terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Zeferino Brandão


Lá pelos meus 11 / 12 anos, quando comecei a interessar-me por estes assuntos, fixei este nome por ter escrito algo sobre Santarém.

Foi fácil saber que não era escalabitano, militar de profissão, tinha uma rua com o seu nome na cidade (freguesia de S. Salvador) e que era natural de Santa Comba Dão, conforme me indicou a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

O livro da sua autoria, Monumentos e Lendas de Santarém, só o conhecia quando o encontrava citado em várias obras e fazendo parte da bibliografia consultada.

Primeiro devido aos meus afazeres profissionais, depois ao afastamento da cidade, nas poucas vezes que recorri à Biblioteca Municipal nunca levei como missão consultá-lo.

Ao fim de tantos anos, foi-me agora possível adquiri-lo num alfarrabista do Porto.

Nas leituras que tenho feito verifico quão tanto ele tem fornecido aos que se interessam pelo passado de Santarém.

A única coisa que conhecia sobre Zeferino Brandão era o que refere, como já disse, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o que é muito pouco como se compreende.

É possível que exista, mas desconheço totalmente, qualquer nota biográfica que se tenha feito sobre ele e publicada na imprensa local ou em qualquer livro, ainda que não tivesse sido filho de Santarém dedicou-lhe uma valiosa obra hoje conhecida de bem poucos escalabitanos.

Andei procurando coisas sobre Zeferino Brandão e hoje a Internet possibilita-me acessos antes impensáveis.

Zeferino Norberto Gonçalves Brandão nasceu em Santa Comba Dão a 12 de Fevereiro de 1842 e faleceu em Lisboa a 28 de Junho de 1910, por isso, antes da Implantação da República e com 68 anos de idade.

Foi General de Brigada e Governador da Torre de S. Julião da Barra.

Era filho de José Gonçalves Brandão e de Guilhermina Amália Ferraz.

Casa em Angra do Heroísmo com D. Francisca Emília do Canto Barcellos Carvalhal de lá natural e onde esteve colocado.

Sendo 1º Tenente da Companhia nº 1 dos Açores é transferido em 1877 para o regimento de artilharia nº 3, aquartelado em Santarém. (3)

Nasce-lhe em Santarém a 14 de Outubro de 1884 uma filha de nome Maria Isabel do Canto Barcellos Brandão que vem a casar, pouco antes da morte de seu pai ,com D. Rodrigo de Sousa, 4º Conde do Rio Pardo.

Zeferino Brandão é pessoa que em Santarém está sempre ligada a comissões que promovem a cultura.

Foram organizadas conferências “Populares, gratuitas e públicas” tendo pronunciado uma subordinada ao tema “Matemática elementar, geografia e noções gerais de construções civis".

Militar, escritor e jornalista, o seu primeiro livro é de poesia, intitulando-se Páginas Íntimas – versos da juventude (1875).

No campo da história estreia-se com Monumentos e Lendas de Santarém (1883) e dois anos depois deu à estampa A Marquesa de Tomar (notas biográficas) (1885).

Em 1897 publica o romance Pêro da Covilhã – Episódio Romântico do século XV.

O Baptizado de D. Afonso VI (conto histórico), 1889.

O Marquês de Pombal merece o seu interesse histórico e publica sobre ele documentos inéditos, (1905).

Glórias Militares Portuguesas (1907) é o seu último livro dentro desta temática, (1907).

Noutra área escreveu Bélgica – Viagens, como o título indica um livro de viagens, (1891).

Mas Zeferino Brandão também escreveu sobre a sua área profissional.

Techeologia: physica e chimica. Serviço de Torpedos, Imprensa Nacional, Lisboa, 1900.
Manual de electricidade e magnetismo para uso do marinheiro torpedeiro, Imprensa Nacional, Lisboa, 1899.

Noções de electrologia, Imprensa Nacional, Lisboa, 1899.

Colaborou em jornais nacionais e regionais, escrevendo sobre diversos assuntos que dominava, foi redactor do “Diário Popular” e fundou a “Revista da Artilharia”.

Tornou-se sócio da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, sócio ordinário da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação de Jornalistas e Escritores Portugueses, da Academia das Ciências de Lisboa

Foram-lhe igualmente concedidas diversas condecorações nacionais e no estrangeiro, nomeadamente em França, Espanha e Turquia.

Para terminar, uns versos que lhe dedicou o grande Poeta João de Deus, seu contemporâneo e certamente amigo.







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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Monumentos e Lendas de Santarém, David Corazzi, Editor, Lisboa, 1883
Wikipédia, a enciclopédia livre
http://www.circuloculturalscalabitano.pt
http://pedroalmeidavieira.com


Pequena nota de 23 de Maio de 2012

Segundo informação amavelmente prestada por uma descendente de Zeferino Brandão, este teve outra filha, de nome Maria do Ó de Barcelos e Canto do Carvalhal Brandão que casou com Francisco Soares Parente tendo deixado geração.
Uma neta de Zeferino Brandão, ainda entre nós, quase centenária e que vive em Tomar é avó da nossa informadora, a quem muito agradecemos a atenção.
JV

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SANTARÉM ILUSTRADA é publicado após 273 anos de espera!



Foi no dia 19 de Novembro último que me desloquei propositadamente a Santarém para assistir ao lançamento desta interessante monografia e poder adquiri-la a qual teve de esperar 273 anos para vir a público.

Passaram pelo poder local dezenas e dezenas de vereações de todos os quadrantes políticos que se possam imaginar e tem de ser uma simples Junta de Freguesia (de Marvila) a fazê-lo, o que parece inacreditável!

Presto aqui a minha simples homenagem à Junta de Freguesia na pessoa do seu Presidente, Carlos António Marçal.

O autor da obra é Luís Montês Matoso um escalabitano nascido na Freguesia de S. Nicolau em 1701 tendo falecido em 1750.

Neste espaço publiquei uma pequenina nota biográfica sobre ele e que já tinha sido publicada no semanário “Correio do Ribatejo”.

Pela década de 50 do século passado e por sugestão do Dr. José Henriques Barata foi dado o seu nome a uma nova rua no “Bairro dos Combatentes”, mas erradamente indicam-no como escultor e não escritor, erro que penso se mantém.


O erro persiste apesar de algumas dezenas de anos passados e era bom que fosse devidamente corrigido por quem de direito.

Brinquei muito por esta rua cujo nome fixei e que mais tarde procurei saber de quem se tratava.

O estudo mais completo que então conheci foi o efectuado pelo saudoso escalabitano, Dr. Virgílio Arruda, numa separata da Academia Portuguesa da História, Luís Montês Matoso, Historiador e Jornalista (uma vida por conhecer e uma obra por publicar), Lisboa, MCMLXXX.

Mais tarde a minha curiosidade levou-me a consultar na Biblioteca Municipal de Santarém a cópia (1940) do original que se encontra na Biblioteca de Évora, até por que tinha em mãos um trabalho que acabei por publicar. Nele cito Luís Matoso. A pesquisa só tinha a ver com aquele assunto, mas apercebi-me do grande valor do trabalho. Se vivesse em Santarém já o teria lido mas assim tudo se tornava mais difícil.

Com a edição do trabalho que estou lendo pausadamente, capítulo a capítulo, sei hoje onde muitos autores foram buscar as preciosas informações que Santarém Ilustrada fornece. Acabo por encontrar respostas a muitas dúvidas que ao longo dos anos me iam surgindo quando pensava em vários aspectos da história de Santarém.

A transcrição do texto e estudo introdutório é do Professor Doutor Martinho Vicente Rodrigues que teve a amabilidade de me autografar o exemplar que adquiri.

A Edição, como já disse pertenceu à Junta de Freguesia de Marvila (Santarém) que assim deixa o seu nome ligado a este valioso trabalho.

De formato de 21X30 tem 640 páginas de bom papel. Adequadas e variadas ilustrações a preto e branco. Encadernação industrial.

Preço muito acessível e numa tiragem de 500 exemplares.

O evento teve lugar no Santuário do Santíssimo Milagre (Igreja de Santo Estêvão) que se encontrava repleto.

Prestou a sua colaboração o Coro do Círculo Cultural Scalabitano interpretando com rigor adequadas obras.

Usaram da palavra vários oradores, nomeadamente, o Senhor Presidente da Junta de Freguesia de Marvila, o representante da Câmara Municipal, o Reitor do Santuário, e como não podia deixar de ser o Professor Doutor Martinho Vicente Rodrigues.


REPORTAGEM FOTOGRÁFICA



[O Presidente da Junta de Freguesia de Marvila usando da palavra]



[O Professor Doutor Martinho Vicente Rodrigues]


[Actuação do Coro do Círculo Cultural Scalabitano]


[Exposição do Santíssimo Milagre]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quatro Monumentos de Santarém



(Guarita das antigas Muralhas, Torre das Cabaças, Igreja de S. João de Alporão, e fachada principal de Igreja da Graça)

Trata-se de um dos cinco desenhos com que C. Alberto da Silva ilustrou o trabalho de Zephyrino N. G. Brandão a que deu o título de MONUMENTOS E LENDAS DE SANTARÉM. Editado em Lisboa – David Corazzi, Editor em 1883 (pág. 519)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A voltinha dos tristes

Falar de Santarém de há 55 ou 60 anos tem grandes diferenças de Santarém de hoje, ainda que eu esteja afastado dela vai para 45 anos.

As visitas são muito espaçadas e breves. Só não me perco na parte nova porque tenho algum sentido de orientação pois existem locais que desconheço completamente, conheci bem muitos deles quando eram olivais e terras de semeadura.

Naturalmente a parte que procuro mais é a que tem a ver com as minhas vivências e os meus afectos, aquela onde vivi, que conheci bem incluindo grande maioria das pessoas que lá viviam. Quase que me apetece dizer como o meu pai dizia nos seus últimos anos de vida: “Hoje já não conheço ninguém e no meu tempo (queria referir-se à sua juventude) conhecia toda a gente e toda a gente me conhecia.”

Comigo já não foi bem assim mas foi muito diferente do que é hoje.

A cidade, como nós dizíamos sem o perceber bem, era a antiga urbe, a parte medieval que se situava dentro das muralhas que a protegiam e de que já poucos vestígios restavam. Era lá que fervilhava o comércio em ruas, becos e travessas, onde a rua dos Correios e do Central faziam a diferença pela sua largura, alinhamento de construções e tipo de serviços.

Os edifícios dos antigos conventos situavam-se na periferia tal como alguns palacetes.

Era nova então a zona luxuosa de vivendas no planalto de S. Bento, onde tinha sido construído o Liceu Sá da Bandeira. Dos beneditinos penso que ainda resta a cisterna.

O Bairro dos Combatentes era outra zona nova e em construção, mas para gente mais modesta.

O próprio Bairro do Pereiro, ainda que dentro do perímetro que foi amuralhado, ficava um pouco distante e foi lá que se construiu no século XIX o cemitério que ainda serve a cidade e que conheci pela quarta parte do que é hoje.

Campo Fora de Vila, Rafoa, Monte Cravo, Calçada do Monte e Estrada de S. Domingos era tudo considerado arrabaldes. Quem destes locais se deslocasse à parte velha do burgo, dizia que ia à cidade, o resto sendo-o, não o era na linguagem quotidiana.

Mas esta croniqueta tem por título a VOLTINHA DOS TRISTES como os jovens de então lhe chamavam.

Ao domingo era dia de ir à cidade para quem vivia na periferia. Vestia-se uma roupinha melhor e lá se ia em pequenos grupos saber os resultados da bola, postos pouco depois dos desafios terminados, no Placard do jornal diário O Século no stand do Leitão.

[Casa Hipólito]

Eram ali colocadas várias notícias entre as quais os falecimentos.

Após o conhecimento dos resultados, íamos dar uma volta, a voltinha dos tristes, percorrendo a Rua de S. Nicolau em direcção ao Canto da Cruz. Tínhamos à direita o Café Portugal e a seguir a Barbearia de José de Oliveira que também vendia telefonias, Telefunkein, se não estou em erro. Do lado esquerdo a Casa Nobre, que penso ainda existir e era uma grande casa comercial da cidade no campo dos tecidos, logo a seguir o consultório do médico Dr. Ramiro Nobre, figura bem carismática da cidade pelo seu profissionalismo e dirigente desportivo.

[Barbearia José de Oliveira]
Do lado oposto e onde se encontra um pequeno painel de azulejos, lembra-me o que nunca me esqueci, um acidente que ali ocorreu e ceifou a vida a um jovem. Isto aconteceu há sessenta e tal anos!

A Capela de S. Pedro, anexa à Igreja de S. Nicolau e que naturalmente lá continua, com o túmulo do arganilense Fernão Roiz Redondo e de sua mulher Marinha Afonso (Séc. XIV.

Depois, uma travessa à direita, em cuja esquina se veio instalar já nos meus dias a Costa Modas, com grande montra virada para a rua principal, na altura um estabelecimento moderno e muito para a frente. No início desta travessa, situou-se a Tipografia Tejo, onde mais tarde se fixou a firma António Eloy Godinho & Irmão, Lda, especializada em veículos de duas rodas, a pedal ou motorizados.

[Rua de S. Nicolau]

No seguimento da Costa Modas , a sede dos “Caixeiros”, como se chamava ao Grupo Desportivo Empregados no Comércio, com salão onde se realizavam grandes bailes e grandes partidas de ténis de mesa, em que a sua equipa pontificava. Lembro-me de grandes jogadores como Beja, Neto, Trindade (Zeca) e mais tarde o António que foi meu colega na escola primária e no liceu e o Minderico.

Ao chegar ao “Canto da Cruz” e no “canto” da esquerda, o grande estabelecimento de mercearia fina, Artur Lopes dos Santos, que era na verdade um grande estabelecimento naquele tipo de comércio.

[Ao Canto da Cruz]

Tomava-se a rua da esquerda, ou seja, a da Misericórdia. Menos comercial do que a anterior, imperava do lado esquerdo a Igreja da Misericórdia e uma maravilhosa janela de canto. Logo a seguir, um estabelecimento de fazendas e no lado oposto o escritório da advogado e político,Dr. Artur Proença Duarte, que foi muitos anos deputado na Assembleia Nacional e Presidente da Junta de Província do Ribatejo.

[Janela de canto]
Mais uma igreja e das mais importantes das muitas existentes na cidade – a Igreja de Marvila, antiga Nª Sª das Maravilhas. No largo que lhe fica contíguo, os grandes Armazéns do “Cabralão”.

Vai-se dar ao “Terreirinho das Flores”, que num dos vértices em cujo um dos vértices sempre me lembro existir uma taberna, mais tarde transformada em snack-bar. Nesse pequeno largo toma-se a Rua Direita (das Portas de Leiria) e frente ao Largo de Marvila, o velho edifício onde durante séculos funcionou o poder administrativo local e de que me lembro muito bem. Aqui que foi aclamado rei de Portugal D. João IV.

É revestido de azulejos, penso que seiscentistas. Funcionava igualmente a corporação de Bombeiros Municipais.

[Antigos Paços do Concelho]

Esta comercial via, torta porque é medieval (direita por ir em direcção a, neste caso, Porta de Leiria) e por onde se vão encontrando becos, situava-se, não sei se ainda existe, a Electrodinâmica e no lado oposto a Casa Ruivo, importante estabelecimento de ferragens. Era e penso que ainda é uma via inteiramente comercial, mas hoje em franca decadência, pois além dos andares superiores serem habitados, o que hoje só excepcionalmente acontece pelos mais variados motivos, estando em muitos casos em franca degradação, a população habita nas áreas novas e circunvizinhas onde tudo já existe.

Percorrer a velha cidade pelas 22 ou 23 horas significa, excepcionalmente, encontrar alguém e o que poderá ser não muito agradável, encontrando todos os estabelecimentos comerciais fechados, e isto vai acontecendo igualmente noutras zonas da cidade.

O perigo cada vez ronda mais perto!

Chegados ao entroncamento com a “nova” rua Guilherme de Azevedo, e onde se encontra agora o seu monumento, que esteve, inicialmente, à entrada no Jardim das Portas do Sol, havia uma pequena tabacaria. Numa esquina, uma velha barbearia e na outra o Abidis Hotel.

No lado direito, uma conhecida ourivesaria e logo a seguir o “velho” e centenário CORREIO DO RIBATEJO, em lugar onde sempre o conhecemos. Recordo o Dr. Virgílio Arruda, baixo, forte, com os seus óculos muito graduados e sempre uma figura muito simpática, após o seu falecimento, o não menos simpático Bernardo de Figueiredo que o substituiu na direcção do semanário.

A seguir à Adidis, uma engraxadoria com uma série de cadeiras e outra das mercearias finas da cidade, a Mercearia Ribeiro. Pouco depois e do mesmo lado, a ainda existente Espingardaria, na altura, única na cidade e uma casa de Ferragens, que penso ainda existir mas naturalmente com outra gerência.

A centenária Sociedade Operária no velho palácio que a tradição aponta como local de nascimento de Frei Luís de Sousa.



O Largo do Padre Chiquito aparecido no local onde se edificou a Igreja do Salvador sendo aí baptizado o benquisto Marquês de Sá da Bandeira e onde funcionou durante muitos anos a praça de automóveis de aluguer. O nosso avô paterno recebeu o sacramento do baptismo nessa igreja paroquial e ministro por aquele que veio a ser o 1º Bispo de Damão.

Seguindo, encontra-se à direita a Livraria Escolar que ainda vai resistindo à voragem dos tempos, do lado oposto e à esquina, situava-se a importante Livraria e Tipografia Silva hoje desaparecida.

Entra-se assim no Largo do Seminário, na verdade, Praça Marquês Sá da Bandeira onde em finais dos anos 20 do século passado foi erguido o monumento que o recorda.

Os antigos Paços Reais, depois Seminário, Liceu e hoje Sé do Bispado impõe-se pela sua monumentalidade.

Sempre conhecemos no espaço o consultório do recordado oftalmologista Dr. Isabelinha, falecido com mais de um século, figura muito querida na cidade e hoje ocupado por seu filho, Dr. Duarte Gonçalves (Isabelinha).

Naquele largo situava-se um dos três cafés de Santarém, o “Café Brasileira“ muito procurado negociantes. Pensamos que ainda existe a Farmácia Flamea Vitae.

Encostados à Capela da Piedade onde tinham instalado as suas cadeiras, trabalhavam uns tantos engraxadores de sapatos.

Lembramo-me da existência de uma casa de pasto, local de paragem das “camionetas de carreira” e ao lado uma oficina de bicicletas.

Na casa apalaçada onde nasceu o Marquês Sá da Bandeira, viveu durante muitos anos o Dr. Virgílio Arruda. Ambos os factos estão assinalados por placas alusivas.


[Casa apalaçada onde nasceu Sá da Bandeira]

À esquina, a ainda existente, segundo penso, Pastelaria “Bijou”. Avançando pela Rua de S. Nicolau, a casa Conde onde se vendiam cestos de toda a espécie e aí ia comprar os meus berlindes com que o meu filho ainda brincou.

[Rua de S. Nicolau. Outro aspecto]

Mais casas comerciais de um lado e do outro, casas de solas e cabedais, pastelarias e a sede do extinto Sport Grupo União Operária. O pátio da Caravana, a Travessa do Postigo onde funcionou a Camionagem Ribatejana e ao fundo o Vieira dos Frangos.

A alfaiataria “Cravador”, velho orfeonista do Orfeão Scalabitano e mais tarde do Coro Alfredo Keil.

O ainda existente Posto de Turismo onde me lembro de estar em exposição a 2ª Edição de Santarém História e Arte, de Joaquim Veríssimo Serrão e ilustração de Braz Ruivo, dois escalabitanos que me habituei a admirar.

[Santarém. Coração da cidade]

Não tinha dinheiro para adquirir o trabalho, mas hoje faz parte dos meus livros,pois consegui encontrá-lo num alfarrabista.

Acabei de chegar ao ponto de onde parti, à esquina da Farmácia..

A VOLTINHA DOS TRISTES FOI EFECTUADA.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Coreto do Jardim da República - Como era e como é!



Como era.



E como é!

Apesar de afastado da cidade há muitos anos, sei que a eliminação do lago que circundava o coreto causou engulhos a muita gente e na qual me incluo.

Admito que poderão haver razões plausíveis para a transformação mas a verdade é que aquilo para mim já não me diz nada e procuro passar bem ao lado nas poucas vezes que me desloco à cidade.

Se a memória não falha a um septuagenário, sempre me lembro de existir o coreto onde actuava com alguma frequência a extinta Banda dos Bombeiros e outras, principalmente nos dias cálidos de Verão, quando o jardim era vedado e as pessoas se amontoavam, pois os bancos com pés de ferro forjado, que tinham como acento e costas ripas grossas de madeira pintadas de vermelho eram muito poucos para tantas pessoas que por ali passeavam.

O Jardim da República, antigo Passeio da Rainha, quando esta se encontrava nos seus Paços e que foi depois Seminário, tinha três entradas com largos portões de ferro e penso que fechava à meia-noite, pelo menos no Verão.

Lembro-me bem, apesar da minha pouca idade, de dois lagos grandes, talvez melhor dizendo, dois espelhos de água que tinham pouca altura, de forma rectangular com pequenas alterações geométricas nos vértices e um repuxo ao meio e que foram anulados sendo transformados em canteiros. Situavam-se para os lados do portão que abria para a estrada e Escadinhas da Fonte das Figueiras onde no século XIX existiu uma afamada casa de hóspedes ou pensão. Era também junto a esse portão que existiam os sanitários subterrâneos do jardim.

Penso que o lago circundando o coreto deveria ter sido feito entre 1945/50 (estou a escrever de memória sem fazer qualquer consulta) e era algo que eu gostava de ver. Quando passava próximo pela mão do meu pai, pedia sempre a visita ao lago o que o meu pai nunca negou, algumas vezes não muito satisfeito pelo tempo que roubava aos seus afazeres.

Era uma alegria para mim poder ver os peixinhos vermelhos em cardume que eu adorava e não me importaria de estar ali horas a vê-los passar e a ouvir os repuxos que interiormente corriam junto das pedras esburacadas que se foram buscar longe para lá colocar.

Com o decorrer dos anos, quando por ali passava, não deixava de dar uma olhadela e verificar a pouco e pouco a degradação se ia acentuando, primeiro desapareceram os cisnes, depois os peixes e por fim o próprio lago.

Aquele lago impressionou-me tanto que no decorrer da minha vida acabei por construir três, o primeiro ainda uma criança e que para o efeito fui amealhando os tostões que me davam para comprar cimento, o segundo já homem feito e o último quando o ocaso da vida começou a aparecer esse ainda o possuo e cuja construção foi inspirada no lago do Jardim da República.

A minha neta só o viu uma vez mas está sempre a perguntar-me se os peixinhos não morreram e se já nasceram mais.

Talvez lhe tivesse transmitido esse gosto.

Hoje, o coreto para mim, só de longe!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Escola dos Combatentes - 4ª classe do ano 1948/49. Prof. Agnelo da Silva Lázaro



TENTATIVA DE IDENTIFICAÇÃO
(1) – Braga, (2) Hernâni, (3) Adelino, (4) Bretes, (5) Joãozinho, (6) Neto, (7) Lázaro, (8) Carlos, (9) Cadima, (10) João, (11) Pacheco, (12) Mário Leal, (13) Óscar, (14) N.N. das Ómnias, (15) Neves Trindade, (16) António Miguel, (17) Virgílio Cardoso, (18) José Torgal, (19) Minderico, (20) Vicente, (21) Capelo, (22) Serralha, (23) Orlando, (24) Júlio Leal, (25) Vale, (26) Carlos Mariano, (27) Emídio, (28) Cascalheira, (29) Gaivoto, (30) Francisco, (31) NN, (32) NN, (33) Lúcio, (24) F. Trindade, (35) José, (36) Romão, (37) Renato, (38) Vítor Vasconcelos, (39) Júlio Cruz, (40) Silas, (41) Pedro, (42) Faustino, (43) Rui, (44) Joaquim José.

E a figura magistral do professor Agnelo (vulgo Bintóito entre os alunos e não só devido à sua pronúncia de origem) que neste ano teve pelo menos 46 anos visto na fotografia e que eu me lembre, faltam o Rogério Soares e o José Joaquim, irmão gémeo do (44) Joaquim José.

Que eu saiba, já não estão entre nós seis mas possivelmente serão mais pois grande parte nunca mais vi e desconheço o seu percurso.

O professor Agnelo, natural de Celorico da Beira era uma grande figura pela sua estatura mas principalmente pelo seu porte. Trabalhador incansável, pelas suas mãos passaram gerações de escalabitanos que penso nunca o terão esquecido pela educação e conhecimentos que a todos ministrou. Além disso era um democrata nunca se enfeudando ao regime vigente.

Após a aposentação regressou ao seu concelho de origem.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Na Associação Académica de Santarém foi inaugurada uma Sala de Leitura

Pequena nota
Na pequena nota biográfica que o autor deste blogue apresenta, diz-se que na sua juventude fez parte da redacção do Jornal Mural da Associação Académica de Santarém (…)
Dando voltas procurando determinado apontamento, veio-me parar às mãos este recorte do há muito desaparecido Jornal do Ribatejo, datado de 6 de Agosto de 1959, por isso com 52 anos de existência e no qual se faz referência ao Jornal Mural e à inauguração de uma nova sala de leitura que recebeu o nome Professor Joaquim Veríssimo Serrão.Lembro-me perfeitamente do acontecimento e até do breve diálogo com o ILUSTRÍSSIMO SANTARENO que identificou com rapidez a minha família tanto paterna, como materna.

Significa isto que eu pelo menos há 52 anos já andava metido nas coisas de escrevinhar.

Pouco depois tive de interromper a minha colaboração visto ter dado início à minha vida profissional e numa terra distante.Foi com alguma emoção que reli as palavras que J.M. escreveu e resolvi partilhá-las com os meus visitantes/leitores.


JV




Na passada semana, na sede da Associação Académica de Santarém, numa festa de carácter íntimo mas de muito significado, foi inaugurada a Sala Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, antigo Presidente da Direcção daquele prestigiosa colectividade e actual leitor de português da Universidade de Toulouse, em França.

Tal iniciativa deve-se à Direcção do “Jornal Mural da A.A.S.” a que preside o académico Joaquim da Silva Ramalho que tem como principais colaboradores, Vítor Carvalho e Ascenção Nunes. Este jornal de parede que há quase um ano aparece semanalmente, inclui secções de arte, literatura, poesia, desporto, humorismo, biografia, teatro, etc.

Ao acto assistiram, além do corpo redactorial do semanário, o Presidente da A.A.S., Sr. Joaquim Graça, os Vice-Presidentes, Srs. Carlos Perdigão e Carlos Ribeiro, o Tesoureiro, Sr. Guilherme Ferreira, Sr. José de Freitas pela Secção Cultural e muitos académicos da velha e nova geração.

O Sr. Joaquim Ramalho dirigiu ao Sr. Dr. Serrão palavras de reconhecimento pela honra que deu aos novos daquela casa em aceitar o seu convite e afirmou o propósito de todos aqueles que trabalharem naquela sala, em honrar o nome de tão grande scalabitano e ilustre académico. Agradece ainda o apoio incondicional que a Direcção da A.A. tem dispensado a todas as suas iniciativas, depois do que convida o Dr. Veríssimo Serão a descerrar a lápide comemorativa.

O homenageado dirigiu em seguida palavras de sincero agradecimento aos promotores daquela festa, afirmando-lhes que, o facto de juntar o seu nome àquela actividade cultural, o comovia profundamente. Considero tal iniciativa, disse, “um acto de amizade e de traição amiga, pois só a amizade justifica ser o meu nome alguma coisa que possa servir de estímulo aos vossos propósitos”. Afirmou em seguida poderem os rapazes do jornal, contar, de futuro, com a sua ajuda e o seu conselho amigo e deu algumas sugestões para números seguintes. Disse que era necessário transcender as funções iniciais do Jornal Mural, de molde a procurar que ele chegasse às mãos de todos os sócios, da cidade, como elemento informativo e de primordial importância para a actividade cultural da Associação Académica.

Encerrou a sessão o Sr. Joaquim Graça, Presidente da Direcção, que se congratulou com o significado daquela interessante festa, cuja iniciativa desconhecia até há pouco mas a que logo deu imediato aprovo, verifica com prazer, que aquele grupo de jovens estudantes, ao escolherem o nome do Dr. Veríssimo Serrão para padrinho daquela Sala, mostraram, de maneira bastante evidente, o inegável amor pela Associação, por Santarém e pelos seus mais ilustres filhos. Ele e a Direcção ali presente estariam sempre dispostos a secundar com o maior interesse todas as iniciativas que se destinassem igualmente a valorizar, por qualquer forma, as tradições culturais ou artísticas daquela colectividade académica.

J. M.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Martim de Ocem



Era filho mais velho do Dr. Gil de Ocem, chanceler-mor do Reino, que foi como embaixador a Castela, em 1371 para confirmação das pazes feitas entre D Henrique II de Castela e D. Fernando I de Portugal e de D. Brites Anes Nogueira.

O nome de família aparece designado por Ocem, Docem ou d
o Sem, pelo menos foram estes que encontrámos.

Veio a casar com D. Maria da Cunha, filha de Gil Vasques da Cunha, Alferes-mor do Reino e de D. Joana (ou Isabel) Pereira.

Doutor em Leis, do Conselho de D. João I e seu chanceler-mor e igualmente do Conselho do infante D. Duarte, seu filho, e governador da sua casa.

Tomou parte na conquista de Ceuta e sendo então armado cavaleiro.

Era considerado pelo rei D. João I pessoa de muito saber e por isso muito estimado e encarregado de missões diplomáticas importantes.

Foi enviado em 1400 como embaixador a Henrique de Castela, a fim de cimentar as pazes entre os dois reinos. Devido a dificuldades surgidas nas negociações e em que D. Henrique era representado pelo Cardeal de Avinhão, vem a Lisboa para receber conselhos, acertar detalhes e concluir as negociações que vieram a ter lugar em Segóvia tendo originado tréguas por um período de 10 anos.

Em 1404 D. João I envia-o novamente como seu embaixador a Londres para ratificar a aliança com Henrique IV que tinha sucedido a Ricardo II de que se saiu com êxito.

Volta a Inglaterra no ano seguinte para tratar do casamento de D. Brites, filha bastarda de D. João I, com D. Tomás, Conde de Arundel, o que se veio a firmar em 7 de Fevereiro daquele ano.

É enviado por várias vezes como embaixador a Castela no sentido de tratar novamente de pazes que vieram a ter lugar mais tarde.

Martim de Ocem assiste em Coimbra, a 4 de Novembro de 1428, como testemunha, ao casamento do Príncipe D. Duarte, depois rei de Portugal e de D. Leonor de Aragão.

Testemunhou em primeiro lugar no documento que se passou dos desposórios da infanta D. Isabel, irmã de D. Duarte, com Filipe, duque de Borgonha, por seus procuradores, em Lisboa no ano de1429.

D. João I contemplou-o no seu testamento com várias mercês devido aos valiosos serviços prestados.



João de Ocem, seu sobrinho, filho de sua irmã D. Isabel de Ocem e de Álvaro Fernandes de Almeida, alcaide-mor de Torres Novas, tomou este apelido pelo morgado que herdou de seu tio falecido em 27 de Fevereiro de 1431 e foi sepultado na igreja do convento de S. Domingos, em Santarém e na capela de S. Pedro, que se situava à esquerda da capela-mor. Também aqui se encontravam os túmulos de seu pai, Gil de Ocem e de seu sobrinho, João de Ocem.

[Desaparecida Igreja do Convento de S. Domingos, em Santarém]

Com a demolição da Igreja por volta de meados dos anos 70 do século XIX, os três túmulos foram colocados na Igreja da Piedade e foram expostos no Museu de São João de Alporão em 1889, onde ainda se encontram. A divisa dos Ocem era faze, teu dever
e que se encontra esculpida em caracteres góticos na arca tumular jacente do Dr. Martim de Ocem..

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Portugal – Dicionário Histórico (...) Ed. em papel de João Romano Torres, 1900-1915 – Ed. electrónica de Manuel Amaral, 2000 – 2010.

Santarém – Princesa das Nossas Vilas, A. Areosa Feio, Editor: J. Cardoso da Silva, Santarém, MCMXXIX

Santarém – História e Arte, Joaquim Veríssimo Serrão, 2ª Edição, 1959

História e Monumentos de Santarém, Zeferino Sarmento, 1993

S. João de Alporão – Na História, Arte e Museologia, Edição da Câmara Municipal de Santarém, 1994

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Pezinhos de carneiro



Enquanto uns lhe chamam pezinhos de carneiro outros optam por designá-los por mãozinhas de borrego, o que vai tudo dar ao mesmo e constituem as partes dos ovinos que assentam no chão para se movimentarem.

No nosso país, estes animais é no Alentejo onde mais abundam sendo a sua carne muito apreciada em vários pratos sendo talvez o mais conhecido o “ensopado de borrego”.

Há quem muito aprecie cabeças de carneiro assadas no forno. O carneiro ou borrego foi sempre muito utilizado na confecção de pratos de casamento quando este tinha lugar tinha lugar na casa dos pais dos nubentes e quase sempre guisado com batatas.

São muito conhecidos e apreciados os pezinhos de coentrada que aparecem na cozinha alentejana.

Habituei-me desde criança a comer pezinhos guisados com feijão branco, é um dos pratos que mais aprecio e que nunca encontrei na restauração.

Na minha passagem pela Beira-Alta, ninguém conhecia ou admitia que tal se comesse e na serra algarvia, ainda que os comessem não confeccionados assim e isso compreende-se porquê, a quase impossibilidade de se juntar tanto pé.

Em Santarém todos os talhos existentes no mercado municipal estavam abastecidos de tais peças pois eram muito procuradas.

Hoje, vivendo numa cidade do Oeste, nenhum talho vende tal coisa, contudo, “descobri” numa cidade próxima aonde me desloco com frequência, um único talho, que vende tal iguaria e onde me abasteço sempre que lá vou.

Ainda que os cozinhe com batatas novas e ervilhas, prefiro-os com feijão branco. Os pés vêm previamente arranjados e constitui um trabalho moroso que tem de se pagar.

É um prato fácil de confeccionar.

Após um refogado normal com cebola, alho, salsa, louro, em azeite, e a que se juntou tomate e cenoura às rodelas, dá-se uma primeira cozedura aos pés na panela de pressão, ou seja, ficam “entalados”.

Acrescenta-se ao refogado um pouco de água onde foram cozidos os pés e em lume brando os pezinhos ficam a guisar. O feijão mete-se na panela de pressão até esta apitar.

Junta-se depois aos pezinhos não esquecendo de acrescentar um pouco de água onde o feijão esteve a cozer.

Fica a apurar em lume brando.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Recepção aos caloiros no Liceu de Santarém em meados do século passado



No meu tempo de liceu as aulas iniciavam-se no dia 1 de Outubro com uma sessão solene realizada no ginásio e onde eram distinguidos os melhores alunos do ano anterior.

Nesse tempo a grande maioria dos alunos trajava de capa e batina, principalmente a partir do 3º ano que era oficialmente a farda do liceu e só os seus alunos se podiam apresentar nos exames assim trajados.



Ouvi sempre dizer que isto fazia parte de um privilégio concedido aos alunos nos primórdios da sua instituição, o que não posso confirmar por falta de elementos nesse sentido.

Durante os três meses de férias, como então acontecia, a maioria dos alunos deixava de se ver, pois residia em terras diferentes e algumas a distâncias consideráveis. Davam-se então manifestações de júbilo com o exagero próprio da idade.

Nessa altura só havia um liceu na capital do distrito e alguns colégios nas cidades e numa ou outra vila de maior dimensão sendo muito conhecido o Colégio Nuno `Alvares de Tomar. Quem queria estudar tinha que vir a Santarém ou hospedar-se na cidade.



De Almeirim e do seu concelho vinham muitos de bicicleta a pedal enquanto outros utilizavam os transportes públicos, principalmente os da Camionagem Ribatejana. Da vila de Pernes havia um automóvel que tinha não sei quantos lugares e vinha cheio.

O perfil do motorista e do veículo ainda se mantém na minha retina apesar dos nomes terem passado.

Do Entroncamento vinham diariamente os filhos dos funcionários dos Caminhos de Ferro que tinham regalias no transporte.

Já andava no liceu quando apareceu a Escola Comercial e Industrial que começou a funcionar precariamente nos antigos Paços do Concelho que durante séculos funcionaram na popularmente chamada Praça Velha.



Existia também o Externato Braamcamp Freire para rapazes e o Colégio Andaluz para as meninas.

No” Galinheiro”, situava-se a afamada Escola de Regentes Agrícolas.

Era este o cenário dos estabelecimentos de ensino da cidade.

Na altura o número de alunos no liceu não ultrapassaria os 500.

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Previamente trazidos pelos “veteranos” mais entusiastas encontravam-se nas proximidades do liceu a mais variada traquitana em que se incluía os penicos, latas e latões, cornos de carneiros e o mais que se podia recolher. Não faltavam as rolhas de cortiça previamente queimadas (nessa altura não havia dinheiro para comprar batons).

Antes de terminar a sessão solene, um grupo de veteranos formava cordão para fazer caça à caloirada. Nessa altura ninguém ia de automóvel e eram bem poucos os professores que o faziam já que a grande maioria, se deslocava a pé, incluindo o Senhor Reitor, Dr. Ruy da Silva Leitão, que residia na Ribeira de Santarém.



Lá se iam mascarando os mais pequenos, enfiavam-se os penicos na cabeça, viravam-se os casacos e transportavam cartazes com algumas piadas onde não escapavam, muito ao de leve as políticas.

Considerados caloiros eram todos os que frequentavam pela primeira vez o liceu e assim entravam alguns no sexto ano e que constituíam os matulões que passavam pela mesma praxe e eram alvo especial dos veteranos.

No meu tempo não me lembro de haver grandes confusões, a não ser com um que procurou resistir e ficou-lhe para sempre a designação de “caloiro”.



Quando encontro algum antigo colega do liceu e se abordam conversas deste tipo é sabido falar-se no caloiro pois pelo menos eu não me lembro do seu nome. Foi assim que vim a saber que se tinha licenciado em farmácia e possuía um laboratório em determinada cidade.

As brincadeiras que existiam não tinham nada de vexatório e eram aceites pela rapaziada.

O cortejo seguia em fila indiana para a cidade passando pelo Largo do Seminário e fazendo aquilo que na altura era conhecido pela voltinha dos tristes, isto é, Rua de S. Nicolau, ao Canto da Cruz virava-se à esquerda, passava-se ao Terreirinho das Flores depois seguia-se para a Praça Velha tomando a direcção da Rua Direita, passava-se junto ao Largo do Padre Chiquito, então praça de automóveis e regressava-se ao Largo do Seminário. Na escadaria do Seminário (actual Sé) ia funcionar o Tribunal julgando os “crimes” cometidos pelos caloiros. Não se deixava de tirar uma fotografia junto à porta do primitivo liceu que funcionou nessas instalações.



Quando aparecia uma máquina fotográfica, tipo caixote, era muito bom e era dali que alguns, com alguma dificuldade, obtinham as suas cópias, como as que apresento.

Junto ao monumento do Marquês juntava-se a assistência, nomeadamente feminina e constituída por alunas do liceu.

Os advogados de “defesa” e de “acusação” debatiam-se apresentando variada e cáustica argumentação utilizando pelo meio um ou outro termo técnico que os profissionais utilizavam.

É claro que isto dava origem a risadas e galhofas a que o meritíssimo juiz procurava pôr cobro com o clássico “mando evacuar a sala”.



Para o fim, o advogado de defesa já atacava mais do que o de acusação e quase que os papéis se invertiam!

Depois de grande retórica do juiz, lá vinha por fim a sentença que nalguns casos era a declaração de amor feita a determinada pessoa presente na assistência e efectuada sempre de joelhos. É claro que isto era destinado aos matulões, já que os putos que tinham que estar presentes, funcionavam como decoração do ambiente.

Um ou outro caso, mais complicado e depois de” recurso”, era julgado no pequeno ringue da sede da Associação Académica de Santarém, nesse dia, à tarde.

Mais tarde verifiquei que alguns desses “advogados” seguiram mesmo essa carreira profissional.

Principalmente para os putos havia os tradicionais “borrachos”, isto é, a pedido dos “veteranos” enchiam a boca de ar que era esvaziada pela pressão feita pelos dedos indicador e polegar.

De caloiro passava-se a “bicho”, mas depois do natal já era tudo uma família e os putos acabavam por ter um protector a que recorriam em caso de necessidade.



Anos depois e quando já estava a trabalhar lembro-me que na Avenida da República em Lisboa fui interpelado por um meu protegido, de que não me recordo o nome, que estava a completar o seu curso universitário. Retenho, contudo, a sua fisionomia mas naturalmente que lhe perdi o percurso.

Já na cidade onde vivo e por volta de 1990 fui reconhecido por outro, após cerca de vinte e cinco anos de afastamento mas desse lembrava-me do nome. Foi ele que me reconheceu após tantos anos.

Relacionado com o mesmo assunto tenho outro facto a referir. Um dos meus professores que mais tarde veio a ser reitor do liceu quando o filho foi para o primeiro ano veio entregar-mo para fazer parte do cortejo. Lá o preparei tisnando e “paramentando-o. Vim a colocá-lo à testa do cortejo. Consta-me que é médico especialista em Lisboa.



Outro dos caloiros, bom amigo e com quem de vez em quando estou, lembra-me ainda hoje o trabalho que lhe dava de levar-me os livros para casa pois morava próximo de mim!

Apesar do rigor desses tempos desde o uso da gravata a não se poder acompanhar as colegas a partir do paralelo 38 (!), etc., não me lembro de ninguém ser castigado ou levado à presença do reitor para qualquer chamada de atenção referente a este assunto.

Consta-me que a marcha dos caloiros foi proibida a partir de 1961 pois as piadas políticas começaram a ser mais abertas e como tal ... acabou-se.

Aqui fica este pequeno “Quadro de Santarém dos meus Tempos”.