sexta-feira, 8 de julho de 2011

Recepção aos caloiros no Liceu de Santarém em meados do século passado



No meu tempo de liceu as aulas iniciavam-se no dia 1 de Outubro com uma sessão solene realizada no ginásio e onde eram distinguidos os melhores alunos do ano anterior.

Nesse tempo a grande maioria dos alunos trajava de capa e batina, principalmente a partir do 3º ano que era oficialmente a farda do liceu e só os seus alunos se podiam apresentar nos exames assim trajados.



Ouvi sempre dizer que isto fazia parte de um privilégio concedido aos alunos nos primórdios da sua instituição, o que não posso confirmar por falta de elementos nesse sentido.

Durante os três meses de férias, como então acontecia, a maioria dos alunos deixava de se ver, pois residia em terras diferentes e algumas a distâncias consideráveis. Davam-se então manifestações de júbilo com o exagero próprio da idade.

Nessa altura só havia um liceu na capital do distrito e alguns colégios nas cidades e numa ou outra vila de maior dimensão sendo muito conhecido o Colégio Nuno `Alvares de Tomar. Quem queria estudar tinha que vir a Santarém ou hospedar-se na cidade.



De Almeirim e do seu concelho vinham muitos de bicicleta a pedal enquanto outros utilizavam os transportes públicos, principalmente os da Camionagem Ribatejana. Da vila de Pernes havia um automóvel que tinha não sei quantos lugares e vinha cheio.

O perfil do motorista e do veículo ainda se mantém na minha retina apesar dos nomes terem passado.

Do Entroncamento vinham diariamente os filhos dos funcionários dos Caminhos de Ferro que tinham regalias no transporte.

Já andava no liceu quando apareceu a Escola Comercial e Industrial que começou a funcionar precariamente nos antigos Paços do Concelho que durante séculos funcionaram na popularmente chamada Praça Velha.



Existia também o Externato Braamcamp Freire para rapazes e o Colégio Andaluz para as meninas.

No” Galinheiro”, situava-se a afamada Escola de Regentes Agrícolas.

Era este o cenário dos estabelecimentos de ensino da cidade.

Na altura o número de alunos no liceu não ultrapassaria os 500.

***

Previamente trazidos pelos “veteranos” mais entusiastas encontravam-se nas proximidades do liceu a mais variada traquitana em que se incluía os penicos, latas e latões, cornos de carneiros e o mais que se podia recolher. Não faltavam as rolhas de cortiça previamente queimadas (nessa altura não havia dinheiro para comprar batons).

Antes de terminar a sessão solene, um grupo de veteranos formava cordão para fazer caça à caloirada. Nessa altura ninguém ia de automóvel e eram bem poucos os professores que o faziam já que a grande maioria, se deslocava a pé, incluindo o Senhor Reitor, Dr. Ruy da Silva Leitão, que residia na Ribeira de Santarém.



Lá se iam mascarando os mais pequenos, enfiavam-se os penicos na cabeça, viravam-se os casacos e transportavam cartazes com algumas piadas onde não escapavam, muito ao de leve as políticas.

Considerados caloiros eram todos os que frequentavam pela primeira vez o liceu e assim entravam alguns no sexto ano e que constituíam os matulões que passavam pela mesma praxe e eram alvo especial dos veteranos.

No meu tempo não me lembro de haver grandes confusões, a não ser com um que procurou resistir e ficou-lhe para sempre a designação de “caloiro”.



Quando encontro algum antigo colega do liceu e se abordam conversas deste tipo é sabido falar-se no caloiro pois pelo menos eu não me lembro do seu nome. Foi assim que vim a saber que se tinha licenciado em farmácia e possuía um laboratório em determinada cidade.

As brincadeiras que existiam não tinham nada de vexatório e eram aceites pela rapaziada.

O cortejo seguia em fila indiana para a cidade passando pelo Largo do Seminário e fazendo aquilo que na altura era conhecido pela voltinha dos tristes, isto é, Rua de S. Nicolau, ao Canto da Cruz virava-se à esquerda, passava-se ao Terreirinho das Flores depois seguia-se para a Praça Velha tomando a direcção da Rua Direita, passava-se junto ao Largo do Padre Chiquito, então praça de automóveis e regressava-se ao Largo do Seminário. Na escadaria do Seminário (actual Sé) ia funcionar o Tribunal julgando os “crimes” cometidos pelos caloiros. Não se deixava de tirar uma fotografia junto à porta do primitivo liceu que funcionou nessas instalações.



Quando aparecia uma máquina fotográfica, tipo caixote, era muito bom e era dali que alguns, com alguma dificuldade, obtinham as suas cópias, como as que apresento.

Junto ao monumento do Marquês juntava-se a assistência, nomeadamente feminina e constituída por alunas do liceu.

Os advogados de “defesa” e de “acusação” debatiam-se apresentando variada e cáustica argumentação utilizando pelo meio um ou outro termo técnico que os profissionais utilizavam.

É claro que isto dava origem a risadas e galhofas a que o meritíssimo juiz procurava pôr cobro com o clássico “mando evacuar a sala”.



Para o fim, o advogado de defesa já atacava mais do que o de acusação e quase que os papéis se invertiam!

Depois de grande retórica do juiz, lá vinha por fim a sentença que nalguns casos era a declaração de amor feita a determinada pessoa presente na assistência e efectuada sempre de joelhos. É claro que isto era destinado aos matulões, já que os putos que tinham que estar presentes, funcionavam como decoração do ambiente.

Um ou outro caso, mais complicado e depois de” recurso”, era julgado no pequeno ringue da sede da Associação Académica de Santarém, nesse dia, à tarde.

Mais tarde verifiquei que alguns desses “advogados” seguiram mesmo essa carreira profissional.

Principalmente para os putos havia os tradicionais “borrachos”, isto é, a pedido dos “veteranos” enchiam a boca de ar que era esvaziada pela pressão feita pelos dedos indicador e polegar.

De caloiro passava-se a “bicho”, mas depois do natal já era tudo uma família e os putos acabavam por ter um protector a que recorriam em caso de necessidade.



Anos depois e quando já estava a trabalhar lembro-me que na Avenida da República em Lisboa fui interpelado por um meu protegido, de que não me recordo o nome, que estava a completar o seu curso universitário. Retenho, contudo, a sua fisionomia mas naturalmente que lhe perdi o percurso.

Já na cidade onde vivo e por volta de 1990 fui reconhecido por outro, após cerca de vinte e cinco anos de afastamento mas desse lembrava-me do nome. Foi ele que me reconheceu após tantos anos.

Relacionado com o mesmo assunto tenho outro facto a referir. Um dos meus professores que mais tarde veio a ser reitor do liceu quando o filho foi para o primeiro ano veio entregar-mo para fazer parte do cortejo. Lá o preparei tisnando e “paramentando-o. Vim a colocá-lo à testa do cortejo. Consta-me que é médico especialista em Lisboa.



Outro dos caloiros, bom amigo e com quem de vez em quando estou, lembra-me ainda hoje o trabalho que lhe dava de levar-me os livros para casa pois morava próximo de mim!

Apesar do rigor desses tempos desde o uso da gravata a não se poder acompanhar as colegas a partir do paralelo 38 (!), etc., não me lembro de ninguém ser castigado ou levado à presença do reitor para qualquer chamada de atenção referente a este assunto.

Consta-me que a marcha dos caloiros foi proibida a partir de 1961 pois as piadas políticas começaram a ser mais abertas e como tal ... acabou-se.

Aqui fica este pequeno “Quadro de Santarém dos meus Tempos”.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Recordando o Professor e Maestro Joel Canhão



Tencionava escrever estas simples palavras aquando da passagem do 1º aniversário do seu falecimento mas circunstâncias várias tal não me permitiram.

E porquê?

Além de excelente profissional e de valioso curriculum, foi meu professor de Canto Coral na Liceu de Santarém e depois Maestro no Grupo Coral Alfredo Keil que ajudou a fundar e onde modestamente participei até 1967, altura em que a carreira profissional me “obrigou” a ir para outras paragens.

Enquanto frequentei o Liceu Nacional de Santarém, Joel Canhão foi sempre o meu professor de Canto Coral. Era ainda um jovem, com 21 anos e só muitos anos depois reparei que só tinha mais dez anos do que eu. Por outro lado, nos anos mais adiantados tinha alunos praticamente da sua idade.

Era um homem muito rigoroso e disciplinador e sabia manter o respeito dentro das aulas.

Havia, naturalmente, quem não gostasse dele considerando-o muito emproado e vaidoso, o que não coincidia com a minha opinião.

Estava sempre com atenção nas suas aulas onde não havia notas de fim de período, mas sim musicais. O pouquíssimo que conheço sobre música e canto a ele o devo. Punha-nos a ouvir música clássica mas antes de pôr o disco a girar, fazia grande palestra sobre o autor, desde os dados biográficos ao pormenor, analisava e punha em evidência as suas características musicais. E ao fazê-lo vibrava com o que dizia.

Obviamente que exigia o máximo silêncio e quando isso não acontecia era implacável e as faltas injustificáveis sucediam.

Durante a audição, a sua concentração era máxima, fechava os olhos e a cabeça e o corpo davam azo à sua sensibilidade musical.

Claro que o professor tinha as suas preferências musicais. Além dos “monstros”, não me esqueço que tinha uma predilecção pelo espanhol, se a memória não me falha e já se passaram mais de sessenta anos, Manuel de Falla.

Foi com ele que aprendi a distinguir muitos instrumentos musicais, as pautas de clave de sol e clave de dó, a saber distinguir as notas e até a solfejar.

Era muito rigoroso na escolha das vozes. Eu fiz sempre parte do orfeão do Liceu, sendo a minha voz de soprano e mais tarde de tenor.



Ainda possuo um cartão identificativo dessa circunstância, escrito com a sua maravilhosa caligrafia e assinado.

Lembro-me que uma vez, na altura ele era o Maestro do Orfeão Scalabitano, convidou uns tantos alunos do liceu e eu fui um deles, para cantar o Hino Nacional juntamente com os elementos do orfeão numa festa realizada na Igreja da Graça, em Santarém. Calhou-me ficar próximo da grande solista Lurdes Dória que tinha uma voz espantosa. Resultado, ao abrir a boca verifiquei que estava desafinado e então limitei-me a fazer mímica, confessei-o depois ao Maestro e queixei-me à D. Lurdes Dória, que se riu.

Só mais tarde consegui essa independência de voz no Coro Alfredo Keil e até porque eu era o 1º tenor que ficava ao lado do 2º tenor.


Entretanto, a vida foi dando as suas voltas e dois ou três anos depois regresso à minha cidade. Entro numa desaparecida pastelaria que ficava junto à Capela de Nª Sª da Piedade e qual não é o meu espanto quando me aparece o professor Joel Canhão a cumprimentar-me efusivamente, acabando por me dar notícias da formação de um grupo coral e ao mesmo tempo convidando-me para fazer parte dele.

Apesar de não me sobrar muito tempo, pois além da ocupação profissional estava-me preparando para um concurso, aceitei o convite porque acreditava no projecto.

Lembro-me perfeitamente que gerou alguma polémica a escolha do patrono para o grupo, pois podia ser conotado com posições políticas e até porque interpretávamos muita coisa harmonizada pelo grande Maestro Lopes Graça.

O coro era masculino e rondava os dezoito elementos com base em ex-orfeonistas do Orfeão Scalabitano. Lembro-me muito bem do Maestro dizer:- Para ir para um palco com dezoito gatos pingados e as coisas saírem razoavelmente, temos todos de ser muito bons, cada um de vós tem de ser um solista!

Ensaiámos em diversos locais, por deferência dessas Entidades, numa dependência da igreja de S. Nicolau e no Seminário.

A nossa apresentação foi feita no antigo Ginásio do Seminário, praticamente para familiares e amigos e ainda possuo o programa.

Entre outras actuações, lembro-me de termos actuado para os doentes do Hospital da Misericórdia de Santarém, para os presos da Cadeia Penal de Alcoentre e do Presídio Militar.

[Dossier do Grupo Coral Alfredo Keil]

Numa festa organizada no Teatro Sá da Bandeira onde o Maestro Joel Canhão fez uma regência fantástica na peça, o Coletinho! Nunca tinha regido assim, mas o grupo seguia-o cegamente e como tal, saiu maravilhosamente. Claro que depois todos comentámos o assunto com alguma admiração.

Talvez a última exibição em que entrei teve lugar na Feira do Ribatejo de 1966 e lembro-me de termos cantado com sucesso a Canção do Vinho, num palco, ao ar livre.

É minha recordação o dossier do grupo coral, em que o tom amarelo do tecido começa a esbater-se com o decorrer dos anos. Guardo também o seu conteúdo constituído por todas as peças que cantei. Também lá se encontra o “programa” da apresentação que fizemos no Ginásio do Seminário, policopiada.

A forra dos “ dossiers “ foi trabalho feito e oferecido pela esposa do Maestro de que não recordo o nome.

Infelizmente a fotografia que possuía do Coro e tirada no Rosa Damasceno deteriorou-se com a humidade e estava colocada na parede de uma casa de residência temporária, o que muito me desgostou.

O convite formulado ao Maestro para dirigir o Orfeão Académico de Coimbra foi-nos naturalmente comunicado e todos ficámos eufóricos com ele, pois era uma grande distinção para Joel Canhão, que bem a merecia pelo seu talento e rigor no trabalho. Ainda que nos fizesse muita falta, todos o incentivámos a aceitar tão honroso convite acrescido de melhores condições de vida.


Para terminar apresento uma pequena nota biográfica sobre o Cidadão, o Músico e o Maestro.


[Igreja Matriz de Barosa]
Nasceu em Barosa, freguesia do concelho de Leiria em 1927.Estudou no Conservatório Nacional de Lisboa tendo obtido o diploma do Curso Superior de Piano.

Concluiu o Estágio de Professor de Canto Coral no Liceu Pedro Nunes sob orientação de Luís de Freitas Branco e de Frederico de Freitas.
Foi bolseiro do Instituto para a Alta Cultura e da Fundação Calouste Gulbenkian.

Estudou Direcção Coral e Canto. Com Fernando Lopes Graça aperfeiçoou piano e harmonia.

Também foi bolseiro da Universidade de Coimbra frequentando os Cursos Internacionais da Costa do Sol.

Voltou a ser bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e da Universidade de Coimbra, aperfeiçoando-se em órgão passando depois a desempenhar o lugar de organista titular da Universidade de Coimbra.

Desempenhou as funções de professor de Canto Coral em vários liceus e foi docente na Escola do Magistério Primário de Coimbra, da Escola Superior de Educação de Coimbra e na Universidade de Aveiro.

Quando era professor de Canto Coral do Liceu Nacional de Santarém foi director artístico do Orfeão Scalabitano.

Fundou e dirigiu o Grupo Coral Alfredo Keil de onde saiu para dirigir o Orfeão Académico de Coimbra.

Foi fundador e dirigiu o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra.

Dirigiu numerosos concertos no país e no estrangeiro, como em França, Brasil, Japão, África do Sul, Angola, Moçambique, etc.

Foi condecorado em 1987 pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares, com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e agraciado em 2007 com a Medalha de Mérito Cultural pela Câmara Municipal de Coimbra.

No campo da investigação, tem o seu nome ligado à descoberta de um fragmento do Antifonário do Ofício, provavelmente do Séc. XII.

Publicou alguns trabalhos em livro sobre educação musical.

Desde bem novo que se dedicava à poesia utilizando o pseudónimo Moura Serpa tendo publicado três livros nesta área..

Faleceu em Coimbra em 2010 com 82 anos de idade e foi sepultado na sua freguesia natal.

domingo, 12 de junho de 2011

Vigário Miguelista em Pernes

Pequena nota
Tendo encontrado em pesquisas este interessante documento, transcrevo-o neste espaço para a leitura de possíveis interessados.
JV

Falla dirigida a S. M. pelo Vigario de Pernes

[Postal representativo da Vila de Pernes]

Senhor, - Rasgado finalmente com a faustíssima chegada do Serenissimo infante o Senhor D. Miguel á Villa de Santarém, e de Vossa Magestade a Villa Franca de Xira, rasgado sim o denso véo, que geralmente cegava a Nação, doces affectos assás encontrados se apoderárão dos habitantes de Pernes ; de tristeza hum , outro de summo prazer, e alegria: de tristeza em pensarem, que tinhão estado debaixo do jugo do systema Maçonico , enganados da fé publica: de summo prazer, por verem, que Vossa Magestade hia a ser restituido aos Direitos, que a legislação Divina lhes concede, e a retocar as Chagas, que á nossa Santa Religião tem aberto os impios Systemáticos.

Não se embaraçando já com medo dos Mações, e exaltando de prazer o Vigario da Matriz Manoel Cadima, no dia primeiro de Junho fez na Igreja das Congregadas daquella Terra, que se achava apinhoada de gente , hum copioso discurso, no qual á clara luz do meio dia demonstrou, que o Systema, chamado Constitucional, não era algum outro, que o dos Mações, homens Atheos, cujos fins são demolir os Thronos , e extinguir a nossa Santa Religião, humam religião, que foi plantada com os trabalhos, e sangue do Homem Deos, pregada ao través de tantos perigos pelos Sagrados Apostolos , regada com o sangue de mais de 18 milhões de Martyres , e sustentada com as virtudes de tantos milhares d`Anacoretas, Confessores, Virgens, e Pessoas de todos os estados, e ambos os sexos, protestando elle Vigario , que se enganado pela fé publica seguira geralmente com todos aquele Systema, agora que o conhecia, o detestava, abominava, e execrava de todo o coração, e que desde então nenhum de seus Paroquianos o podia seguir sem gravame de consciencia ; não devendo pessoa alguma escrupulizar sobre o juramento de causa má não liga, por não dever ser o juramento vinculo de iniquidade , como dizem todos os Theologos com Santo Agostinho. Grande foi a impressão, que aquelle discurso fez nos Ouvintes , especialmente nas Congregadas, de sorte que vendo o precipício a que se encaminhavão, derão graças ao Omnipotente Deos, por se haver dignado acudir-nos em tão grande perigo.

Naquelle mesmo dia tendo feito convocar todo o Clero á Matriz, ahi fez elle Vigario huma solenne acção de Graças, constante de Missa cantada, e Sermão, pela Incolunidade de Suas Magestades , do Sereníssimo Infante o Senhor D. Miguel, e de toda a Real Familia , e pela extincção do Systema, chamado Constitucional, celebrando a Missa o Beneficiado Joaquim Cadima, Presidente da Matriz, e Prégando elle Vigario hum discurso analogo . No fim da Missa houve hum solemne Te Deum, e á noite humam illuminação admiravel, dirigida pelo zelo, e actividade do mesmo Beneficiado, com largos repiques de todos os sinos. Tanto obrou aqulle Vigario , e pouco ainda para seus desejos.

O Vigario pois de Pernes, Senhor, com todos os seus Paroquianos, exultando de alegria, protesta a Vossa Magestade a maior fidelidade, e lhe offerece sua fazenda, e vida, continuando não só no incruente Sacrifício, se não tambem á Estação da Missa Conventual, a rogar ao Omnipotente Deos pelas preciosas vidas de Vossa Magestade, e de toda a real Familia.

Pernes 2 de Junho de 1823. – Beija a Augusta Mão de Vossa Magestade seu muito reverente e fiel subdito , o Vigario Manoel Cadima.

domingo, 5 de junho de 2011

Massa à barrão



De uma maneira geral, a indicação de um prato começa pela referência à substância mais importante ou mais abundante com que é confeccionado.

Não vou aqui apresentar uma receita formal com quantidades, tempos de cozedura, etc... pois não é isso que está neste âmbito.

O prato indicado, muito utilizado na freguesia da Várzea e em toda a região do “Bairro”, dá pelo nome, como o título indica, de “massa à barrão” pelo que se supõe que a massa seria a “iguaria” e à barrão por “inventada” pelo homem do “Bairro” designado popularmente por “barrão” e onde está impregnado algum sentido depreciativo.

Quando comecei a interessar-me por estes assuntos, há mais de 40 anos, conversei com uma varzeense (*) com alguma idade que sempre viveu na sua freguesia natal onde fez todos os trabalhos do campo destinados às mulheres, procurando indagar como era a alimentação nos seus tempos de trabalhadora rural.

Quando lhe falei na massa à barrão que eu já conhecia e referi a existência de bacalhau no cozinhado, foi peremptória dizendo-me que isso era agora porque no seu tempo de jovem não era assim, pois tratava-se apenas de massa (macarrão) guisada com batata cortada aos quartos. Azeite que na zona todos tinham, nem que fosse o proveniente do rabisco, ou rabiscão, cebola, alho, tomate salsa e louro, conforme as disponibilidades. Nisto tudo, a única coisa que se comprava era a massa e deve porvir daí o nome do prato típico.

Mais tarde e por ser um produto na altura considerado barato começou a ser introduzido o bacalhau que depois de cozido é lascado retirando-se –lhe as espinhas e é com o auxílio da água em que é cozido que o guisado é feito.

Naturalmente que de princípio era só um cheirinho de bacalhau mas quando as condições económicas foram melhorando, este também aumentou.

É um prato que muito aprecio e que não encontro na restauração.

(*) A nossa amiga já faleceu há muito mas tem por cá uma filha e netos com quem por vezes estou.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Largo das Amoreiras



Quem sabe em Santarém onde e como era o Largo das Amoreiras e do ambiente que o cercava? Só gente que ultrapassou os 65 e que foi criada no velho burgo e mesmo esses, só os que conseguem manter uma memória razoável.

O que vamos descrever tem, como não pode deixar de ser, falhas e lapsos que ao longo dos anos o decorrer da vida com as atribulações próprias nos fazem cometer.

O Largo das Amoreiras foi sempre assim que o ouvi chamar ainda que a designação oficial fosse Praça ou Largo Cândido dos Reis, em homenagem ao Almirante republicano que se suicidou em 5 de Outubro de 1910, pensando gorada a Revolução, situa-se em frente do antigo hospital de Jesus Cristo, fundado por João Afonso de Santarém ou João Afonso de Aguiar e cujos restos mortais repousam na Igreja de S. Nicolau.

O hospital foi aqui instalado (Convento do Sítio) depois de 1834.

Ficava assim ao cimo ou à entrada da Avenida dos Combatentes, artéria primeira e principal do “Meu Bairro”.

O antigo Convento das Donas, lembro-me muito bem de andar em obras, quando albergava o Regimento de Artilharia 6 e onde hoje se encontra instalada a PSP, uma ala lateral pintada de cor amarelada, que não me lembro de ter qualquer entrada, mas sim janelões altos, ocupava e ainda hoje lá está, o limite do Largo por este lado.

Quando era bem miúdo, por volta de 1943/44, não havia estrada, era caminho de terra batida e só mais tarde foi feita com passeio junto ao velho casarão e o do lado oposto que separava o largo.

A estrada para Lisboa bem estreita que era, passava junto ao antigo seminário e onde entroncava a travessa do Postigo, que ainda existe, passava junto ao estabelecimento comercial do Sr. Joaquim Vicente Serrão lembro-me bem da sua figura, pouco depois nela ia entroncar uma das principais vias da cidade que tinha como “baluartes” de um lado a nova estação dos CTT e do outro a C.G. Depósitos.

Recordo com alguma saudade uma cabina cilíndrica envidraçada a partir de determinada altura, pintada de vermelho e branco, se a memória não me engana, que se situava mesmo em frente da rua e constituía a estação semafórica da altura e onde se encontrava um polícia com capacete branco que manualmente ia regulando o trânsito através dos sinais luminosos de verde, amarelo e vermelho.

O povo chamava-lhe a “Gaiola do Canário”. A estrada para Lisboa continuava passando próximo do local onde se situou a Porta de Manços e onde fazia uma curva acentuada junto à qual e no Largo das Amoreiras se encontrava um fontanário muito movimentado e conhecido por” Fonte do Boneco”, desconhecendo eu a razão do topónimo. Lembro-me muito bem de que quando ia para a escola do Pereiro, não a actual mas a que foi destruída e isto em 1945/46, tivesse sede ou não, nunca deixava de ali beber água. A estrada continuava junto ao casario e onde se encontrava uma das mais afamadas tabernas de Santarém, a Taberna do Peste e ia passar mesmo junto à então capela mortuária do hospital. Pouco depois existiam as escadinhas de acesso à Rua Prior do Crato, então das mais novas do meu bairro, onde a construção subiu em altura mas sem rua pavimentada, o que aconteceu muito depois.

Mais abaixo e do lado esquerdo encontrava-se a antiquíssima Fonte das Padeiras, então de boa água e a que recorria a gente do meu bairro quando a água faltava nas torneiras.
Algumas vezes lembro de lá ir fazer a recolha.

Pelo que acabei de escrever, o Largo das Amoreiras situava-se entre o fachada principal do hospital de Jesus Cristo, a fachada lateral do Quartel do Regimento de Artilharia 6 e a estrada que ia para Lisboa passando junto àquele casario onde se destacava pelo movimento a Taberna do Peste onde havia sempre petinguinhas ou jaquinzinhos fritos e outros petiscos do género.

Era nesta taberna que se formalizava o contrato de pessoal para os serviços agrícolas selado com o pagamento do patrão ou seu representante (feitor, capataz) da molhadura, ou seja, meio litro de vinho.

Era em frente da taberna e no Largo das Amoreiras que ao domingo e dentro de determinado horário que o uso e costume marcou que se juntassem os homens à procura de trabalho e aqueles que precisavam deles.

O Largo das Amoreiras era totalmente térreo tendo alguns bancos espalhados junto do tronco de velhas árvores, muitas delas quase secas. Certamente que algumas seriam amoreiras para justificar o aparecimento do nome mas não tenho qualquer ideia sobre isso. Que eram troncos grossos e alguns meios secos, isso lembro-me bem, tal como dos bancos constituídos por duas únicas tábuas, uma servindo de assento e a outra para recosto. Eram fixas por grossos parafusos a dois pés de ferro forjado com alguma elegância e fixos a blocos de pedra calcária.

Lembro-me de ouvir contar ao meu pai que numa entrada de toiros, que eram da ganadaria (?) Caroça, os quadrúpedes arrancaram parte dos bancos, tal era a sua bravura!

Outra coisa que ainda permanece na minha memória é o facto de entre o Largo das Amoreiras e a fachada lateral do quartel, na altura das seculares Feiras da Piedade e do Milagre que tinham lugar no Campo Fora-de-Vila, os feirantes estenderem-se para aí, principalmente os vendedores de fruta (lembro-me dos peros aos montes) e de louça de barro.

Com a construção do Palácio da Justiça (fins da década de 50) e a abertura da Avenida Sá da Bandeira, a estrada para Lisboa mudou de trajectória indo passar ao meio do Largo das Amoreiras que desapareceu totalmente tendo-se procedido ao seu ajardinamento, à colocação da estátua de Pedro Álvares Cabral, hoje junto à Igreja da Graça, à instalação de uma ou duas “bombas de gasolina” e à feitura de sanitários subterrâneos.

Depois disto que conheci bem, sei que tem havido várias transformações mas que não sei descrever.

Quando por lá passo, parece-me que não sei onde estou!

N.B.
A foto apresentada e da autoria do Major Fernando de Carvalho Tártaro é um recorte da que consta do Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937 – 1940. Ainda não existia a “gaiola do canário”.
JV

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Manuel Latino


Nasceu em Santarém em 1878.

Seguiu a carreira militar e em 1940 era general. A par da sua profissão esteve sempre muito ligado ao desporto, principalmente ao equestre.

Foi comandante do Regimento de Cavalaria Nº 2, da Escola Prática de Cavalaria (1935/37), da 1ª Brigada de Cavalaria, em Estremoz, inspector e director da mesma arma.

Foi membro da Sociedade de Geografia.

Desempenhou as funções de presidente da Comissão Superior de Educação Física do Exército, da Federação Equestre Portuguesa e foi fundador da Sociedade Hípica Portuguesa, em 1910, de que foi director durante 20 anos.

Conquistou a taça «Rainha D. Amélia» em 1902, em Torres Novas e foi campeão de sabre. Já como Brigadeiro ganhou em 1932 um «Cross Country».

Mestre de equitação na Escola do Exército em 1915, foi chefe da equipa de cavaleiros portugueses em vários concursos hípicos, como em Madrid, Paris, Roma e Milão, entre outros e isto entre 1924/34. Foi presidente do Comité Olímpico Português (1946).

Durante 20 anos organizou os concursos hípicos da Figueira da Foz, e igualmente prestou a sua colaboração na organização dos concursos e corridas na Marinha, Campo do Jockey e Estoril.

Presidiu à comissão organizadora da 1ª Exposição Triunfal dos Desportos, em 1934.

Quando o General Alberto da Silveira foi ministro da Guerra, fez parte do seu gabinete sendo seu delegado na cerimónia de inauguração do Monumento aos Mortos Portugueses, em Gand, 1928.

Entre as várias condecorações contam-se o Grande Oficialato de Cristo, Avis e da Ordem de Instrução, Comendador da Ordem de Santiago de Espanha e Grã-Cruz de Avis.
______________________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971

terça-feira, 5 de abril de 2011

P. José Maria Antunes

(Publicado no Correio do Ribatejo de 21 de Abril de 2011)



Nasceu em Santarém em 22 de Maio de 1856.

Entrou para o seminário em 1867 após selecção entre quarenta e cinco concorrentes e quando o mesmo abriu na antiga rua de S. Lázaro em Santarém (actual Pedro de Santarém).

Em 1870, quando a casa fechou as portas e os padres transitaram para Gibraltar, acompanhou os mestres.

Foi para França onde se ordenou nos seminários da Congregação do Espírito Santo.

Em 1881, é professor de Ciências Naturais no Colégio do Espírito Santo em Braga.

No mesmo ano, o Padre Duparquet regressa duma viagem à Europa acompanhado pelo padre José Maria Antunes, que funda a missão da Huila, mandando arrotear 2000 hectares de terreno e dirigindo uma exploração agrícola em moldes evoluídos, numa tentativa para influenciar os nativos, devendo-se a ele o grande impulso para a evangelização do Sul de Angola, tendo contribuído para melhorar o nível de vida das populações.

Durante 23 anos desenvolveu uma actividade notabilíssima como pároco e superior da missão.

Por sua iniciativa e em direcção à parte oriental são fundadas as missões de Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quiíta (1893), Munhino (1898) e por último Gambos (1894).

Em 1904 vem para a metrópole na qualidade de Provincial, cargo que ocupa até 1910, quando foi extinta em Portugal a Congregação do Espírito Santo a que sempre pertenceu.

O Padre José Maria Antunes foi também um cientista no campo da ornitologia e da botânica.

Os museus de Berlim, Paris e Coimbra de História Natural beneficiaram com o envio de amostras por si recolhidas em Angola.

Faleceu em 1928.

_______________________________

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, Edição da Comissão Municipal de Turismo de Santarém, 1971.

História de Portugal, Vol. XI, Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo, 1989.

http://www.pessoalissimo.com/Terra/Lubango resenha-historica.htm

http://www.muhuila.hpg.ig.com.br/lubango.htm

domingo, 3 de abril de 2011

Os gravateiros

(Publicado no Correio do Ribatejo de 8 de Abril de 2011)



A gravata é um acessório que vem de épocas recuadas e que o andar dos tempos tem provocado transformações.

Segundo os entendidos parece que a designação «gravata» seria proveniente da deformação da palavra croata já que os soldados desta origem e recrutados pelo rei de França, Luís XIII, traziam um lenço atado ao pescoço.

A primitiva razão da existência deste acessório pensa-se que tem a ver com o suor produzido, recorrendo-se a ela para o minorar, por isso, como sudário.

Em meados do século XVII começa a ser usada por Luís XIV, estendendo-se a toda a corte, de seda, adornada de rendas e já com um sentido diferente.

O uso, naturalmente, espalhou-se por toda a Europa e por todo o Mundo com transformações acentuadas.

Nos princípios do século XIX, se um homem tocasse o lenço no pescoço de outro a ofensa era tão grave que poderia acabar em duelo.

Em meados do século XIX começam a surgir novas maneiras de atar as gravatas.

Parece que o actual estilo de gravata é do primeiro quartel do século passado e tem origem nos Estados Unidas da América, tornando-se mais funcional, mais longa e mais estreita.

Três dos dicionários que consultámos apresentam as seguintes definições: “Pedaço de tecido, de formas diversas, que se ata em volta do pescoço” (Dicionário Prático Ilustrado, Dir. de Jaime de Séguier, 1972), “Manta, laço ou fita que orna o pescoço” (Dicionário da Língua Portuguesa de Fernando J. da Silva, 4ª Edição, 1984) e “acessório de vestuário masculino, que consiste numa tira de tecido, estreita e comprida, usada em volta do pescoço, por baixo do colarinho da camisa, formando um nó à frente” (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001)

Como se pode verificar, os três dicionários que escolhemos com alguma distância no tempo, apresentam definições com alguma diferença, pois naturalmente verifica-se com o decorrer dos tempos o ajustamento adequado.

O dicionário mais recente já indica a gravata como acessório de vestuário masculino ainda que tenhamos visto muita mulher de gravata.

A pouco e pouco a gravata torna-se um acessório indispensável ao homem que o usa por obrigação em muitos casos, principalmente em determinadas profissões e em que não há liberdade de escolha, mas para o cidadão comum pode proporcionar um toque de elegância. Quem não pusesse gravata, julgava-se que não estava bem vestido!

No nosso tempo de liceu começou a ser obrigatório o uso de gravata pelos rapazes e quando não fossem portadores dela apanhavam uma falta a vermelho (de castigo). As raparigas não podiam “andar em pernas”, isto é, tinham de usar meias.

Apesar de tantos anos passados lembramo-nos da polémica que tal causou e havia um professor que não concordava nada com isso, ainda que nunca o tivesse dito, exigindo aos alunos que transportassem a gravata, mas não lhe interessava onde, acontecendo que se engravatavam as mais variadas partes do corpo.

Este professor de que nunca fomos aluno, não podemos precisar se antes ou depois, causou alguma polémica, para não dizer escândalo, usando umas bonitas sandálias, às quais, sendo poeta, dedicou uns versos.

Em todas as repartições públicas era obrigatório o uso da gravata, assim como em todas as profissões em que se tinha que atender público, ninguém o fazia sem estar convenientemente engravatado.

Ninguém ia para um baile sem levar gravata, ninguém ia para uma pequena festa sem levar gravata, isto para não falar em cerimónias mais pomposas como casamentos, baptizados ou festas de anos.

Quem é que ia a um funeral sem levar uma gravata preta? Ninguém.

A gravata passou a constituir um luxo e mudava-se quase diariamente.

É assim que em concorrência com as casas da especialidade aparecem os vendedores ambulantes de gravatas, os chamados gravateiros, que originaram o título desta croniqueta e que vendiam mais em conta.

Estes homens governavam a vida só vendendo gravatas, tal a venda que faziam! Usavam na sua actividade uma barra de madeira com cerca de um metro de comprimento à qual fixavam, nas extremidades, uma correia de cabedal com aproximadamente dois dedos de largura proporcionando um arco que passava pelo pescoço, suportando assim a barra onde colocavam as dezenas de gravatas que transportavam das mais variadas cores e padrões. Havia gravatas para dois ou três preços, proporcionando desta forma satisfazer toda a clientela.

Percorriam as ruas do velho burgo, fazendo aquilo a que se chamava a volta dos tristes, começando no “Largo do Seminário”, Rua de S. Nicolau, Rua da Misericórdia, Praça Velha, Rua Direita e voltando ao Largo do Seminário. É claro que por vezes faziam alguns desvios a ruas próximas, que tivessem na altura mais movimento ou onde pudessem passar fregueses habituais. Tiravam uma gravata do mostruário, simulavam um nó e procuravam mostrar ao freguês que lhe ficava muito bem com aquele fato.

Quando o negócio estava mais fraco na velha cidade, apareciam esporadicamente num bairro periférico ou então deslocavam-se em transportes públicos às vilas das redondezas, como Cartaxo, Almeirim e Alpiarça e possivelmente a outras.

Hoje a gravata já não tem o mesmo significado que tinha e o seu uso decresceu imenso, havendo mesmo homens que praticamente nunca a usaram ou se o fizeram foi em momentos muito especiais.

Pela nossa parte ainda possuímos uma ou duas dúzias de gravatas mas confessamos que raramente as pomos. Trabalhámos num concelho onde as altas temperaturas verificadas obrigavam-nos a tirar a gravata logo que terminávamos o trabalho e a partir daí nunca mais utilizámos a gravata como era de costume. Este texto no momento em que o escrevemos nem tínhamos gravata apesar de o ambiente estar fresco!

Esta diferença de comportamento pode ser observada no dia a dia em qualquer lugar, incluindo nos “audiovisuais” .

Em meados do século passado os gravateiros davam colorido ao velho burgo escalabitano sendo uma parte importante do fervilhar comercial que então a velha cidade possuía e hoje em completa decadência.

Gravateiro, uma actividade extinta como tantas outras!

Conversando com o visitante / leitor

A criação deste blogue CORREIO DAS LEMBRANÇAS teve por intuito republicar textos que saíram durante alguns anos no semanário Correio do Ribatejo, o que deu origem a 264” postagens” distribuídas por assuntos como Temas Varzeenses, Memórias do Meu Bairro, Figuras Ribatejanas e outros.

Neste espaço de tempo, iniciado a 23 de Abril de 2009, durante todas as semanas houve algo para ler ou reler, o que deu origem a algum movimento que o contador indica, notando-se recentemente um aumento de visitantes, principalmente neste último mês em que não se fizeram postagens.

Acontece que os textos publicados acabaram por se esgotar, ainda que nos possa ter passado um ou outro que não tenha sido publicado por razões diversas.

Ainda que os visitantes / leitores se tenham manifestado pouco através do nosso e-mail indicado no blogue, a verdade é que alguns o fizeram, verificando-se até transcrição de textos e a reprodução de um nosso desenho como aqui demos conhecimento.

Talvez não seja descabido fazer uma pequena análise a este período, notando-se que as Figuras Ribatejanas foram o Tema que mereceu maior número de” postagens”, ficando as Memórias do Meu Bairro e os Temas Varzeenses praticamente lado a lado, aliás, como o próprio blogue indica.

Havendo estatísticas desde Maio do ano passado, passamos a indicar os 10 artigos mais visitados desde aquela altura até hoje:


1º - D.LEONOR DE PORTUGAL (2009.09.15)
2º - INFANTE D. JOÃO (2009.08.22)
3º - UM BAILE DA PINHATA (2010.03.21)
4º - FRANCISCO CÂNCIO (2009.05.31)
5º - A TOPONÍMIA (VÁRZEA) (2009.07.24)
6º - O PROFESSOR OLIVEIRA FEIJÃO, MÉDICO E LAVRADOR (2010.01.01)
7º - O ESPAÇO, ONDE E COMO É (2010.06.04)
8º - A TOPONÍMIA (DO MEU BAIRRO) (2010.05.17)
9º - A IGREJA DE Nª Sª DA CONCEIÇÃO DA VÁRZEA (MATRIZ) (2010.01.07)
10º - FREI LUÍS DE SOUSA (2010.11.14)


Verifica-se assim que as Figuras Ribatejanas têm quatro representantes, os Temas Varzeenses igualmente com quatro e as Memórias do Meu Bairro com dois.

As 10 219 visitas oriundas de 47 países originaram uma média diária de 10, 15, sendo as postagens realizadas com uma média de 3,8 (dia).

O CORREIO DAS LEMBRANÇAS irá entrar agora numa segunda fase onde irão ser publicados textos inéditos que englobarão os temas já referidos e outros que venham a surgir.

Iremos abrir uma nova rubrica que tem por título QUADROS DE SANTARÉM DO MEU TEMPO e onde procuraremos apresentar coisas já passadas.

Caro Visitante / leitor: Obrigado pela sua visita.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O menino fez anos

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 24 DE ABRIL DE 2009)

[Nº 1 do Correio da Extremadura, actual Correio do Ribatejo]

Mais um ano se passou e o nosso MENINO, que tem um grande defeito que é não chegar a velho, trôpego e caduco, foi apaparicado pelo jovem e dinâmico preceptor com o auxílio de amas e de aios que nunca o esquecem e de mais criadagem. Alguns já o vêm fazendo há dezenas de anos, enquanto outros acabaram de chegar e que naturalmente acabam por fazer a necessária renovação mas sempre com o mesmo espírito, servir como podem e sabem o MENINO que conta com 118 ANOS apenas!

Onde é que encontram outro MENINO semelhante? Procurem, procurem, mas não será fácil encontrá-lo.

Este ano o MENINO teve uma prenda especial, é uma coisa que todos os MENINOS gostam de ter – uma foto!

Mas não pensem que é uma foto qualquer, daquelas que com o decorrer dos anos e o maior ou menor manuseamento se vão esfumando no tempo, não, esta é para ficar e não há manipulação que a faça desaparecer!

Trinta anos já estão, mas estamos convencidos que a pedalada vai decorrer a bom ritmo para bem de todos e principalmente da cidade de Santarém que assim conserva um tesouro que só as novas tecnologias permitem e que irá ficar disponível a meio-MUNDO!

Preservar 118 ANOS escritos em milhares de páginas sobre o Ribatejo e em particular a cidade de Santarém, terá certamente o reconhecimento dos vindouros que nos sucederão.

Festas e acontecimentos nefastos, factos notórios da vida do nosso País e da nossa região, lutas, guerras, desavenças, amizades, uniões e altruísmo, homenagens das mais variadas origens, crimes e acções abnegadas, prosa e poesia, investigação científica, páginas e páginas de história, nascimentos, casamentos e mortes. E a importância que os anúncios têm para a análise de uma região? Eu sei lá, é um MUNDO. As palavras foram-me saindo ao acaso e sem ordem mas muitas mais poderiam ter saído.

De tudo tem o NOSSO MENINO.

Não faltaram os “parabéns a você” cantados com júbilo, o bolo e o espumante.

De carácter pessoal, quero deixar aqui o meu agradecimento à Câmara Municipal na pessoa do Senhor Presidente Moita Flores, um homem, que contra o que é habitual, tem sensibilidade para estes assuntos como nos demonstrou na intervenção que fez.

Sem desprimor para ninguém, permitam-me uma palavrinha especial para dois “velhos”aios, João Moreira e Bertino Martins que há muitos anos vão prestando valiosa e abnegada colaboração ao NOSSO MENINO.

Venham muitos mais anos!