede dos “Caixeiros”, como se chamava ao Grupo Desportivo Empregados no Comércio, com salão onde se realizavam grandes bailes e grandes partidas de ténis de mesa, em que a sua equipa pontificava. Lembro-me de grandes jogadores como Beja, Neto, Trindade (Zeca) e mais tarde o António que foi meu colega na escola primária e no liceu e o Minderico.
Ao chegar ao “Canto da Cruz” e no “canto” da esquerda, o grande estabelecimento de mercearia fina, Artur Lopes dos Santos, que era na verdade um grande estabelecimento naquele tipo de comércio.

Tomava-se a rua da esquerda, ou seja, a da Misericórdia. Menos comercial do que a anterior, imperava do lado esquerdo a Igreja da Misericórdia e uma maravilhosa janela de canto. Logo a seguir, um estabelecimento de fazendas e no lado oposto o escritório da advogado e político,Dr. Artur Proença Duarte, que foi muitos anos deputado na Assembleia Nacional e Presidente da Junta de Província do Ribatejo.

Mais uma igreja e das mais importantes das muitas existentes na cidade – a Igreja de Marvila, antiga Nª Sª das Maravilhas. No largo que lhe fica contíguo, os grandes Armazéns do “Cabralão”.
Vai-se dar ao “Terreirinho das Flores”, que num dos vértices em cujo um dos vértices sempre me lembro existir uma taberna, mais tarde transformada em snack-bar. Nesse pequeno largo toma-se a Rua Direita (das Portas de Leiria) e frente ao Largo de Marvila, o velho edifício onde durante séculos funcionou o poder administrativo local e de que me lembro muito bem. Aqui que foi aclamado rei de Portugal D. João IV.
É revestido de azulejos, penso que seiscentistas. Funcionava igualmente a corporação de Bombeiros Municipais.

Esta comercial via, torta porque é medieval (direita por ir em direcção a, neste caso, Porta de Leiria) e por onde se vão encontrando becos, situava-se, não sei se ainda existe, a Electrodinâmica e no lado oposto a Casa Ruivo, importante estabelecimento de ferragens. Era e penso que ainda é uma via inteiramente comercial, mas hoje em franca decadência, pois além dos andares superiores serem habitados, o que hoje só excepcionalmente acontece pelos mais variados motivos, estando em muitos casos em franca degradação, a população habita nas áreas novas e circunvizinhas onde tudo já existe.
Percorrer a velha cidade pelas 22 ou 23 horas significa, excepcionalmente, encontrar alguém e o que poderá ser não muito agradável, encontrando todos os estabelecimentos comerciais fechados, e isto vai acontecendo igualmente noutras zonas da cidade.
O perigo cada vez ronda mais perto!
Chegados ao entroncamento com a “nova” rua Guilherme de Azevedo, e onde se encontra agora o seu monumento, que esteve, inicialmente, à entrada no Jardim das Portas do Sol, havia uma pequena tabacaria. Numa esquina, uma velha barbearia e na outra o Abidis Hotel.
No lado direito, uma conhecida ourivesaria e logo a seguir o “velho” e centenário CORREIO DO RIBATEJO, em lugar onde sempre o conhecemos. Recordo o Dr. Virgílio Arruda, baixo, forte, com os seus óculos muito graduados e sempre uma figura muito simpática, após o seu falecimento, o não menos simpático Bernardo de Figueiredo que o substituiu na direcção do semanário.
A seguir à Adidis, uma engraxadoria com uma série de cadeiras e outra das mercearias finas da cidade, a Mercearia Ribeiro. Pouco depois e do mesmo lado, a ainda existente Espingardaria, na altura, única na cidade e uma casa de Ferragens, que penso ainda existir mas naturalmente com outra gerência.
A centenária Sociedade Operária no velho palácio que a tradição aponta como local de nascimento de Frei Luís de Sousa.

O Largo do Padre Chiquito aparecido no local onde se edificou a Igreja do Salvador sendo aí baptizado o benquisto Marquês de Sá da Bandeira e onde funcionou durante muitos anos a praça de automóveis de aluguer. O nosso avô paterno recebeu o sacramento do baptismo nessa igreja paroquial e ministro por aquele que veio a ser o 1º Bispo de Damão.
Seguindo, encontra-se à direita a Livraria Escolar que ainda vai resistindo à voragem dos tempos, do lado oposto e à esquina, situava-se a importante Livraria e Tipografia Silva hoje desaparecida.
Entra-se assim no Largo do Seminário, na verdade, Praça Marquês Sá da Bandeira onde em finais dos anos 20 do século passado foi erguido o monumento que o recorda.
Os antigos Paços Reais, depois Seminário, Liceu e hoje Sé do Bispado impõe-se pela sua monumentalidade.
Sempre conhecemos no espaço o consultório do recordado oftalmologista Dr. Isabelinha, falecido com mais de um século, figura muito querida na cidade e hoje ocupado por seu filho, Dr. Duarte Gonçalves (Isabelinha).
Naquele largo situava-se um dos três cafés de Santarém, o “Café Brasileira“ muito procurado negociantes. Pensamos que ainda existe a Farmácia Flamea Vitae.
Encostados à Capela da Piedade onde tinham instalado as suas cadeiras, trabalhavam uns tantos engraxadores de sapatos.
Lembramo-me da existência de uma casa de pasto, local de paragem das “camionetas de carreira” e ao lado uma oficina de bicicletas.
Na casa apalaçada onde nasceu o Marquês Sá da Bandeira, viveu durante muitos anos o Dr. Virgílio Arruda. Ambos os factos estão assinalados por placas alusivas.

[Casa apalaçada onde nasceu Sá da Bandeira]
À esquina, a ainda existente, segundo penso, Pastelaria “Bijou”. Avançando pela Rua de S. Nicolau, a casa Conde onde se vendiam cestos de toda a espécie e aí ia comprar os meus berlindes com que o meu filho ainda brincou.

Mais casas comerciais de um lado e do outro, casas de solas e cabedais, pastelarias e a sede do extinto Sport Grupo União Operária. O pátio da Caravana, a Travessa do Postigo onde funcionou a Camionagem Ribatejana e ao fundo o Vieira dos Frangos.
A alfaiataria “Cravador”, velho orfeonista do Orfeão Scalabitano e mais tarde do Coro Alfredo Keil.
O ainda existente Posto de Turismo onde me lembro de estar em exposição a 2ª Edição de Santarém História e Arte, de Joaquim Veríssimo Serrão e ilustração de Braz Ruivo, dois escalabitanos que me habituei a admirar.

Não tinha dinheiro para adquirir o trabalho, mas hoje faz parte dos meus livros,pois consegui encontrá-lo num alfarrabista.
Acabei de chegar ao ponto de onde parti, à esquina da Farmácia..
A VOLTINHA DOS TRISTES FOI EFECTUADA.