quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Largo das Amoreiras



Quem sabe em Santarém onde e como era o Largo das Amoreiras e do ambiente que o cercava? Só gente que ultrapassou os 65 e que foi criada no velho burgo e mesmo esses, só os que conseguem manter uma memória razoável.

O que vamos descrever tem, como não pode deixar de ser, falhas e lapsos que ao longo dos anos o decorrer da vida com as atribulações próprias nos fazem cometer.

O Largo das Amoreiras foi sempre assim que o ouvi chamar ainda que a designação oficial fosse Praça ou Largo Cândido dos Reis, em homenagem ao Almirante republicano que se suicidou em 5 de Outubro de 1910, pensando gorada a Revolução, situa-se em frente do antigo hospital de Jesus Cristo, fundado por João Afonso de Santarém ou João Afonso de Aguiar e cujos restos mortais repousam na Igreja de S. Nicolau.

O hospital foi aqui instalado (Convento do Sítio) depois de 1834.

Ficava assim ao cimo ou à entrada da Avenida dos Combatentes, artéria primeira e principal do “Meu Bairro”.

O antigo Convento das Donas, lembro-me muito bem de andar em obras, quando albergava o Regimento de Artilharia 6 e onde hoje se encontra instalada a PSP, uma ala lateral pintada de cor amarelada, que não me lembro de ter qualquer entrada, mas sim janelões altos, ocupava e ainda hoje lá está, o limite do Largo por este lado.

Quando era bem miúdo, por volta de 1943/44, não havia estrada, era caminho de terra batida e só mais tarde foi feita com passeio junto ao velho casarão e o do lado oposto que separava o largo.

A estrada para Lisboa bem estreita que era, passava junto ao antigo seminário e onde entroncava a travessa do Postigo, que ainda existe, passava junto ao estabelecimento comercial do Sr. Joaquim Vicente Serrão lembro-me bem da sua figura, pouco depois nela ia entroncar uma das principais vias da cidade que tinha como “baluartes” de um lado a nova estação dos CTT e do outro a C.G. Depósitos.

Recordo com alguma saudade uma cabina cilíndrica envidraçada a partir de determinada altura, pintada de vermelho e branco, se a memória não me engana, que se situava mesmo em frente da rua e constituía a estação semafórica da altura e onde se encontrava um polícia com capacete branco que manualmente ia regulando o trânsito através dos sinais luminosos de verde, amarelo e vermelho.

O povo chamava-lhe a “Gaiola do Canário”. A estrada para Lisboa continuava passando próximo do local onde se situou a Porta de Manços e onde fazia uma curva acentuada junto à qual e no Largo das Amoreiras se encontrava um fontanário muito movimentado e conhecido por” Fonte do Boneco”, desconhecendo eu a razão do topónimo. Lembro-me muito bem de que quando ia para a escola do Pereiro, não a actual mas a que foi destruída e isto em 1945/46, tivesse sede ou não, nunca deixava de ali beber água. A estrada continuava junto ao casario e onde se encontrava uma das mais afamadas tabernas de Santarém, a Taberna do Peste e ia passar mesmo junto à então capela mortuária do hospital. Pouco depois existiam as escadinhas de acesso à Rua Prior do Crato, então das mais novas do meu bairro, onde a construção subiu em altura mas sem rua pavimentada, o que aconteceu muito depois.

Mais abaixo e do lado esquerdo encontrava-se a antiquíssima Fonte das Padeiras, então de boa água e a que recorria a gente do meu bairro quando a água faltava nas torneiras.
Algumas vezes lembro de lá ir fazer a recolha.

Pelo que acabei de escrever, o Largo das Amoreiras situava-se entre o fachada principal do hospital de Jesus Cristo, a fachada lateral do Quartel do Regimento de Artilharia 6 e a estrada que ia para Lisboa passando junto àquele casario onde se destacava pelo movimento a Taberna do Peste onde havia sempre petinguinhas ou jaquinzinhos fritos e outros petiscos do género.

Era nesta taberna que se formalizava o contrato de pessoal para os serviços agrícolas selado com o pagamento do patrão ou seu representante (feitor, capataz) da molhadura, ou seja, meio litro de vinho.

Era em frente da taberna e no Largo das Amoreiras que ao domingo e dentro de determinado horário que o uso e costume marcou que se juntassem os homens à procura de trabalho e aqueles que precisavam deles.

O Largo das Amoreiras era totalmente térreo tendo alguns bancos espalhados junto do tronco de velhas árvores, muitas delas quase secas. Certamente que algumas seriam amoreiras para justificar o aparecimento do nome mas não tenho qualquer ideia sobre isso. Que eram troncos grossos e alguns meios secos, isso lembro-me bem, tal como dos bancos constituídos por duas únicas tábuas, uma servindo de assento e a outra para recosto. Eram fixas por grossos parafusos a dois pés de ferro forjado com alguma elegância e fixos a blocos de pedra calcária.

Lembro-me de ouvir contar ao meu pai que numa entrada de toiros, que eram da ganadaria (?) Caroça, os quadrúpedes arrancaram parte dos bancos, tal era a sua bravura!

Outra coisa que ainda permanece na minha memória é o facto de entre o Largo das Amoreiras e a fachada lateral do quartel, na altura das seculares Feiras da Piedade e do Milagre que tinham lugar no Campo Fora-de-Vila, os feirantes estenderem-se para aí, principalmente os vendedores de fruta (lembro-me dos peros aos montes) e de louça de barro.

Com a construção do Palácio da Justiça (fins da década de 50) e a abertura da Avenida Sá da Bandeira, a estrada para Lisboa mudou de trajectória indo passar ao meio do Largo das Amoreiras que desapareceu totalmente tendo-se procedido ao seu ajardinamento, à colocação da estátua de Pedro Álvares Cabral, hoje junto à Igreja da Graça, à instalação de uma ou duas “bombas de gasolina” e à feitura de sanitários subterrâneos.

Depois disto que conheci bem, sei que tem havido várias transformações mas que não sei descrever.

Quando por lá passo, parece-me que não sei onde estou!

N.B.
A foto apresentada e da autoria do Major Fernando de Carvalho Tártaro é um recorte da que consta do Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937 – 1940. Ainda não existia a “gaiola do canário”.
JV

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Manuel Latino


Nasceu em Santarém em 1878.

Seguiu a carreira militar e em 1940 era general. A par da sua profissão esteve sempre muito ligado ao desporto, principalmente ao equestre.

Foi comandante do Regimento de Cavalaria Nº 2, da Escola Prática de Cavalaria (1935/37), da 1ª Brigada de Cavalaria, em Estremoz, inspector e director da mesma arma.

Foi membro da Sociedade de Geografia.

Desempenhou as funções de presidente da Comissão Superior de Educação Física do Exército, da Federação Equestre Portuguesa e foi fundador da Sociedade Hípica Portuguesa, em 1910, de que foi director durante 20 anos.

Conquistou a taça «Rainha D. Amélia» em 1902, em Torres Novas e foi campeão de sabre. Já como Brigadeiro ganhou em 1932 um «Cross Country».

Mestre de equitação na Escola do Exército em 1915, foi chefe da equipa de cavaleiros portugueses em vários concursos hípicos, como em Madrid, Paris, Roma e Milão, entre outros e isto entre 1924/34. Foi presidente do Comité Olímpico Português (1946).

Durante 20 anos organizou os concursos hípicos da Figueira da Foz, e igualmente prestou a sua colaboração na organização dos concursos e corridas na Marinha, Campo do Jockey e Estoril.

Presidiu à comissão organizadora da 1ª Exposição Triunfal dos Desportos, em 1934.

Quando o General Alberto da Silveira foi ministro da Guerra, fez parte do seu gabinete sendo seu delegado na cerimónia de inauguração do Monumento aos Mortos Portugueses, em Gand, 1928.

Entre as várias condecorações contam-se o Grande Oficialato de Cristo, Avis e da Ordem de Instrução, Comendador da Ordem de Santiago de Espanha e Grã-Cruz de Avis.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971

terça-feira, 5 de abril de 2011

P. José Maria Antunes

(Publicado no Correio do Ribatejo de 21 de Abril de 2011)



Nasceu em Santarém em 22 de Maio de 1856.

Entrou para o seminário em 1867 após selecção entre quarenta e cinco concorrentes e quando o mesmo abriu na antiga rua de S. Lázaro em Santarém (actual Pedro de Santarém).

Em 1870, quando a casa fechou as portas e os padres transitaram para Gibraltar, acompanhou os mestres.

Foi para França onde se ordenou nos seminários da Congregação do Espírito Santo.

Em 1881, é professor de Ciências Naturais no Colégio do Espírito Santo em Braga.

No mesmo ano, o Padre Duparquet regressa duma viagem à Europa acompanhado pelo padre José Maria Antunes, que funda a missão da Huila, mandando arrotear 2000 hectares de terreno e dirigindo uma exploração agrícola em moldes evoluídos, numa tentativa para influenciar os nativos, devendo-se a ele o grande impulso para a evangelização do Sul de Angola, tendo contribuído para melhorar o nível de vida das populações.

Durante 23 anos desenvolveu uma actividade notabilíssima como pároco e superior da missão.

Por sua iniciativa e em direcção à parte oriental são fundadas as missões de Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quiíta (1893), Munhino (1898) e por último Gambos (1894).

Em 1904 vem para a metrópole na qualidade de Provincial, cargo que ocupa até 1910, quando foi extinta em Portugal a Congregação do Espírito Santo a que sempre pertenceu.

O Padre José Maria Antunes foi também um cientista no campo da ornitologia e da botânica.

Os museus de Berlim, Paris e Coimbra de História Natural beneficiaram com o envio de amostras por si recolhidas em Angola.

Faleceu em 1928.

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Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, Edição da Comissão Municipal de Turismo de Santarém, 1971.

História de Portugal, Vol. XI, Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo, 1989.

http://www.pessoalissimo.com/Terra/Lubango resenha-historica.htm

http://www.muhuila.hpg.ig.com.br/lubango.htm

domingo, 3 de abril de 2011

Os gravateiros

(Publicado no Correio do Ribatejo de 8 de Abril de 2011)



A gravata é um acessório que vem de épocas recuadas e que o andar dos tempos tem provocado transformações.

Segundo os entendidos parece que a designação «gravata» seria proveniente da deformação da palavra croata já que os soldados desta origem e recrutados pelo rei de França, Luís XIII, traziam um lenço atado ao pescoço.

A primitiva razão da existência deste acessório pensa-se que tem a ver com o suor produzido, recorrendo-se a ela para o minorar, por isso, como sudário.

Em meados do século XVII começa a ser usada por Luís XIV, estendendo-se a toda a corte, de seda, adornada de rendas e já com um sentido diferente.

O uso, naturalmente, espalhou-se por toda a Europa e por todo o Mundo com transformações acentuadas.

Nos princípios do século XIX, se um homem tocasse o lenço no pescoço de outro a ofensa era tão grave que poderia acabar em duelo.

Em meados do século XIX começam a surgir novas maneiras de atar as gravatas.

Parece que o actual estilo de gravata é do primeiro quartel do século passado e tem origem nos Estados Unidas da América, tornando-se mais funcional, mais longa e mais estreita.

Três dos dicionários que consultámos apresentam as seguintes definições: “Pedaço de tecido, de formas diversas, que se ata em volta do pescoço” (Dicionário Prático Ilustrado, Dir. de Jaime de Séguier, 1972), “Manta, laço ou fita que orna o pescoço” (Dicionário da Língua Portuguesa de Fernando J. da Silva, 4ª Edição, 1984) e “acessório de vestuário masculino, que consiste numa tira de tecido, estreita e comprida, usada em volta do pescoço, por baixo do colarinho da camisa, formando um nó à frente” (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001)

Como se pode verificar, os três dicionários que escolhemos com alguma distância no tempo, apresentam definições com alguma diferença, pois naturalmente verifica-se com o decorrer dos tempos o ajustamento adequado.

O dicionário mais recente já indica a gravata como acessório de vestuário masculino ainda que tenhamos visto muita mulher de gravata.

A pouco e pouco a gravata torna-se um acessório indispensável ao homem que o usa por obrigação em muitos casos, principalmente em determinadas profissões e em que não há liberdade de escolha, mas para o cidadão comum pode proporcionar um toque de elegância. Quem não pusesse gravata, julgava-se que não estava bem vestido!

No nosso tempo de liceu começou a ser obrigatório o uso de gravata pelos rapazes e quando não fossem portadores dela apanhavam uma falta a vermelho (de castigo). As raparigas não podiam “andar em pernas”, isto é, tinham de usar meias.

Apesar de tantos anos passados lembramo-nos da polémica que tal causou e havia um professor que não concordava nada com isso, ainda que nunca o tivesse dito, exigindo aos alunos que transportassem a gravata, mas não lhe interessava onde, acontecendo que se engravatavam as mais variadas partes do corpo.

Este professor de que nunca fomos aluno, não podemos precisar se antes ou depois, causou alguma polémica, para não dizer escândalo, usando umas bonitas sandálias, às quais, sendo poeta, dedicou uns versos.

Em todas as repartições públicas era obrigatório o uso da gravata, assim como em todas as profissões em que se tinha que atender público, ninguém o fazia sem estar convenientemente engravatado.

Ninguém ia para um baile sem levar gravata, ninguém ia para uma pequena festa sem levar gravata, isto para não falar em cerimónias mais pomposas como casamentos, baptizados ou festas de anos.

Quem é que ia a um funeral sem levar uma gravata preta? Ninguém.

A gravata passou a constituir um luxo e mudava-se quase diariamente.

É assim que em concorrência com as casas da especialidade aparecem os vendedores ambulantes de gravatas, os chamados gravateiros, que originaram o título desta croniqueta e que vendiam mais em conta.

Estes homens governavam a vida só vendendo gravatas, tal a venda que faziam! Usavam na sua actividade uma barra de madeira com cerca de um metro de comprimento à qual fixavam, nas extremidades, uma correia de cabedal com aproximadamente dois dedos de largura proporcionando um arco que passava pelo pescoço, suportando assim a barra onde colocavam as dezenas de gravatas que transportavam das mais variadas cores e padrões. Havia gravatas para dois ou três preços, proporcionando desta forma satisfazer toda a clientela.

Percorriam as ruas do velho burgo, fazendo aquilo a que se chamava a volta dos tristes, começando no “Largo do Seminário”, Rua de S. Nicolau, Rua da Misericórdia, Praça Velha, Rua Direita e voltando ao Largo do Seminário. É claro que por vezes faziam alguns desvios a ruas próximas, que tivessem na altura mais movimento ou onde pudessem passar fregueses habituais. Tiravam uma gravata do mostruário, simulavam um nó e procuravam mostrar ao freguês que lhe ficava muito bem com aquele fato.

Quando o negócio estava mais fraco na velha cidade, apareciam esporadicamente num bairro periférico ou então deslocavam-se em transportes públicos às vilas das redondezas, como Cartaxo, Almeirim e Alpiarça e possivelmente a outras.

Hoje a gravata já não tem o mesmo significado que tinha e o seu uso decresceu imenso, havendo mesmo homens que praticamente nunca a usaram ou se o fizeram foi em momentos muito especiais.

Pela nossa parte ainda possuímos uma ou duas dúzias de gravatas mas confessamos que raramente as pomos. Trabalhámos num concelho onde as altas temperaturas verificadas obrigavam-nos a tirar a gravata logo que terminávamos o trabalho e a partir daí nunca mais utilizámos a gravata como era de costume. Este texto no momento em que o escrevemos nem tínhamos gravata apesar de o ambiente estar fresco!

Esta diferença de comportamento pode ser observada no dia a dia em qualquer lugar, incluindo nos “audiovisuais” .

Em meados do século passado os gravateiros davam colorido ao velho burgo escalabitano sendo uma parte importante do fervilhar comercial que então a velha cidade possuía e hoje em completa decadência.

Gravateiro, uma actividade extinta como tantas outras!

Conversando com o visitante / leitor

A criação deste blogue CORREIO DAS LEMBRANÇAS teve por intuito republicar textos que saíram durante alguns anos no semanário Correio do Ribatejo, o que deu origem a 264” postagens” distribuídas por assuntos como Temas Varzeenses, Memórias do Meu Bairro, Figuras Ribatejanas e outros.

Neste espaço de tempo, iniciado a 23 de Abril de 2009, durante todas as semanas houve algo para ler ou reler, o que deu origem a algum movimento que o contador indica, notando-se recentemente um aumento de visitantes, principalmente neste último mês em que não se fizeram postagens.

Acontece que os textos publicados acabaram por se esgotar, ainda que nos possa ter passado um ou outro que não tenha sido publicado por razões diversas.

Ainda que os visitantes / leitores se tenham manifestado pouco através do nosso e-mail indicado no blogue, a verdade é que alguns o fizeram, verificando-se até transcrição de textos e a reprodução de um nosso desenho como aqui demos conhecimento.

Talvez não seja descabido fazer uma pequena análise a este período, notando-se que as Figuras Ribatejanas foram o Tema que mereceu maior número de” postagens”, ficando as Memórias do Meu Bairro e os Temas Varzeenses praticamente lado a lado, aliás, como o próprio blogue indica.

Havendo estatísticas desde Maio do ano passado, passamos a indicar os 10 artigos mais visitados desde aquela altura até hoje:


1º - D.LEONOR DE PORTUGAL (2009.09.15)
2º - INFANTE D. JOÃO (2009.08.22)
3º - UM BAILE DA PINHATA (2010.03.21)
4º - FRANCISCO CÂNCIO (2009.05.31)
5º - A TOPONÍMIA (VÁRZEA) (2009.07.24)
6º - O PROFESSOR OLIVEIRA FEIJÃO, MÉDICO E LAVRADOR (2010.01.01)
7º - O ESPAÇO, ONDE E COMO É (2010.06.04)
8º - A TOPONÍMIA (DO MEU BAIRRO) (2010.05.17)
9º - A IGREJA DE Nª Sª DA CONCEIÇÃO DA VÁRZEA (MATRIZ) (2010.01.07)
10º - FREI LUÍS DE SOUSA (2010.11.14)


Verifica-se assim que as Figuras Ribatejanas têm quatro representantes, os Temas Varzeenses igualmente com quatro e as Memórias do Meu Bairro com dois.

As 10 219 visitas oriundas de 47 países originaram uma média diária de 10, 15, sendo as postagens realizadas com uma média de 3,8 (dia).

O CORREIO DAS LEMBRANÇAS irá entrar agora numa segunda fase onde irão ser publicados textos inéditos que englobarão os temas já referidos e outros que venham a surgir.

Iremos abrir uma nova rubrica que tem por título QUADROS DE SANTARÉM DO MEU TEMPO e onde procuraremos apresentar coisas já passadas.

Caro Visitante / leitor: Obrigado pela sua visita.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O menino fez anos

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 24 DE ABRIL DE 2009)

[Nº 1 do Correio da Extremadura, actual Correio do Ribatejo]

Mais um ano se passou e o nosso MENINO, que tem um grande defeito que é não chegar a velho, trôpego e caduco, foi apaparicado pelo jovem e dinâmico preceptor com o auxílio de amas e de aios que nunca o esquecem e de mais criadagem. Alguns já o vêm fazendo há dezenas de anos, enquanto outros acabaram de chegar e que naturalmente acabam por fazer a necessária renovação mas sempre com o mesmo espírito, servir como podem e sabem o MENINO que conta com 118 ANOS apenas!

Onde é que encontram outro MENINO semelhante? Procurem, procurem, mas não será fácil encontrá-lo.

Este ano o MENINO teve uma prenda especial, é uma coisa que todos os MENINOS gostam de ter – uma foto!

Mas não pensem que é uma foto qualquer, daquelas que com o decorrer dos anos e o maior ou menor manuseamento se vão esfumando no tempo, não, esta é para ficar e não há manipulação que a faça desaparecer!

Trinta anos já estão, mas estamos convencidos que a pedalada vai decorrer a bom ritmo para bem de todos e principalmente da cidade de Santarém que assim conserva um tesouro que só as novas tecnologias permitem e que irá ficar disponível a meio-MUNDO!

Preservar 118 ANOS escritos em milhares de páginas sobre o Ribatejo e em particular a cidade de Santarém, terá certamente o reconhecimento dos vindouros que nos sucederão.

Festas e acontecimentos nefastos, factos notórios da vida do nosso País e da nossa região, lutas, guerras, desavenças, amizades, uniões e altruísmo, homenagens das mais variadas origens, crimes e acções abnegadas, prosa e poesia, investigação científica, páginas e páginas de história, nascimentos, casamentos e mortes. E a importância que os anúncios têm para a análise de uma região? Eu sei lá, é um MUNDO. As palavras foram-me saindo ao acaso e sem ordem mas muitas mais poderiam ter saído.

De tudo tem o NOSSO MENINO.

Não faltaram os “parabéns a você” cantados com júbilo, o bolo e o espumante.

De carácter pessoal, quero deixar aqui o meu agradecimento à Câmara Municipal na pessoa do Senhor Presidente Moita Flores, um homem, que contra o que é habitual, tem sensibilidade para estes assuntos como nos demonstrou na intervenção que fez.

Sem desprimor para ninguém, permitam-me uma palavrinha especial para dois “velhos”aios, João Moreira e Bertino Martins que há muitos anos vão prestando valiosa e abnegada colaboração ao NOSSO MENINO.

Venham muitos mais anos!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um poeta

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 13 DE ABRIL DE 2006)

Chegou-me há dias, por e-mail, um poema acabadinho de sair da verve de um velho amigo que já não vejo à perto de trinta anos mas nem por isso deixamos de contactar, por vezes com distância de anos, conforma as ocupações e confusão da vida nos possibilitam, em momentos especiais nunca nos esquecemos.

Nada me admirou a origem até porque conheço o pseudónimo de Ricardo Ilhéu, à volta de cinquenta e cinco anos, ou seja, praticamente desde a altura em que começou a rimar.

Fui sempre um confidente, como o ser humano gosta de usufruir e naquelas idades ainda mais. Mostrava-os e procurava-me explicar, como só um poeta sabe, o jogo e significado das palavras com a liberdade que lhe é própria.

Não lhe podia retribuir na mesma moeda pois nunca tive engenho para tal mas, mesmo assim consegui fazer a muito custo, ainda que mal feitas meia dúzia de coisas, confirmando a gíria popular de que todos os portugueses alguma vez na vida, fizeram rimas ou jogaram com as palavras.

Ricardo Ilhéu, cujo pseudónimo tem a ver com as suas origens, é neto materno de um poeta laureado e a que me referi, pelo menos duas vezes, nos meus Temas Varzeenses, apresentando mesmo poesia inédita.

Conheci o meu velho amigo nos bancos do liceu de Santarém, no primeiro ano, ele era o nº 3 e eu o 6, o que nunca nos esqueceu.

No ano seguinte vem viver com a família para o MEU BAIRRO, morando junto às escadinhas da Rua Fernão Lopes de Castanheda num prédio acabado de construir e aqui passou toda a adolescência, entrando com facilidade no ambiente que se vivia no bairro, sendo um dos fundadores do Grupo Desportivo Bairro dos Combatentes.

[Escadinhas da Rua Fernão Lopes de Castanheda. Foto JV]

Eu não sou ninguém para avaliar o trabalho. Há poemas que por mais que leia, não me dizem nada. Possivelmente o mal é meu; contudo, outros soam-me bem ao ouvido, o jogo de palavras é harmonioso e consigo aproximar-me, julgo eu, do sentir do poeta, foi o que aconteceu com este.


GAIVOTA? HUM!...













Ali estava ela!
Gaivota, beleza alada,
Perdida, pousada
No peitoril da janela.

Que queria ela?

Está perto do mar,
É certo,
Mas para ela, decerto
Aqui é deserto!!

Que tenho para lhe dar?

O aconchego de um lar
Que não tenho?

Restos de um repasto que não tive?

Remanso de um lugar
Onde não estive?

Gaivota
É como velha devota.
Volta sempre ao lugar que a alimenta,
Quieta no silêncio,
Para depois soltar o grito
Aflito
Afastando-se da tormenta,
Voando no vazio.
Pássaro vadio,
Filho, enteado do mar
Que o acolhe quando escurece,
Que o afasta quando se enfurece.

Esconde-se entre os penedos
Sem os mesmos medos
Que me assolam
Nas noites sós,
Agora já não atormentadas
De dependente, superdependente
De um amor ardente
Que me consumiu
- lugar comum –
para depois me reabilitar
e voltar
a permitir-me viver,
Viver,
VIVER!
Como sempre quis estar
Nesta vida
Sofrida,
Bailada,
Balanceada
entre o comum e o erudito,
entre o dito e o não dito,
rasgo luminoso que me orienta.
Placenta
que serve de caldo
a um novo ser
que há-de viver,
sem sofrer,
igualar,
egualitar,
estar com ela com verdade,
sem ansiedade

gritando:

VIVA A LIBERDADE!!!


Algures no Porto, 2006.03.03

RICARDO ILHÉU


Aqui fica este poema que eu não sei avaliar tecnicamente mas que me soa bem e onde sinto perpassarem angústias e desilusões mas ainda e sempre, vontade de VIVER.

Ricardo Ilhéu que viveu no MEU BAIRRO, ainda que não tantos anos como eu, mas na minha época e que acabou por motivar esta MEMÓRIA, está preparando nesta fase de vida o seu primeiro livro de poesia.

Que venha ele, meu velho e que a vontade de VIVER nunca te falte.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A minha tabacaria

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 7 DE AGOSTO DE 2009)

Na minha juventude as tabacarias eram estabelecimentos comerciais com um certo requinte e que além de tabaco representado pelos maços de cigarros de variadas marcas de que me lembro como o Português Suave, Paris, depois Avis, Porto, Sporting, eu sei lá, um nunca mais acabar de marcas. Ainda que existisse, já tinha caído em desuso o tabaco de onça, tendo quase todas as marcas se adaptado aos cigarros feitos.

Vendia-se em carteiras o tabaco para cachimbo, caixas de cigarrilhas e charutos, com destaque para os cubanos, já afamados.

Para os apreciadores existiam à venda cachimbos e boquilhas, algumas apetrechadas com filtros no sentido de reter a nicotina.

Vendiam-se as caixas de fósforos “Joaninha” ou “Quinas”, carteiras para os mais pretensiosos e livros de mortalhas (Fundador? Conquistador?)

Não faltavam as cigarreiras de tipos e preços variados.

Como complemento, havia as que vendiam lotaria, jornais, revistas, pequenas utilidades e “souvenires”.

Tudo isto naturalmente se transformou e as tabacarias estão hoje transformadas em máquinas “self-service” que além de evitar a mão-de-obra e engano nos trocos, eliminam quem se ia embora sem pagar!

Quando comecei a fumar o meu cigarrinho e não me esqueço que era da marca Avis, não havia dinheiro para comprar um maço, nem pensar, nem eu nem a quase totalidade dos meus amigos e colegas.

Nós não tínhamos dinheiro para ir às tabacarias e existiam várias na cidade, situadas em pontos estratégicos e que não precisavam de grandes espaços. A mais conhecida talvez fosse a que se situava ao fundo da Rua Guilherme de Azevedo. Outra de que me lembro optou pela Rua de S. Nicolau.

A urbanização dos terrenos entre Sta. Clara e S. Bento após a construção do liceu e de que me recordo em grande parte, constituía a residência da burguesia/nobreza não existindo, como ainda acontece, qualquer estabelecimento comercial, como bem se compreende.

Nas “costas” do Convento de S. Francisco, ultimamente bem badalado por bons motivos, no começo da Travessa de Santa Clara, existia um pequeno estabelecimento comercial misto, se a memória não me atraiçoa, uma merceariazita e uma pequena tasca, onde nunca entrei.

[Local onde se encontrava a mercearia do Sr. António. Foto JV]

O Sr. António, penso que era esse o seu nome, era o protótipo do comerciante do ramo e da época.

Olhos e cabelo preto, puxado para trás, rosto redondo onde sobressaía aparado bigode, estatura meã, para o forte, tinha sempre vestido o guarda-pó, peça característica dos comerciantes do ramo.

Ao meio do balcão de madeira, estava a grande balança “Pessoa” que controlava os pesos, pois nessa época ainda eram poucos os embalados.

Uma gaveta que se abria e fechava à chave sempre que dela necessitava era o local do dinheiro. De outra ao lado, aviava-nos vendendo três cigarros “Avis” por cinco tostões e era um corrupio!

Tornava-se a maneira de ele vender tabaco e nós de fumarmos um cigarrinho visto não haver dinheiro para um maço. Por outro lado se alguém comprasse um maço os veteranos acabavam com ele.

Dos três cigarros que comprávamos, na melhor das hipóteses fumávamos dois pois o outro era “cravado”por um amigo. E cinco tostões só havia uma vez por semana!

O Sr. António era uma pessoa muito compreensiva e educada. Nunca me lembro de qualquer zaragata com ele.

Então, não é que numa das últimas visitas que fiz à cidade, quando olhei para recordar a minha “tabacaria” já não existia! Tive de fazer uma fotografia! Que pena não a ter feito antes! Mesmo em ruína gostava de olhar para aquela casa onde ia comprar os meus cigarritos e recordar o Sr. António.

Os cigarros acabaram para mim há 28 anos.

Os lugares de referência da minha adolescência vão desaparecendo.

Qualquer dia não sei andar na cidade!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um fantasma chamado bicicleta

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 16 DE JANEIRO DE 2009)

Há quanto tempo eu não escrevo uma MEMÓRIA DO MEU BAIRRO!

Tive que recorrer ao meu arquivo pessoal para me certificar!

A LXVI teve por título UM POETA e foi publicada em 13 de Abril de 2006! Já lá vão quase três anos!

A falta de publicação não tem a ver com a menor falta de interesse pela rubrica, mas sim pela falta de assuntos que venham à nossa memória.

Quem escreve principalmente sobre o passado, como acontece comigo, tem que encontrar assunto para o fazer, que aparece quando menos se espera. Salta o clique e o tema começa a germinar até dar origem a um pequeno escrito sobre o passado distante mas que a memória ainda conserva, se não com total rigor, pelo menos no que é fundamental.

Avô babado não tenho vergonha de o dizer, apesar da minha neta ainda não ter três anos, além daquilo que ela desejava, um tambor, resolvi comprar-lhe uma bicicleta com o argumento de que para o ano posso já não estar cá. Até agora não pensava nisso, mas pela idade ou pela presença da neta, já me vem muito ao pensamento.

Afinal eu não estou a escrever para falar da minha neta, mas sim de algo que me fez recuar cerca de sessenta anos.

Depois de escolhido o velocípede (tamanho, cor etc.) em casa da especialidade e não naquelas grandes que têm à porta para chamar a atenção, muitas vezes uns grandes “balões”com uns hieróglifos que desconhecemos, fomos efectuar o pagamento.

O balcão servia de montra para mostrar interessantes miniaturas de veículos de duas e três rodas, havendo um que me atraiu especialmente, prendendo a minha atenção. Tratava-se de um biciclo muito parecido com um que via circular lentamente no MEU BAIRRO e que levava toda a garotada atrás.

A roda dianteira é muito maior do que a traseira e é essa circunstância que define o biciclo.

Para nós era uma bicicleta FANTASMA com o condutor lá em cima. Bastaria isto para nos despertar a curiosidade, mas havia mais. O homem vestia um fato branco e penso que tinha um laço em vez de gravata. Usava chapéu alto (preto? branco? não posso precisar). Para ser bem ouvido, falava através de um altifalante (espécie de funil), lançando pregões no sentido de vender o seu jogo (lotaria).

Não era muito frequente a sua aparição no MEU BAIRRO, pelo contrário, mas quando aparecia funcionava como dia de festa para a rapaziada que aos magotes o seguiam, isto enquanto estivesse no bairro porque a partir daí, a grande maioria, como a mim me acontecia, não tinha autorização dos pais para ir para a cidade, como na altura se dizia. O Bairro era o bairro, a Cidade a cidade!

Se a memória não me atraiçoa, o meu pai dizia-me que aquela bicicleta era propriedade de um meu tio-avô, que a alugava aos interessados.

Certamente haverá leitores que recordarão este quadro tão bem ou melhor do que eu.

Quando irá acontecer uma nova MEMÓRIA? Não faço ideia, é preciso que o clique apareça e faça faísca.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Xavier do Monte

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 27 DE FEVEREIRO DE 2009)

Esta rubrica podemos considerá-la infinita tal o número de Figuras que pode ser referido numa área geográfica tão vasta.

Num destes dias e a fim de nos podermos documentar para um pequeno escrito que estamos a organizar dirigimo-nos à biblioteca local para efectuarmos algumas consultas, principalmente na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que, digam o que disserem e apesar de algumas desactualizações é uma fonte de informação geral que não reconheço outra igual.

Ao fazermos a nossa busca, apareceu-nos esta Figura Escalabitana que desconhecíamos totalmente e que considerámos com algum importância.

Dos autores que conheço e penso que são os principais que se dedicaram a compilações deste tipo, nenhum a refere, possivelmente pela importância ser relativa.

Depois desta pequena informação que não indica as datas do nascimento nem do falecimento, procurámos nos actuais meios tecnológicos mais informação, mas a verdade é que o pouco que aparece é praticamente aquilo que a Grande Enciclopédica Portuguesa e Brasileira nos fornece.

Penso que transpor para este periódico os dados que recolhemos se justifica.

José Pedro Xavier do Monte nasceu em Santarém onde exerceu medicina e teria falecido depois de 1788, data do último livro que publicou e que se conhece.

Publica e tendo por base o seu saber científico, O homem médico de si mesmo, ou sciencia, e arte nova de conservar cada hum a si próprio a saúde, e destruir a sua doença... Lisboa, na Off. de António Vicente da Silva, 1760.

O título apresenta alguma curiosidade.

Em 1767 escreveu O Chumacinho Furtado, epopeia jocosa dedicada à Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Genovena Ferreira Nobre Rossi, por um Ermitão do Parnaso, (que constituía o seu pseudónimo), 1767.

A outro dos seus poemas deu o título:- Sapatos de Cetim Azul Ferrete, poema herói-cómico em seis cantos, por um Hortelão do Helicon (possivelmente outro pseudónimo que utilizou), dedicado à Excelentíssima Senhora D. Isabel Bernarda Xavier de Moura Latre, religiosa do Convento da Santa Clara de Santarém, 1769.

[Convento da Santa Clara em Santarém. Fins do séc.XIX, Foto Sequeira]

Conhece-se depois À feliz aclamação da Augustíssima Rainha Nossa Senhora D. Maria no trono da monarquia portuguesa, Lisboa Régia Off. Typográfica, 1777.

O último trabalho literário que se lhe conhece, também tem a ver com a terra onde nasceu e intitula-se: A Egidéa: poema ou a Historia da protentosa vida do grande Penitente S. Fr. Gil Portuguez... Offerece-a ao mesmo Santo como advogado contre sezões, e gota, hum Santareno devoto do seu Tumulo, e Veneráveis Relíquias, que se venerão incorruptas na própria Capella do Convento da sua mesma Ordem, na famosa e sempre Leal Villa de Santarém, Lisboa: na Off. de Simão Thaddeo Ferreira, 1758.

Há quem atribua este poema a Frei José do Espírito Santo Monte, franciscano, igualmente natural de Santarém, pregador e cantochanista de renome.

Foi o que conseguimos obter sobre esta Figura Escalabitana.

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Pequena nota
Recentemente, encontrei referências a esta Figura no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, Tomo IV, 1860 que pouco adianta a não ser algumas considerações não lisonjeiras sobre o médico e escritor.