terça-feira, 19 de março de 2013

Bacalhau à "Zé Nunes"



Como é do conhecimento geral, há 1000 maneiras de cozinhar este peixe tão “amigo” dos Portugueses por motivos ancestrais e que fazem parte da nossa cultura.

Daí virá a designação de “Fiel Amigo”, pois ao gosto aliava-se a circunstância de ser barato e consequentemente ser procurado pelas famílias de menores recursos, que para variar teriam inventado muitas maneiras de o cozinhar, cozido, assado, estufado, guisado e até cru. Hoje, é o que se sabe, quem tem pouco dinheiro não lhe chega a facilmente.

Não vamos enumerar as maneiras de confeccionar o bacalhau, algumas bem significativas da nossa gastronomia, como o bacalhau cozido com grão onde a salsa, cebola e alho picados são indispensáveis, além de bom azeite e vinagre. E o tão apreciado bacalhau assado na brasa onde o alho não pode faltar! E se lhe acrescentarmos umas batatas “a murro”?

Entretanto, apareceram os pratos novos com maneiras mais elaboradas de os fazer como acontece por exemplo com natas.

O bacalhau que vos apresentamos não faz parte de um prato novo, mas bem velho e que conhecemos desde criança.

Era o nosso pai que o confeccionava em casa e que tinha aprendido a fazer com a mãe, por isso nossa avó. Presumimos que tivesse sido trazido da sua região de origem, o distrito de Coimbra. Por ser ele que o fazia, habituámo-nos a chamar-lhe “Bacalhau à Zé Nunes” e assim continua e continuará dentro da família, pois os mais jovens já o sabem confeccionar desta maneira.

Nunca o encontrámos em qualquer restaurante nem conhecemos fora da família quem o cozinhe desta maneira. Temo-lo feito várias vezes para amigos e nunca houve ninguém que nos tivesse dito que já tinha comido bacalhau assim.

Quando abordamos estes assuntos dizemos sempre, porque é verdade, que isto não é uma receita, pois não saberia fazê-la, mas sim, dar a indicação da sua composição e feitura. As quantidades estão na mão e na sensibilidade de cada um, segundo pensamos e cada qual vai ajustando as quantidades aos sabores. Nunca cozinhámos por receita!

  
Ingredientes: Bacalhau, batatas que não se desfazem e couve portuguesa.
Condimentos: sal, alho, louro, colorau e azeite.

O bacalhau após demolhado e escamado é cozido só, num recipiente.

As batatas, depois de descascadas (vá-as deitando para um alguidar com água para não ficarem negras), corte-as às rodelas grossas.

A couve, depois de arranjada e cortada aos pedaços vai ao lume para levar uma leve fervura, tal como as batatas.

Entretanto, já se tinham pelado o alho e cortado às rodelas ou ao alto. As folhas de louro já devem estar cortadas aos pedacitos excluindo a nervura central. Noutro recipiente o indispensável colorau doce.

O bacalhau depois de cozido é feito em lascas, havendo a preocupação de lhe retirar as espinhas. Não deite fora a água em que foi cozido, pois é indispensável para a boa confecção do prato.

Cobre-se o fundo do tacho com azeite. Depois de quente é colocada uma camada de bacalhau às lascas a qual se polvilha com o alho cortado e um pouco de louro. É a altura de levar uma leve quantidade de colorau bem espalhado. Leva um levíssimo fio de azeite.

Nesta altura, já o fogão está no ponto mínimo da chama.

Seguidamente, coloca-se uma camada de couve que leva os mesmos temperos e de maneira semelhante. É a altura de colocar um pouco de água em que o bacalhau foi cozido.

A operação seguinte é feita em moldes idênticos com as batatas. Tanto estas como as couves são salpicadas com uma pitada de sal.

As camadas por esta ordem são quantas quisermos.

A água do bacalhau vai sendo introduzida conforme se vai verificando essa necessidade.

Ficará a estufar assim o tempo necessário.

A quantidade adequada do colorau é fundamental para o êxito do prato.

O cozinheiro tem de estar sempre atento ao desenrolar da confecção, para assim poder fazer as correcções devidas.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Santarém de outros tempos


 
Santarém em tempos que já lã vão, era considerada a segunda cidade de Portugal, como justificam as “rambóias” que vou contar; não porque vivesse nesse tempo (e que pena tenho de não viver nesse tempo, onde as “rambóias” e as praxes abundavam) mas porque ouvi contar algo a esse respeito pelo que foi esta a razão que me levou a escrever estas simples palavras.

A atestar que a Velha Scálabis era segunda “Lusa-Atenas” do país basta dizer-se que era obrigatório o uso da capa e batina para todos os rapazes e raparigas que estudavam. Naqueles tempos de 1893, o Liceu era frequentado por estudantes que chegavam a atingir vinte e tal anos; muito mais coisas se poderiam dizer sobre isto, mas vamos narrar uma das “rambóias” que esses briosos académicos fizeram.

Depois da prisão do terrível Régulo Gungunhana, o grande Mousinho a caminho do Porto, passa por Santarém. Ora a “malta” não podia ficar alheia a tal acontecimento cometido pelo nosso grande herói e resolveu comemorar o dia com uma ceia de artigos roubados. Um belo dia quatro estudantes com as capas e batinas lembraram-se de aproveitar o belo sol que fazia, para irem dar um passeio ao campo e comer qualquer coisa. Preveniram a dona da casa, esta arranjou uma merenda e eles lá foram acompanhados das respectivas guitarras, companheiras inseparáveis para o que desse e viesse.

Quando estavam a merendar, acompanhados pelo “verguinhas” que não podia faltar, apareceu por ali um belo suíno, atraído pela negrura das capas e pelas guloseimas que lhe davam.

Comeram e beberam todos, e quando quiseram regressar e porque o álcool começava a fazer-se sentir, quiseram trazer o porco com eles.. O suíno não quis ir na fita e um deles, já arreliado, pregou-lhe com a guitarra: o bicharoco não gostou e começou a grunhir. A malta não aplaudiu a brincadeira e lembraram-se de matar o porco; dito e feito; e teve que ser; a operação foi fácil como podem compreender, e o transporte muito mais; duas capas e dois paus e pronto!

Quando chegaram a Santarém comunicaram ao resto da malta o sucedido, reuniram-se para a desmancha e só faltava o mais fácil, comê-lo. No entanto um dos do grupo lembrou-se que uma ceia só de porco era muito “porca” talvez uma visita a quintais habitados por galináceos, não fosse má ideia. A opinião foi aprovada por unanimidade e, como de costume, dito e feito.

Assaltaram o quintal do Zé Paiva (Picador) e mobilizaram dois gansos que eram dois matulões.

No entanto, era de prever uma coisa, faltava o carrascão e arranjá-lo, não era empresa das melhores, mas para eles nada tinha dificuldade.

Dois dos colegas surripiaram a chave da adega do pai e o caso ficou resolvido. Contudo, faltava a sobremesa e passados dois dias o Guimarães e genro queixavam-se de que lhe faltavam dois queijos flamengos e uma caixa de bolachas.

A ceia foi feita por um hoteleiro que cobrou dois tostões por cada cabeça, dando ele o pão e foram quarenta boémios.

No fim de todos estarem batidos com aquele valente comezaina, marcharam para a estação para aclamarem delirantemente o grande herói. Este, quando soube do sucedido riu a bom rir.

Na ceia entraram, como não podia deixar de ser, um primo do Governador Civil, um filho do Administrador do Concelho e um sobrinho do Comissário da Polícia, que eram estudantes também. E, claro está, o processo ficou arquivado por falta de... provas.

Anos mais tarde, um dos célebres da ceia, que foi o autor do surripianço dos ditos gansos, arte na qual era mestre, formou-se em Direito e viu-se juiz.

Um belo dia, no decurso de sua carreira, que se antevia bastante brilhante, viu-se obrigado a absolver um pilha galinhas “por espírito de camaradagem!!!”

U da pêra

sábado, 9 de março de 2013

Gonçalo da Silveira


 (PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 11 DE MAIO DE 2001)


Referiremos hoje um almeirinense que, apesar de ter tido uma vida curta, conseguiu enriquecê-la, ficando o seu nome gravado na história da igreja e mesmo na de Portugal.

D. Gonçalo da Silveira foi o décimo filho de D. Luís da Silveira, primeiro Conde de Sortelha e de sua esposa D. Brites de Noronha Coutinho e nasceu em 1525.

A mãe faleceu três dias após o parto, sendo Gonçalo criado e educado por sua irmã mais velha, D. Filipa de Vilhena, casada com o Marquês D. Luís Álvares de Távora.

Em Mogadouro, onde viveu os primeiros anos, recebeu instrução no Convento de S. Francisco.

Continua os estudos em Coimbra, frequentando o mosteiro de Santa Cruz. Em 1540 estudava Retórica e três anos depois entra na Companhia de Jesus, contra a vontade de seus familiares, principalmente dos irmãos.

Em Dezembro de 1545 celebra a sua primeira missa, partindo cinco anos depois para Espanha, com mais quatro religiosos, dirigindo-se a Gandia onde frequenta a Universidade fundada pouco antes por São Francisco de Borja e se doutorou em Teologia.

Regressa a Portugal dedicando-se à pregação onde deu provas de bom orador em várias partes do país onde a sua presença era requerida, tendo por máxima, entre outras, pregar até enrouquecer.

Em 1553, D. João III entregou à Companhia de Jesus, em Lisboa, a Ermida de São Roque, estabelecendo-se Casa professa de que veio a ser primeiro Superior.

Em 30 de Março de 1556 embarca para o Oriente na armada comandada pelo capitão-mor, D. João Meneses de Sequeira, sendo o seu destino a Índia onde ao chegar lhe foi lida a patente em que Santo Inácio o nomeia provincial da Índia.

Nessa missão se mantém até 1559, organizando e visitando todas as casas e postos missionários.

Seguindo D. Constantino de Bragança em 1558, na expedição contra a fortaleza de Damão, depois da conquista da praça, acompanhou a armada que ia para o Estreito mas adoecendo, seu irmão Álvaro da Silveira, fê-lo regressar a Goa a fim de se tratar.

Durante a sua acção missionária, procurou que os pagãos convertidos à fé cristã tivessem leis proteccionistas e combateu tenazmente os judeus que procuraram assassiná-lo.

Tendo o rei de Monomotapa (Moçambique), zona banhada pelo rio Zambeze, mostrado interesse que lhe mandassem missionários e isto devido ao facto de um seu sobrinho se ter convertido ao cristianismo, em Inhambane e certamente por outras vantagens de tipo comercial, foi o padre D. Gonçalo da Silveira um dos primeiros a oferecer-se para cumprir tal missão e assim parte com esse destino a 5 de Janeiro de 1560, aportando a Moçambique um mês depois.

Deixou os companheiros em Tonga e decide acometer a conquista espiritual de Monomotapa. Sobe o Zambeze até Sena onde baptiza muitos negros. Desloca-se a pé até Tete onde continua a sua missão de evangelização, chegando finalmente, a 26 de Dezembro à zona de destino onde é bem acolhido pelo rei negro que o cumula de presentes que acaba por devolver pretendendo justificar que não eram essas as riquezas que pretendia.

Bem recebido, começa sem demora o trabalho a que se tinha proposto, baptizando o imperador e centenas de indígenas.

Avançando a fé cristã com rapidez, alguma árabes começaram a espalhar calúnias contra o missionário e conseguiram que o rei o considerasse um poderoso feiticeiro e decidiu-se mandá-lo matar, o que veio a acontecer, por estrangulamento, aos trinta e seis anos de idade. O seu corpo foi deitado a uma lagoa na confluência dos rios Mucengeze e Mutate.

D. Gonçalo da Silveira que foi o primeiro missionário que derramou o seu sangue por aquelas paragens, tinha fama de santidade.

Vários poetas e dramaturgos jesuítas se inspiraram na sua vida para realizarem trabalhos e o nosso Épico, que se crê tenha conhecido o missionário na Índia, celebra-o no seu imortal Poema.
__________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube, Vol. XVI
Esta Almeirim Famosa, José Augusto Vermelho, 1950.
“A Vila de Almeirim e o seu termo”, Albertino Henriques Barata, in Correio do Ribatejo de 1977.02.18.
Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40

domingo, 9 de dezembro de 2012

António de Matos e Noronha


Escalabitano nascido no século XVI destacou-se no campo das letras.

Iniciou os estudos em Direito na Universidade de Coimbra e concluiu-os na de Salamanca, então muito prestigiada.

Foi Inquisidor em várias cidades espanholas. Foi sagrado Bispo de Elvas no tempo de Filipe II pelo Cardeal D. Gaspar de Quiroga, arcebispo de Toledo. A cerimónia teve lugar no Real Mosteiro das Descalças de Madrid que foi fundado pela princesa D. Joana, mãe de el-rei D. Sebastião. Inocêncio IX confirma o acto em 17 de Novembro de 1591.

É nomeado deputado ao Conselho-Geral do santo Ofício em 13 de Novembro de 1592 e exerce as funções de Inquisidor-Geral em 1596.

Regressa, entretanto, ao Bispado de que esteve ausente cerca de 4 anos, funções que exerce até 1610 e onde se dedica à continuação das obras da Sé.

 
Igreja de Nª Sª da Assunção
(Antiga Sé)
Monumento Nacional
 
Foi encarregado da formação de seu sobrinho, Sebastião de Matos e Noronha, nascido em Madrid em 1586, filho do irmão Rodrigo de Matos e Noronha e de D. Filipa Cardoso que viviam obrigatoriamente em Espanha, pois Rodrigo de Noronha pertencia ao Conselho de Portugal.
Sebastião de Noronha veio muito novo para Portugal, ficando à guarda do tio, que depois dos primeiros estudos o mandou para a Universidade de Coimbra onde se doutorou em Cânones.

Sebastião de Matos e Noronha, arcebispo de Braga, veio a entrar na conjura contra D. João IV, vindo a morrer na cisterna do Castelo de Palmela poucos dias depois de lá ser encerrado, dizem que envenenado.

D. António de Matos e Noronha faleceu a 17 de Novembro de 1610.

 ____________________________________

Monumentos e Lendas de Santarém, Zepherino N. G. Brandão, Lisboa, 1883.

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971.

Boletim da Junta de Província do Ribatejo, Nº 1 Anos de 1937 – 1940 (p.559)

História da Igreja em Portugal, Fortunato de Almeida, Coimbra, 1930.

Entrada de Sebastião de Matos de Noronha no Norte do País – 1618, Abel Ernesto Barbosa Barros, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999.

História Eclesiástica de Portugal, P. Miguel de Oliveira, Publicações Europa – América, 1994.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Manuel Rodrigues Júnior


 

Abrantino nascido na freguesia de Bemposta a 6 de Julho de 1889, filho de Manuel Rodrigues e de Luísa Maria e oriundo de famílias modestas.

Sendo logo aluno brilhante na Escola Primária, ingressa no Seminário Patriarcal de Santarém, ainda que nunca tivesse mostrado vocação pela vida eclesiástica, mas era uma maneira das gentes sem meios obterem formação.

Abandonando o seminário, faz alguns exames de equivalência no Liceu Nacional de Santarém ficando equiparado ao curso geral liceal, concluindo os mesmos no Liceu de Coimbra sempre com altas classificações.

Matricula-se em 1911 na Universidade de Coimbra no curso de Ciências Farmacêuticas, mas no ano seguinte transfere-se para a Faculdade de Direito, curso que termina em 1919 com a classificação máxima. O doutoramento concluiu -o dois anos depois e com a mesma classificação.

É contratado mediante concurso para assistente na Faculdade de Direito e em 1924 já é Professor Catedrático da mesma Faculdade.

Contemporâneo, relaciona-se com Oliveira Salazar e Gonçalves Cerejeira e pensa-se que terá frequentado o Centro Académico de Democracia Cristã, alinhando com quem defendia uma solução política de direita para estabilizar o país.

Juntamente com Salazar, Mendes dos Remédios, Fezas Vital, Mário de Figueiredo e Costa Leite (Lumbrales), colaboradores do Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra, formava “o grupo de Coimbra” muito considerado pelos jovens oficiais do 28 de Maio.

Sendo um republicano opunha-se ao monopólio político do Partido democrático.

Após o 28 de Maio de 1926, é convidado juntamente com Oliveira Salazar e Mendes dos Remédios pelo General Gomes da Costa para integrar o futuro Governo de Salvação Nacional, sendo nomeado, lugar que aceitou, Ministro da Justiça e dos Cultos, enquanto Salazar nega-se a tomar posse.

Implementa extensa reforma legislativa reorganizando o Conselho Superior de Judiciário, o Código do Processo Civil e do Processo Criminal e na criação da Ordem dos Advogados.

Em 11 de Abril de 1928 é exonerado a seu pedido voltando ao seu lugar académico, agora como Professor Catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa.

Oliveira Salazar assume a presidência do Ministério em 1932 e chama o antigo colega para voltar a ocupar a pasta de Ministro da Justiça, o que se verifica até 1940. Ocupou interinamente e por curtos períodos e em acumulação o Ministério das Colónias, da Educação Nacional e das Obras Públicas.

Entrando em desentendimentos com Salazar, é afastado do Governo numa remodelação do mesmo. A base da questão parece estar na permanência vitalícia de Oliveira Salazar como Presidente do Conselho de Ministros.

Neste sentido tinha publicado no jornal O Século, em 1938, um texto a que deu o título “O homem que passou” e este homem é identificado com Salazar.

Naturalmente, como era seu timbre, não o demitiu logo, aproveitando a oportunidade que considerava certa.

Afastado da política activa, volta à cátedra na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e passa a ser colaborador activo do jornal O Século.

Foi autor de numerosos trabalhos principalmente dentro da sua área científica, sendo “A posse”um dos mais conceituados. “A Indústria Mineira em Portugal”, “Problemas Sociais”, “Política, Direito e Justiça”, “O Cidadão do Estado Novo” e “O Estado Novo e as suas realizações, são alguns dos seus trabalhos publicados.

Pertenceu ao Conselho Superior da Marinha Mercante, ao Conselho Administrativo do Banco Nacional Ultramarino e vogal da Comissão Administrativa do Porto de Lisboa. Foi deputado à Assembleia Nacional, pertenceu à União Nacional e fez parte da Câmara Corporativa, entre outras actividades.

Faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1946 e aqui sepultado. Foi trasladado no ano seguinte para jazigo no cemitério da freguesia de Bemposta, sua terra natal. 
 
Ainda em sua vida, o seu nome foi dado à escola primária da Bemposta. Foi-lhe erigido um busto após a sua morte na terra que o viu nascer assim como a rua principal passou a ter o seu nome.

__________________________________________

Dicionário de História do Estado Novo, Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, 1996, p.853.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Boletim da Junta de Província do Ribatejo, Nº 1, Anos de 1937 – 1940, p. 289.

História das Freguesias e Concelhos de Portugal, Edição Quidnovi, 2004, Vol. 1, p. 15

 

domingo, 18 de novembro de 2012

NOCTURNO (Poema e Pintura)


Pequena nota

Recebemos de um “velho” Amigo, de há mais de 60 anos, o seguinte trabalho poético e de arte que teve a amabilidade de nos dedicar.

Incluo-o nos TEMAS VARZEENSES pois que ainda não o seja pelo nascimento, como nós somos, são de lá as suas raízes maternas.

Obrigado e um grande abraço do” eterno” Amigo,

JV

NOCTURNO

Vi entre as luzes estonteantes

Os seus corpos vibrando em estertores

Tela moderna dos novos amores

Sem amores e sem amantes


Confundido, perplexo, embriagado,

Na nave do tempo embarquei

Em busca de um retrato bem gravado,

Num não muito longínquo passado:

Umas meigas camponesas, já feitas barregãs,

Desiludidas de promessas vãs,

Imagens doloridas, em busca de um amante.



sábado, 13 de outubro de 2012

José Frederico Pereira Marecos

 
Nasceu em Santarém em 29 de Novembro de 1802 sendo filho de José Tiago Marecos (*) e de D. Ana Gertrudes Marecos.
 
 
Em 1819 estava matriculado no 1º ano do curso jurídico da Universidade de Coimbra e nessa altura foi-lhe dado como residência o Colégio da Trindade em Santarém, curso que certamente concluiu, visto ser considerado Bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra.

Foi professor de Retórica e Poética no Real Colégio Militar e Oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

Exerceu com proficiência o lugar de Administrador da Imprensa Nacional de 1838 a 1844, substituindo José Liberato Freire de Carvalho.

Foi condecorado por D. Maria II em 16 de Março de 1840 e deputado às Cortes em 1842.

Considerado poeta inspirado e talentoso para poder figurar entre os seus conterrâneos de maior nomeada, se as condições políticas e a necessidade de dar-se a outros trabalhos não o tivessem desviado desta área de acção.

Em 1823 deu a público Poesias Diversas, editado em Coimbra na Imprensa da Universidade, de 110 páginas e dedicado a sua mãe.

Praticou o jornalismo político em vários períodos, destacando-se pela polidez, moderação e elegância de estilo.

Iniciou-se em 1827 coadjuvando José Liberato na redacção da Gazeta de Lisboa.

Em 1835 colaborou no jornal Tempo. Redigiu a Gazeta Oficial do Governo de Julho a Dezembro de 1834. Volta a este trabalho mais tarde, tendo-se despedido em 9 de Fevereiro de 1842.

Faleceu em Lisboa a 27 de Setembro de 1844.

Nunca o vi referido nos trabalhos que referem os santarenos em destaque.
___________________________________
História de Portugal por M. Pinheiro Chagas e J. Barbosa Colen, Vol X, 1905.
Diccionario Bibliographico Portuguez, Estudos de Innocencio Francisco da Silva, Vol. IV, Lisboa, 1860, p 342.
Relação e Índice Alfabético dos estudantes Matriculados na Universidade de Coimbra no Ano Lectivo de 1819 para 1820, suas naturalidades, filiações e moradas.
https://www.incm.pt/portal/incm_hin.jsp

(*) Em 1823 aparece como membro da Câmara Municipal de Santarém (absolutista)  um José Thiago Marecos que admito possa ser este. In Santarém entre as Guerras Liberais, 1820 - 1835, Luís Eugénio Ferreira, 1977, p. 62


domingo, 30 de setembro de 2012

Bernardo de Sá Nogueira, Marquês de Sá da Bandeira




Das maiores figuras nascidas em Santarém, viu a luz do dia a 26 de Setembro de 1795, sendo filho primogénito do desembargador Faustino José Lopes Nogueira de Figueiredo e de D. Francisca Xavier de Sá Mendonça Cabral da Cunha Godolphim, recebendo o sacramento do baptismo na desaparecida Igreja de O Salvador.

Assenta praça como voluntário no Regimento de Cavalaria nº 11, em 1810, sendo logo promovido a cadete e a alferes em Dezembro do mesmo ano.

Distingue-se nas Guerras Peninsulares pela sua bravura e foi ferido gravemente em França na batalha de Gers, tendo sofrido várias cutiladas na cabeça deixando-o como morto.

Assinada a Paz em 1814, regressa à pátria quase surdo motivado pelos golpes de que foi alvo.

Pediu licença para estudos, regressando ao serviço militar em 1820.

Cedo abraçou as ideias liberais, revoltando-se contra os morticínios do Campo de Sant `Ana e da Torre de S. Julião da Barra. Uma vez em Paris, matricula-se na Universidade, onde tirou o curso de engenheiro.

Quando D. Miguel se faz aclamar rei absoluto, Sá Nogueira vê-se na necessidade de emigrar para a Galiza, pois os liberais são derrotados nos combates de Ega, Cruz de Marouços e Vouga, passando depois para Inglaterra.

Ao saber que a ilha da Madeira se tinha levantado a favor de D. Pedro, embarca para lá, mas encontra a revolta subjugada, pelo que segue viagem para o Brasil. Depois de conferenciar com D. Pedro, regressa à Inglaterra para se juntar aos seus correligionários.

Sabendo que o seu camarada de armas e de ideais políticos, António José Menezes Severiano de Noronha, mais tarde Duque da Terceira, se encontrava nesta ilha, para lá embarca e ajuda a ocupar todo o arquipélago, entrando nos combates do Pico, S. Jorge, Faial, S. Miguel e no combate da Ladeira-a-Velha onde os miguelistas são totalmente destroçados.
 

Casa onde nasceu Sá da Bandeira. Foto JV, 2011


Organizada a expedição do Mindelo, Bernardo de Sá acompanha D. Pedro como seu ajudante-de-campo e é enviado por este para conferenciar com o General José Cardoso no sentido de deixar efectuar o desembarque e reconhecesse o legítimo governo de Portugal. Não o conseguiu regressando a bordo, mas o desembarque faz-se no dia 8 de Julho de 1832 e no dia seguinte o exército liberal entrava na cidade do Porto.

Na defesa desta cidade e no Alto da Bandeira, em Gaia, batendo-se com heroicidade, como sempre fez, é ferido num braço que teve de ser amputado. Foi agraciado com o título de Barão de Sá da Bandeira em 4 de Abril de 1833.

É por sua influência nas hostes liberais que é recrutado o almirante inglês Napier, que veio a ter acção decisiva nos acontecimentos a nível naval.

Depois da ocupação de Lisboa pelo exército liberal, é nomeado governador da praça de Peniche, cargo de que é exonerado, pois foi nomeado comandante de operações no Algarve onde predominavam as guerrilhas miguelistas.

Após a Convenção de Évora-Monte e já brigadeiro, é agraciado com o título de Visconde em recompensa pelos serviços prestados à causa liberal.
 

Praça Sá da Bandeira. Anos 40


As qualidades de Sá da Bandeira não se restringiram às militares pois também entrou na luta política e parlamentar. A ele se deve o malogro da Belenzada movimento cartista contra a Revolução de Setembro que tinha implantado a Constituição de 1822.

O período político que se seguiu foi muito movimentado e Sá da Bandeira nele se encontrou para defender os seus ideais políticos.

Presidiu várias vezes os ministérios.

Deixou publicadas obras de interesse em vários ramos.

Foi elevado a 1º Marquês de Sá da Bandeira em 3 de Fevereiro de 1864.

Foi fidalgo da Casa Real, Conselheiro de Estado, Comendador da Ordem da Torre e Espada, Grã-Cruz da de Cristo, Rosa do Brasil, Leopoldo da Bélgica, Carlos III e Isabel a Católica de Espanha, etc.

Faleceu em Lisboa a 26 de Setembro de 1795, por isso, com 80 anos e por sua vontade expressa, foi sepultado em campa rasa no cemitério da terra onde nasceu e que por sua iniciativa foi elevada a cidade como era de todo o merecimento.

A cidade levantou-lhe, em frente da casa onde nasceu, uma estátua em bronze que constitui monumento valioso e que perpetua a sua memória.
Os sinos da Igreja Matriz de S. Salvador, templo onde foi baptizado, após o seu derrube devido a um terramoto, foram utilizados na feitura do monumento.

_____________________________________

Monumentos e Lendas de Santarém, Zephyrino N. G. Brandão, Lisboa, 1883.

Enciclopédia Histórica de Portugal, Dir. Duarte de Almeida, Vol. 11, Ed. João Romano Torres & cª, Lisboa, 1938.

Santarém lenda e história, Eugénio de Lemos, Santarém, 1940.

Santarém na História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Santarém, 1950.

Santarém, História e Arte, Joaquim Veríssimo Serrão, Santarém, 1959 (2ª Edição).

Santarém no tempo, Virgílio Arruda, 1971.
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mancebos da Freguesia da Várzea em 1960



Apresento hoje uma fotografia com 52 anos , tratando-se de um grupo de mancebos recenseados pela freguesia da Várzea do concelho de Santarém e de uma maneira geral, todos de lá naturais.

A Inspecção Militar realizou-se no Distrito de Recrutamento e de Mobilização, onde num ano efectuei a minha, ainda que não vivesse lá fui englobado nos mancebos representativos daquela freguesia.

Tratava-se de um velho edifício na parte velha da cidade de ruas, becos e ruelas, para os lados da Travessa de José Paulo e da Igreja do Milagre.

Atendendo a que a inspecção teve lugar em 16 de Junho de 1960, isto é, tudo rapaziada que já ultrapassou os 70. Alguns, infelizmente, já não estão entre nós.

Este dia era popularmente designado pelo “Dia das Sortes”, um dos mais importantes na vida de alguns mancebos que o recordavam pela vida fora.

Era considerado e era realmente o dia da emancipação, o dia da maioridade, o dia em que se podia ser seleccionado para defender a Pátria.

Lá estavam os fatinhos novos a estriar como era apanágio de então.

Sei que havia uns lacinhos de cores diferentes que se colocavam na banda do casaco, significando a sua cor o apuramento para todo o serviço militar ou em oposição o ficar livre.

Os mancebos organizavam-se contratando um músico, normalmente, um acordeonista, que percorria com o grupo os principais lugares da freguesia e à noite realizava-se grande baile, onde as moças casadoiras não faltavam e que durava até às tantas.

Do grupo em questão, alguns estiveram nas guerras coloniais mas só consigo identificar três ou quatro, ainda que muitas caras não me sejam estranhas.

Agradeço ao meu velho Amigo António Augusto, que não vejo vai para 38 anos, (o 2º do lado direito no 1º plano) a cedência da foto para colocar no CORREIO DAS LEMBRANÇAS.

Tudo isto pertence ao passado, hoje para ir à tropa é preciso requerê-lo e a selecção é rigorosa. Só ficam os melhores.

Deixámos, felizmente, de ser um país de generais.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Joaquim Luís Gomes



Joaquim Luís Gomes nasceu em Santarém a 19 de Novembro de 1914 e faleceu em Lisboa no dia 23 de Julho de 2009, tendo ficado sepultado no cemitério de Benfica em Lisboa.

Revelando muito cedo propensão para a música, aos 18 anos entrou para o Batalhão de Caçadores 5, onde tocava clarinete e se manteve oito anos.

Tirou os cursos superiores de composição, harpa e clarinete do Conservatório Nacional de Lisboa. Foi harpista solista da Banda da G.N.R, onde ingressou em 1940 e regente da Banda da Companhia Carris de Ferro de Lisboa e maestro da Orquestra Típica Scalabitana da sua terra natal.

Também trabalhou na Emissora Nacional onde foi produtor de programas musicais. Conheceu grandes êxitos como compositor de música ligeira.

Trabalhou com artistas como Amália Rodrigues, Maria de Lourdes Resende, Maria Clara, Francisco José, Rui de Mascarenhas, Tony de Matos, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, Simone de Oliveira e muitos mais.

Foi o orquestrador da canção Desfolhada Portuguesa que Simone de Oliveira interpretou no Festival da Canção. Orquestrou, igualmente, “Grândola vila morena”.

Entre as suas obras destacam-se uma Sonata para piano; Suite Infantil, para orquestra; Concertina, para harpa e orquestra; Olhos Verdes, partitura que obteve o 1º Prémio (Caravela de Ouro) no Festival da Canção Latina, em Génova.

É autor do fundo musical dos filmes Nun `Alvares, Herói e Santo; Madeira, Pérola do Atlântico, Canção de Embalar , Justiça dos Céus e Passagem de Nível.

Escreveu obras para orquestra sinfónica, harpa e piano, com destaque para "Pérolas Soltas", "Abertura Scalabitana", "Abidis", "Sonata em Mi Bemol" (para piano) e "Mar Português.

Dirigiu festivais da canção em Portugal, Inglaterra, Brasil e Espanha, em vários dos quais foram interpretadas canções que ele próprio compusera e orquestrara.
A Sociedade Portuguesa de Autores, de que era associado desde 1937, descreve-o como "uma das figuras mais marcantes da música portuguesa no século XX".

_________________________________

Santarém no tempo, Virgílio Arruda, 1971.

Quem é quem – Portugueses Célebres, Círculo dos Leitores, 2008.