sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Hospital de Jesus Cristo e a sua igreja

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 26.03.1993)




A MEMÓRIA de hoje é um pouco diferente das que os nossos leitores estão habituados, mas pensamos que tem todo o interesse, ainda que não haja praticamente nada de inédito.

O nosso bairro, novo como é, e fundamentalmente destinado ao povo, às classes trabalhadoras, não tem no seu interior monumento para mostrar. Contudo, o bairro construiu-se a partir da retaguarda de dois antigos conventos, o da Ordem Terceira de S. Francisco e o das Donas, que tinham sido edificados para além das muralhas do velho burgo, “em distância de setenta passos, quase a poente”, no dizer do Padre Inácio, o autor de “Santarém Edificada” e a que já nos referimos quando abordámos a toponímia.

Os dois seculares monumentos que têm sofrido variadíssimas transformações com o decorrer do tempo, são as balizas da Avenida dos Combatentes, acabando também por se poderem considerar, integrados de certa maneira no MEU BAIRRO.

Ao Hospital de Jesus Cristo, que me lembre, recorri duas vezes, por dois cortes, um, na língua (!) e o outro num pé. Nesta última situação não esqueço que foi o Sr. Manuel Machado, que foi futebolista de “Os Leões”, que me tirou do colo de minha mãe e me levou ao banco do hospital, onde me laquearam duas artérias. Já se passaram quase cinquenta anos!

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No local da “Madalena” ou do “Sítio” existia o Palácio da Mitra (medieval) que foi o Paço dos Arcebispos de Lisboa.

Tramou-se aqui uma das conspirações contra D. João II, planeando eliminar o rei, prender o Príncipe D. Afonso, herdeiro do trono, que veio a falecer da queda de um cavalo ocorrida nas redondezas, e a subida ao trono do Duque de Viseu, D. Diogo, primo do monarca.

O rei, ao ter conhecimento da tramóia, veio a apunhalar o Duque de Viseu, seu cunhado, nos Paços de Setúbal (1484). Dos restantes conjurados, o bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, natural de Santarém e instigador da conjura, foi preso no Castelo de Palmela onde veio a morrer pouco tempo depois, envenenado; seu irmão, D. Fernando de Meneses e D. Pedro de Ataíde, foram logo degolados; D. Gutierres Coutinho, Comendador de Sesimbra, envenenado na torre do Castelo de Avís e D. Fernando de Ataíde, esquartejado.

D. Fernando da Silveira, que escapou para França, acabou por ser morto em Avinhão onde o alcançou a implacável vingança real. Isaac Abravanel, um dos mais ricos judeus da Península foi acusado de financiar a conjura e condenado à morte, mas conseguiu sair do país.

Em 1590, os frades Terceiros de S. Francisco que ocupavam o Convento de Sta. Catarina dos Olivais, no sítio das Assacaias – Saúde, a primeira casa dos Terceiros em Portugal, rogaram ao arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro, que lhes permitisse a transferência para aquele local, desejo que foi atendido e depois sancionado pelo Senado da Vila. Ocorre isto por volta de 1615.

Aconteceu que a essa transferência se opõem as Dominicanas do Convento vizinho, com base num Breve Pontifício que impedia a fundação, nas proximidades de outra mansão conventual. O processo arrastou-se por cerca de três anos pois só em fins de 1617 os frades puderam ocupar a sua casa.

Com a implantação do liberalismo, foram extintas as Ordens Religiosas em 1834 e desalojados os frades da Ordem Terceira de S. Francisco.

O Hospital de Jesus Cristo, fundado por João Afonso de Santarém e ao qual se tinham anexado, no reinado de D. Manuel, todos os outros que existiam em Santarém, em número de quinze, vem ocupar este lugar, deixando aquele em que se encontrava, ao “Canto da Cruz” e onde se encontra hoje o Teatro Sá da Bandeira.

Em 1987 o novo hospital distrital entra em funcionamento na zona de São Domingos pelo que o antigo foi desactivado. Nas instalações desenvolvem-se várias actividades no campo assistencial e de saúde.

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A igreja chamada do Hospital de Jesus Cristo, foi fundada pelo arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro e as obras decorreram entre 1615 e 1649. Nesta última fase a cargo de Joana Coelha, natural de Cabo Verde e viúva de um capitão de Cacheu.

É de uma só nave. Fachada de “estilo chão” e disposta em três andares, duas torres sineiras laterais de base quadrangular e unidas por balaustrada.

O portal principal possui colunas clássicas. As outras duas portas, que ladeiam o portal são bastantes mais pequenas e de frontão interrompido, com volutas.

As nove janelas da fachada são decoradas por frontões, ora triangulares, ora curvos.
A capela-mor tem abóbada de meio canhão.

Algumas pinturas do século XVII.

Paredes cobertas de azulejo em branco e azul.

Na parede da capela mor está o túmulo de Pedro Escuro, companheiro de D. Afonso Henriques e por este incumbido de guardar a porta de Valada, quando da conquista aos mouros.

Diz a lenda que o alcaide mouro que governava a cidade em nome do rei de Sevilha, raivoso da derrota, promete voltar com reforços e então, pagar-se-ia. Pedro Escuro, responde-lhe: - Iedes e viredes e aqui me acharedes ou morto ou vivo.

Pedro Escuro não faltou ao que tinha prometido. Por testamento ordenou que ficasse sepultado junto à porta de Valada, onde ele próprio mandou edificar uma ermida e um hospital que se designou do “Reclamador e Palmeiro”.

Muitos anos depois é que os restos mortais do cavaleiro foram removidos para este jazigo.

Vítor Serrão classifica a Igreja do Hospital de Jesus Cristo como excelente espécime das peculiaridades arquitectónicas do “estilo chão” português, pela elegante projecção da sua frontaria, concebida em solução maneirista numa altura em que o resto da Europa se seduzia já pela ostentação do Barroco proselitista.
É considerado monumento nacional desde 1947.

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BIBLIOGRAFIA

Vasconcellos, Padre Ignácio da Piedade e – História de Santarém edificada, 1740
Lemos, Eugénio de – Santarém. Lenda e História, 1940
Arruda, Virgílio – Santarém no Tempo, 1971
Luís Montez Matoso, historiador e jornalista, 1980
“A propósito do Paço dos Arcebispos e do que dele há a esperar”, in Correio do Ribatejo de 27.03.1987
Serrão, Vítor – Santarém, 1990

terça-feira, 15 de setembro de 2009

D. Leonor de Portugal

(PUBICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 7.7.1995)



Esta infanta, filha de D. Duarte e de D. Leonor de Aragão, nasceu, segundo uns, em Torres Novas, segundo outros, em Torres Vedras, no dia 18 de Setembro de 1434.

Pedida em casamento aos dezasseis anos para o Imperador da Alemanha, Frederico III, reinando seu irmão D. Afonso V, concedeu-lhe este um dote de 60 000 florins de ouro.

A celebração do consórcio tornava-se indispensável para o rei a fim de poder readquirir uma parte do prestígio internacional que tinha perdido pelo modo como se comportou com os tios e os primos.

O casamento realizou-se em Lisboa, por procuração, no dia 9 de Agosto de 1451 com pompa e circunstância.

As Cortes de Santarém de 1451 foram convocadas com o intuito do pedido de lançamento de uma contribuição para fazer face às despesas do casamento, o que ficou dos 150 000cruzados orçamentados.

Depois de faustosas comemorações saiu do Tejo no dia 25 de Outubro de 1451, numa frota comandada por Pedro Rodrigues de Castro e acompanhada de grande séquito.

A armada era composta por seis naus e vários navios menores tendo sido atacada pelos piratas que foram repelidos.

Chegando a Leorne a 2 de Fevereiro de 1452, o imperador mandou cumprimentá-la por altas figuras e fazê-la acompanhar até Sena, onde a estava esperando.

A comitiva seguiu depois para Roma onde os esposos foram coroados, primeiro ele de Imperador, depois a sua jovem, loira e esbelta esposa, de Imperatriz, o que foi feito pelo Papa Nicolau V.

Um dos fidalgos que assistiu à coroação, Lopo de Almeida, feito Conde de Abrantes, redigiu depois uma relação circunstanciada dos acontecimentos.

Do casamento nasceram quatro filhos, um dos quais foi o Imperador Maximiliano I, que veio a casar com Maria de Borgonha, filha e herdeira de Carlos, o Temerário e a ser pai de Filipe e avô d Carlos V.

D. Leonor, que morreu com trinta e três anos, a 3 de Setembro e ficou sepultada no Mosteiro da Ordem de Cister, na cidade de Neustadt, era muito estimada pelos alemães.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão
História da Europa, Vol II, João Ameal
História de Portugal, dir. J.H. Saraiva, Publicações Alfa
Dicionário da História de Portugal, dir. de Joel Serrão
Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Edições Alfa

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Os Trajes

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 19 DE JULHO DE 1991)



[Antigo cavador da Várzea de Santarém. Foto cedida por Luís Fontes]

Quem se debruçar sobre o passado de uma região, mais ou menos circunscrita, nunca pode deixar de ter em consideração a maneira de vestir e calçar das suas gentes.

O seu conhecimento ajuda-nos a compreender melhor a região, desde a maneira de ser do seu povo aos trabalhos que então executavam.

Não vou apresentar aqui um estudo sobre o assunto, primeiro porque não tenho conhecimentos para isso, segundo porque não é esse o sentido do “escrito” e por último porque tem este semanário colaboradores verdadeiros especialistas na matéria que aliás têm com frequência tratado do assunto com propriedade.

Pretendemos sim, dentro das nossas modestas possibilidades, dar continuação a temas da vida varzeense que temos vindo a abordar e como tal não podíamos fugir a este.

É nesse sentido que aqui estamos.

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A maneira de vestir e calçar esteve sempre ligada à actividade desenvolvida e ao meio em que ela se exerce.

O minhoto não traja como o alentejano, por exemplo, nem a mulher dos campos do Sorraia como a transmontana.

As diferenças são muit6as, desde as formas, passando pelos materiais e mesmo as cores.

Nesses tempos, era quase tudo feito pelas próprias pessoas ou por artesãos locais.

O desenvolvimento dos trabalhos agrícolas e artesanais com a introdução de novas tecnologias, a abertura de novas vias de comunicação e o aparecimento de novos meios, vieram estabelecer igualdades e paralelismos então inexistentes.

Hoje, a fábrica que produz camisas ou sapatos fá-lo para venda em todo o País e mesmo no estrangeiro. Chegam a todos os locais quase ao mesmo tempo.

Se o trabalho manual está reduzido ao mínimo possível, a maneira de trajar deixa naturalmente de se impor, por desnecessária.

Reparar que as grandes feiras anuais que se realizavam por todo o país, estão em completo declínio a favor dos mercados mensais que começaram a proliferar – mercados de um dia e não feiras de oito ou quinze, é a resposta dos novos tempos. Não mais o homem pode esperar um ano para adquirir o que necessita. Tudo naturalmente mudou.

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Por volta dos finais da década de cinquenta e princípios da seguinte, dos nossos dias, ainda era possível ver na freguesia homens com os seus trajes característicos, ainda que o número já não fosse significativo, aparecendo muitos casos com desvirtuamento.

Na freguesia da Várzea não havia uma maneira própria de trajar. O varzeense trajava como qualquer outro homem do “Bairro de Santarém”.

Assim, usava calça à boca-de-sino, faixa, camisa branca e barrete ou chapéu de aba larga. As mulheres vestiam blusa, saia de pano grosso, pequeno avental (o seu luxo) garridamente bordado ou enfeitado com rendas e lenço de ramagens graciosamente posto na cabeça.

Nos trabalhos de campo, o calçado para ambos era de couro, ensebado para se conservar e cardado ou brochado para mais durar.

Para mim, e de todos que conheci, era o meu vizinho José Calhariz (localmente Calharizo), o que vestia mais genuinamente.

Quando o conheci, já estava bem entrado na idade, pelo que, entregou as fazendas ao genro e já não trabalhava.

Era uma figura meã, seco de carnes, a calça muito justinha, caindo sobre o atacado da bota cardada, a aba, o que fz lembrar, pelo recorte, a boca de um sino e daí, segundo pensamos o nome. Jaqueta bem justa.

Quando por ali estávamos, por volta das dez da manhã, contendia connosco. Dava um saltinho, muito característico para vencer a pequena regueira junto de sua casa e lá ia ao seu mata-bicho, que não dispensava.

Quando jovem, contava-nos a nossa mãe, dançava muito bem o fandango.

Com o seu desaparecimento, e já lá vão cerca de trinta anos, o nosso eleito passou a ser, José Ulisses (localmente Lícias), que nos lembramos muito bem ver enrolar a cinta preta que não dispensava, tal como o barrete.

Também não nos esquece o seu cumprimento ou agradecimento de barrete na mão.

Por estas alturas, havia mais homens ainda a cumprir a tradição já em franco declínio. Hoje, tudo acabou e se os jovens querem conhecer como vestiam os seus bisavós, terão de reparar num rancho folclórico de danças e cantares do bairro de Santarém, mas nem todos servem para observação.

domingo, 13 de setembro de 2009

Infante D. Luís



(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 14.07.1995)


O quarto filho de D. Manuel e de sua segunda mulher, D. Maria, nasceu em Abrantes no dia 3 de Março de 1506, numa altura em que a corte tinha abandonado Lisboa, fugindo à peste que grassava na capital.

Cedo deu o infante provas de inteligência e dedicação ao estudo, tendo como mestre, entre outros, o sábio Pedro Nunes que lhe ministrou, Aritmética, Geometria e Filosofia, considerando-o um bom aluno.

O Infante D. Luís era de meã estatura, loiro e de bem parecer, bem disposto e prazenteiro no falar, galante no vestir, como o descreve Damião de Góis.

Além disso, era arguto, cauto e com um certo engenho literário e musical.

Acompanhou-o no estudo ministrado por Pedro Nunes, D. João de Castro que foi o 13º Governador e 4º Vice-Rei da Índia.

Condestável do Reino e fronteiro-mor da Comarca de Entre-Tejo e Guadiana, por carta de 16 de Novembro de 1521.

Foi o 5º Duque de Beja, Grão-Prior do Crato por carta de 10 de Março de 1529, pertenceu à Ordem de S. João de Jerusalém; Senhor das vilas de Covilhã, Seia, Almada, Moura, Serpa e de Marvão e dos concelhos de Lafões e Besteiros.

Era príncipe extremamente estimado no paço mas também pelo povo que lhe queria sinceramente pela sua jovialidade, franqueza e inteligência, o que contrastava com o feitio do rei D. João III, seu irmão e que parece não gostar da popularidade do irmão e tenta sempre contrariar os seus planos.

Apesar disso, foi considerado colaborador muito próximo do rei, juntamente com a rainha-mãe, D. Catarina e pelo Conde de Vimioso e de Castanheira que o aconselhavam na governação.

D. Luís era pessoa a quem os cristãos-novos recorriam para moderar o fanatismo de D. João III.

Fundou o Mosteiro de São João da penitencia das Religiosas Maltesas, na vila de Estremoz, para ser habitado por fidalgos pobres.

D. Luís desejava ir à Índia mas apesar de se mostrar à altura do comando dos portugueses naquelas terras do Oriente, o rei recusou-se a nomeá-lo o que naturalmente o Infante não gostou.

Entretanto, em 1530, Carlos V pede auxílio a Portugal para a expedição que ia empreender contra o corsário Barbaroxa, visto este ter-se assenhorado de Tunes e Argel, dominando o Mediterrâneo.

D. João presta efectivamente o auxílio solicitado enviando uma esquadra de vinte caravelas, duas naus e o galeão S. João, “o Botafogo”, considerado o melhor navio da época.

D. Luís pretende comandar a frota mas o rei, mais uma vez, a isso se furta, nomeando para o efeito, António de Saldanha.

Devido ao facto, o infante sai secretamente de Évora, onde a corte se encontrava e dirige-se a Barcelona, sendo recebido por Carlos V que o cumula de gentilezas, dando--lhe lugar na expedição. É então que o rei se vê obrigado a enviar carta ordenando a António de Saldanha que o infante fosse de todos obedecido durante a jornada, como se fosse ele próprio, rei.

D. Luís governando o Botafogo, com 366 peças de bronze, cortou a fortíssima cadeia de ferro que atravessava o porto de Goleta, dando entrada à frota e obrigando o corsário a fazer-se ao mar, onde a batalha lhe seria mais desfavorável, cumprindo assim a sua missão o que originou largo agradecimento de Carlos V.

Em 1534 são-lhe outorgadas as rendas e o senhorio de todo o termo de Beja. Foi protector de arquitectos, escritores e sábios e o fomentador do gosto renascentista.

Dedicaram-lhe obras vários vultos das nossas letras, como Gil Vicente, Sá de Miranda, Lourenço de Cáceres, D. João de Castro e mesmo o mestre sábio, Pedro Nunes.

O infante teve várias vezes o matrimónio negociado mas nunca concluído, vindo a morrer solteiro.

Estiveram nestas condições, Maria Tudor, então princesa, Cristina da Dinamarca, a sobrinha D. Maria que veio a ocupar o trono de Parma e a princesa Edviges da Polónia. Este último casamento negociado por Damião de Góis, foi considerado inoportuno por D. João III.

O Infante deixou contudo um filho legitimado, de Violante Gomes (a Pelicana), judia de rara beleza que se fez cristã e professou no Mosteiro de Almoster, onde veio a morrer. D. António que foi Prior do Crato como seu pai, foi pretendente ao trono de Portugal após a morte do Cardeal-Rei, seu tio.

O Infante D. Luís adoeceu na vila de Salvaterra de Magos, de onde foi levado para Lisboa, falecendo no dia 27 de Maio de 1555, ficando sepultado no Mosteiro de Belém.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão
História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão
O Mosteiro de Almoster, P. Joaquim Luís Batalha, 1975

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Lembrando o Dr. Silva Pereira no 110º Aniversário do seu Nascimento

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 05.07.1991)



Deixámos nas páginas deste jornal (10 de Maio de 1991), uma pequena biografia deste poeta varzeense quase desconhecido dos seus conterrâneos.

De um poeta, tem-se sempre algo mais para dizer, já que são sempre personalidades ricas e controversas.

Mas hoje, não é nesse campo que vamos entrar. Pretendemos apenas recordá-lo no seu aniversário que passa amanhã, dando a público um poema intitulado, ECOS DISTANTES, no qual o poeta, além de mostrar o seu valor literário, revela mais uma vez o grande apego ao lugar onde nasceu.


[Casa onde nasceu e faleceu o Dr. Silva Pereira. Foto JV]

ECOS DISTANTES

Vós, meninas dos meus olhos,
Aprendestes a chorar, a chorar,
Com a fonte de água fria
Que mansamente corria
Junto à casa em que eu nasci!

A chorar,... a cantar,...a rezar...
Que singular e estranho hino,
Murmurado, noite e dia!

Mas aquelas eram frias,
E vós sois quentes, requentes,
Lágrimas minhas dolentes.

Ah! mas quem me dera ali,
Quem me dera ser menino,
Junto à casa em que eu nasci!

E os rouxinóis e carriças,
Junto à fonte, junto ao rio,
Pelas quintas pequeninas,
Cantavam, ao desafio,
Te-deuns solenes e missas,
E vésperas e matinas!...

Foram estes os missais,
Por que eu aprendi,
A rezar, a cantar, a chorar,
Quando eu era pequenino,
Junta à casa em que eu nasci.

Correrá inda a fonte,
Ou ter-se-á secado o monte?
Terá caído a casa em que eu nasci?
Existirá o quadro em que eu sonhava d’antes?

Como tudo fica longe!
-Tristes ecos, já distantes,
Duma vida que eu vivi...

Ah! que saudades eu tenho
Da casa pequenina em que eu nasci!

Mas, não, não quero ver-te mais!
Que vendo-me nascer, sendo o meu berço,
Quiseste um dia ser o inverso:
- Foste e na minha ausência, a tumba de meus pais!


A fonte que abastecia a povoação, correndo mansamente, o seu murmúrio, noite e dia!, sempre o desejo (encoberto por vezes) de voltar à casa em que nasceu; os rouxinóis e as carriças que por ali ainda saltitam, com o seu cantar ao desafio; as quintas (tão características da freguesia) e o sentido religioso, sempre uma constante.

O terror que o invade ao admitir a fonte seca, a casa arruinada.

Sempre a saudade, a distância a que se encontra...

Nos quatro últimos versos, é o choque de posições, tão próprio dos poetas!

Aqui fica este poema, inédito segundo pensamos e escrito há mais de cinquenta anos! Mais uma vez a memória do poeta que nos perdoe o atrevimento.

Pensamos que possuindo a freguesia um grupo cénico, não seria descabido que nos seus espectáculos fossem ditos alguns poemas deste conterrâneo, principalmente aqueles em que lugares da freguesia se possam rever. Para mais, temos o grupo orientado no aspecto artístico por um senhor que muito bem dizia e que certamente continua a dizer, poesia, o que facilitava a possível escolha e preparação de um elemento que muito pode aprender com Nuno Neto de Almeida.

É uma sugestão que aqui deixamos.


[Actual estado da casa onde nasceu o Dr. Silva Pereira. Foto JV, 2009]


Pequena nota

Os textos aqui publicados são a cópia fiel dos que foram publicados no Correio do Ribatejo. Muitas vezes as ilustrações não são as mesmas pelos motivos mais variados, como neste acontece.
Ficam assim os nossos leitores alertados para o facto.

JV

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Grande Guerra 1939-1945

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18.03.1993)

Como vai distante a segunda conflagração mundial mas que a minha memória infantil registou com profundidade, ainda que, como não podia deixar de ser, sem grande ligação entre os assuntos.

Como me lembro das senhas do racionamento da mercearia e do pão, pelo menos!

Pequeninos rectângulos destacados na aquisição dos produtos mas que não sei explicar em pormenor pois na altura também o não sabia.

Havia imensa dificuldade ou até impossibilidade na aquisição de determinados produtos, como acontecia por exemplo com o açúcar e o azeite.


Não havia açúcar para adoçar o café e quem o quisesse beber, ou fazia-o sem açúcar ou chupava rebuçados como acontecia em minha casa, para tirar o “amargo” do café!
Se o açúcar fazia falta, muito mais fazia o azeite. Indispensável na alimentação do homem do mediterrâneo. O pouco que se conseguia, era exclusivamente utilizado onde não podia ser substituído, e mesmo assim, em quantidades diminutas. Os preços eram extremamente especulativos!

Em minha casa eram cinco pessoas. Recordo pedir pão a minha mãe e ela não o ter para me dar visto nas padarias não lhe venderem mais e o da candonga ser a preços incomportáveis para a bolsa familiar.

Mesmo os endinheirados nem sempre conseguiam adquirir o que necessitavam, não por falta de dinheiro mas sim por falta dos produtos.

Lembro-me de o meu pai arranjar açúcar a preços elevados para um familiar pois a sua bolsa não suportava tal preço. Também faz parte da minha memória o auxílio de um tio que devido à sua profissão, percorria o país e ia trazendo o que podia dos sítios por onde passava na sua actividade. Quando trazia azeite, era uma festa!

A minha mãe dizia muita vez:- se isto se mantém por muito tempo, morremos todos de fome.

O gado cavalar era na altura um meio de transporte ainda importante. Lembro-me de o meu pai comentar em casa a remonta efectuada, pois era necessário prover o exército de mais gado.



Havia um vizinho no MEU BAIRRO que era industrial de transportes pelo que tinha duas ou três camionetas que trabalhavam a gasogénio (gás pobre) por falta de outros combustíveis melhores. A minha memória de criança regista um cano situado atrás da cabina por onde era expelida grande fumarada proveniente da combustão.

Também foi possível aperceber-me, apesar da tenra idade, das discussões entre “germanófilos” e “aliados”.

O meu pai comprava de vez em quando “O Século” para ir acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. Habituei-me a conhecer Winston Churchill que descobria em qualquer reportagem fotográfica que o englobasse. Era o meu ídolo que designava por “Chucha”!
Vinte e cinco anos após o armistício, fui “prendado” com uma lata de cinco quilos de açúcar pilé, armazenado naquela altura e que surpreendentemente ainda estava em boas condições de utilização.

Que jeito tinha feito se o tivesse recebido vinte e muitos anos antes!

É pequena esta MEMÓRIA mas para nós trata-se de uma das mais significativas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

João António da Costa e Andrade

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 30.06.1995)



[Pórtico do Convento S. Francisco, Santarém]


Outro santareno nascido em 18 de Novembro de 1702.

Exerceu a actividade de advogado na sua terra natal.

Publicou as seguintes obras: - Crisol Seráfico (à cerca da 3ª Ordem de S. Francisco), Conversação Erudita (sobre o terramoto de 1755) e Elogio do Sr. Sebastião Xavier da Gama Lobo.
Desconhece-se a data da sua morte.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Frei Luís da Ascensão

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 30.06.1995)

Nasceu em Santarém em 1579 e faleceu no dia 28 de Abril de 1669, este religioso franciscano que professou no Convento de Santa Maria da Arrábida onde foi mestre de noviços.

Era homem virtuoso e zelador vigilante da pobreza evangélica nos mosteiros da sua Ordem, tendo sido prelado em quase todos.

Foi duas vezes definidor e uma provincial, cargo para que foi eleito em 4 de Dezembro de 1649.

Deixou manuscrito: Notícia da Fundação e Progressos da Província de Santa Maria da Arrábida.

[Convento de Santa Maria da Arrábida]

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Martim Anes

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 30.06.1995)


[D. AFONSO V]


Este mestre pedreiro de Santarém foi nomeado em 1474, por D. Afonso V, mestre das obras da vila em substituição de Afonso Pires que havia sido demitido por irregularidades que cometeu.
Sendo positivo o seu trabalho, veio a ser confirmado no lugar, por D. Manuel, em 1496, funções que desempenhou até 1504.
Por ser já velho, veio a ser substituído por Pedro Nunes, sendo-lhe contudo mantida a sua tença o que demonstra e atendendo à época, que era artista apreciado.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O futebol

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 12.03.1993)


Entre os anos quarenta e cinquenta dos nossos dias, o descanso semanal circunscrevia-se ao domingo e mesmo assim, não era para todos.

Como ocupá-lo? Ouvir o relato de futebol feito pelo Domingos Lança Moreira ou por Amadeu José de Freitas, na telefonia da taberna mais próxima e que estava suficientemente alto para se ouvir bem na rua.

Numa ou noutra casa, já havia telefonia, e quando vinham ouvir o relato para a porta, os vizinhos aproveitavam.

Como não podia deixar de ser, de um lado os sportinguistas, do outro os benfiquista.
Nestes tempos não havia dinheiro para se ir ver os clubes da sua simpatia a Lisboa, como alguns anos depois veio a acontecer, mesmo ao estrangeiro. Por vezes havia, tal como agora, grandes discussões entre os mais ferrenhos. Era o tempo dos violinos, do Moreira e do Chico Ferreira, este que ainda vi, depois de se ter retirado, fazer uns jogos nos “Leões”, onde jogou algumas épocas o seu irmão António, que era o capitão da equipa. Entre os “leões” e as “águias”, metia-se um “pastel de Belém” ferrenhíssimo adepto do Clube da Cruz de Cristo.

Outros simpatizantes do futebol viravam-se para os jogos locais, havendo nessa altura dois agrupamentos de futebol sénior, o Sport Grupo Scalabitano Os Leões e o Sport Grupo União Operária (vulgo Operário) já que o Grupo de Futebol Empregados no Comércio (vulgo Caixeiros) e a Associação Académica de Santarém ou abandonaram a prática do futebol ou deixaram de ter essa categoria, e o Sport Lisboa e Santarém e “Os Treze”, tinham desaparecido completamente.

Os adeptos, como é natural, dividiam-se por uma e outra equipa. Os Leões, jogavam do estádio Alfredo Aguiar e o Operário no Campo Chã das Padeiras.

Os “dérbis” locais desapareceram quando os Leões jogaram vários anos na 2ª Divisão Nacional, o que nunca aconteceu ao grupo Operário. Os Leões estiveram mesmo a um passo da 1ª Divisão, o que nunca aconteceu ao União de Santarém, produto da fusão entre os dois clubes.

Neste período de diferença entre os dois grupos, a rivalidade aparecia quando se encontravam na categoria de juniores.

Tive o prazer de ser interveniente nesses prélios e no primeiro que disputei, os nervos eram tantos que quando me equipei, tive dificuldade em atar as botas! O jogo disputou-se no Estádio Alfredo Aguiar e na segunda-feira seguinte estive a contas com um professor que tinha assistido ao jogo e era adepto da equipa minha adversária, pois resolveu chamar-me para avaliar os meus conhecimentos. Afinal não era isso que estava em causa, o que ele queria era “mandar umas bocas” por causa de uma ou duas jogadas em que entrei mais rijo! Afinal, “ele” tinha ganho o jogo e folgadamente.

A miudagem do MEU BAIRRO nesses tempos, se os pais não eram adeptos do futebol, como acontecia com o meu, ia bem cedo para a porta dos campos e pedia a quem passava se podia entrar com ele. Já conhecedores da situação eram por vezes eles que nos chamavam para esse efeito e assim assistíamos a todos os jogos.

Lembro-me de uma vez me ter visto aflito ao entrar no Estádio Alfredo Aguiar pelo referido sistema. A avalanche era tal que sentia estar a ser esmagado pelo que tive de gritar o mais alto que pude – foi então que o meu protector e alguns homens que estavam perto conseguiram com muita dificuldade fazer um pequeno círculo que me deixou um pouco mais desafogado.

Tratava-se de um jogo de passagem de divisão, da 2ª para a 1ª. Se a memória não me atraiçoa, era entre o Elvas e o Oriental, que a equipa de Lisboa teria acabado por vencer.

Lembro-me bem do Sr. Leonel da Trindade Pinto, já falecido (vulgo Leonel Padeiro) ter uma grande bandeira do “Operário”, clube da sua simpatia e de que foi dirigente. Foi também grande entusiasta da columbofilia.

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Viveram nesta época no MEU BAIRRO muitos praticantes de futebol que atingiram nível local ou mesmo nacional. Indicarei os que me vierem à MEMÓRIA, alguns já desaparecidos.

Jogaram em grandes de Lisboa, Octávio, Faustino e Cardoso que treinou várias vezes os Leões e o Operário e era considerado um bom técnico para a época, mas que nunca abraçou o profissionalismo.

Manuel Machado, José Pereira (vulgo Zé Catorze) e o extremo direito Lima, homens da terra que defenderam as cores dos Leões. Baptista, um profissional ex-Benfica, defesa e marcador de grandes penalidades.

O treinador Artur Quaresma, ex-jogador internacional de “Os Belenenses” também aqui viveu na Rua 2º Visconde de Santarém, enquanto treinou os Leões.

Do Operário, passou depois para os Leões, Miguel, um dos melhores guarda-redes que Santarém teve e que jogou até bastante tarde, Martinho, Fernando Pê e Lobato.

Madeira, treinou muitos anos os juniores da Académica.

Fernando Fontes (guarda-redes), os Torgais (José, Carlos e João) e José Aguiar (Zezinho) formaram outras gerações.

Muitos mais ficarão por referir.

Em escrito próprio, voltaremos ao futebol para recordar a grupo popular que na minha juventude se formou no MEU BAIRRO.