domingo, 20 de fevereiro de 2011

A minha tabacaria

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 7 DE AGOSTO DE 2009)

Na minha juventude as tabacarias eram estabelecimentos comerciais com um certo requinte e que além de tabaco representado pelos maços de cigarros de variadas marcas de que me lembro como o Português Suave, Paris, depois Avis, Porto, Sporting, eu sei lá, um nunca mais acabar de marcas. Ainda que existisse, já tinha caído em desuso o tabaco de onça, tendo quase todas as marcas se adaptado aos cigarros feitos.

Vendia-se em carteiras o tabaco para cachimbo, caixas de cigarrilhas e charutos, com destaque para os cubanos, já afamados.

Para os apreciadores existiam à venda cachimbos e boquilhas, algumas apetrechadas com filtros no sentido de reter a nicotina.

Vendiam-se as caixas de fósforos “Joaninha” ou “Quinas”, carteiras para os mais pretensiosos e livros de mortalhas (Fundador? Conquistador?)

Não faltavam as cigarreiras de tipos e preços variados.

Como complemento, havia as que vendiam lotaria, jornais, revistas, pequenas utilidades e “souvenires”.

Tudo isto naturalmente se transformou e as tabacarias estão hoje transformadas em máquinas “self-service” que além de evitar a mão-de-obra e engano nos trocos, eliminam quem se ia embora sem pagar!

Quando comecei a fumar o meu cigarrinho e não me esqueço que era da marca Avis, não havia dinheiro para comprar um maço, nem pensar, nem eu nem a quase totalidade dos meus amigos e colegas.

Nós não tínhamos dinheiro para ir às tabacarias e existiam várias na cidade, situadas em pontos estratégicos e que não precisavam de grandes espaços. A mais conhecida talvez fosse a que se situava ao fundo da Rua Guilherme de Azevedo. Outra de que me lembro optou pela Rua de S. Nicolau.

A urbanização dos terrenos entre Sta. Clara e S. Bento após a construção do liceu e de que me recordo em grande parte, constituía a residência da burguesia/nobreza não existindo, como ainda acontece, qualquer estabelecimento comercial, como bem se compreende.

Nas “costas” do Convento de S. Francisco, ultimamente bem badalado por bons motivos, no começo da Travessa de Santa Clara, existia um pequeno estabelecimento comercial misto, se a memória não me atraiçoa, uma merceariazita e uma pequena tasca, onde nunca entrei.

[Local onde se encontrava a mercearia do Sr. António. Foto JV]

O Sr. António, penso que era esse o seu nome, era o protótipo do comerciante do ramo e da época.

Olhos e cabelo preto, puxado para trás, rosto redondo onde sobressaía aparado bigode, estatura meã, para o forte, tinha sempre vestido o guarda-pó, peça característica dos comerciantes do ramo.

Ao meio do balcão de madeira, estava a grande balança “Pessoa” que controlava os pesos, pois nessa época ainda eram poucos os embalados.

Uma gaveta que se abria e fechava à chave sempre que dela necessitava era o local do dinheiro. De outra ao lado, aviava-nos vendendo três cigarros “Avis” por cinco tostões e era um corrupio!

Tornava-se a maneira de ele vender tabaco e nós de fumarmos um cigarrinho visto não haver dinheiro para um maço. Por outro lado se alguém comprasse um maço os veteranos acabavam com ele.

Dos três cigarros que comprávamos, na melhor das hipóteses fumávamos dois pois o outro era “cravado”por um amigo. E cinco tostões só havia uma vez por semana!

O Sr. António era uma pessoa muito compreensiva e educada. Nunca me lembro de qualquer zaragata com ele.

Então, não é que numa das últimas visitas que fiz à cidade, quando olhei para recordar a minha “tabacaria” já não existia! Tive de fazer uma fotografia! Que pena não a ter feito antes! Mesmo em ruína gostava de olhar para aquela casa onde ia comprar os meus cigarritos e recordar o Sr. António.

Os cigarros acabaram para mim há 28 anos.

Os lugares de referência da minha adolescência vão desaparecendo.

Qualquer dia não sei andar na cidade!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um fantasma chamado bicicleta

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 16 DE JANEIRO DE 2009)

Há quanto tempo eu não escrevo uma MEMÓRIA DO MEU BAIRRO!

Tive que recorrer ao meu arquivo pessoal para me certificar!

A LXVI teve por título UM POETA e foi publicada em 13 de Abril de 2006! Já lá vão quase três anos!

A falta de publicação não tem a ver com a menor falta de interesse pela rubrica, mas sim pela falta de assuntos que venham à nossa memória.

Quem escreve principalmente sobre o passado, como acontece comigo, tem que encontrar assunto para o fazer, que aparece quando menos se espera. Salta o clique e o tema começa a germinar até dar origem a um pequeno escrito sobre o passado distante mas que a memória ainda conserva, se não com total rigor, pelo menos no que é fundamental.

Avô babado não tenho vergonha de o dizer, apesar da minha neta ainda não ter três anos, além daquilo que ela desejava, um tambor, resolvi comprar-lhe uma bicicleta com o argumento de que para o ano posso já não estar cá. Até agora não pensava nisso, mas pela idade ou pela presença da neta, já me vem muito ao pensamento.

Afinal eu não estou a escrever para falar da minha neta, mas sim de algo que me fez recuar cerca de sessenta anos.

Depois de escolhido o velocípede (tamanho, cor etc.) em casa da especialidade e não naquelas grandes que têm à porta para chamar a atenção, muitas vezes uns grandes “balões”com uns hieróglifos que desconhecemos, fomos efectuar o pagamento.

O balcão servia de montra para mostrar interessantes miniaturas de veículos de duas e três rodas, havendo um que me atraiu especialmente, prendendo a minha atenção. Tratava-se de um biciclo muito parecido com um que via circular lentamente no MEU BAIRRO e que levava toda a garotada atrás.

A roda dianteira é muito maior do que a traseira e é essa circunstância que define o biciclo.

Para nós era uma bicicleta FANTASMA com o condutor lá em cima. Bastaria isto para nos despertar a curiosidade, mas havia mais. O homem vestia um fato branco e penso que tinha um laço em vez de gravata. Usava chapéu alto (preto? branco? não posso precisar). Para ser bem ouvido, falava através de um altifalante (espécie de funil), lançando pregões no sentido de vender o seu jogo (lotaria).

Não era muito frequente a sua aparição no MEU BAIRRO, pelo contrário, mas quando aparecia funcionava como dia de festa para a rapaziada que aos magotes o seguiam, isto enquanto estivesse no bairro porque a partir daí, a grande maioria, como a mim me acontecia, não tinha autorização dos pais para ir para a cidade, como na altura se dizia. O Bairro era o bairro, a Cidade a cidade!

Se a memória não me atraiçoa, o meu pai dizia-me que aquela bicicleta era propriedade de um meu tio-avô, que a alugava aos interessados.

Certamente haverá leitores que recordarão este quadro tão bem ou melhor do que eu.

Quando irá acontecer uma nova MEMÓRIA? Não faço ideia, é preciso que o clique apareça e faça faísca.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Xavier do Monte

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 27 DE FEVEREIRO DE 2009)

Esta rubrica podemos considerá-la infinita tal o número de Figuras que pode ser referido numa área geográfica tão vasta.

Num destes dias e a fim de nos podermos documentar para um pequeno escrito que estamos a organizar dirigimo-nos à biblioteca local para efectuarmos algumas consultas, principalmente na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que, digam o que disserem e apesar de algumas desactualizações é uma fonte de informação geral que não reconheço outra igual.

Ao fazermos a nossa busca, apareceu-nos esta Figura Escalabitana que desconhecíamos totalmente e que considerámos com algum importância.

Dos autores que conheço e penso que são os principais que se dedicaram a compilações deste tipo, nenhum a refere, possivelmente pela importância ser relativa.

Depois desta pequena informação que não indica as datas do nascimento nem do falecimento, procurámos nos actuais meios tecnológicos mais informação, mas a verdade é que o pouco que aparece é praticamente aquilo que a Grande Enciclopédica Portuguesa e Brasileira nos fornece.

Penso que transpor para este periódico os dados que recolhemos se justifica.

José Pedro Xavier do Monte nasceu em Santarém onde exerceu medicina e teria falecido depois de 1788, data do último livro que publicou e que se conhece.

Publica e tendo por base o seu saber científico, O homem médico de si mesmo, ou sciencia, e arte nova de conservar cada hum a si próprio a saúde, e destruir a sua doença... Lisboa, na Off. de António Vicente da Silva, 1760.

O título apresenta alguma curiosidade.

Em 1767 escreveu O Chumacinho Furtado, epopeia jocosa dedicada à Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Genovena Ferreira Nobre Rossi, por um Ermitão do Parnaso, (que constituía o seu pseudónimo), 1767.

A outro dos seus poemas deu o título:- Sapatos de Cetim Azul Ferrete, poema herói-cómico em seis cantos, por um Hortelão do Helicon (possivelmente outro pseudónimo que utilizou), dedicado à Excelentíssima Senhora D. Isabel Bernarda Xavier de Moura Latre, religiosa do Convento da Santa Clara de Santarém, 1769.

[Convento da Santa Clara em Santarém. Fins do séc.XIX, Foto Sequeira]

Conhece-se depois À feliz aclamação da Augustíssima Rainha Nossa Senhora D. Maria no trono da monarquia portuguesa, Lisboa Régia Off. Typográfica, 1777.

O último trabalho literário que se lhe conhece, também tem a ver com a terra onde nasceu e intitula-se: A Egidéa: poema ou a Historia da protentosa vida do grande Penitente S. Fr. Gil Portuguez... Offerece-a ao mesmo Santo como advogado contre sezões, e gota, hum Santareno devoto do seu Tumulo, e Veneráveis Relíquias, que se venerão incorruptas na própria Capella do Convento da sua mesma Ordem, na famosa e sempre Leal Villa de Santarém, Lisboa: na Off. de Simão Thaddeo Ferreira, 1758.

Há quem atribua este poema a Frei José do Espírito Santo Monte, franciscano, igualmente natural de Santarém, pregador e cantochanista de renome.

Foi o que conseguimos obter sobre esta Figura Escalabitana.

________________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Pequena nota
Recentemente, encontrei referências a esta Figura no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, Tomo IV, 1860 que pouco adianta a não ser algumas considerações não lisonjeiras sobre o médico e escritor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pombinhas de Santarém, pombinhas!

[Pombinhas. Retirado com a devida vénia de http://aminhacasaaopormenor.blogspot.com]

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE NOVEMBRO DE 2008)

Numa noite de insónias, frequente na minha idade, a fita da memória, sem sabermos porquê, começou a passar.

O que foi buscar para relembrar? Algo que conheci há cerca de sessenta anos!

Com certeza que muita gente da cidade se lembra daquilo que a “fita” me trouxe à memória.

Com cerca de dez anos, primeiro acompanhado de familiares, depois só, deslocava-me frequentemente à então vila de Almeirim que nessa altura, e como é compreensível, era uma sombra do que é hoje.

Para a deslocação eram utilizados os autocarros da extinta Camionagem Ribatejana, situada na Rua Passos Canavarro, vulgo travessa do Postigo. Lembro-me muito bem dos dois gerentes que eu penso serem igualmente proprietários. Um deles, para o forte, baixo, um pouco calvo e de aparado bigode bem preto. O outro, aparentemente mais velho, de pele clara, menos efusivo, muito calmo e extremamente delicado, delicadeza que o seu colega igualmente compartilhava.

Eram conhecidos dos meus pais que com eles trocavam sempre uma saudação quando não uma troca de palavras mais desenvolvida.

Mas afinal o que é que isto tem a ver com o título desta croniqueta?

O comércio ambulante, em regra utilizando produtos artesanais, feitos pelos próprios, por familiares ou adquiridos a artesãos, rondava pelos locais onde as pessoas mais se juntavam, como eram por exemplo os transportes públicos, pois nessa altura, ao contrário de hoje, bem poucos possuíam transporte próprio.

As camionetas entravam e saíam da garagem num rodopio e em muitos casos eram necessários desdobramentos!

Entre os vendedores ambulantes que frequentavam aquelas paragens, um ficou na minha memória e que dificilmente esquecerei.

De estatura meã e para o débil, era de origem africana, vestindo sempre fato branco que assim contrastava com a cor da sua pele.

Num tabuleiro de madeira que uma correia de cabedal ajudava a suportar, passando atrás do pescoço, arrumava as suas “pombinhas” feitas de massa de farinha de trigo, muito branca e levemente adocicada. O feitio representava as pombinhas como se estivessem deitadas no choco. Não lhes faltava o biquinho bem feito, tal como o rabo e apresentavam-se bem tostadinhas, estaladiças. Cobri-as com uma espécie de tule branco.

Pelo que já escrevi, compreende-se a razão pela qual ficou na memória de uma criança que rondava os dez anos, mas ainda há mais e certamente mais marcante.

Pressionando o polegar com o dedo médio, da mão direita, num movimento rápido fazia bater neles o indicador, provocando um estalido, acompanhado por uma espécie de assobio que lhe era muito peculiar e provocado pela posição da língua! Ao mesmo tempo ia dizendo: POMBINHAS DE SANTARÉM, POMBINHAS!

Usando este chamariz / pregão, atraindo as crianças, assim ia ganhando a vida!

As “POMBINHAS DE SANTARÉM” chegaram a ser muito conhecidas e até referidas como características da cidade, mas foi coisa que nunca mais vi, em parte nenhuma.

Pequena nota
Quando escrevi este texto, desconhecia completamente que ainda se faziam pombinhas de Santarém para vender.Primeiro uma familiar residente no concelho deu-me essa informação, algum tempo depois foi a vez de fazê-lo um colaborador do jornal. Recentemente a internet deu-me algumas dicas.
As pombinhas do meu tempo e já lá vão mais de 60 anos, tinham uma modelação próxima com a realidade e uma côr mais clara.

JV

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Visita às origens

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 31 DE OUTUBRO DE 2008)

Quem não gosta de ir, pelo menos por umas horas, à freguesia que está inserta no seu documento de identificação? Poucos serão, certamente.

De vez em quando por lá aparecemos, umas vezes por iniciativa própria, outras a convite.

Num dos últimos fins de semana isso aconteceu mais uma vez, sendo protesto para uma almoçarada e ainda que nos encontrássemos satisfeitos, não resistimos à tentação de comer uma caracolada, guisada com batatas e ervilhas, que alvitrei e que foi apoiada pela maioria dos convivas.

[Prato de caracóis, batatas e ervilhas]

Às oito e meia da noite lá estávamos para degustar o petisco. Confesso que é dos pratos que mais aprecio e que costumo confeccionar. Ainda que um pouco diferente do que costumo fazer, estavam muito agradáveis e todos elogiaram o cozinheiro.

Seríamos cerca de uma dúzia de pessoas e eu era o decano. No lado oposto, estava uma sobrinha bisneta!

A maioria escolheu a caracolada, muito usada e típica dos varzeenses.

Entretanto, numa mesa ao lado, sentou-se um casal igualmente para jantar.

Em determinada altura e tendo-me eu voltado um pouco para trás, acabaram por meter conversa comigo demonstrando que me conheceriam, afirmando que eu era o José Varzeano dos escritos no Correio do Ribatejo sobre a Várzea e que quando ainda estavam no activo das suas profissões, lá para as bandas de Lisboa, se deliciavam com tais leituras sobre a freguesia das suas origens e que pacientemente foram recortando do jornal, coleccionando, o que ainda hoje acontece.

Palavra puxa palavra, não conhecia aqueles meus conterrâneos, mas conhecia, depois da explicação, os seus pais.

Durante muito tempo foi para eles intrigante o tal José Varzeano que supunham ser da Várzea mas que não conseguiam identificar. Só bem mais tarde isso aconteceu.

Para este casal e para muitos mais conterrâneos, se não fossem as croniquetas que há alguns anos venho publicando neste centenário semanário, que possui muitos assinantes e leitores na freguesia, eu passar-lhes-ia completamente despercebido, o que era naturalíssimo pois só vivi quatro anos na minha freguesia natal.

[Casa típica no Cortelo. Foto JV]

Restará dizer que este conterrâneo brindou, a meu pedido, os presentes com três castiços fados, sendo o último o conhecido fado do embuçado.

O fado, que teve sempre cultores no Ribatejo, também se manifesta na freguesia da Várzea, concelho de Santarém.

Obrigado pelas suas palavras.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Torcato Pinheiro

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 29 DE AGOSTO DE 2008)



Alfredo Torquato Pinheiro nasceu em Santarém a 23 de Outubro de 1850.

Dividiu a sua actividade por três áreas: - militar, professor e artista plástico.

Na Escola do Exército, em Lisboa, tirou o curso de Infantaria, frequentando também a Academia de Belas Artes, nas modalidades de desenho e pintura, o que o relacionou com grandes artistas do seu tempo.

É colocado em 1882, como militar, num regimento da cidade do Porto e aí cria amizade com o escultor Soares do Reis e o pintor Marques de Oliveira.

É frequentador assíduo do “atelier” do escultor, autor da estátua O Desterrado, e a seu convite colaborou com primorosos desenhos na revista Arte Portuguesa, do Porto.

Entretanto concorre ao lugar de professor da Escola de Desenho Industrial de Passos Manuel, em Vila Nova de Gaia, sendo provido do lugar. Transfere-se depois para a Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto, sendo depois nomeado seu director.

Continuava contudo ligado à vida militar que conciliava com esta, até que, por exigências da sua carreira militar, teve de abandonar aquelas funções, sendo-lhe prestada afectuosa homenagem por professores e alunos.

[Pintura de Torcato Pinheiro]

Os seus tempos livres consagrava-os à pintura, apresentando quadros de paisagens em várias exposições, tendo realizado uma individual, no ano de 1899.

Está representado em alguns museus e galerias particulares.

Faleceu na vila da Barquinha em 13 de Fevereiro de 1910 quando se encontrava reformado de general.

________________________________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Alfarroba torrada

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 19 DE SETEMBRO DE 2008)

Já tenho escrito por várias vezes que estas pequenas croniquetas que de vez em quando vou publicando neste e noutros periódicos regionais têm sempre um clique que as fazem despertar e neste caso, assim mais uma vez aconteceu.

Lá pelos contrafortes da Serra do Caldeirão, apeteceu-me apanhar as bonitas alfarrobas, já bem escurinhas, que uma árvore que plantei, já produziu.

As minhas árvores predilectas, confesso que são a oliveira, talvez por ter sido criado próximo delas e a alfarrobeira que só conheci depois de homem. É uma árvore que pode atingir grande porte e antiguidade e para mim extremamente atraente. No meu subconsciente paira talvez a razão para que isso aconteça.

Regressei depressa aos meus sete, oito anos e encontrei-me no local onde começa a descer a designada popularmente Calçada do Monte, nome que penso terá a ver com a Ermida de Nossa Senhora do Monte (séculos XIII-XVI) e a qual servia.

Do lado esquerdo tinham os Saldanha o seu solar, ostentando ainda, segundo creio, na fachada principal a pedra de armas dos Condes de Rio Maior. Gostava imenso de subir aquela larga escadaria e punha-me a olhar para a “pedra” achando-a bonita mas que muito me intrigava. O meu pai deu-me uma ideia do que aquilo era.


[Ramo de alfarrobeira com frutos verdes. Foto JV, 2010] O palácio veio a ser arrendado fraccionadamente. À esquina da Calçada do Monte, com portas para duas frentes, instalou-se uma casa de fazendas. A seu lado uma afamada taberna, conhecido pelo Galante, depois e onde foram as cavalariças, funcionou desde os princípios do século passado uma oficina de bicicletas. Com porta para o pátio de acesso, um conjunto de divisões funcionava como habitação ao lado da qual sempre conheci (hoje não sei) uma padaria.

O acesso foi durante muitos e muitos anos térreo e suportado por um muro bastante tosco por cima do qual fazíamos equilibrismo, brincando e que hoje se encontra naturalmente restaurado.

Mas afinal não era sobre isto que eu queria escrever, na génese do clique estavam as alfarrobas!

É que precisamente à esquina do solar se instalou durante muitos anos uma vendedeira de tremoços, pevides, amendoins, rebuçados enrolados em papel branco e constituídos por açúcar torrado, pinhoadas, uns chupas (pirolitos) em forma de cone muito alongado, possivelmente mais alguma coisa que não me lembro e, o que nunca me esquecerei, alfarrobas torradas!

Era uma mulher já madura, que sempre conheci sozinha. Cabelo grisalho, arranjado em carrapito. De estatura média, era um pouco para o forte. De pele e olhos claros, as sardas davam-lhe um toque não muito comum.

Usava um grosso cordão de oiro, umas arrecadas semelhante às típicas da mulher minhota e no dedo anelar, um cachucho.
Vestia blusas às ramagens de cores garridas e aos folhos. Sentava-se, junto à parede numa pequena cadeira de madeira, tendo na sua frente a banca que armava e onde se colocavam com ordem as iguarias procuradas. Havia sempre uma protecção especial para alguns dos produtos, como era o caso dos doces e mesmo das alfarrobas.
Medidas próprias, normalmente de madeira, para os produtos a granel.

Se a memória não me atraiçoa, na época própria substituía a banca pelo fogareiro a carvão e o assador de barro, para castanhas,

A vendedeira “apanhava” todo o trânsito local e estávamos nas proximidades do Mercado Municipal, do Quartel de Cavalaria 4 e do Jardim da República. Fazia negócio com os frequentadores da taberna que não deixavam de comprar pevides e tremoços para aperitivo dos copos que com os amigos iam bebendo.

Era este o seu modo de vida, nunca lhe conheci outro.

Enquanto vivi em Santarém, passava muitas vezes por ali, o que agora raramente acontece.

Em menino, era frequente a minha passagem pelo local, a caminho da casa dos meus avós paternos que se localizava na estrada de S. Domingos, na altura considerado fora da cidade e ainda me lembro de em casa deles não haver água canalizada, o que, anos depois veio a acontecer e o contador era enorme fazendo grande barulheira quando se abria a torneira!

O meu pai, nunca passava por ali sem me perguntar o que é que eu queria. Por mais vontade que tivesse, nunca lhe pedi para comprar o que quer que fosse, pois assim fui ensinado e o que sempre cumpri.

Ficava naturalmente radiante com a oferta e a minha preferência ia sempre para uma alfarroba, muito eu gostava daquilo! Acontecia que a vendedeira, que era inquilina do meu avô, oferecia-me quase sempre outra, o que muito me agradava. Que gosto tinham aquelas alfarrobas!

Hoje, decorridos que são sessenta e tal anos, penso que está aqui explicada a minha tendência para a alfarrobeira.

Será assim?
_____________________________

Pequena nota

As fotos representam um ramo de alfarrobeira com o seu fruto em verde e depois de maduras, tendo sido a árvore plantada pelo autor.
JV

sábado, 22 de janeiro de 2011

Sebastião Baracho

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18 DE JULHO DE 2008)



De seu nome completo, Sebastião de Sousa Dantas Baracho, nasceu em Torres Novas a 10 de Agosto de 1844.

Foi aluno do Colégio Militar, assentou praça em cavalaria em 25 de Agosto de 1861 e é General de Brigada em 19 de Outubro de 1900.

Aos trinta e sete anos inicia a sua carreira política como deputado regenerador e vem a ser reeleito até 1890.

Em 1891 foi comissário régio para a delimitação de fronteiras da África Ocidental a quando do tratado Luso-Belga, lugar que exerce até 9 de Março de 1892.

Em 1893 D. Carlos nomeou-o seu ajudante de campo honorário. Em 1895 assumiu interinamente o comando da 1ª Brigada de Cavalaria. Foi comandante do Forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo e em 1901 foi nomeado director geral dos serviços de cavalaria. É neste ano que abandona o Partido Regenerador.

Pediu a D. Manuel II, em 1909 a exoneração de ajudante de campo honorário do Rei, o que lhe foi concedido.

Como deputado pronunciou um discurso sobre questões militares na Câmara de Deputados que produziu grande sensação.

Foi um parlamentar truculento devido ao seu temperamento fogoso. Era enérgico e acutilante no combate das ideias e manteve polémicas com vários jornalistas.

Por questões políticas desafiou para duelo, tanto o Presidente do Conselho como o Ministro da Guerra.

O Ministro aplica-lhe um mês de inactividade na Praça de Elvas.

Dantas Baracho era considerada uma das figuras mais interessantes de Lisboa.

Apesar dos anos já adiantados, mantinha-se em forma no manejo da espada e do florete.

Perante a dissolução das instituições monárquicas, atacou o regime nos seus derradeiros anos de existência e, em 1910, abraçou a causa Republicana, trabalhando para a consolidação do novo regime.

Foi presidente da comissão encarregada de rever a legislação criminal militar e presidente do Supremo Conselho de Justiça Militar.

Quando os monárquicos se concentraram na fronteira, preparando-se para a primeira incursão, ofereceu ao governo republicano o seu concurso como militar, para defesa e acção de combate.

Desiludido pelas lutas partidárias, abandonou a política.

Colaborou nos jornais Gazeta Comercial, O Imparcial, Diário Ilustrado, Mala da Europa, etc.

Era condecorado com a comenda e grã-cruz da Ordem de S. Bento de Avis e com a grã-cruz da Ordem de Orange e Nassan.

Das obras publicadas avulta Entre Duas Reacções, 4 Vols., 1917 – 1919.
Publicou ainda: A Questão Ibérica, Lisboa, 1881, Questões Militares, Lx. 1888¸ Alguns Documentos sobre a minha missão em África, Lx., O Convénio, Lx, 1902, A Defesa Nacional, Lx. 1904 e A situação Militar, Lx. 1904.

Faleceu em 28 de Dezembro de 1921.

__________________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, Edição Século XXI, Costa Garcez Vol. 4

Tradição e Revolução, José Adelino Maltez, Vol. I (1820-1910)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Francisco Mendonça

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 11 DE JULHO DE 2008)



Foi a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que nos revelou este cartaxense nascido em 25 de Janeiro de 1886 e de seu nome completo, Francisco de Paulo dos Santos Mendonça.
Segundo a fonte referida, distinguiu-se principalmente como inventor e desportista no campo do tiro.

Fez o curso Secundário de Comércio no Instituto Industrial e frequentou o Instituto Superior Técnico.

Ingressou em 1904 nos Correios Telégrafos e Telefones onde exerceu as funções de inspector electrotécnico.

Foi inventor de um regulador de velocidade absolutamente original que, aplicado aos aparelhos telegráficos “Hughes” e “Bandot”, mudou por completo a sua função, simplificando-os extraordinariamente. A sua aplicação manteve-se com vantagem por vários anos.

O regulador era conhecido por “D.M.O.” que significava Doignon Mendonça e Oliveira e começou a ser utilizado em 1922.

Foi o criador das Oficinas Gerais dos C.T.T. onde o seu engenho possibilitou transformações de processos que se tornaram úteis ao desenvolvimento daquela instituição.

Foi-lhe atribuída a comenda de Mérito Industrial, tendo-se reformado em 1942.

No campo do desporto foi considerado um atirador de reputação internacional.

Em espingarda de guerra foi mestre-atirador aos 200 metros nos anos de 1916, 1917, 1920 e 1924, prémio de honra em séries ilimitadas em 1917; 1º prémio em 1922 e prémio de honra no mesmo ano; mestre-atirador a 300 metros em 1917.

Os êxitos continuam. É campeão de Portugal com arma de guerra em 1919-1922 e 1924, campeão de Portugal: deitado, 1922 e 1927; de pé: 1921, 1922 e 1924; mestre atirador à pistola em 1921, 1924, 1927 e 1932; palmas de honra da Carreira de Tiro Ducla Soares em 1922, o primeiro ano em que foi instituído; campeão à pistola nos Jogos Olímpicos Nacionais de 1914.

Foi chefe da equipa de tiro e atirador que concorreu à VIII Olimpíada, em 1924, em Paris.
Fez parte do XXVII Concurso Nacional e Internacional de Tiro em Reims, 1924, sendo considerado neste certame mestre-atirador a 20 metros no revólver e de 50 na pistola de precisão.

Em 1937 foi instituída uma taça com o seu nome para ser disputada entre mestres-atiradores.

Não consegui encontrar a data do seu falecimento.
______________________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

sábado, 15 de janeiro de 2011

O rouxinol do Meu Bairro

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 10 DE DEZEMBRO DE 2004)

[Dilma Melo]

No centro da cidade onde vivo, em Setembro último, quando estava prestes a concluir o meu passeio higiénico, depois do almoço, dirigindo-me para casa e entretenga do escrevinhar, deparei ao longe com a figura de uma senhora, observando uma montra, que me pereceu não me ser estranha. Ao aproximar-me, não tive dúvidas mas, como há muita gente parecida, pedi desculpe e perguntei se não era a Dona F. de tal. A resposta afirmativa, não se fez esperar. Não me reconheceu naturalmente, apesar da nossa diferença de idades não ser muito acentuada. Disse-lhe que a reconheci logo pois apesar dos muitos anos passados, mantinha os traços que a definiam. Com a senhora um pouco atrapalhada sem saber com quem falava, fui-lhe dizendo que há vinte e quatro anos vivia nesta cidade onde exerci a minha profissão durante dezasseis anos e que a conhecia do MEU BAIRRO, onde ela também viveu algum tempo, ao fundo da Rua Almeida Garrett no primeiro andar de um prédio que já não existe e para o qual se ia por longa e desconfortável escadaria.


Teria na altura, catorze ou quinze anos e em casa, andava sempre cantando. Tinha uma voz potente e doce de tal maneira que punha a vizinhança de ouvido à escuta, o que também acontecia comigo e com a minha família que morava na rua em frente. Tínhamos a vantagem de entre a sua casa e a nossa, não haver prédios mas sim quintais por onde a voz fazia a sua propagação com facilidade. Toda a gente gostava da ouvir cantar e elogiava as suas qualidades vocais que naturalmente não passaram despercebidas às pessoas dessa área artística.

Depressa se tornou conhecida em toda a cidade e vocalista de uma instituição que há dezenas de anos leva a todo o país e ao estrangeiro o nome da cidade.

Penso que não teria nascido em Santarém mas sim no distrito de Aveiro, de onde é originária a família. Lembro-me principalmente de um seu tio que morou no MEU BAIRRO em frente da minha casa e que faleceu em África e de sua avó paterna, toda de preto, adornada de peças de ouro e com o sotaque inconfundível da Beira. Até me lembro de uma sua prima falecida com poucos meses, tendo ainda presente o seu nome e as suas feições já que existia em minha casa uma sua fotografia. Bem pequenino, como eu me lembro destas coisas!

O rouxinol do MEU BAIRRO não permaneceu por ali muito tempo tendo a família mudado para os lados do Milagre., se não estou enganado.Foi pena não ter enveredado pelo profissionalismo onde certamente teria feito carreira a nível nacional.

Toda a gente a conhece em Santarém.

Quando nos despedimos, não deixou de afirmar que AINDA CANTAVA.
Que continue ainda por muitos anos, são os nossos votos.

Já se passaram mais de cinquenta anos!

MAIS UMA FIGURA QUE HONROU O MEU BAIRRO.