quarta-feira, 31 de março de 2010

Material escolar e outras coisas

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 19 DE JANEIRO DE 2001)


Intitulei A ESCOLA, a IV MEMÓRIA DO MEU BAIRRO, publicada no “Correio” de 18 de Dezembro de 1992. Como o tempo passa, parece que foi ontem!
Ainda que assim intitulada, baseou-se fundamentalmente na figura do meu professor, Agnelo da Silva Lázaro, que nunca esquecerei.
Ao olhar para o material que as crianças hoje usam na escola primária, fez-me lembrar o que se passava no meu tempo e na escola do meu bairro.

O uso diário da bata branca era obrigatório, incluindo os professores e só abolido após o 25 de Abril de 1974.

[Turma da 4ª classe (1948/49) com o Prof. Agnelo da Silva Lázaro]

Lembro-me que número significativo de alunos iam para a escola descalços, chovesse ou fizesse sol e alguns dos que se apresentavam calçados, quando chegavam a casa, descalçavam os sapatos para não os estragar, indo brincar de pé ao léu, mesmo jogando a bola.

Por pouco usados, por vezes não se chegavam a estragar mas... deixavam de servir, o que também não importava muito pois iam calçar o irmão mais novo.

As carteiras comportavam um banco corrido para dois alunos a que nós chamávamos “passás” (parceiros na nossa linguagem). Dizíamos: - o meu passá é fulano. O meu era o Lúcio, infelizmente já desaparecido a alguns anos. Além disso, os tampos levantavam-se para colocar numa divisão, a pasta, mala ou sacola.

[Ardósia (pedra) e pena]


Na parte mais elevada (horizontal), já que o tampo era levemente inclinado, situava-se ao centro o tinteiro de porcelana branco e de cada um dos lados, uma reentrância na madeira para colocar caneta, lápis e pena.

As carteiras colocadas às filas, tinham à sua frente o quadro preto, de ardósia, que se alcançava subindo para um estrado no qual se situava a secretária e cadeira do professor, de gavetas e dimensões avantajadas. No outro canto, a lareira que nunca funcionou no meu tempo e certamente por muitos anos, por falta de lenha. Era só para ser bonito pois não havia verba para o combustível e em salas grandes se não se ia bem agasalhado, tiritava-se de frio.

[Livro de leitura da 1ª classe]

Na parede do quadro, um crucifixo, a fotografia do Presidente da República, na altura General Carmona e no lado esquerdo a do Presidente do Conselho de Ministros, Professor Doutor Oliveira Salazar.

Perto, o Mapa de Portugal Continental, com a figura do seu autor ou coordenador que ainda estou a ver com o seu bigode e que se a memória não me atraiçoa, se chamava Ladeiro ou Landeiro e no qual tínhamos de indicar sem hesitação os rios, com seus afluentes, as serras dentro dos seus sistemas, as capitais de província e de distrito, os cabos, as penínsulas, as linhas férreas, eu sei lá que mais!

Além deste ainda havia o mapa do Portugal Colonial e das Ilhas Adjacentes do arquipélago da Madeira e dos Açores e ai de quem não soubesse localizar as Desertas!

No Império Colonial lá estavam Cabo Verde, Guiné, S.Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, o chamado Estado Português da Índia, com Goa, Damão e Diu, Macau, com as ilhas de Taipa e Coloane, Timor com o ilhéu de Ataúro e ainda o Forte de S. João Baptista de Ajudá, na costa ocidental da África. E sobre tudo isto tínhamos de saber a sua localização, capitais, produções, etc. etc.

[Livro de leitura da 3ª classe]

Num armário envidraçado guardavam-se um metro de madeira, penso que uma balança de pratos com pesos e a caixa dos sólidos, igualmente de madeira e da qual constavam : cubo, cilindro, prisma, pirâmide, cone e esfera. Além disso era lá que o professor guardava o livro das frequências, a caixa do giz (de cor eram poucos paus e quando o professor os utilizava era dia de alegria para os miúdos) a garrafa da tinta de escrever e os nossos cadernos diários que o professor fazia cortando ao meio as folhas de papel de vinte e cinco linhas, as quadriculadas e as lisas que eram colocadas na proporção da sua utilização. Com uma pequena máquina, fazia-lhe dois furos por onde passava um cordão que as atava em laço. A primeira folha funcionava como capa e identificava a escola, a classe e o aluno. Penso que o caderno era levado para casa no fim do ano mas não tenho a certeza.

O caderno diário, que não era utilizado todos os dias, deduzo que servia para justificar os conhecimentos do aluno. Nele se faziam ditados, redacções, contas, resolução de problemas de aritmética e desenhos à mão livre, principalmente objectos de linhas curvas: - jarras, potes e bilhas (a asa era um flagelo mesmo para os que tinham alguma habilidade). Por vezes apagava-se tanto que se rompia o papel! Para quem nasceu sem um mínimo de habilidade, era um verdadeiro martírio.

O transporte do material escolar fazia-se em malas de cartão, de faces rectangulares, reforçada nos cantos e na aba por chapas, com uma correia de coro para pôr a tiracolo (para as meninas, a mesma mala tinha uma pega), em sacolas, de serapilheira, igualmente com uma fita para pôr a tiracolo e que tinha a particularidade de ter na face da aba, um desenho estampado de cores berrantes que atraía as crianças mas que durava pouco tempo. Eram compradas no comércio do bairro enquanto as de cartão se adquiriram no comércio da especialidade. Muito excepcionalmente existia uma pasta de coro, só utilizada por alguns professores. Lembro-me contudo que um colega meu a tinha, o Carlos Alberto, que era filho de um dos proprietários de uma conhecida livraria da cidade e que faleceu bem jovem, num acidente de viação.

Só me lembro de ter uma mala de cartão pois quando a aba de fechar, se cortou, pelo uso, visto não haver dobradiça, mas sim um vinco, foi cosida e durou até completar a primária.

Quando era preciso correr, por gosto ou necessidade, a mala, colocada a tiracolo e segura pela mão com o auxílio do braço, fazia grande chocalhada provocada pela agitação de livros, cadernos, pedra, caneta, aparos, lápis, lápis de cor, penas, apara lápis e borrachas, isto indicando o conjunto que poucos tinham.

["Pires de Lima", o meu livro de leitura da 4ª classe]
O primeiro exame oficial a que me opus, foi o da então chamada 3ª classe e que já realizei na escola do meu bairro, que frequentava. Lembro-me que foi numa sala do rés-do-chão, vesti um calção castanho e uma blusa creme de que estou a sentir nas minhas mãos o seu tecido e feita por um excelente alfaiate da cidade, que ofereceu o tecido e o seu valioso trabalho. Da prova, só me lembro do ambiente da sala, talvez pela sua decoração e do sítio onde me sentei que ainda hoje era capaz de identificar, do conteúdo, nada ficou, só sei que fui aprovado. Já lá vão pelo menos cinquenta e três anos, é muito tempo!

Quanto a livros e reportando-me à 4ª classe, muito trabalhosa até porque foi simultânea com o exame de admissão ao liceu, lembro-me dos seguintes:- livro de leitura que no meu caso era o chamado “Pires de Lima”, que ainda possuo. Na admissão ao liceu o conhecido professor de Português, Dr. Gonçalves Neto, mandou-me ler a lição Vasco da Gama e perguntou-me se eu sabia o que eram calafates.

[A minha História de Portugal, de Tomás de Barros que faz parte dos meus livrecos]

A História de Portugal era de Tomás de Barros, a Geografia da Colecção Escolar “Progredior”, a Aritmética, Ciências e Gramática, da Escolar Educação, de António Figueirinhas, tudo do Porto. Possuo todos estes exemplares.

Os chocolates que as crianças comiam na altura, eram muito poucos. Havia umas pequeninas tabletes forradas a papel prateado de uma só cor e que tinha colado um pequeno boneco que ocupava todo o seu cumprimento. As figuras eram muito variadas. A tablete já era pequena aos nossos olhos mas ainda era menor quando se abria. Apesar da qualidade deixar muito a desejar, proporcionava-nos comer (era duro) uma guloseima de que gostávamos, tirávamos a prata com muito jeitinho para não se partir, passávamos- -lhe a unha para a alisar e púnhamo -la dentro dos livros, o mesmo fazendo com o bonequinhos, que eram um encanto. Era assim a vida de então, com uma pequena coisa tínhamos três satisfações! As tabletes custavam três tostões, se a memória não me atraiçoa.

Para os dois primeiros anos, havia sempre uma Tabuada.

Havia um caderno para os trabalhos de casa, a que nunca faltava uma cópia, contas, reduções, problemas para resolver, etc., etc.

Na primeira classe havia caderno de duas linhas para educar a caligrafia.

Não podia faltar a pedra, noutras regiões designada por ardósia ou lousa, como a designavam alguns dos professores originários, principalmente dos distritos da Guarda, Castelo Branco e Viseu. Alguns regressaram ao seu torrão natal, outros por cá ficaram.

A pedra era constituída por uma lâmina de xisto escura, uma rocha sedimentar igual à existente no quadro preto, só muitíssimo mais fina. Recebia à sua volta, de formato rectangular, um caixilho de madeira que a protegia e que com o uso se desmanchava. Havia-as de tamanhos diferentes. Nelas se escrevia através da pena, utensílio mais ou menos cilíndrico e longilíneo, igualmente de xisto. A parte superior era enrolada e colada com uma pequena facha de papel de várias cores e padrões, conforme o fabricante e as séries produzidas. Havia dois tipos de penas, as de leite, mais macias mas de menor duração, e as rijas, mais duráveis por isso mesmo pelo que os nossos pais as preferiam. Afiavam-se passando-as sobre uma zona cimentada, pois assim iam-se gastando à sua volta. A escrita traduzia-se pelo riscar da superfície pontiaguda na plana, ambas de xisto.

[A minha Geografia da 4ª classe]

Penso que custavam dois tostões cada uma e vendiam-se no comércio do bairro onde se encontravam em caixas de cartão que continham um pó branco (seria talco ?‘) para as conservar. Ao caírem no chão, o que acontecia com frequência, partiam-se com muita facilidade; fazia-se outro bico e continuavam-se a utilizar.

[Um dos mapas que tínhamos de estudar, o do Estado Português de Índia]

Havia quem tivesse atada a um dos vértices do caixilho, uma almofada para apagar o que já não interessava ou então algo que se pretendia corrigir. Tinham também um frasco com água para embeber a almofada feita de trapos. Nem sempre era assim e não havia ninguém que de vez em quando não fizesse a limpeza com os dedos e as mãos e quando necessário, lá ia o lenço ou a manga da bata, tudo isto com o auxílio da saliva (cuspo).

E aquelas contas enormes de dividir ou de multiplicar que enchiam todo um lado, com a operação inversa no outro! Grandes trabalheiras quando não dava certo à primeira!

Hoje, é tudo diferente, só interessa saber como se faz e ter a noção da operação porque o resto pertence às máquinas de calcular - afinal elas só servem para isso mesmo !

[O livro de Aritmética da 4ª classe]

Quando iniciei a minha profissão, vi-me confrontado com a necessidade de efectuar muitas operações aritméticas, principalmente adições de muitas dezenas de parcelas e que os erros cometidos se pagavam com o nosso dinheiro. Lá me adaptei o mais depressa possível mas nunca adquiri a prática dos funcionários mais velhos pois entretanto chegaram as máquinas de somar. Os velhinhos somavam mais depressa e mais certo à mão, do que os novos com as máquinas!

As máquinas foram evoluindo, tornaram-se muito práticas e eficientes até porque a prática na sua utilização subiu consideravelmente. Da gente nova, ninguém somava duas parcelas se não fosse à máquina e quando faltava a energia eléctrica era um pandemónio naquela casa pois o serviço não podia parar. Quase todos tinham na sua secretária uma calculadora a pilhas e assim iam dando conta do trabalho.

A existência da pedra era uma medida económica pois evitava-se assim um gasto contínuo de papel que a grande maioria das bolsas de então não podiam suportar.

Apesar de tudo, a pedra, provoca-me um sentimento de nostalgia.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Frei Paulo Cabral

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 15 DE DEZEMBRO DE 1995)

Religioso da Ordem da Trindade, desempenhou altas funções dentro da Ordem, em Santarém, sua terra natal e em Lisboa.

Nasceu em 1597 e deixou manuscrito “Crónica da província da Santíssima Trindade em Portugal”.

Fundo em Lisboa a Irmandade de Nª Sª dos Remédios, conhecida por “Confraria do Bentinho”. Usavam capas e murças brancas com a cruz trinitária.

Por Breve de Clemente XIII, de 28 de Março de 1759 congregaram-se estes frades em Ordem Terceira.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

quarta-feira, 24 de março de 2010

Frei João de Azevedo

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 15 DE NOVEMBRO DE 1995)

Escalabitano, religioso da Ordem de Santo Agostinho onde exerceu altos cargos, Teólogo célebre, foi prior do convento da “ilha”, reitor do Colégio de Braga, Prior do de Lisboa, examinador da Mesa da Consciência, Consultor da Bula da Santa Cruzada e Definidor da Ordem.

Escreveu dois livros, sendo um, em latim:- “Tribunal Theológicum et Juridicum e “Tribunal de Desenganados”.

Nasceu em 27 de Janeiro de 1665 e faleceu no convento da Graça em 16 de Junho de 1746por isso com oitenta e um anos.
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terça-feira, 23 de março de 2010

A saúde e a doença

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 13 DE DEZEMBRO DE 1991)


A aldeia de Vilgateira teve nos finais do século passado e até meados do actual, uma cobertura de saúde, se assim se lhe pode chamar, boa para a época, visto ser sede de um partido médico que abrangia as freguesias da Várzea, Romeira, Azóia de Cima, Abitureiras e Azóia de Baixo, o que chegou a proporcionar a existência de duas farmácias, a Mendes, ainda em actividade e a Souto, de efémera existência.

Além disso beneficiou da acção contínua de dois clínicos, o oficial e o particular, ambos residentes na aldeia.

Como já dissemos noutra oportunidade, a Farmácia Mendes foi fundada em 1909 e vendida em 8 de Março de 1941, por Augusto de Oliveira Mendes a António Elói Godinho.

A Farmácia Souto iniciou a sua actividade no edifício onde residiu Adelino Martins Coelho, hoje na posse de seus herdeiros, passando depois para aquele que pertence e é habitado pelo nosso amigo, António Rafael Glórias Lopes.

Sabemos que em 1911 grassou na freguesia uma epidemia de varíola e em 1915 houve vários casos de varíola e o aparecimento de um cão raivoso que levou a medidas profilácticas.

Mas a pneumónica (gripe epidémica na sua forma pulmonar), de 1918/19, aparecida em todo o País em consequência da Grande Guerra, causou 102.750 mortes (1), matando famílias inteiras e espalhando pânico por toda a parte.

Também na freguesia da Várzea se fez sentir.

[O Dr. Adriano de Oliveira, o último médico do Partido]

Ainda não raiava a manhã, as pessoas amontoavam-se à porta do médico que pouco descansava. Era uma disputa terrível pelo clínico, chegando mesmo a causar desordens e a única solução era começar por um lado e terminar pelo outro.

Saía de madrugada e regressava alta noite. Comia por onde andava e o que lhe ofereciam.

Uma jovem doente de Vilgateira era a primeira a ser visitada. Caiu-lhe o cabelo e perdeu o andar mas a doença não a conseguiu vencer!

Consta que as mulheres grávidas eram facilmente vitimadas pela doença. Em Vilgateira existindo sete, todas resistiram, o mesmo não acontecendo no Outeiro, onde já houve vítimas.

[A centenária Farmácia Mendes, em Vilgateira. Foto JV, 2009]
Parece que o uso de bebidas alcoólicas protegia de certa maneira as pessoas. Em casa de nossos ascendentes, ainda que a epidemia tivesse entrado, não causou vítimas e usou-se muito o anis escarchado.

Que seja do nosso conhecimento, serviram este partido médico os seguintes clínicos: Drs. Júlio Montez, Alberto de Sousa, Miguel d`Ascenção, Cunha Gonçalves e Adriano de Oliveira.


Muitos médicos de Santarém e redondezas, alguns bem conhecidos, fizeram receituários ao povo desta freguesia. Entre eles destaca-se o Doutor Oliveira Feijão que nas suas estadas na Quinta da Mafarra, não deixava de atender quem de si se abeirasse, muitas vezes os seus próprios trabalhadores ou familiares.

Nomes como os Drs. Pompeu, Anacoreta, Manuel Branco, Francisco Godinho, Pereira de Melo, Silva Pereira, Pedroso da Costa, Cortez e J.A. Ferreira, constam frequentemente do livro copiador de receitas da Farmácia Mendes.

Com a saída do Dr. Adriano de Oliveira, Vilgateira nunca mais dispôs de médico permanente. Por vezes, um ou outro ia semanalmente dar consultas.

Com a criação de uma Delegação da Casa do Povo de Santarém, a funcionar no edifício da Junta de Freguesia, têm os varzeenses assegurados alguns serviços de saúde indispensáveis com a deslocação de médicos e enfermeiros.

NOTA
(1) – Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão.

domingo, 21 de março de 2010

Um baile da pinhata

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE ABRIL DE 2000)

É a trigésima sétima MEMÓRIA que pretendo escrever, ainda que o seu conteúdo seja limitado.

Não me perguntem porque me lembrei de tal, mas a verdade é que a ideia apareceu e aparentemente sem saber porquê, foi tomando volume e pretende concretizar-se.

No fundo, lá bem no meu íntimo, estava um pequeno grão que isolei, seguramente, durante mais de cinquenta anos e que agora, depois de tanto tempo, acabou por germinar.

Bailar e dançar foi sempre um folguedo apetecido, tanto pela gente do povo, como pela burguesia e nobreza.

Há conhecimento de sumptuosos bailes dados em França por Carlos V e Carlos VI, isto só para indicar os mais antigos. Em Portugal, por ocasião da boda de D. João I com D. Filipa de Lencastre, realizou-se no Paço do Porto, o primeiro baile na Côrte.

Com o liberalismo, deu-se a democratização do divertimento e começam a aparecer os salões de dança, principalmente na capital.

Pela província, as associações e de características mais variadas, optam pela realização de bailes nos quais conseguem, muitas vezes, adquirir fundos para suporte das mesmas, já que muitas viviam com dificuldades financeiras.

Por estas alturas e reporto-me aos finais da década de quarenta, que eu me lembre, por ouvir dizer, realizavam-se grandes bailes no Clube de Santarém, por vezes na Associação Académica, frequentemente no Grupo de Futebol Empregados no Comércio (vulgo Caixeiros) , no Teatro Taborda (hoje Círculo Cultural ...), na Sociedade Recreativa Operária e no salão dos Bombeiros Voluntários Tinham fama igualmente os bailes realizados na Ribeira de Santarém, no Clube Ribeirense e no Sporting Ribeirense.

Ainda que tivessem lugar todo o ano, havia épocas próprias, como os bailes de máscaras, pelo Carnaval, para comemorar a fundação da associação ou os bailes da pinha ou pinhata que tinham lugar no primeiro Domingo da Quaresma.

A arrumação das clientelas fazia-se tendo em conta o extracto social a que se pertencia, o que na época era ainda muito frisante.

Em zonas mais conservadores do País, nos anos sessenta e nas festas chamadas populares, ainda o senti, o que então me fazia confusão. Existiam dois recintos para dançar, dando apoio a um, o melhor apetrechado, a chamada “barraca do chá” e ao outro, a “barraca do caldo verde”.

Se é verdade que o acesso estava aberto a toda a gente, provocava-se a diferença de ambiente e ... de preços !

Por volta dos meados dos anos cinquenta, conheci quase todos estes ambientes da cidade, ainda que na altura não fosse bailador ou dançarino. Mas a MEMÓRIA que pretendo avivar é anterior e situa-se, como já se deu a entender, nos finais da década de quarenta.

Como referi na minha MEMÓRIA - VII, de 15 de Janeiro de 1993, os Santos Populares eram fortemente festejados no MEU BAIRRO, sendo a Travessa (ou Rua) de José Paulo a única que pedia meças aos festejos. Eram naturalmente os jovens que os faziam, mas a colaboração da gente madura, por todos os motivos tornava-se, na concepção da época, imprescindível - sem ela, nada feito.


Num ano, que não posso precisar mas se situa no espaço que indiquei, um grupo de raparigas do MEU BAIRRO, no qual se incluia a minha irmã mais nova, resolveu organizar-se para fazer um baile particular, da Pinhata.

Eu teria os meus dez anos e como tal não tinha conhecimento dos meandros da organização mas alguma coisa ia observando e que afinal me ficou na MEMÓRIA.

Não era fácil obter a colaboração dos pais pelas razões mais diversas. Os pais das moças, quando não entravam no jogo, tinham de saber com antecedência a quem o assunto estava entregue para assim autorizarem as filhas a estarem presentes e a prestarem a sua colaboração.

Nestes assuntos, a minha mãe era muito solicitada pois tinha habilidade de mãos, fazendo com papel “ventarolas” e outras peças de interesse decorativo (tenho alguns moldes que não sei aplicar), sabendo mesmo decorar e pôr a funcionar a pinha (ou pinhata) que era o móvel daquele baile.

Lembro-me bem da sua tentativa de fazer abortar o projecto que lhe apresentavam, mas resolvidos outros problemas e depois de ter sido “picado” pela minha irmã para choramingar à sua volta, acabou por aceder, dizendo que era a última vez que o fazia.

Além das características que apontei, a minha mãe que conhecia toda a juventude do bairro, era uma mulher com grande sentido de equilíbrio e que não consentia a mais leve falta de respeito, fosse e quem fosse. Por outro lado, estava sempre disposta a prestar o seu auxílio, quem dele necessitasse, fosse a que horas fosse - batiam à janela do seu quarto e levantava-se logo para socorrer quem necessitasse.

O baile realizou-se numa casa situada a meio do último quarteirão da Rua Almeida Garrett, do lado direito como quem vem do hospital velho. Aí morava uma amiga da minha irmã, com os pais e mais três irmãos, sendo o mais novo da minha idade.

Pouco me lembro dos participantes e de momento veio-me à memória a presença de duas raparigas amigas de minha irmã que já não consigo localizar mas que penso a mais velha chamar-se Elvira e a mais nova ser muito morena!

O que me lembro muito bem é que coube à minha mãe a ornamentação e a engrenagem da abertura da pinhata que se fazia através de fitas de seda de várias cores e larguras (penso que eram levadas pelos convidados) e se juntavam num molho, tendo cada, uma argola na ponta.

Preparou-se um trono e foi a minha mãe que fez as coroas, forradas a papel de prata, para os reis, aqueles que abrissem a pinhata.



Num quarto fechado, as mães presentes decidiram qual a fita que iria abrir a pinha. Meti-me lá num cantinho e quando foi dado pela minha presença, alguém levantou o problema mas a minha mãe disse que tinha confiança em mim e disse-me: - livra-te ... se disseres a alguém (...).

A fita que abria era estreita e azul claro e havia mais do que uma.

Lembro-me de a minha mãe dizer que só esperava que não fosse a filha a abrir a pinhata.

Calculando a minha irmã que eu saberia do segredo e juntamente com o seu par (não tenho a certeza quem era), apesar da minha primeira resistência, não foi difícil convencer-me até porque eu gastava afinal que fosse ela a rainha!

As fitas eram muitas, mas à terceira tentativa a mana puxou a fita, a pinhata abriu saindo um casal de pombos brancos!

A minha mãe ficou pior que estragada!

Se tem sabido da inconfidência, eu e a minha irmã teríamos levado uma tarei das rijas - não havia ninguém que nos salvasse.

Nunca tive a coragem de lhe fazer tal confissão, apesar de muitos anos passados!

A MEMÓRIA funcionou mais uma vez!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Frei Baptista do Carvalhal

(CORREIO DO RIBATEJO DE 15 DE DEZEMBRO DE 1995)

[Religioso Trinitário]
Filho de António Carvalhal e de Vitória de Aguiar, nasceu em Santarém.

Faleceu no Seixal no dia 13 de Janeiro de 1628.

Seguindo a vida eclesiástica, professou em 1596, sendo religioso da Ordem da Trindade e bacharel em Teologia.

Foi reitor em Coimbra e visitador geral da Ordem em 1626.

Estudou filosofia e deixou uma obra intitulada “Compêndio de Mortos… etc.” depois continuada por Freio Bernardino de Santo António.
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quinta-feira, 18 de março de 2010

Frei José Félix da Costa

CORREIO DO RIBATEJO DE 15 DE DEZEMBRO DE 1995)

Nasceu em Santarém a 4 de Março de 1720 e faleceu a 16 de Agosto de 1745, por isso com apenas vinte e cinco anos.

[Convento do Varatojo]

Religioso franciscano, entrou para o Seminário de Varatojo em 1743 mas que acaba por abandonar em 1744, passando à vida civil. Versado em Matemáticas, escreveu:- “Prognóstico e curioso sumário para o ano de 1738”, Liboa, 1737; “Elegia latina em louvor do Dr. João António da Costa, autor do “Crisol Seráfico”, Lisboa, 1739.
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quarta-feira, 17 de março de 2010

Frei António da Conceição

(CORREIO DO RIBATEJO DE 15 DE DEZEMBRO DE 1995)

Professou no convento da Ordem da Trindade, em Santarém, onde nasceu. Frequentou o colégio de Coimbra, aprendendo ciências escolásticas.

[Torre do antigo Conventa da Trindade, em Santarém. Des. de Braz Ruivo]

Foi encarregado pelo Cardeal D. Henrique de tratar do resgate dos prisioneiros de Alcácer-Quibir, pelo que se deslocou a Marrocos, onde acabou por falecer no cárcere já que o resgate negociado não aparecia.

Deixou manuscrita uma relação dos martírios que sofreram em Marracos sete crianças em 1585 e outra dos tormentos atrozes que sofriam os cristãos que caíam em poder dos mouros.

Nasceu em 1549 e morreu em 20 de Março de 1589.
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domingo, 14 de março de 2010

Dona de casa

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 24 DE FEVEREIRO DE 2000)

[Av. dos Combatentes (Pátio do Frade)]

A última MEMÓRIA que aqui escrevi, foi publicada em 18 de Março de 1999. Como o tempo passa! Já lá vai quase um ano. MEMÓRIA que não foi bem uma memória mas sim uma pequena achega sobre as árvores do Meu Bairro.

No último dia do ano e uma vez em Santarém, não deixei de visitá-las numa rápida escapadela.

O decorrer da vida, sem sabermos bem porquê, mas certamente com algum fundamento, traz-nos à memória situações que vivemos directamente ou que conhecemos de um contacto mais ou menos próximo.

Esse facto ou episódio que nos aflorou, de seguida ou dias depois leva-nos a outro dentro do mesmo âmbito e depois mais outro pelo que começamos a puxar pelo fio e começa a reproduzir-se algo com alguma ligação. Faz-se mais um pequeno esforço e se não é hoje, é amanhã que surge mais uma peça para completar o quadro.

Como já viram pelo título, a MEMÓRIA de hoje tem a ver como se desenrolava a vida de uma DONA DE CASA no meu BAIRRO há cerca de cinquenta anos.


*
Igualdade para a esquerda, igualdade para a direita, já chegou ao Ministério da Igualdade!

É verdade que, ainda que estejamos com diferenças consideráveis, já se deu um grande e útil salto mas... ainda falta muito para andar.

À DONA DE CASA, como era então designada a mulher do então CHEFE DE FAMÍLIA, começava por lhe competir fazer a gestão (como se diz hoje) de um normalmente débil salário. Chegar ao fim do mês, sem saldo negativo, não era fácil.

Só bem mais tarde se juntaria ao salário do homem da casa, o dos filhos que por volta dos onze, doze anos, após o exame da 4ª classe (e muitos não o faziam), procuravam arranjar um ofício, por vezes igual ao do pai mas sempre que possível melhor, que tivesse mais saída e fosse melhor remunerado. Nos primeiros anos, era para aprenderem, começavam sem ganhar nada e depois o recebido não dava para a roupa e calçado. Quando começavam a ganhar alguma coisa que se visse, pouco ajudavam o orçamento familiar visto entretanto constituírem família.

Para que o saldo não fosse negativo, a DONA de CASA tinha de fazer grande ginástica e sacrifícios que passavam despercebidos aos filhos e nalguns casos ao próprio marido. É preciso tomar bem nota que as faltas faziam-se sentir sempre e em primeiro lugar na mãe, na DONA DE CASA como então se dizia. É uma boa DONA DE CASA, era frase feita mas nem todas a mereciam. Ser boa DONA DE CASA era saber administrar o salário do marido, saber cozinhar com equilíbrio, ter conta na mão ao deitar o azeite no tacho ou na panela, descascar as batatas deitando fora o mínimo possível, contar bem os elementos para que nada se estragasse ou deitasse fora.

Tinha de saber fazer tudo com perfeição dentro da sua casa:- lavar a roupa (o sabão tinha de endurecer para se gastar menos), passar a ferro, cozinhar, caiar, costurar, lavar a casa, tratar dos filhos, ser enfermeira e muito mais.

De uma maneira geral, era a primeira a levantar-se em casa preparando o pequeno almoço para o marido e filhos quando já tinham obrigações de escola ou de trabalho. Ela é que sabia as quantidades a fornecer e tudo isto com o espírito de equilíbrio. Era sempre a última a servir-se.

[Fogareiro a carvão]

O fogareiro de carvão tinha sido aceso com a ajuda da carqueja, vendida por uma velhota que vivia nos campos das redondezas, para lá da carreira de tiro. Carregando do produto uma pequena burrinha castanha, percorria as ruas do bairro que na altura não eram tantas como hoje, ou pelo menos havia muito terreno para construir.

De feições miúdas e seca de carnes, de pele enrugada e um pouco encurvada. de lenço pela cabeça cobrindo os cabelos alvacentos, vestia sempre de preto.

Não tenho presente, mas o preço do molho não ultrapassava os dois tostões. Quando era para o fim, os últimos molhos eram mais baratos pois ia-se fazendo tarde para regressar a casa e queria acabar com a carga. A mesma mulherzinha tinha épocas em que aparecia a vender queijo fresco.

Lembro-me perfeitamente do tamanho dos molhos e da sua cor verde escura a atirar para o castanho. Eram atados por baraço vegetal.

Em casa havia sempre uma reserva de carqueja pois a sua utilização acelerava o atear do carvão.

Seguia-se o varrer a casa e fazer as camas que tinham enxergões de palha de centeio feitos por artífices a que se chamavam e chamam colchoeiros. Enquanto nas camas de ferro constituíam peça única, nas de madeira eram dois, ao lado um do outro. Sobre os enxergões assentava o colchão, normalmente de tecido às riscas, espécie de saco em forma de estreito paralelepípedo, que possuía ao centro uma abertura por onde a DONA DE CASA metia a mão para mexer e remexer as camisas, que era a designação que tomava a palha de milho ripada. A sua substituição era periódica e tinha a ver com a utilização, possibilidades económicas e outros factores. De uma maneira geral, talvez o fossem de dois em dois anos. Compravam-se então, às vezes ao Manuel Serralha, dois ou três panos de camisas. Mais uma tarefa para a DONA DE CASA, a de ripar a palha com a ajuda das filhas ou das vizinhas. Da palha velha ainda se aproveitava a que estivesse em melhores condições, saindo a que já estava transformada em pó. De palha nova, ficavam a grande altura mas depressa acamavam.

A abertura central do colchão era fechada através de pares de nastros, que serviam de atacadores.

Em casas de maiores possibilidades, os colchões eram cheios de lã De custo muito mais elevado, tinham de ser de tempos a tempos despejados para a lavagem da lã que tinha de ficar uns dias ao sol, a enxugar. Havia uma grande desvantagem, muito quentes no Verão, mas apetecido no Inverno.

Lençóis e almofadas, invariavelmente brancos e nos melhores panos, bordados à mão.

Depois confeccionava-se a refeição, onde não faltava a sopa e depois, mais frequentemente, o peixe que na altura era mais barato do que a carne. Desta, além do que se podia criar no quintal, aves de capoeira principalmente para a utilização de ovos e coelhos, talvez a de porco fosse a mais utilizada, com relevância para os enchidos.

Os pratos eram sempre feitos pela DONA DE CASA que começava por servir o chefe da família. Ela era sempre a última, reservando para si os piores bocados.

Lavava a louça utilizando dois enormes alguidares de barro vidrado de tons melados ou esverdeados. Um destinava-se à lavagem propriamente dita, o outro para enxaguar. Acontecia que o talher, principalmente os garfos e as facas, depois de lavados e enxugados, tinham de passar por outra operação, aborrecida de executar - serem lixados para ficarem brilhantes. Onde estava o inoxidável?!

Normalmente cabia às filhas esse trabalho (digo filhas e não filhos) que antes do executarem deitavam a seu lagrimazita.

O arear de tachos e panelas já competia à DONA DE CASA. O esmalte misturava-se com o alumínio. As frigideiras, muitas vezes de ferro e a grande preocupação do seu interior ser bem limpo e areado. Ainda era muito vulgar o uso da louça de barro vidrado, principalmente frigideiras, tachos e tabuleiros para ir ao forno, na altura de lenha.


[Fogão a lenha]
As tardes não tinham uma utilização uniforme. Umas eram utilizadas para a lavagem da roupa que numa fase mais antiga era feita numa selha, vaso redondo de madeira com aduelas suportadas por aros de ferro. Havia uma tábua para a roupa ser esfregada, impregnando-a de sabão azul, consistente. Determinada roupa, mais suja e grosseira, ficava em potassa de um dia para o outro. Só mais tarde apareceram os tanques feitos de cimento e considerado um luxo, grande ambição das DONAS DE CASA.

Após a secagem que se realizava em arames estendidos nos quintais, era recolhida, separada e dobrada para a passagem a ferro que normalmente se realizava de noite, por vezes quando a família já dormia.

[Fogareiro a petróleo]

Passava-se em cima de um cobertor velho colocado numa mesa. Tábuas e de madeira, muito poucas existiam.

O ferro, com pega de madeira, tinha de ter a sua base bem lisa e polida, o que era feito através da passagem de lixa as vezes que fossem necessárias. No interior colocavam-se as brasas de carvão a fim de o aquecer à temperatura adequada nem sempre fácil de obter. Quando as brasas esmoreciam era necessário avivá-las com o abano. O grande problema dava-se quando saltava uma fagulha que ia queimar a peça que se estava passando, fazendo-lhe um buraco.

Seguia-se a tarefa de pregar os botões que faltassem e “dar uns pontos” onde se tornasse necessário. Passajavam-se as meias com o auxílio de um ovo de madeira, hoje, quando aparece um buraquito, deitam-se fora. As passagens tornavam-se em verdadeiros cerzidos.

Quando o orçamento permitia, compravam-se tecidos com que se faziam, desde saias a camisas, passando por tudo o que era necessário numa casa. Pouco ou nada existia feito.

Os enxovais dos bebés, tinham origem nas mãos das mães, incluindo as peças tricotadas com agulhas de lã, tão necessárias.

Noutros dias, lavava-se o chão com sabão de amêndoa (amarelo), tarefa para a qual se usava uma pequena peça de madeira que podemos definir como sendo um prisma triangular de cerca de meio metro de comprimento e de quinze a vinte centímetros de aresta, uma delas sofrendo leve abaulamento. Esta face era completamente aberta. Era aqui que a DONA DE CASA se ajoelhava para ir executando o árduo trabalho, mudando-a conforme a necessidade.

A mesma peça utilizava-se para as casas enceradas e aqui o trabalho talvez fosse mais violento. Primeiro raspava-se a cera que por ser velha estava suja e depois com um pano dava-se nova mas isso, não chegava, havia que puxar o lustre, com as mãos e panos de lã. Ainda não era o tempo dos enceradores eléctricos, pelo menos, pelo MEU BAIRRO.
Ainda não está esgotada a actividade da DONA DE CASA. Competia-lhe igualmente fazer as caiações necessárias, uma vez por ano. Já havia casas estucadas, é uma verdade mas a maioria eram caiadas e mesmo as estucadas, o exterior e muros do quintal que quase todas tinham, caiavam-se.

Nas doenças, fazia de enfermeira de serviço.

Quando os pais estavam velhos e acamados (na altura não havia os lares que há hoje) só contavam as filhas para os cuidar, o que acontecia também em relação aos sogros pois ia ocupar o lugar do marido - as noras alinhavam ao lado das filhas, em pé de igualdade nos trabalhos.

E quando havia morte na família? Com luto rigoroso a DONA DE CASA tratava de tingir em grandes panelões e a lume de lenha, as roupas necessárias para todos poderem vestir de preto, como mandava o uso e a tradição.

Responsável por tudo isto, se possível, ainda o era mais pela criação dos filhos. Quantos homens de então mudavam as fraldas aos filhos? Nenhum, eu pelo menos não conheci. Mesmo que o homem o pretendesse fazer, a mulher não o consentia pois aceitava essa obrigação e não queria que o marido ficasse mal visto, como então se dizia. Seria um escândalo, para ele e para ela!

Não esgotei as tarefas que competiam à DONA DE CASA no MEU BAIRRO à cinquenta anos, mas dei uma ideia aos novos que as desconheciam e que certamente ficarão de boca aberto.

A vida mudou muitíssimo, a mulher começou a sair de casa para trabalhar e nos primeiros tempos ainda foi maior vítima porque além de tudo o que já fazia, exercia a sua profissão.

A evolução da vida a isso levou e a pouco e pouco a mulher foi-se libertando até porque ser-lhe-ia impossível manter toda essa actividade sem a ajuda de todos da casa, marido e filhos. Enquanto ela faz as camas, ele trata do filho. Hoje os trabalhos são divididos mas ainda estamos longe da Igualdade a que dificilmente chegaremos.

A geração actual já funciona com alguma igualdade. Elas e muito bem, batem o pé nas tarefas caseiras e eles já vão alinhando porque as mães os foram preparando para isso.

Confesso que enquanto fui solteiro nunca fiz a minha cama, nunca descasquei uma batata, nunca lavei um prato, para não dizer estrelar um ovo.

Segundo as regras de então, essas tarefas não me competiam. Tudo igual aconteceu ao meu pai, como chefe de família, excepto uma coisa, o cozinhar que fazia por gosto de vez em quando, principalmente determinados pratos em que era exímio. Do resto, nada.

[Rua Padre Inácio da Piedade e Vasconcelos]

Fui criado neste ambiente mas aos vinte e um anos quando saí de casa para iniciar a minha vida, compreendi que as coisas não podiam ser assim e senti a necessidade de aprender a fazer as coisas de casa que competem tanto à mulher como ao homem, a designação de chefe de família acabou e muito bem e hoje as tarefas têm de ser divididas.

[Medidora]

Ainda fui a tempo de cozinhar para a minha mãe, fazer-lhe a cama, lavar-lhe a louça e a casa, dar-lhe banho.

Presentemente e já no ocaso da vida, sinto muito orgulho de saber fazer tudo numa casa e de ajudar nas tarefas a minha mulher. Se não faço mais é que ela não gosta muito do meu trabalho, que considera imperfeito, excepto a culinária, tarefa que me passa sempre que pode.

Se à gente da minha idade e do MEU BAIRRO eu fiz recordar coisas que sabe tão bem ou melhor do que eu, se algum jovem ler este escrito, pensará duas vezes e ficará a conhecer a vida da sua avó, mesmo sem ela lhe a ter contado, isto se não pertencia aos extremos da sociedade. O MEU BAIRRO era habitado quase exclusivamente por gente do povo, operários, empregados por conta de outrem e funcionalismo público. Havia uma ou outra bolsa de pobreza que não alcança os parâmetros que acabo de caracterizar, tal como em sentido inverso havia quem vivesse muito bem.

quinta-feira, 11 de março de 2010

D. Garcia de Meneses

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 7 DE DEZEMBRO DE 1995)



Já referimos nestas FIGURAS, alguns Meneses, entre os quais o pai e o avô da que iremos hoje referir.

Filho de D. Duarte de Meneses, 3º Conde de Viana e fronteiro-mor de Alcácer-Ceguer e de sua segunda mulher, D. Isabel de Castro, nasceu em Santarém.

Acompanhando seu pai, foi educado em Alcácer-Ceguer e Ceuta, revelando destemor militar, dotes políticos e talento literário.

Esforçado guerreiro, esteve com D. Afonso V na batalha do Toro (1476), comandando o corpo de cavalaria que seguia na retaguarda da ala do príncipe D. João, mais tarde D. João II.

Comandou também a esquadra mandada pelo rei Africano, em 1480, à Itália, em socorro do rei de Nápoles, ameaçado pelos turcos.

Escreveu em latim a crónica desta expedição, obra que só veio a ser impressa cerca de um século após a sua morte.

Virando-se para a religião, é ordenado sacerdote e nomeado embaixador a Roma onde, na presença do papa Xisto IV e de todo o concistório, na Basílica de S. Pedro, profere uma oração em latim que causou admiração em todos os presentes, incluindo o papa.

De considerada erudição, obteve lugar de destaque na corte pontifícia.


Regressando a Portugal, é feito bispo de Évora.

Instigando e dirigindo, envolve-se numa conspiração de alguma nobreza, chefiada pelo Duque de Viseu, contra o rei.

D. João II foi informado a tempo de a fazer gorar e castigou os implicados.

O Duque de Viseu, D. Diogo e cunhado do monarca, foi por ele apunhalado, em Setúbal, numa sala do Paço real, onde tinha sido chamado. Degolados e esquartejados foram outros cúmplices nos quais se encontravam D. Guterre Coutinho, D. Pedro de Ataíde, D. Fernando de Meneses e D. João, marquês de Montemor.



Se o bispo de Évora não sofreu a mesma pena, foi por ser considerado “ungido do Senhor”. Não deixou porém de ser encerrado numa cisterna da torre de menagem do Castelo de Palmela, cisterna que ainda existe. Em 31 de Agosto de 1484, e cinco dias após ali ter encerrado, acaba os seus dias, envenenado, segundo a versão do cronista Rui de Pina.
Parece ter sido uma inconfidência de D. Garcia de Meneses a Maria Tinoco, sua amante, que o teria revelado a seu irmão Diogo Tinoco a origem da denúncia ao rei.

Foi em Santarém, segundo parece, no Palácio dos Arcebispos que se situava onde é hoje o hospital velho, que a conspiração se organizou.

Aqui fica esta pequena nota biográfica de um santareno que teve uma existência aventurosa e singular.
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Dicionário de História de Portugal, Dir. Joel Serra
Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971
Santarém na História de Portugal, J. Veríssimo Serra, 1950
História de Portugal, J.Veríssimo Serrão
História e Monumentos de Santarém, Zeferino Sarmento, 1993
Castelos Portugueses, Enciclopédia
pela Imagem
Lello Universal, Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, Porto, 1975