domingo, 29 de setembro de 2013

Igreja de Santa Clara



Fundado por D. Afonso III entre 1260 / 70 é templo de raiz gótica ainda que tenha sofrido deturpações no decorrer dos tempos. As clarissas resolveram trocar Lamego por Santarém.

As obras prolongaram-se por todo o século XIII e chegaram até meados do seguinte, recebendo ainda benefícios da rainha D. Isabel e do próprio D. Dinis.

A Igreja é o que resta do antigo Convento de Santa Clara. É de estilo gótico e três naves, sendo a central mais elevada e iluminada por janelas geminadas. A separação das naves é feita por 6 arcos que assentam em pilares prismáticos e colunas acostadas.

Tem 72 metros de comprimento e 18 de altura, sendo considerada em Portugal de invulgares dimensões.

A capela-mor é servida por abóbada gótica de nervuras cruzadas e a claridade é fornecida por cinco janelas geminadas.

Uma cachorrada de pequenas dimensões percorre todo o edifício.

A fachada principal não tem portada, cumprindo assim a regra dos edifícios de clausura, mas possui uma rosácea octogonal, cujos raios se identificam com colunelos partidos que se reúnem em arcos trilobados constituindo uma peça de fino recorte. Por cima, em pedra, as cinco quinas do rei Bolonhês.

D. Leonor Afonso, filha bastarda de D. Afonso III e de Elvira Esteves “mulher de condição baixa”, depois de casar duas vezes, ingressa como freira neste convento, onde faleceu a 26 de Fevereiro de 1291 e ficou sepultada. É possível que esse facto tivesse motivado um maior auxílio de seu pai e de seu irmão, D. Dinis, além da sua protecção pessoal já que não tinha descendentes.

A sua memória era guardada com sinais de santidade.

O seu túmulo original, com alguma aproximação ao de D. Dinis no Mosteiro de Odivelas, foi descoberto aquando das obras de restauro (1937).

O Padre Luís Montês Matoso, na sua Santarém Ilustrada, (1738) descreve no Capítulo XX o Mosteiro de Santa Clara de que anotámos: os altares estão cheios de imagens entre as quais um Santo Cristo dos Passos que com ele fazem sua procissão pelos claustros do mosteiro com sermões e calvário na igreja na sexta-feira de Quaresma. Outra imagem de grande devoção é a de Nossa Senhora da Conceição.

O mosteiro é vítima de dois fogos, um em 18 de Agosto de 1638, que durou dois dias e o outro em 18 de Abril de 1669, que consumiram parte substancial do seu recheio, o que se salvou do primeiro, é vítima do segundo, sendo a igreja a parte menos afectada.

Quando do 1º, as religiosas foram recolhidas na Igreja de S. Francisco seguindo depois para o Mosteiro de S. Domingos das Donas.


Quando morreu a última freira, D. Maria Inocência Xavier Leite, em 1902, as instalações ficaram expostas aos mais variados apetites e houve venda e compra do seu recheio. Depois foi aproveitado para arrecadação militar e mais tarde abandonado.

É despojada do retábulo quinhentista de Diogo de Contreiras, do cadeiral do coro, dos altares em talha, dos painéis de azulejos e das esculpas barrocas de madeira.

O restauro que a deixou com o aspecto actual, teve lugar de 1934 / 40. A reabertura ao culto deu-se no dia 10 de Junho de 1440 com a presença do Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira.


Está classificada como Monumento Nacional.
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Santarém – História e Arte, Joaquim Veríssimo Serrão, colaboração artística de Braz Ruivo, 2ª Edição, 1959.

Santarém Ilustrada, Luís Montês Matoso (Transcrição do texto e estudo introdutório, Martinho Vicente Rodrigues) Junta de Freguesia de Marvila, 2011.

História e Monumentos de Santarém, Zeferino Sarmento, C.M. de Santarém, 1993.



terça-feira, 16 de julho de 2013

Rafael Duque



Rafael da Silva Neves Duque é um ribatejano nascido no concelho de Torres Novas, mais propriamente no lugar da Mata, freguesia de Chancelaria, o que aconteceu em 23 de Setembro de 1893. Era filho de João da Silva Duque, proprietário e de Ana Rosa das Neves.

Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde foi aluno na cadeira de Economia do Doutor António de Oliveira Salazar, com quem travou laços de amizade, cujo professor era mais velho apenas quatro anos.

Após o curso, exerce advocacia nomeadamente em Torres Novas, onde se instala e ainda emTomar, Golegã e Santarém.

Casa em 1920 com uma senhora da freguesia do Chouto, concelho da Chamusca e tornam-se proprietários de uma importante casa agrícola do concelho.

Na 1ª República exerceu o cargo de chefe de gabinete do Ministro do Trabalho, que era seu primo.

Tornou-se militante do Partido Nacionalista, em cujas listas foi candidato a deputado ao Congresso da República (1925).

Foi governador civil do distrito de Leiria em 1924.

Adere abertamente ao golpe do 28 de Maio de 1926 e ajuda à instalação da Ditadura Nacional e é Presidente da Câmara Municipal da Chamusca de 1926/29, fazendo regressar ao concelho a freguesia de Vale de Cavalos que se encontrava no concelho de Alpiarça, além de se proceder ao abastecimento de água e energia eléctrica.

Foi Ministro da Agricultura (1934-1940) sendo preponderante o seu papel no estabelecimento das políticas agrária e cerealífera do Estado Novo e na Campanha do Trigo. Foi igualmente responsável pelo Ministério da Economia (1940-1944).

Em 1935 cria o Grémio dos Produtores de Frutas da Região de Vila Franca de Xira, autorizando a aquisição nos viveiros nacionais ou estrangeiros de 300 000 árvores, arbustos e plantas herbáceas para enriquecer o sistema florestal do país. No ano seguinte manda constituir brigadas móveis do Ministério da Agricultura sedeadas em nove cidades.

Está presente na qualidade de Ministro na inauguração da 1ª Exposição-Feira do Distrito de Santarém, nesta cidade.

Em 1938 extingue a Federação de Sindicatos Agrícolas do Norte de Portugal, considerando que se tinha desviado dos fins para que fora criada. Mais sindicatos agrícolas são extintos, entre os quais Porto de Mós. Sardoal e Lourinhã.

Fixa em 1942 o preço máximo do sal posto na marinha.

Foi dirigente associativo pertencendo à Federação dos Vinicultores do Centro e Sul de Portugal (1936-1937), deputado à Assembleia Nacional (1938-1944) e procurador à Câmara Corporativa(1945-1969).

É devido à sua acção política que se procede à plantação do “Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa.

Inicia, entretanto, outro período de actividade, sendo membro do conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (1945 / 46), delegado do Governo junto do Banco Nacional Ultramarino (1950/55) e Governador do Banco de Portugal (1957/63) pois atinge o limite de idade.

Regressa à Chamusca em 1965 ali falecendo em 28 de Abril de 1969.

Enquanto a placa toponímica na Chamusca foi arreada depois do 25 de Abril, mantém-se numa rua de Lisboa.
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Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937 – 40, pág. 627

História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Vols. XIV e XV

Rafael Duque ainda é nome de rua em Lisboa. Na Chamusca a placa caiu em 25 de Abril – O Mirante

App.parlamento.pt (cons.15.07.2013)

Os procuradores da Câmara Corporativa (1935 – 1974).

Centro de Estudos do Pensamento Político

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domingo, 14 de julho de 2013

Gabriel Soares de Sousa


 Teria nascido em Punhete, actual vila de Constância, por volta de 1540.

Filho de família nobre, chega ao Brasil em 1568/69 na Armada de Francisco Barreto.

Uma vez na Baía, instala nas margens do rio Jeriquiçá um engenho de açúcar e casa, vivendo por esses lados mais de dezoito anos.

O seu irmão João Coelho de Sousa, que já lá se encontrava, foi explorando o rio São Francisco e referiu-lhe a possibilidade de existência de minas preciosas. Organiza entretanto, um roteiro de minas de prata da região de Minas Gerais.

Em 1584 vem ao Reino requerendo a Filipe I a concessão dessas minas e apesar das dificuldades encontradas consegue obter. É nomeado governador e capitão-mor da conquista das Minas. Enquanto aguarda as decisões reais, escreve (1587) um tratado, “Tratado Descritivo do Brasil”e oferece um manuscrito ao Ministro Cristóvão de Moura, possivelmente, para justificar e influenciar na decisão pretendida.

Em 1591 regressa ao Brasil com o intuito de prosseguir a descoberta da rota do rio São Francisco. Faz-se acompanhar de 360 colonos e quatro religiosos carmelitas, próximo da costa Brasileira a embarcação naufragou morrendo muita gente.

Seguiu para a Baía com o auxílio do Governador Francisco de Sousa, recompôs a expedição que tinha planeado e explora as margens do rio Paraguaçu viajando pelo interior do país em busca de metais preciosos, percorrendo cerca de 600 km.

Atacado de febre, morre próximo da nascente do rio junto do seu guia índio, perto do lugar onde sete anos antes tinha sucumbido o irmão.

O seu corpo foi transportado para a Baía e depositado no Mosteiro de S. Bento. Sobre a lápide, o seguinte epitáfio “ Aqui jaz um pecador”.

O “Tratado Descritivo do Brasil”esteve inédito até ao século XIX e tem sido publicado com títulos diferentes.

O texto veio a ser conhecido por Diogo Barbosa Machado que deu notícia da existência da obra.

José Mariano da Conceição Veloso deu início à sua publicação com o título “Descrição Geográfica da América Portuguesa”, mas a edição foi interrompida. Em 1825 a Academia Real das Ciências resolveu mandar imprimi-la, seguindo-se, naturalmente, outras edições sobretudo no Brasil onde continua a ser estudada.

Constitui um manancial de informação em vários aspectos, geográficos, botânicos, zoológicos, históricos, sociais, económicos e etnográficos entre outros, retratando minuciosamente o Brasil dessa época, constituindo uma verdadeira enciclopédia.

Os críticos põem em relevo a variedade dos assuntos abrangidos, a atenção, minúcia e técnica com que os aborda, tomando em consideração os conhecimentos desse tempo.

É grande o mérito dessa obra.

Extremamente versátil, é apresentado como agricultor, comerciante, empresário, colonizador, navegador, sertanista e ao mesmo tempo como botânico, zoólogo, geólogo, etnógrafo e historiador.

Desempenhou as funções de vereador na Câmara de Salvador (da Baía).

Gabriel Soares de Sousa é considerado o mais importante cronista do século XVI sobre o Brasil, coube a Varnhagen reeditar o seu trabalho em 1851, corrigindo os erros da primeira publicação. Em 1939 reedita-se novamente havendo, entretanto, novas edições.
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O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos, Joaquim Fernandes, Círculo dos Leitores – Temas e Debates, 2008

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Enciclopédia Mirador Internacional, Vol. 11, São Paulo – Rio de Janeiro, Brasil, 1981

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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Infante D. Duarte


Conhecido também por Infante D. Duarte de Portugal, por D. Duarte II, sendo o I seu pai e ainda por D. Duarte de Bragança.

5º Duque de Guimarães, nasceu em Almeirim em Março de 1541, filho do Infante D. Duarte, que lhe transmitiu o título e de D. Isabel, filha do 4º Duque de Bragança, D. Jaime.

Era neto paterno de D. Manuel I e consequentemente sobrinho de D. João III.

Em 1555 tornou-se o 10.º Condestável de Portugal. Quando o rei D. João III  morreu, D.Duarte era um dos três descendentes masculinos legítimos vivos do rei D. D. Manuel I (para além do seu primo, o rei D. Sebastião e de seu tio, o cardeal-infante D. Henrique).

Teve lugar de privilégio na corte de D. João III e na de D. Sebastião, seu 2º primo, manteve posição de destaque.

D. Sebastião tratou-o sempre com o respeito que lhe era devido, pois ocupava posição cimeira na hierarquia do Estado e tanto mais que sem o monarca e sem ele ficava extinta a descendência varonil de D. Manuel. Estava pois na linha da sucessão da Coroa.

Tanto D. Sebastião como D. Duarte foram filhos póstumos.

D. Catarina e o Cardeal D. Henrique, que eram seus tios, durante o período das suas regências, concederam-lhe apreço, tendo sido convocado com outras altas personagens por D. Catarina, para dar parecer sobre a sua sucessão ao marido como regente e tutora do neto, o Rei D. Sebastião, tendo-se expressado positivamente.

O Senhor D. Duarte, no Conselho de Estado, onde era membro, votou a favor de um possível casamento do jovem rei com Margarida de Valois, apesar de ir contra o desejo do rei.

Como Condestável do Reino, foi-lhe entregue o comando da esquadra que se preparava para participar na Santa Liga e ocupou lugar de destaque na comitiva que acompanhou na jornada que fez ao Alentejo e ao Algarve, em 1573, tal como no ano seguinte ao norte de África.

O Senhor D. Duarte tinha grande interesse pela música e tinha junto do povo grande popularidade, circunstância que parece não ter agradado a D. Sebastião. Não tendo sido convidado pelo rei para uma tourada realizada em Xabregas (Lisboa), retirou-se da Corte e foi viver para Évora, onde veio a falecer em 28 de Novembro de 1576, com trinta e cinco anos, solteiro e sem deixar filhos.

Duarte II tinha duas irmãs mais velhas, a Infanta D. Maria (1538-1577) que casou com Alessandro Farnese, Duque de Parma e Piacenza e a Infanta D. Catarina (1540-1614) casada com D. João I, Duque de Bragança, que herdou os direitos de seu irmão ao Ducado de Guimarães.

Após a morte do Cardeal-rei, D. Henrique, foi pretendente ao trono português, sendo considerada por alguns juristas como a candidata com mais direitos.

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Dicionário Ilustrado da História de Portugal - Publicações - Alfa
História de Portugal, Vol. III - Joaquim Veríssimo Serrão
Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve - Francisco de Sales Loureiro - Livros Horizonte - 1984
Reis e Rainhas de Portugal - Manuel de Sousa - 2ª Edição – 2001
"Nobreza de Portugal e do Brasil" – Vol. I1. Publicado por Zairol Lda., Lisboa 1989
Brasões da Sala de Sintra (Vol.III), Anselmo Braamcamp Freire, Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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terça-feira, 9 de julho de 2013

"Guia de Santarém"


O conhecimento da existência deste guia turístico vem dos tempos da nossa adolescência, altura em que nos começámos  a interessar por estes assuntos e isto porque líamos na imprensa local, mais propriamente, no Correio do Ribatejo referências a ele feitas pelos historiadores locais.

Nesses tempos não havia professores que nos mandassem às bibliotecas fazer qualquer consulta, para a realização de trabalhos, possivelmente, isso seria considerado subversivo.

Quando passávamos na “Rua da Amargura”, olhávamos sempre para aquele palácio onde se encontra a Biblioteca Municipal, edifício doado ao município para esse efeito por Anselmo Braamcamp Freire, historiador e genealogista. Tínhamos medo de subir as escadas e de perguntar fosse o que fosse.

No Liceu havia uma biblioteca, mas nunca conhecemos nenhum aluno que lá tivesse feito qualquer leitura. Ainda hoje há quem compre enciclopédias para encher a estante ficando assim o espaço com boa apresentação. Um gerente de uma livraria dizia-nos que isto era vender livros a metro!

Das poucas vezes que recorremos à biblioteca de Santarém nunca o fizemos para consultar este livrinho, onde possivelmente existirá, pois os motivos eram outros.

Já fizemos uma pequena referência neste espaço a José Ozório, o autor deste guia e em que indicámos, entre outras coisas que foi autor de um Guia de Santarém.

Acontece que recentemente num alfarrabista encontrámos o livrinho que tivemos oportunidade de consultar e até de adquirir e que obviamente já lemos.

No formato de 11X17 cm comporta 144 páginas, teve por editor, J. Cardoso da Silva, Santarém e veio a público em 1924.

Abre com um mapa da cidade, é ilustrado com gravuras que já eram do nosso conhecimento pois foram fazendo parte de várias obras editadas e de jornais e revistas, constituindo zincogravuras, processo então usado.

Além da referência aos templos da cidade, a lugares de interesse histórico, alude a terras circunvizinhas como Alcanhões, Almoster, Almeirim, Alpiarça, Azóia de Baixo, Cartaxo e Vale de Santarém, além de muitas indicações úteis e curiosas como Feiras, mercados e romarias, Imprensa periódica, na altura os semanários O Debate e Correio da Extremadura, actual Correio do Ribatejo, a Bibliografia sobre a cidade e até o número das badaladas que indicavam em que lugar se estavam a dar os incêndios.

Nas três páginas que dedica a Santarenos ilustres, entre muitos, apenas refere João Afonso de Santarém e Guilherme de Azevedo e apresenta fotografias dos Drs. Abel Anacoreta e Eduardo Santos, médicos falecidos em 1913 e que foram seus amigos.


É curioso verificar que as últimas 139 páginas são ocupadas por anúncios da mais variada origem e que nos dá a conhecer o comércio e a indústria locais. Naturalmente que tal receita ajudou a suportar os custos da edição.

domingo, 7 de julho de 2013

Infante D. Afonso


Segundo filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre foi o primeiro varão e consequentemente o primeiro na via de sucessão a seu pai como rei de Portugal.

Nasceu no paço real de Santarém no dia 30 de Junho de 1390 e foi baptizado a 3 de Outubro na então vila na velha Igreja de Santa Maria de Alcáçova, onde existia a primeira estátua de D. Afonso Henriques, hoje fazendo parte do Museu do Carmo.

O nome que lhe puseram esteve relacionado, certamente, com o dos seus ascendentes, que muito pugnaram para a fundação no aspecto bélico: D. Afonso Henriques, D. Afonso II, D. Afonso III e D. Afonso IV.

Nas Cortes de Évora de 1390-1391 foi jurado sucessor do trono, sendo seus procuradores o Condestável e o Mestre da Ordem de Cristo, D. Lopo Dias de Sousa, ficando assegurada a fidelidade da nobreza ao futuro herdeiro do trono.

Quando nasceu, D. João I festejou o acontecimento com justas reais, ou seja torneios da época que consistiam numa competição entre dois cavaleiros com armaduras de protecção, normalmente montados em cavalos, usando vários tipos de armas, nomeadamente, lanças.

Veio a falecer a 22 de Dezembro de 1400, por isso, com pouco mais de dez anos e foi sepultado na Sé de Braga, numa capela sob a torre sul.

O túmulo, recentemente reabilitado, estudado, veio da Flandres por encomenda da família real. É de um estilo gótico inédito composto por arca tumular, jacente e baldaquino. Os elementos em cobre existentes são revestidos por uma camada de ouro ou de prata e estão fixos a uma estrutura de madeira.

O príncipe herdeiro faleceu quando seguia acompanhado de sua mãe, a rainha D. Filipa de Lencastre, a caminha de Santiago de Compostela e possivelmente daí o ter ficado sepultado naquela cidade.
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D. João I, Maria Helena da Cruz Coelho, Temas e Debates, 2008.

Dicionário de História de Portugal, Direcção de Joel Serrão, Vol. II, Livraria Figueirinhas / Porto (Entrada Évora 3, Ruy de Abreu Torres).

Santarém – Raízes e Memórias – Páginas da Minha Agenda – Efemérides, José Campos Braz, 2000.

Dicionário de História de Portugal Ilustrado, Círculo de Leitores, Vol I, 1982.

http://bragamaior.blogspot.pt/2012/07/santiago-em-braga-o-tumulo-do-infante-d.html - Cons. 2.6.2013.

terça-feira, 19 de março de 2013

Bacalhau à "Zé Nunes"



Como é do conhecimento geral, há 1000 maneiras de cozinhar este peixe tão “amigo” dos Portugueses por motivos ancestrais e que fazem parte da nossa cultura.

Daí virá a designação de “Fiel Amigo”, pois ao gosto aliava-se a circunstância de ser barato e consequentemente ser procurado pelas famílias de menores recursos, que para variar teriam inventado muitas maneiras de o cozinhar, cozido, assado, estufado, guisado e até cru. Hoje, é o que se sabe, quem tem pouco dinheiro não lhe chega a facilmente.

Não vamos enumerar as maneiras de confeccionar o bacalhau, algumas bem significativas da nossa gastronomia, como o bacalhau cozido com grão onde a salsa, cebola e alho picados são indispensáveis, além de bom azeite e vinagre. E o tão apreciado bacalhau assado na brasa onde o alho não pode faltar! E se lhe acrescentarmos umas batatas “a murro”?

Entretanto, apareceram os pratos novos com maneiras mais elaboradas de os fazer como acontece por exemplo com natas.

O bacalhau que vos apresentamos não faz parte de um prato novo, mas bem velho e que conhecemos desde criança.

Era o nosso pai que o confeccionava em casa e que tinha aprendido a fazer com a mãe, por isso nossa avó. Presumimos que tivesse sido trazido da sua região de origem, o distrito de Coimbra. Por ser ele que o fazia, habituámo-nos a chamar-lhe “Bacalhau à Zé Nunes” e assim continua e continuará dentro da família, pois os mais jovens já o sabem confeccionar desta maneira.

Nunca o encontrámos em qualquer restaurante nem conhecemos fora da família quem o cozinhe desta maneira. Temo-lo feito várias vezes para amigos e nunca houve ninguém que nos tivesse dito que já tinha comido bacalhau assim.

Quando abordamos estes assuntos dizemos sempre, porque é verdade, que isto não é uma receita, pois não saberia fazê-la, mas sim, dar a indicação da sua composição e feitura. As quantidades estão na mão e na sensibilidade de cada um, segundo pensamos e cada qual vai ajustando as quantidades aos sabores. Nunca cozinhámos por receita!

  
Ingredientes: Bacalhau, batatas que não se desfazem e couve portuguesa.
Condimentos: sal, alho, louro, colorau e azeite.

O bacalhau após demolhado e escamado é cozido só, num recipiente.

As batatas, depois de descascadas (vá-as deitando para um alguidar com água para não ficarem negras), corte-as às rodelas grossas.

A couve, depois de arranjada e cortada aos pedaços vai ao lume para levar uma leve fervura, tal como as batatas.

Entretanto, já se tinham pelado o alho e cortado às rodelas ou ao alto. As folhas de louro já devem estar cortadas aos pedacitos excluindo a nervura central. Noutro recipiente o indispensável colorau doce.

O bacalhau depois de cozido é feito em lascas, havendo a preocupação de lhe retirar as espinhas. Não deite fora a água em que foi cozido, pois é indispensável para a boa confecção do prato.

Cobre-se o fundo do tacho com azeite. Depois de quente é colocada uma camada de bacalhau às lascas a qual se polvilha com o alho cortado e um pouco de louro. É a altura de levar uma leve quantidade de colorau bem espalhado. Leva um levíssimo fio de azeite.

Nesta altura, já o fogão está no ponto mínimo da chama.

Seguidamente, coloca-se uma camada de couve que leva os mesmos temperos e de maneira semelhante. É a altura de colocar um pouco de água em que o bacalhau foi cozido.

A operação seguinte é feita em moldes idênticos com as batatas. Tanto estas como as couves são salpicadas com uma pitada de sal.

As camadas por esta ordem são quantas quisermos.

A água do bacalhau vai sendo introduzida conforme se vai verificando essa necessidade.

Ficará a estufar assim o tempo necessário.

A quantidade adequada do colorau é fundamental para o êxito do prato.

O cozinheiro tem de estar sempre atento ao desenrolar da confecção, para assim poder fazer as correcções devidas.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Santarém de outros tempos


 
Santarém em tempos que já lã vão, era considerada a segunda cidade de Portugal, como justificam as “rambóias” que vou contar; não porque vivesse nesse tempo (e que pena tenho de não viver nesse tempo, onde as “rambóias” e as praxes abundavam) mas porque ouvi contar algo a esse respeito pelo que foi esta a razão que me levou a escrever estas simples palavras.

A atestar que a Velha Scálabis era segunda “Lusa-Atenas” do país basta dizer-se que era obrigatório o uso da capa e batina para todos os rapazes e raparigas que estudavam. Naqueles tempos de 1893, o Liceu era frequentado por estudantes que chegavam a atingir vinte e tal anos; muito mais coisas se poderiam dizer sobre isto, mas vamos narrar uma das “rambóias” que esses briosos académicos fizeram.

Depois da prisão do terrível Régulo Gungunhana, o grande Mousinho a caminho do Porto, passa por Santarém. Ora a “malta” não podia ficar alheia a tal acontecimento cometido pelo nosso grande herói e resolveu comemorar o dia com uma ceia de artigos roubados. Um belo dia quatro estudantes com as capas e batinas lembraram-se de aproveitar o belo sol que fazia, para irem dar um passeio ao campo e comer qualquer coisa. Preveniram a dona da casa, esta arranjou uma merenda e eles lá foram acompanhados das respectivas guitarras, companheiras inseparáveis para o que desse e viesse.

Quando estavam a merendar, acompanhados pelo “verguinhas” que não podia faltar, apareceu por ali um belo suíno, atraído pela negrura das capas e pelas guloseimas que lhe davam.

Comeram e beberam todos, e quando quiseram regressar e porque o álcool começava a fazer-se sentir, quiseram trazer o porco com eles.. O suíno não quis ir na fita e um deles, já arreliado, pregou-lhe com a guitarra: o bicharoco não gostou e começou a grunhir. A malta não aplaudiu a brincadeira e lembraram-se de matar o porco; dito e feito; e teve que ser; a operação foi fácil como podem compreender, e o transporte muito mais; duas capas e dois paus e pronto!

Quando chegaram a Santarém comunicaram ao resto da malta o sucedido, reuniram-se para a desmancha e só faltava o mais fácil, comê-lo. No entanto um dos do grupo lembrou-se que uma ceia só de porco era muito “porca” talvez uma visita a quintais habitados por galináceos, não fosse má ideia. A opinião foi aprovada por unanimidade e, como de costume, dito e feito.

Assaltaram o quintal do Zé Paiva (Picador) e mobilizaram dois gansos que eram dois matulões.

No entanto, era de prever uma coisa, faltava o carrascão e arranjá-lo, não era empresa das melhores, mas para eles nada tinha dificuldade.

Dois dos colegas surripiaram a chave da adega do pai e o caso ficou resolvido. Contudo, faltava a sobremesa e passados dois dias o Guimarães e genro queixavam-se de que lhe faltavam dois queijos flamengos e uma caixa de bolachas.

A ceia foi feita por um hoteleiro que cobrou dois tostões por cada cabeça, dando ele o pão e foram quarenta boémios.

No fim de todos estarem batidos com aquele valente comezaina, marcharam para a estação para aclamarem delirantemente o grande herói. Este, quando soube do sucedido riu a bom rir.

Na ceia entraram, como não podia deixar de ser, um primo do Governador Civil, um filho do Administrador do Concelho e um sobrinho do Comissário da Polícia, que eram estudantes também. E, claro está, o processo ficou arquivado por falta de... provas.

Anos mais tarde, um dos célebres da ceia, que foi o autor do surripianço dos ditos gansos, arte na qual era mestre, formou-se em Direito e viu-se juiz.

Um belo dia, no decurso de sua carreira, que se antevia bastante brilhante, viu-se obrigado a absolver um pilha galinhas “por espírito de camaradagem!!!”

U da pêra

sábado, 9 de março de 2013

Gonçalo da Silveira


 (PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 11 DE MAIO DE 2001)


Referiremos hoje um almeirinense que, apesar de ter tido uma vida curta, conseguiu enriquecê-la, ficando o seu nome gravado na história da igreja e mesmo na de Portugal.

D. Gonçalo da Silveira foi o décimo filho de D. Luís da Silveira, primeiro Conde de Sortelha e de sua esposa D. Brites de Noronha Coutinho e nasceu em 1525.

A mãe faleceu três dias após o parto, sendo Gonçalo criado e educado por sua irmã mais velha, D. Filipa de Vilhena, casada com o Marquês D. Luís Álvares de Távora.

Em Mogadouro, onde viveu os primeiros anos, recebeu instrução no Convento de S. Francisco.

Continua os estudos em Coimbra, frequentando o mosteiro de Santa Cruz. Em 1540 estudava Retórica e três anos depois entra na Companhia de Jesus, contra a vontade de seus familiares, principalmente dos irmãos.

Em Dezembro de 1545 celebra a sua primeira missa, partindo cinco anos depois para Espanha, com mais quatro religiosos, dirigindo-se a Gandia onde frequenta a Universidade fundada pouco antes por São Francisco de Borja e se doutorou em Teologia.

Regressa a Portugal dedicando-se à pregação onde deu provas de bom orador em várias partes do país onde a sua presença era requerida, tendo por máxima, entre outras, pregar até enrouquecer.

Em 1553, D. João III entregou à Companhia de Jesus, em Lisboa, a Ermida de São Roque, estabelecendo-se Casa professa de que veio a ser primeiro Superior.

Em 30 de Março de 1556 embarca para o Oriente na armada comandada pelo capitão-mor, D. João Meneses de Sequeira, sendo o seu destino a Índia onde ao chegar lhe foi lida a patente em que Santo Inácio o nomeia provincial da Índia.

Nessa missão se mantém até 1559, organizando e visitando todas as casas e postos missionários.

Seguindo D. Constantino de Bragança em 1558, na expedição contra a fortaleza de Damão, depois da conquista da praça, acompanhou a armada que ia para o Estreito mas adoecendo, seu irmão Álvaro da Silveira, fê-lo regressar a Goa a fim de se tratar.

Durante a sua acção missionária, procurou que os pagãos convertidos à fé cristã tivessem leis proteccionistas e combateu tenazmente os judeus que procuraram assassiná-lo.

Tendo o rei de Monomotapa (Moçambique), zona banhada pelo rio Zambeze, mostrado interesse que lhe mandassem missionários e isto devido ao facto de um seu sobrinho se ter convertido ao cristianismo, em Inhambane e certamente por outras vantagens de tipo comercial, foi o padre D. Gonçalo da Silveira um dos primeiros a oferecer-se para cumprir tal missão e assim parte com esse destino a 5 de Janeiro de 1560, aportando a Moçambique um mês depois.

Deixou os companheiros em Tonga e decide acometer a conquista espiritual de Monomotapa. Sobe o Zambeze até Sena onde baptiza muitos negros. Desloca-se a pé até Tete onde continua a sua missão de evangelização, chegando finalmente, a 26 de Dezembro à zona de destino onde é bem acolhido pelo rei negro que o cumula de presentes que acaba por devolver pretendendo justificar que não eram essas as riquezas que pretendia.

Bem recebido, começa sem demora o trabalho a que se tinha proposto, baptizando o imperador e centenas de indígenas.

Avançando a fé cristã com rapidez, alguma árabes começaram a espalhar calúnias contra o missionário e conseguiram que o rei o considerasse um poderoso feiticeiro e decidiu-se mandá-lo matar, o que veio a acontecer, por estrangulamento, aos trinta e seis anos de idade. O seu corpo foi deitado a uma lagoa na confluência dos rios Mucengeze e Mutate.

D. Gonçalo da Silveira que foi o primeiro missionário que derramou o seu sangue por aquelas paragens, tinha fama de santidade.

Vários poetas e dramaturgos jesuítas se inspiraram na sua vida para realizarem trabalhos e o nosso Épico, que se crê tenha conhecido o missionário na Índia, celebra-o no seu imortal Poema.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube, Vol. XVI
Esta Almeirim Famosa, José Augusto Vermelho, 1950.
“A Vila de Almeirim e o seu termo”, Albertino Henriques Barata, in Correio do Ribatejo de 1977.02.18.
Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40

domingo, 9 de dezembro de 2012

António de Matos e Noronha


Escalabitano nascido no século XVI destacou-se no campo das letras.

Iniciou os estudos em Direito na Universidade de Coimbra e concluiu-os na de Salamanca, então muito prestigiada.

Foi Inquisidor em várias cidades espanholas. Foi sagrado Bispo de Elvas no tempo de Filipe II pelo Cardeal D. Gaspar de Quiroga, arcebispo de Toledo. A cerimónia teve lugar no Real Mosteiro das Descalças de Madrid que foi fundado pela princesa D. Joana, mãe de el-rei D. Sebastião. Inocêncio IX confirma o acto em 17 de Novembro de 1591.

É nomeado deputado ao Conselho-Geral do santo Ofício em 13 de Novembro de 1592 e exerce as funções de Inquisidor-Geral em 1596.

Regressa, entretanto, ao Bispado de que esteve ausente cerca de 4 anos, funções que exerce até 1610 e onde se dedica à continuação das obras da Sé.

 
Igreja de Nª Sª da Assunção
(Antiga Sé)
Monumento Nacional
 
Foi encarregado da formação de seu sobrinho, Sebastião de Matos e Noronha, nascido em Madrid em 1586, filho do irmão Rodrigo de Matos e Noronha e de D. Filipa Cardoso que viviam obrigatoriamente em Espanha, pois Rodrigo de Noronha pertencia ao Conselho de Portugal.
Sebastião de Noronha veio muito novo para Portugal, ficando à guarda do tio, que depois dos primeiros estudos o mandou para a Universidade de Coimbra onde se doutorou em Cânones.

Sebastião de Matos e Noronha, arcebispo de Braga, veio a entrar na conjura contra D. João IV, vindo a morrer na cisterna do Castelo de Palmela poucos dias depois de lá ser encerrado, dizem que envenenado.

D. António de Matos e Noronha faleceu a 17 de Novembro de 1610.

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Monumentos e Lendas de Santarém, Zepherino N. G. Brandão, Lisboa, 1883.

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971.

Boletim da Junta de Província do Ribatejo, Nº 1 Anos de 1937 – 1940 (p.559)

História da Igreja em Portugal, Fortunato de Almeida, Coimbra, 1930.

Entrada de Sebastião de Matos de Noronha no Norte do País – 1618, Abel Ernesto Barbosa Barros, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999.

História Eclesiástica de Portugal, P. Miguel de Oliveira, Publicações Europa – América, 1994.