“Historiador de origem goda, nascido em Santarém e morreu aproximadamente no ano de 621.
Esteve durante dezasseis anos em Constantinopla para estudar os clássicos da antiguidade, dando a conhecer o fruto dos seus trabalhos e investigações em 589”
E continuando a citar a G.E.P.B.: “Foi o primeiro abade de Valclara, cujo mosteiro havia fundado, e no ano de 591 passou a dirigir a sede episcopal de Gerona (Catalunha), cargo que exerceu até à sua morte.
Escreveu um Chronicon, 567 – 589, que segundo alguns críticos, os arianos corrigiram e alteraram em pontos essenciais.
João de Biclara usou também os nomes de João de Valclara e João Biclarense, e com este nome acrescentou, até 594, a Crónica começada pelo bispo Vítor, da Igreja do Norte de África.
____________________________
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
sábado, 29 de agosto de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Uma figura do Meu Bairro - Margarida Jerónima Fernandes
(CORREIO DO RIBATEJO DE 05.03.1993)

Com tal antropónimo, só os familiares saberão de quem se trata; pela nossa parte só soubemos do seu nome completo para escrever este pequeno apontamento.
Nesta série de MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, logo de início esteve nos meus planos “escolher” uma ou duas pessoas, das muitas que lá conheci, que devido à sua acção, justificariam uma abordagem.
Ainda que a maioria fosse gente modesta, havia igualmente doutores e endinheirados e também o lado oposto.
Entre tantos, destaco uma mulher que sempre me impressionou. Conheci-a já entrada na idade. Baixa e atirando para o forte, a varíola tinha-lhe deixado uma ou outra marca da sua presença. Um olhar penetrante, um rosto que inspirava confiança e ao mesmo tempo espargia generosidade. Se nunca a vi galhofar, nunca a vi zangada.
Lá seguia todas as manhãs para o mercado municipal onde tinha o seu posto de trabalho, a venda de pão. Não me lembro de a ter visto sem o lenço na cabeça, de tons amarelos acastanhados, que atava como tinha aprendido com os seus familiares.
Se não nasceu nas margens do Tejo, veio de Vieira de Leiria ou de praias limítrofes, bem nova. É que nos princípios do século, daquela zona, começaram a vir no Inverno, para o Tejo, famílias de pescadores já que naquela altura do ano, o mar, não permitia que saísse para o seu ganha-pão. Nessa altura, o Tejo, era abundante em sável, tainha e barbo, além de outras espécies, e aqui faziam a sua vida, até regressarem no Verão.
Estes homens e mulheres que migravam periodicamente, eram conhecidos por “avieiros”. Na década de trinta deixaram de regressar a Vieira de Leiria. O rio, muitos anos depois, começou a dar menos sustento. Os pescadores viram-se na necessidade de se transformarem em agricultores e encaminharam os filhos para outras actividades e hoje restarão meia dúzia, senão menos.
Apesar disso, muitos continuaram a viver junto do rio e alguns mesmo nas construções palafitas que eles próprios construíram.
Como é do conhecimento geral, Alves Redol, com base nas suas vidas, escreveu o romance Avieiros
Margarida Fernandes, filha de “avieiros”, cedo teria abandonado tal actividade, se alguma vez a teve. Já a conheci viúva e na actividade que desempenhava.
Morava no terceiro quarteirão da minha rua mas do lado oposto ao meu.
Havia com frequência quem procurasse a sua porta. É que ela era exímia em colocar no lugar “ossos desmanchados” e as “linhas” debaixo da acção das suas mãos, igualmente obrigadas a ir ao ligar. Tinha também um conjunto de mezinhas que aconselhava a quem a procurasse nesse sentido.
Lembro-me de ter tratado um meu familiar e de em minha casa se guardarem as lâmpadas após o filamento queimado (lâmpadas fundidas) pois o produto proveniente do esmagamento do vidro, com o auxílio de mel, era por ela empregue em emplastros.
Estava sempre disposta a atender quem dela se abeirasse, desde que fosse assunto dos seus conhecimentos. Não cobrava um tostão a ninguém, limitando-se a aceitar as lembranças de quem o quisesse fazer.
Informam-me que aprendeu a arte com familiares.
Toda a gente do MEU BAIRRO a conheceu e sabe de “problemas” que resolveu, mas tenho de dizer que era a Senhora Margarida Pescadora, como era conhecida por todos. Se o não fizesse, eram capazes de ter dificuldade em identificá-la.
Faleceu com 88 anos e nasceu em 1886.
Era uma boa alma que aqui gostosamente recordamos nesta simples MEMÓRIA e com muita admiração.

Com tal antropónimo, só os familiares saberão de quem se trata; pela nossa parte só soubemos do seu nome completo para escrever este pequeno apontamento.
Nesta série de MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, logo de início esteve nos meus planos “escolher” uma ou duas pessoas, das muitas que lá conheci, que devido à sua acção, justificariam uma abordagem.
Ainda que a maioria fosse gente modesta, havia igualmente doutores e endinheirados e também o lado oposto.
Entre tantos, destaco uma mulher que sempre me impressionou. Conheci-a já entrada na idade. Baixa e atirando para o forte, a varíola tinha-lhe deixado uma ou outra marca da sua presença. Um olhar penetrante, um rosto que inspirava confiança e ao mesmo tempo espargia generosidade. Se nunca a vi galhofar, nunca a vi zangada.
Lá seguia todas as manhãs para o mercado municipal onde tinha o seu posto de trabalho, a venda de pão. Não me lembro de a ter visto sem o lenço na cabeça, de tons amarelos acastanhados, que atava como tinha aprendido com os seus familiares.
Se não nasceu nas margens do Tejo, veio de Vieira de Leiria ou de praias limítrofes, bem nova. É que nos princípios do século, daquela zona, começaram a vir no Inverno, para o Tejo, famílias de pescadores já que naquela altura do ano, o mar, não permitia que saísse para o seu ganha-pão. Nessa altura, o Tejo, era abundante em sável, tainha e barbo, além de outras espécies, e aqui faziam a sua vida, até regressarem no Verão.
Estes homens e mulheres que migravam periodicamente, eram conhecidos por “avieiros”. Na década de trinta deixaram de regressar a Vieira de Leiria. O rio, muitos anos depois, começou a dar menos sustento. Os pescadores viram-se na necessidade de se transformarem em agricultores e encaminharam os filhos para outras actividades e hoje restarão meia dúzia, senão menos.
Apesar disso, muitos continuaram a viver junto do rio e alguns mesmo nas construções palafitas que eles próprios construíram.
Como é do conhecimento geral, Alves Redol, com base nas suas vidas, escreveu o romance Avieiros
Margarida Fernandes, filha de “avieiros”, cedo teria abandonado tal actividade, se alguma vez a teve. Já a conheci viúva e na actividade que desempenhava.
Morava no terceiro quarteirão da minha rua mas do lado oposto ao meu.
Havia com frequência quem procurasse a sua porta. É que ela era exímia em colocar no lugar “ossos desmanchados” e as “linhas” debaixo da acção das suas mãos, igualmente obrigadas a ir ao ligar. Tinha também um conjunto de mezinhas que aconselhava a quem a procurasse nesse sentido.
Lembro-me de ter tratado um meu familiar e de em minha casa se guardarem as lâmpadas após o filamento queimado (lâmpadas fundidas) pois o produto proveniente do esmagamento do vidro, com o auxílio de mel, era por ela empregue em emplastros.
Estava sempre disposta a atender quem dela se abeirasse, desde que fosse assunto dos seus conhecimentos. Não cobrava um tostão a ninguém, limitando-se a aceitar as lembranças de quem o quisesse fazer.
Informam-me que aprendeu a arte com familiares.
Toda a gente do MEU BAIRRO a conheceu e sabe de “problemas” que resolveu, mas tenho de dizer que era a Senhora Margarida Pescadora, como era conhecida por todos. Se o não fizesse, eram capazes de ter dificuldade em identificá-la.
Faleceu com 88 anos e nasceu em 1886.
Era uma boa alma que aqui gostosamente recordamos nesta simples MEMÓRIA e com muita admiração.
sábado, 22 de agosto de 2009
Infante D. João
(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 23 DE JUNHO DE 1995)
.jpg)
Filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, nasceu em Santarém no dia 13 de Janeiro de 1400.
Por ser ainda muito jovem, não participa na conquista de Ceuta, mas quatro anos depois já engloba a expedição enviada para socorrer a mesma praça que tinha sido cercada pelos mouros.
O papa Martinho V, pela bula In Apostolice Dignitalis, nomeia-o em 1418, Administrador da Ordem Militar de Sant`Iago de Espada.
Casou em 1424 com sua sobrinha D. Isabel, filha do seu meio-irmão, D Afonso, Conde de Barcelos. É-lhe dado entretanto a posse da vila de Serpa e o reguengo de Colares.
D. Duarte, seu irmão, ao assumir o título de rei, concede-lhe diversos privilégios.
É-lhe concedido poder para prender e castigar todos os que não executassem correctamente as obras públicas no Mestrado (Ordem de Sant`Iago)
Homem de reconhecida prudência, colocou-se ao lado do irmão D. Pedro, advogando a entrega de Ceuta e em troca a libertação do irmão D. Fernando que estava como refém, opinião que não vingou nas Cortes de Leiria de 1438.
Quando a crise política daquele ano, esteve ao lado, igualmente de D. Pedro. Preparou o povo no sentido de apoiar o irmão, provocando a fuga de D. Leonor para Sintra.
Foi designado Condestável do Reino e assuma a função de fronteiro-mor da comarca de Entre Tejo e Odiana.
D. Pedro, enquanto regente, recompensou-o da sua acção, dando-lhe o contrabando apreendido nos “portos algarvios” e que se dirigisse para Castela.
Quando faleceu, com apenas quarenta e dois anos, a sua morte constituiu rude golpe para o Infante D. Pedro que ao ter conhecimento dela, entrou em profunda prostração, com grave risco de vida.
______________________________
História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão
Dicionário da História de Portugal, Edições Alfa
Dicionário da História de Portugal, dir. Joel Serrão
Grande Enciclopédica Portuguesa e Brasileira
.jpg)
Filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, nasceu em Santarém no dia 13 de Janeiro de 1400.
Por ser ainda muito jovem, não participa na conquista de Ceuta, mas quatro anos depois já engloba a expedição enviada para socorrer a mesma praça que tinha sido cercada pelos mouros.
O papa Martinho V, pela bula In Apostolice Dignitalis, nomeia-o em 1418, Administrador da Ordem Militar de Sant`Iago de Espada.
Casou em 1424 com sua sobrinha D. Isabel, filha do seu meio-irmão, D Afonso, Conde de Barcelos. É-lhe dado entretanto a posse da vila de Serpa e o reguengo de Colares.
D. Duarte, seu irmão, ao assumir o título de rei, concede-lhe diversos privilégios.
É-lhe concedido poder para prender e castigar todos os que não executassem correctamente as obras públicas no Mestrado (Ordem de Sant`Iago)
Homem de reconhecida prudência, colocou-se ao lado do irmão D. Pedro, advogando a entrega de Ceuta e em troca a libertação do irmão D. Fernando que estava como refém, opinião que não vingou nas Cortes de Leiria de 1438.
Quando a crise política daquele ano, esteve ao lado, igualmente de D. Pedro. Preparou o povo no sentido de apoiar o irmão, provocando a fuga de D. Leonor para Sintra.
Foi designado Condestável do Reino e assuma a função de fronteiro-mor da comarca de Entre Tejo e Odiana.
D. Pedro, enquanto regente, recompensou-o da sua acção, dando-lhe o contrabando apreendido nos “portos algarvios” e que se dirigisse para Castela.
Quando faleceu, com apenas quarenta e dois anos, a sua morte constituiu rude golpe para o Infante D. Pedro que ao ter conhecimento dela, entrou em profunda prostração, com grave risco de vida.
______________________________
História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão
Dicionário da História de Portugal, Edições Alfa
Dicionário da História de Portugal, dir. Joel Serrão
Grande Enciclopédica Portuguesa e Brasileira
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
A medicina popular
(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 12 DE JULHO DE 1991)

[Rua de Vilgateira, 1968. Desenho de JV]
Na linha temática diferenciada que temos vindo a desenvolver nas páginas deste hebdomadário, abordando sem ordem esquemática natural vários temas da vida varzeense, referiremos hoje, ainda que muito superficialmente este assunto.
É tema para corrigir, rectificar e principalmente para aumentar.
Pensamos que no contexto que idealizámos da vida desta freguesia, ocupa um lugar que não podemos desprezar, pois ajuda-nos a compreender melhor a realidade varzeense.
***
Ainda que a constante evolução da medicina seja um facto que todos nós prezamos, nem por isso pusemos de parte os seus primórdios de que as mezinhas são parte importante.
Conseguindo resistir ao decorrer dos séculos, transmitidas pelos avoengos, vão passando de geração em geração, utilizando-se com maior ou menor intensidade, conforma as regiões.
De uma maneira geral são utilizadas antes de recorrer à medicina convencional ou quando a ela se recorre e não se obtém os resultados desejados – é muitas vezes, a última esperança!
Não podemos esquecer o facto dos medicamentos laboratoriais terem por base os produtos naturais onde abundam os do reino vegetal.
Algumas das mezinhas que os varzeenses conhecem e utilizam, são do conhecimento geral, do Norte ao Sul do país, mas, com outras, assim não acontece e são próprias da zona.
Vamos assim indicar algumas que recolhemos e onde encontramos daqueles dois tipos.
***
É vulgar saber-se que “a água das rosas brancas” desinflama a vista, tal como a normalização que causa arterial o chá da folha do marmeleiro, oliveira ou figueira.
Também não admira referir que as lavagens com água das cascas ou das “coroas” da romã, são benéficas ao combate do hemorroidal.
Quando se sente fastio, toma-se o chá da macela (camomila), vulgo marcela, que apesar do seu gosto amargo, faz abrir com facilidade o apetite.
A diarreia é combatida com o chá da “erva das cabaças” ou dos “ouriços” e o fígado sente-se bem com o chá do hipericão da serra.
As rodelas de batata colocadas sobre a testa com o auxílio de um lenço que se aperta, aliviam, devido ao poder do amido, as dores de cabeça.
Para a bexiga funcionar bem, chá de barbas de milho ou da “erva pinheirinha”.
O catarro é combatido com o chá de alecrim e “para refrescar o sangue”, usam o da sargacinha. O chá da agrimónia ou da alfavaca da cobra usa-se para os intestinos.
Entrando num campo menos vulgar, diremos que para o constipado, o varzeense faz um lambedor, fervendo em água, casca de amêndoa, flor do sabugueiro, borragem, figos secos e passas de uva.
Se quer fazer desaparecer a impingem, misture vinagre forte com poeira e aplique a pomada daí resultante sobre a parte afectada.
As feridas são curadas fazendo arder losna (absinto) e aplicando a sua cinza.
Fazer um defumadouro com folhas secas de “tomates do inferno”, alivia os ataques de bronquite.
Para a tosse convulsa, aproveita-se o suco da folha da piteira, a que se junta açúcar.
Terminaremos o tema com a seguinte “estória” contada por um varzeense.
Quando os serrenhos vinham para a apanha da azeitona, um dia bateram-me à porta perguntando-me onde poderiam encontrar “caganitas” de rato. À minha admiração, justificaram dizendo que uma companheira estava com cólicas e um chá daquilo aliviava-lhe bastante o sofrimento!
Não me admira pois já recolhi algumas do mesmo tipo noutras regiões.

[Rua de Vilgateira, 1968. Desenho de JV]
Na linha temática diferenciada que temos vindo a desenvolver nas páginas deste hebdomadário, abordando sem ordem esquemática natural vários temas da vida varzeense, referiremos hoje, ainda que muito superficialmente este assunto.
É tema para corrigir, rectificar e principalmente para aumentar.
Pensamos que no contexto que idealizámos da vida desta freguesia, ocupa um lugar que não podemos desprezar, pois ajuda-nos a compreender melhor a realidade varzeense.
***
Ainda que a constante evolução da medicina seja um facto que todos nós prezamos, nem por isso pusemos de parte os seus primórdios de que as mezinhas são parte importante.
Conseguindo resistir ao decorrer dos séculos, transmitidas pelos avoengos, vão passando de geração em geração, utilizando-se com maior ou menor intensidade, conforma as regiões.
De uma maneira geral são utilizadas antes de recorrer à medicina convencional ou quando a ela se recorre e não se obtém os resultados desejados – é muitas vezes, a última esperança!
Não podemos esquecer o facto dos medicamentos laboratoriais terem por base os produtos naturais onde abundam os do reino vegetal.
Algumas das mezinhas que os varzeenses conhecem e utilizam, são do conhecimento geral, do Norte ao Sul do país, mas, com outras, assim não acontece e são próprias da zona.
Vamos assim indicar algumas que recolhemos e onde encontramos daqueles dois tipos.
***
É vulgar saber-se que “a água das rosas brancas” desinflama a vista, tal como a normalização que causa arterial o chá da folha do marmeleiro, oliveira ou figueira.
Também não admira referir que as lavagens com água das cascas ou das “coroas” da romã, são benéficas ao combate do hemorroidal.
Quando se sente fastio, toma-se o chá da macela (camomila), vulgo marcela, que apesar do seu gosto amargo, faz abrir com facilidade o apetite.
A diarreia é combatida com o chá da “erva das cabaças” ou dos “ouriços” e o fígado sente-se bem com o chá do hipericão da serra.
As rodelas de batata colocadas sobre a testa com o auxílio de um lenço que se aperta, aliviam, devido ao poder do amido, as dores de cabeça.
Para a bexiga funcionar bem, chá de barbas de milho ou da “erva pinheirinha”.
O catarro é combatido com o chá de alecrim e “para refrescar o sangue”, usam o da sargacinha. O chá da agrimónia ou da alfavaca da cobra usa-se para os intestinos.
Entrando num campo menos vulgar, diremos que para o constipado, o varzeense faz um lambedor, fervendo em água, casca de amêndoa, flor do sabugueiro, borragem, figos secos e passas de uva.
Se quer fazer desaparecer a impingem, misture vinagre forte com poeira e aplique a pomada daí resultante sobre a parte afectada.
As feridas são curadas fazendo arder losna (absinto) e aplicando a sua cinza.
Fazer um defumadouro com folhas secas de “tomates do inferno”, alivia os ataques de bronquite.
Para a tosse convulsa, aproveita-se o suco da folha da piteira, a que se junta açúcar.
Terminaremos o tema com a seguinte “estória” contada por um varzeense.
Quando os serrenhos vinham para a apanha da azeitona, um dia bateram-me à porta perguntando-me onde poderiam encontrar “caganitas” de rato. À minha admiração, justificaram dizendo que uma companheira estava com cólicas e um chá daquilo aliviava-lhe bastante o sofrimento!
Não me admira pois já recolhi algumas do mesmo tipo noutras regiões.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
O Dr. Sousa Cirne, magistrado e político
(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE JUNHO DE 1991)

[Armas dos Cirnes]
Voltemos ás figuras da terra varzeense e desta vez o evocado não nasceu na Várzea mas a ela ficou ligado pelos bens que lá possuía.
Para nós, a sua revelação enquadrada na freguesia é feita pelo infatigável Pinho Leal (1) que ao não indicá-lo quando se referiu a Santarém, aproveita a oportunidade para encaixa-lo nesta freguesia, invocando a circunstância de ali ser grande proprietário, mas não indica esses bens.
Enquanto não os sabemos e talvez isso nunca venha a acontecer devido ao nosso afastamento de Santarém, onde não seria difícil localizá-los nos arquivos locais, iremos referir o que nos foi possível obter de carácter geral.
Manuel da Sampaio Freire de Andrade de Sousa Cirne, de seu nome completo, nasceu em Santarém no dia 24 de Fevereiro de 1790 e aí faleceu em 5 de Outubro de 1860.
Era filho do desembargador e conselheiro, João Sampaio Freire de Andrade e de D. Bárbara Gertrudes Tavares de Sousa Cirne.
Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo.
Doutorou-se na Universidade de Coimbra em 3 de Julho de 1813, ingressando na magistratura como corregedor do crime do Bairro de Belém, que tinha anexa a Provedoria de Oeiras (1815).
Em 1821 foi nomeado desembargador da Relação do Porto e em 1829 colocado na Casa da Suplicação onde se conservou até 1833.
Quando as forças do Duque da Terceira entraram na capital, não se apresentou aos liberais, pelas suas convicções realistas, o que não impediu que recebesse as mais inequívocas provas de respeito e consideração, o que deve atribuir-se à forma digna e leal com que se houve no julgamento de crimes políticos. (2)
Tinha verdadeiros amigos, parentes e condiscípulos, em ambos os campos – realista e liberal.
Foi aposentado como desembargador, com honras de conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.
Em Setembro de 1836, pelo falecimento do seu tio materno, Manuel Eusébio Tavares de Sousa Cirne, uma das pessoas proposta pela Câmara como capaz de ser Comandante do Corpo Voluntário Realista da vila de Santarém (3), o que veio a verificar-se já que Pinho Leal o indica como tenente-coronel, comandante do Batalhão de Voluntários Realistas de Santarém, herdou o morgado dos Cirnes, indo então residir para a terra da sua naturalidade.
Por morte de outro tio, também materno, o Padre António Filipe de Sousa Cirne, bacharel formado em cânones e cónego de Santa Maria de Alcobaça, uma das pessoas indicadas como “mais circunspectas e de toda a probidade que possam servir de testemunhas no que for a bem do Real Serviço” (3), herdou o restante da Casa dos Cirnes.
Casou em Santarém com D. Maria Guilhermina de Barros Sampaio Cirne (4) e Pinho Leal informa que era seu filho, Guilherme de Sampaio Freire de Andrade de Sousa Cirne, fidalgo cavaleiro da Casa Real, na altura, o representante da ilustre Casa.
Parece-nos que a designação toponímica de Alto do Freire, está relacionada com algum elemento desta família pois a zona rústica ter-lhes-ia pertencido.
Aqui fica o que até agora pudemos obter sobre esta Figura que após a aposentação teria levado uma vida muito ligada à freguesia da Várzea.
___________________________________
NOTAS
(1) Portugal Antigo e Moderno, 1873/1890.
(2) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(3) Santarém entre as Guerras Liberais, 1820 – 1835, Luís Eugénio Ferreira, 1977
(4) Dicionário “Portugal”, Ed. Romano Torres, 1915.

[Armas dos Cirnes]
Voltemos ás figuras da terra varzeense e desta vez o evocado não nasceu na Várzea mas a ela ficou ligado pelos bens que lá possuía.
Para nós, a sua revelação enquadrada na freguesia é feita pelo infatigável Pinho Leal (1) que ao não indicá-lo quando se referiu a Santarém, aproveita a oportunidade para encaixa-lo nesta freguesia, invocando a circunstância de ali ser grande proprietário, mas não indica esses bens.
Enquanto não os sabemos e talvez isso nunca venha a acontecer devido ao nosso afastamento de Santarém, onde não seria difícil localizá-los nos arquivos locais, iremos referir o que nos foi possível obter de carácter geral.
Manuel da Sampaio Freire de Andrade de Sousa Cirne, de seu nome completo, nasceu em Santarém no dia 24 de Fevereiro de 1790 e aí faleceu em 5 de Outubro de 1860.
Era filho do desembargador e conselheiro, João Sampaio Freire de Andrade e de D. Bárbara Gertrudes Tavares de Sousa Cirne.
Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo.
Doutorou-se na Universidade de Coimbra em 3 de Julho de 1813, ingressando na magistratura como corregedor do crime do Bairro de Belém, que tinha anexa a Provedoria de Oeiras (1815).
Em 1821 foi nomeado desembargador da Relação do Porto e em 1829 colocado na Casa da Suplicação onde se conservou até 1833.
Quando as forças do Duque da Terceira entraram na capital, não se apresentou aos liberais, pelas suas convicções realistas, o que não impediu que recebesse as mais inequívocas provas de respeito e consideração, o que deve atribuir-se à forma digna e leal com que se houve no julgamento de crimes políticos. (2)
Tinha verdadeiros amigos, parentes e condiscípulos, em ambos os campos – realista e liberal.
Foi aposentado como desembargador, com honras de conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.
Em Setembro de 1836, pelo falecimento do seu tio materno, Manuel Eusébio Tavares de Sousa Cirne, uma das pessoas proposta pela Câmara como capaz de ser Comandante do Corpo Voluntário Realista da vila de Santarém (3), o que veio a verificar-se já que Pinho Leal o indica como tenente-coronel, comandante do Batalhão de Voluntários Realistas de Santarém, herdou o morgado dos Cirnes, indo então residir para a terra da sua naturalidade.
Por morte de outro tio, também materno, o Padre António Filipe de Sousa Cirne, bacharel formado em cânones e cónego de Santa Maria de Alcobaça, uma das pessoas indicadas como “mais circunspectas e de toda a probidade que possam servir de testemunhas no que for a bem do Real Serviço” (3), herdou o restante da Casa dos Cirnes.
Casou em Santarém com D. Maria Guilhermina de Barros Sampaio Cirne (4) e Pinho Leal informa que era seu filho, Guilherme de Sampaio Freire de Andrade de Sousa Cirne, fidalgo cavaleiro da Casa Real, na altura, o representante da ilustre Casa.
Parece-nos que a designação toponímica de Alto do Freire, está relacionada com algum elemento desta família pois a zona rústica ter-lhes-ia pertencido.
Aqui fica o que até agora pudemos obter sobre esta Figura que após a aposentação teria levado uma vida muito ligada à freguesia da Várzea.
___________________________________
NOTAS
(1) Portugal Antigo e Moderno, 1873/1890.
(2) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(3) Santarém entre as Guerras Liberais, 1820 – 1835, Luís Eugénio Ferreira, 1977
(4) Dicionário “Portugal”, Ed. Romano Torres, 1915.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
O tipo de habitação
(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 21 DE JUNHO DE 1991)

[Desaparecida habitação que foi de José Calharizo, Vilgateira, 1965. Foto JV]
Na nossa habitual diversidade, escolhemos para hoje este assunto.
Consideramo-lo um factor importante para o conhecimento do que foi a vida varzeense.
Como temos dito noutros escritos, o que vamos referir não é exclusivo da freguesia da Várzea, como se compreende, já que, outras vizinhas e das redondezas nele se podem rever.
A nossa descrição não recuou muito no tempo, além da observação própria ao que conhecemos e ao pouco que resta, beneficiámos das informações pormenorizadas que nossa mãe nos fazia, já que na sua infância conheceu quase todas as casas da aldeia e muitas da freguesia, das mais humildes às mais abastadas.
Tomámos em consideração não a casa do lavrador ou do indigente, mas a do fazendeiro e trabalhador rural que muito se aproximavam.
***
A casa típica do varzeense era de uma maneira geral térrea, terra batida que se lavava diariamente com esfregão, de planta rectangular e telhado de uma ou duas águas, coberto de telha de canudo que assentava no ripado pregado ao barrotame constituindo assim “telhados de telha vã”.
Normalmente possuía chaminé.
Os materiais de construção eram o adobe e o tufo, ajudado com alguma pedra e tijolo de burro ou lambaz, este utilizado em determinadas partes, como em portas e janelas.
No adobe, de forma de paralelepípedo achatado, o barro é estruturado com palha, dando assim origem a uma contextura mais sólida.

Saídos de forma de madeira de duas asas, eram secos so sol. Colocados ora ao lancil, ora de través, eram reforçados nas ligações pelo tufo que é vulgar na região. Rebocados com areia amassada com barro ou cal, mas ainda não “hidráulica”.
As fachadas das habitações eram sempre caiadas, recebendo nalguns casos barras de cor, dadas pelo ocre, azul ou amarelo e menos frequente o “grenat” ou cinzento.
As paredes laterais e a da retaguarda, quando o telhado era de uma água, nem sempre eram rebocadas, sendo nalguns casos caiadas.
Nas povoações de tipo alongado, situavam-se nas “testadas das fazenda” cujo comprimento é perpendicular à estrada ou caminho. Deixavam quase sempre um pequeno espaço fronteiro a que chamavam pátio, protegido por meios variados – muros de adobe, sebes ou grades.
A frontaria possuía uma porta e duas janelas, variando por vezes este número, com postigo e a porta também com gateira. Todas as guarnições eram de madeira.

Com o rodar dos tempos, as janelas passaram a ter duas folhas, abolindo-se o postigo que se manteve mais tempo na porta mas que acabou por sofrer a mesma transformação.
Eram todas frequentemente besuntadas com azeite frito (borras) misturado com petróleo no intuito de fazer a protecção necessária, evitando o bicho.
Só muito depois e significando um luxo apareceram as vidraças. Passando as portas a duas folhas, naturalmente que desapareceram as gateiras. Entretanto, começa-se a usar a tinta para a protecção das madeiras e natural embelezamento.
As guarnições de madeira nas portas e janelas são substituídas primeiro por trabalhos de argamassa, que a cal hidráulica já permite e depois por cantaria para os mais endinheirados.
No pátio o varzeense gostava de ter ao lado da porta uma parreira ou uma roseira. Algumas plantas vivazes, de adorno e quando o espaço o permitia, uma laranjeira
***
A porta dava para a “casa de fora” que ligava com os quartos e a cozinha. Esta divisão também chamada “casa de entrada”, tinha ao meio uma mesa de abas decorada com flores. Algumas cadeiras”em branco” e um caixão (arca de madeira) onde se guardavam as roupas, lençóis, mantas de lã e de trapos, etc.
Paredes decoradas com quadros rústicos e de motivos religiosos. Tapetes e passadeiras feitos com tiras de várias cores e padrões, provenientes de sobejos, aos quadrados, com uma bainha e que constituíam um artesanato hoje praticamente perdido.
O quarto de dormir, onde só se entrava ao cair da noite, além da cama de ferro mais ou menos artística, com enxergas de palha de trigo e colchões de camisas (palha de milho), tinha um lavatório de ferro, com espelho, bacia e jarro de esmalte. Cadeira que em muitos casos servia de mesa-de-cabeceira onde se colocava a palmatória, de esmalte ou barro. Tapetes como os já referidos.
Colcha de algodão quando não feita de trapos, no mesmo tipo dos tapetes e neste caso aparecia sobre a cama uma grande almofada do mesmo artesanato.
Debaixo da cama, o bacio de barro, esmalte ou louça.
Cozinha de chaminé alta. Um fogareiro feito de panela velha em que se abria uma boca. Com o auxílio de duas pequenas barras de ferro, barro e bocados de telha, fazia-se o restante. No rebordo, três pontos salientes para colocação do utensílio desejado. Todo caiado, dava-lhe a harmonia desejada.
Na parede, e todo o interior da casa era de branco caiado, a grade, construída de ripas onde se dispunham camarões e enfeitada com franjas de papel especialmente fabricadas para o efeito e onde abundavam motivos culinários ou então de papel de seda recortado conforme a habilidade da varzeense.
Era o local para pendurar o “esmalte” – cafeteiras, panelas, tachos, etc., constituindo um luxo, havendo exemplares que nunca foram servidos, constituindo verdadeiras peças de decoração.
Uma pequena mesa, sempre muito lavada com sabão amarelo, em cujas gavetas se guardava, o talher, primeiro de ferro, depois de alumínio. Noutro canto, a cantoneira que recolhia pratos e outros utensílios. Na cantareira, bilhas, quartas e infusas.
Muitas vezes, englobado também na habitação, o celeiro que funcionava também como arrecadação. O produto das colheitas para ali ia:- cereais, azeite, vinho, batatas,.réstias de cebolas e de alhos. Também alguns utensílios agrícolas ali tinham o seu lugar.
Com o decorrer dos anos, a casa de fora e os quartos passaram a ser sobradados e forrados e a cozinha e o celeiro, já com chão cimentado.
***
No logradouro contíguo era frequente o poço que tanta falta fazia e a cova do bagaço para alimentar o porquito. O forno de cozer pão ficava próximo e tinha telheiro de uma água em cujo beirado se colocavam as abóboras. Pial alongado. Sobre a trempe, cujo fogo era alimentado por cepas ou lenha de oliveira, o tacho ou a panela. Era ali que se confeccionavam as refeições e se preparava o comer para os animais. Um ou outro banco tosco – três tábuas e duas travessas pregadas, isto quando não existiam cepos em sítios fixos, servindo de assento.
Não estava longe o rolheiro da lenha.
O telheiro substituía quase totalmente a cozinha, a que se recorria muito excepcionalmente, o que acontecia em dias festivos, mas nem sempre.
***
Naturalmente, as transformações na habitação varzeense, continuaram. Corremos toda a freguesia e muito pouco resta ao jeito antigo. O que existe está adulterado ou em ruína.
A vida varzeense tomou outros rumos. De exclusividade local e virada para a “terra”, passou a ligar-se ao comércio, à indústria, à prestação de serviços na cidade e ainda que não tivesse havido um rompimento total com a vida agrícola, pouco passa, em muitos casos, de um simbolismo, cada vez menor.
Agora a freguesia está semeada de vivendas, algumas viradas para o luxo, desfasadas do ambiente que as cerca. O cimento e o ferro, os telhões de variadíssimas cores e de cimento, o alumínio, o mármore e as persianas são hoje materiais e peças que marcam pronunciadamente a habitação onde o branco da cal quase desapareceu.
Desde 1930 que os censos populacionais indicavam um decréscimo na freguesia, interrompido em 1981. Pensamos que a freguesia da Várzea iniciou uma nova fase – a de dormitório da cidade de Santarém.

[Desaparecida habitação que foi de José Calharizo, Vilgateira, 1965. Foto JV]
Na nossa habitual diversidade, escolhemos para hoje este assunto.
Consideramo-lo um factor importante para o conhecimento do que foi a vida varzeense.
Como temos dito noutros escritos, o que vamos referir não é exclusivo da freguesia da Várzea, como se compreende, já que, outras vizinhas e das redondezas nele se podem rever.
A nossa descrição não recuou muito no tempo, além da observação própria ao que conhecemos e ao pouco que resta, beneficiámos das informações pormenorizadas que nossa mãe nos fazia, já que na sua infância conheceu quase todas as casas da aldeia e muitas da freguesia, das mais humildes às mais abastadas.
Tomámos em consideração não a casa do lavrador ou do indigente, mas a do fazendeiro e trabalhador rural que muito se aproximavam.
***
A casa típica do varzeense era de uma maneira geral térrea, terra batida que se lavava diariamente com esfregão, de planta rectangular e telhado de uma ou duas águas, coberto de telha de canudo que assentava no ripado pregado ao barrotame constituindo assim “telhados de telha vã”.
Normalmente possuía chaminé.
Os materiais de construção eram o adobe e o tufo, ajudado com alguma pedra e tijolo de burro ou lambaz, este utilizado em determinadas partes, como em portas e janelas.
No adobe, de forma de paralelepípedo achatado, o barro é estruturado com palha, dando assim origem a uma contextura mais sólida.

Saídos de forma de madeira de duas asas, eram secos so sol. Colocados ora ao lancil, ora de través, eram reforçados nas ligações pelo tufo que é vulgar na região. Rebocados com areia amassada com barro ou cal, mas ainda não “hidráulica”.As fachadas das habitações eram sempre caiadas, recebendo nalguns casos barras de cor, dadas pelo ocre, azul ou amarelo e menos frequente o “grenat” ou cinzento.
As paredes laterais e a da retaguarda, quando o telhado era de uma água, nem sempre eram rebocadas, sendo nalguns casos caiadas.
Nas povoações de tipo alongado, situavam-se nas “testadas das fazenda” cujo comprimento é perpendicular à estrada ou caminho. Deixavam quase sempre um pequeno espaço fronteiro a que chamavam pátio, protegido por meios variados – muros de adobe, sebes ou grades.
A frontaria possuía uma porta e duas janelas, variando por vezes este número, com postigo e a porta também com gateira. Todas as guarnições eram de madeira.

Com o rodar dos tempos, as janelas passaram a ter duas folhas, abolindo-se o postigo que se manteve mais tempo na porta mas que acabou por sofrer a mesma transformação.
Eram todas frequentemente besuntadas com azeite frito (borras) misturado com petróleo no intuito de fazer a protecção necessária, evitando o bicho.
Só muito depois e significando um luxo apareceram as vidraças. Passando as portas a duas folhas, naturalmente que desapareceram as gateiras. Entretanto, começa-se a usar a tinta para a protecção das madeiras e natural embelezamento.
As guarnições de madeira nas portas e janelas são substituídas primeiro por trabalhos de argamassa, que a cal hidráulica já permite e depois por cantaria para os mais endinheirados.
No pátio o varzeense gostava de ter ao lado da porta uma parreira ou uma roseira. Algumas plantas vivazes, de adorno e quando o espaço o permitia, uma laranjeira
***
A porta dava para a “casa de fora” que ligava com os quartos e a cozinha. Esta divisão também chamada “casa de entrada”, tinha ao meio uma mesa de abas decorada com flores. Algumas cadeiras”em branco” e um caixão (arca de madeira) onde se guardavam as roupas, lençóis, mantas de lã e de trapos, etc.
Paredes decoradas com quadros rústicos e de motivos religiosos. Tapetes e passadeiras feitos com tiras de várias cores e padrões, provenientes de sobejos, aos quadrados, com uma bainha e que constituíam um artesanato hoje praticamente perdido.
O quarto de dormir, onde só se entrava ao cair da noite, além da cama de ferro mais ou menos artística, com enxergas de palha de trigo e colchões de camisas (palha de milho), tinha um lavatório de ferro, com espelho, bacia e jarro de esmalte. Cadeira que em muitos casos servia de mesa-de-cabeceira onde se colocava a palmatória, de esmalte ou barro. Tapetes como os já referidos.
Colcha de algodão quando não feita de trapos, no mesmo tipo dos tapetes e neste caso aparecia sobre a cama uma grande almofada do mesmo artesanato.
Debaixo da cama, o bacio de barro, esmalte ou louça.
Cozinha de chaminé alta. Um fogareiro feito de panela velha em que se abria uma boca. Com o auxílio de duas pequenas barras de ferro, barro e bocados de telha, fazia-se o restante. No rebordo, três pontos salientes para colocação do utensílio desejado. Todo caiado, dava-lhe a harmonia desejada.
Na parede, e todo o interior da casa era de branco caiado, a grade, construída de ripas onde se dispunham camarões e enfeitada com franjas de papel especialmente fabricadas para o efeito e onde abundavam motivos culinários ou então de papel de seda recortado conforme a habilidade da varzeense.
Era o local para pendurar o “esmalte” – cafeteiras, panelas, tachos, etc., constituindo um luxo, havendo exemplares que nunca foram servidos, constituindo verdadeiras peças de decoração.
Uma pequena mesa, sempre muito lavada com sabão amarelo, em cujas gavetas se guardava, o talher, primeiro de ferro, depois de alumínio. Noutro canto, a cantoneira que recolhia pratos e outros utensílios. Na cantareira, bilhas, quartas e infusas.
Muitas vezes, englobado também na habitação, o celeiro que funcionava também como arrecadação. O produto das colheitas para ali ia:- cereais, azeite, vinho, batatas,.réstias de cebolas e de alhos. Também alguns utensílios agrícolas ali tinham o seu lugar.
Com o decorrer dos anos, a casa de fora e os quartos passaram a ser sobradados e forrados e a cozinha e o celeiro, já com chão cimentado.
***
No logradouro contíguo era frequente o poço que tanta falta fazia e a cova do bagaço para alimentar o porquito. O forno de cozer pão ficava próximo e tinha telheiro de uma água em cujo beirado se colocavam as abóboras. Pial alongado. Sobre a trempe, cujo fogo era alimentado por cepas ou lenha de oliveira, o tacho ou a panela. Era ali que se confeccionavam as refeições e se preparava o comer para os animais. Um ou outro banco tosco – três tábuas e duas travessas pregadas, isto quando não existiam cepos em sítios fixos, servindo de assento.
Não estava longe o rolheiro da lenha.
O telheiro substituía quase totalmente a cozinha, a que se recorria muito excepcionalmente, o que acontecia em dias festivos, mas nem sempre.
***
Naturalmente, as transformações na habitação varzeense, continuaram. Corremos toda a freguesia e muito pouco resta ao jeito antigo. O que existe está adulterado ou em ruína.
A vida varzeense tomou outros rumos. De exclusividade local e virada para a “terra”, passou a ligar-se ao comércio, à indústria, à prestação de serviços na cidade e ainda que não tivesse havido um rompimento total com a vida agrícola, pouco passa, em muitos casos, de um simbolismo, cada vez menor.
Agora a freguesia está semeada de vivendas, algumas viradas para o luxo, desfasadas do ambiente que as cerca. O cimento e o ferro, os telhões de variadíssimas cores e de cimento, o alumínio, o mármore e as persianas são hoje materiais e peças que marcam pronunciadamente a habitação onde o branco da cal quase desapareceu.
Desde 1930 que os censos populacionais indicavam um decréscimo na freguesia, interrompido em 1981. Pensamos que a freguesia da Várzea iniciou uma nova fase – a de dormitório da cidade de Santarém.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Francisco Solano de Abreu

Nesta série de “notas biográficas” sobre figuras ribatejanas já desaparecidas, ainda não tínhamos referido nenhum abrantino, o que vamos fazer hoje.
Personagem plurifacetada, distinguiu-se acima de tudo pelo que realizou em favor da sua terra natal.
O Dr. Francisco Eduardo Solano de Abreu nasceu em Abrantes no dia 19 de Julho de 1858, sendo filho de D. Leonor Emília de Abreu e do Dr. Francisco Rodrigues de Abreu, médico que exerceu clínica no concelho durante vários anos.
Quando estudante de Direito em Coimbra, pertenceu ao grupo “Anda à Roda”, sendo o grande animador da fundação de alguns jornais académicos, como “A Porta Férrea”, “Coimbra em Fralda” e outros.
É bem cedo que se revela a sua vocação para as letras.
Em Coimbra escreveu a revista “No País das Arrufadas” (1882), em que faz uma crítica leve e correctíssima à vida dos lentes e para a récita do seu 5º Ano Universitário, “O Charivari”, peça em três actos.
Entretanto, e ainda estudante, juntamente com um amigo, funda, em 1884, o “Correio de Abrantes”, o primeiro semanário que ali se publicou, ainda que de curta duração (1887). Logo a seguir, cria outro (1888), ligado igualmente a um amigo e intitulado “A Nova” que cessou em 1890.
Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra em 1885, abrindo banca de advogado na sua terra natal.
Filiou-se no Partido Progressista que pouco tempo depois abandona.
Colabora na imprensa diária: “Correio da Noite” e “Diário Popular”.
Foi Administrador do Concelho e Subdelegado do Procurador Régio na Comarca e Juiz Substituto.
Em 1908 era Presidente da Câmara Municipal, lugar em que se manteve até à implantação da República.
A sua dedicação à Assistência e Beneficência na terra natal, considerada a sua maior faceta, originou ter recebido o grau de Comendador da Ordem de Benemerência e a medalha de Mérito, Filantropia e Generosidade.
Pertenceu aos corpos gerentes do Montepio Abrantino Soares Mendes, desenvolvendo intensa actividade em sua defesa e organizando várias diversões no sentido de adquirir fundos.
Criou nele uma farmácia privativa, contribuindo ele próprio com elevada quantia para o efeito.
Em 1905 fundou o Sindicato Agrícola de Abrantes, de que foi presidente.
É provedor da Santa Casa da Misericórdia durante muitos anos, criando no Hospital do Salvador, que dela dependia, o “banco” e fez construir a sala de operações, maternidade e outras instalações.
O Dr. Solano de Abreu também ajudou a fundar a “Sopa dos Pobres”.
Por sua iniciativa erigiram-se na cidade os monumentos a dois abrantinos que se destacaram, o General Avelar Machado, nas armas e na política e a Francisco Taborda, mais conhecido simplesmente por actor Taborda, um predestinado para o teatro.
Após a Proclamação da República o Dr. Solano de Abreu tomou a direcção da sua casa agrícola. Dedicando-se ao fabrico de manteiga, considerada de excelente qualidade, levou-o a publicar o “Tratado Prático do Fabrico de Manteiga” e a participar em vários congressos de agricultura em Portugal e em Espanha.
Faleceu na sua casa de Vale de Roubam, em 27 de Abril de 1941, sem deixar descendentes.
Publicou: Palestras Literárias. Série de discursos; Amorosas (1906), Um Anjo sem Asas, Maltrapilhos e Mulher Purificada, romances; Doutrina Santa, Irmã da Caridade, Madrugada Redentora (1909) e Do Alto da Cruz (1924), peças teatrais, além dos trabalhos que já referimos.
__________________________
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Vida Ribatejana, nº Especial de 1961.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Fonseca Guedes, numismata e Homem de Cultura

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 14 DE JUNHO DE 1991)
Já nestas páginas falámos de um varzeense que se destacou entre os demais, pela obra poética que deixou.
Hoje, falaremos de outro, mais novo mas contemporâneo daquele. Trata-se de João Lopes da Fonseca Guedes que seguiu a carreira das armas, passando à reserva no posto de tenente-coronel.
Nasceu na dispersa povoação da Carneiria a 18 de Janeiro de 1895.
Frequentou o velho Liceu de Santarém que funcionava no edifício do Seminário.
Militar da arma de artilharia, exerceu as suas funções em várias unidades espalhadas pelo país e pelo seu desempenho foi distinguidos com louvores, medalhas de oiro e prata de comportamento exemplar, a Comenda Militar de Avis e a Medalha de Mérito Militar (1).
O seu interesse por problemas de arqueologia, refere o Dr. Virgílio Arruda, levaram-no a estudos que muito contribuíram para a defesa de pontos de vista de Santarém nos tempos medievais.
Em 1971 ofereceu à Junta de Freguesia da sua naturalidade, para ser colocado na torre da igreja matriz, um relógio. A inauguração efectuou-se pelas doze horas do 1º de Janeiro daquele ano, com a presença do ofertante e esposa, Vereador Joaquim Caetano Frazão, em representação da Edilidade, António Elói Godinho, Presidente da Junta e restantes membros, pároco da freguesia e muito povo.
[Carneiria, Hurbanização. Foto JV, 2009]
Por decisão autárquica, foi descerrada uma lápide na torre da igreja referindo o acontecimento e na sede da Junta foi oferecido um beberete pela população. (2)
Em recentes obras de restauro do templo (1987), foi a lápide retirada do seu local, desconhecendo onde se encontra. Parece-nos ter sido pouco ponderada tal atitude com a qual nos assiste o direito de não concordar.
Com destino ao abastecimento de água a Vilgateira e em memória de seu pai, Joaquim Lopes da Fonseca, que foi vereador da Câmara Municipal de Santarém, ofereceu a esta a quantia de duzentos mil escudos. (3)
Mas foi no campo da numismática que Fonseca Guedes mais se notabilizou, tanto como coleccionador, como estudioso da matéria.
A sua colecção foi extremamente valiosa, um tesouro, onde chegaram a ter lugar as raríssimas moedas de D. Afonso Henriques, um dinheiro único de D. Afonso II e um tostão de Henrique.
Da publicação dos seus estudos, conhecem-se: Um Tostão de D. João IV, publicado em 1954, Um Dinheiro de D. Afonso Henriques (1956) e Subsídios para o Estudo e Arrumação das Moedas dos Primeiros Reinados (1958).
Informam os conhecedores que este trabalho foi muito útil para outro grande autor, o Eng. Ferraro Vaz, ao preparar a sua “Numária Medieval Portuguesa”, editada em 1960. (4)
Falámos uma única vez com o Tenente-Coronel Fonseca Guedes, talvez no ano de 1964 e precisamente por causa de moedas, já que se deslocou ao nosso local de trabalho para observar alguns exemplares que aí se encontravam, cujo possuidor julgava de grande valor mas que o perito assim não considerou.
Sabemos que procurava estar sempre ao corrente do que se ia passando pela sua freguesia natal e o Presidente da Junta tomava em boa consideração as suas opiniões.
Era um homem, segundo informam quem bem o conhecia, muito reservado e de poucas palavras.
Filho único, tal como sua esposa, não deixou descendentes. (5)
Faleceu em Santarém no dia 20 de Dezembro de 1985, sendo sepultado no cemitério da freguesia onde nasceu.
Em 15 de Fevereiro de 1986 a Sociedade Numismática Scalabitana prestou-lhe homenagem colocando na campa uma lápide assinalando o seu reconhecimento pela obra construída e que tanto enriqueceu a ciência numismática, designadamente no período medieval. (6)
Os numismatas scalabitanos não o têm esquecido, lembrando-o em várias ocasiões.
Fez valiosos legados a instituições de Santarém não esquecendo a sua freguesia natal, instituindo um prémio para o aluno mais classificado das escolas da freguesia. Por mais que tenhamos diligenciado, ainda não conseguimos saber no que consiste.
Fonseca Guedes – numismata, arqueólogo, bibliófilo e benemérito. Um nome que os varzeenses não devem esquecer.
__________________________________
NOTAS
(1)–Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971.
(2)Actas das Sessões da J. F. Várzea de 14 e 21 de Dezembro de 1970.
(3)–Correio do Ribatejo de 11 de Dezembro de 1981.
(4)–“A Sociedade Numismática Scalabitana recorda Figura e Obra de Fonseca Guedes, em 15 de Fevereiro”, José Miguel Correia Noras in Correio do Ribatejo de 14 de Fevereiro de 1987.
(5)“Fonseca Guedes, 2 anos depois”M. Paulo, in Correio do Ribatejo de 14 de Fevereiro de 1987.
(6)Correio do Ribatejo de 14 de Fevereiro de 1986.
sábado, 8 de agosto de 2009
Luís Matoso

Voltamos a Santarém e desta vez para referir um monografista da sua terra natal.
Sabe-se que aqui nasceu a 17 de Fevereiro de 1707, baptizado na igreja de S. Nicolau a 26 do mesmo mês, sendo filho de Manuel Montês e de Mariana Matoso.
Com onze anos era Luís Montês Matoso aluno do Colégio de Nª Sª da Conceição, dos Padres da Companhia de Jesus, actual Paço Episcopal.
Em 1715 passou à Universidade de Coimbra para estudar Jurisprudência Pontifícia, cuja Faculdade não prosseguiu por entrar na religião da Ordem Terceira de São Francisco, convento de S. João da Pesqueira, no dia 14 de Agosto de 1720, tendo tomado o hábito com o nome de Frei Luís de Santarém.
Um ano depois faz profissão de “frade de coro”, adoptando então o nome de Frei Luís de Assunção.
Na religião da Ordem Terceira se manteve por dezassete anos até que resolve trocar o mosteiro da S. João da Pesqueira, pela Ordem Militar de S. João de Malta.
Foi no mosteiro de S. João da Pesqueira que desenvolveu o seu gosto pelas letras, biblioteca e arquivo, o que o levou à prática da catalogação, classificação e conservação, passando também pela técnica da organização, o que lhe originou bons conhecimentos de arquivista e bibliotecário.
Luís Matoso veio a falecer na sua terra natal, em casa de sua mãe, de um acidente, aos seis de Outubro de 1750, sendo sepultado no Convento do Sítio, como religioso, filho desta Congregação.
Crê o Dr. Virgílio Arruda, um dos seus biógrafos, de que Frei Luís teria vindo para Santarém muito antes da sua admissão na Ordem de Malta.
Em 1617 os Terceiros trocaram o local onde se encontravam (Santa Catarina dos Olivais, no Vale de Moural), pelo de Madalena ou do Sítio, fora dos muros da vila de Santarém, no local onde se encontrava o Palácio da Mitra, dos Arcebispos de Lisboa (antigo hospital).
Historiador, genealogista e jornalista, escreveu inúmeros catálogos de livros, examinou muitos cartórios e publicou alguns opúsculos. Lia com facilidade todo o género de caracteres antigos,
Foi o primeiro Presidente da Academia dos Aventureiros Scalabitanos e exerceu as funções de cartorário da Misericórdia e do Hospital de Jesus.
Frei Manuel do Cenáculo diz que se dedicou a investigar os antigos cartórios da sua pátria, de cujo trabalho resultou “as notícias mais recônditas para formar a História da Vila de Santarém”.
[Rua Luís Matoso, Bairro dos Combatentes. Foto JV] O Padre Matoso, segundo o Professor Veríssimo Serrrão, foi uma das mais curiosas figuras da nossa história cultural da primeira metade do século XVIII e o Dr. Virgílio Arruda a ele se refere nos seguintes termos: “Investigador, não isento de paixões pelos atributos da vila que lhe foi berço, deu-se ao afanoso encargo de descrever o passado e enumerar os encantos do presente compondo uma Santarém Ilustrada que lástima é ter ficado inédita, arquivado o manuscrito na Biblioteca de Évora”.
Dos trabalhos que compôs, raros são os que chegaram a ser impressos. Os manuscritos, cuja existência é conhecida, estão divididos pelas bibliotecas de Évora, Santarém, Torres Novas e da Academia das Ciências de Lisboa.
Redigiu, desde 1740, o “Folheto de Lisboa” espécie de jornal noticioso.
Dos trabalhos que efectuou, indicaremos, com as notas que pensamos merecerem maior interesse:
IMPRESSOS
- Relação do Horroroso Estrago e Ruínas Sucedida no Mosteiro das Religiosas de S. Domingos de Santarém, 1742;
- História do Senhor Roubado de Odivelas, 1745;
- Notícia da Fonte das Almas … no Termo da Vila de Santarém, 1748;
MANUSCRITOS
- Santarém Ilustrada, 1738;
- Título de Família de Infantes e Siqueiras, da Vila de Santarém, 1739;
-Arquivo Selecto Scalabitano;
- Catacumba Scalabitana;
- Memórias das Freguesias do Arcediago de Santarém;
- Memórias sepulcrais da Vila de Santarém;
- Memórias para a História da Vila de Torres Novas;
- Memórias da Azinhaga e de Pombal (actual Pombalinho);
O “presbítero escalabitanense”, como se intitulava, tem o nome perpetuado desde a década de quarenta numa das ruas do Bairro dos Combatentes.
___________________________
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971
Luís Montês Matoso, Historiador e Jornalista, Virgílio Arruda, 1980
História de Portugal, Veríssimo Serrão, Vol. V, 1980
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
"A Marcha cá do Bairro" - Outra achega
PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 14.05.1993)
A MEMÓRIA de hoje, caro leitor, não se trata propriamente de uma MEMÓRIA, com o sentido de novo assunto, mas sim de achegas importantes a MEMÓRIAS anteriores.
Como pensamos já ter alertado, as MEMÓRIAS estão a chegar ao fim. Quando idealizámos os escritos, tínhamos previsto cerca de doze assuntos a abordar, número já largamente ultrapassado mas... não esgotado. Faltará a memória e principalmente o “engenho e arte” para ir mais além.
E AINDA “A MARCHA CÁ DO BAIRRO”
É a terceira vez que vamos abordar a MEMÓRIA que titulámos de “A MARCHA CÁ DO BAIRRO” e ainda bem que o fazemos visto terem chegado mais achegas ao assunto o que aliás solicitámos quando o abordámos pela primeira vez.
Numa carta colaboradora, o Sr. José Carlos G. Rosado, residente na Amadora, vem-nos prestar precioso auxílio fornecendo dados novos e correcções ao que tínhamos escrito, algumas entretanto já feitas na MEMÓRIA XVII, de 2 de Abril.
Aconteceu que este senhor, então com dezassete anos, foi um dos componentes da marcha “e com o seu par continuou a marcha pela vida fora, com o passo certo, a garganta afinada, os corações unidos e tranquilos”.
Iremos então transmitir aquilo que este senhor teve a amabilidade de nos fornecer.
Parece que a ideia da marcha germinou num casal vindo de Lisboa (freguesia de Arroios) que se instalou no bairro, o Sr. Eduardo Moreira (bate-chapa de profissão) e sua esposa, D. Idalina ou Natalina.
Habituados às marchas de Lisboa e verificando que havia tudo no bairro para o fazer, vai de lançar a ideia e dinamizar os moradores.
Continuando a citar o nosso informador, esse facto ficou patente na letra ao dizer-se “mudou-se cá p`ro bairro a alegria e trouxe um par”.
Os ensaios começaram após o Sto. António e como já dissemos a marcha desfilou pelo S. João.
Ainda que o Sr. Sargento António Cabreira fosse só o autor da música, acabou por ter influência importante nos ensaios e “a sua acção foi decisiva para o êxito da marcha”.
Segundo aquele músico, se fossem cantar assim para a rua, mais iriam parecer pintos a piar do que rapazes e raparigas a cantar. Era necessário cantar mais forte.
Por outro lado, considerava indispensável a integração no agrupamento musical de um trompete, o que se fez por intermédio do Sr. Fernando Nogueira.
O agrupamento era constituído por mais os seguintes elementos:- Fernando Carvalho (caixa), Artur Silva (contrabaixo), Leonel Bastos (bombardino), Lopes (trombone), Barbosa (2º clarinete) e Manuel Costa (2º clarinete), o único músico nos escritos anteriores.
Confirma-se também a gravação pela Rádio Ribatejo que até entrevistou alguns elementos da marcha.
Para terminar indica-se a letra completa já que a publicada no primeiro artigo omitiu uma parte, além de uma ou duas pequenas trocas que não lhe tiram o sentido.
MARCHA DO BAIRRO DOS COMBATENTES
Letra de Ferreira Campos
I
Andam cá no Bairro
Em sobressalto os corações
A luz que os alumia
Vem do alto dos balões
Afinem as gargantas p`ras canções
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
É p`ra marchar
REFRÃO
O Bairro da Liberdade
Das Padeiras ao Choupal
É o mais belo da cidade
De beleza sem rival
Orgulho de quem cá mora
A aldeia dos macacos
Como lhe chamam os velhacos
Dos macacos lá de fora
II
Mudou-se cá p`ró Bairro
A alegria e trouxe um par
E agora cá no Bairro
Noite e dia é só cantar
Levanta o teu balão com galhardia
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
É p`ra marchar.
REFRÃO
O Bairro da Liberdade
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
III
Rapazes e cachopas
Cantai todos sem parar
Que a Rádio Ribatejo
Pelos modos quer gravar
Afinem as gargantas p`ras canções
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
Vai para o ar.
REFRÃO
... ... ... ... ... ... ... ... ... .. ...
Com esta importante achega, o que voltamos a agradecer ao seu autor, Sr. João Carlos G. Rosado, pensamos ter concluído o tema que ousámos abordar, apesar dos poucos dados de que dispúnhamos.
A MEMÓRIA de hoje, caro leitor, não se trata propriamente de uma MEMÓRIA, com o sentido de novo assunto, mas sim de achegas importantes a MEMÓRIAS anteriores.
Como pensamos já ter alertado, as MEMÓRIAS estão a chegar ao fim. Quando idealizámos os escritos, tínhamos previsto cerca de doze assuntos a abordar, número já largamente ultrapassado mas... não esgotado. Faltará a memória e principalmente o “engenho e arte” para ir mais além.
E AINDA “A MARCHA CÁ DO BAIRRO”
É a terceira vez que vamos abordar a MEMÓRIA que titulámos de “A MARCHA CÁ DO BAIRRO” e ainda bem que o fazemos visto terem chegado mais achegas ao assunto o que aliás solicitámos quando o abordámos pela primeira vez.
Numa carta colaboradora, o Sr. José Carlos G. Rosado, residente na Amadora, vem-nos prestar precioso auxílio fornecendo dados novos e correcções ao que tínhamos escrito, algumas entretanto já feitas na MEMÓRIA XVII, de 2 de Abril.
Aconteceu que este senhor, então com dezassete anos, foi um dos componentes da marcha “e com o seu par continuou a marcha pela vida fora, com o passo certo, a garganta afinada, os corações unidos e tranquilos”.
Iremos então transmitir aquilo que este senhor teve a amabilidade de nos fornecer.
Parece que a ideia da marcha germinou num casal vindo de Lisboa (freguesia de Arroios) que se instalou no bairro, o Sr. Eduardo Moreira (bate-chapa de profissão) e sua esposa, D. Idalina ou Natalina.
Habituados às marchas de Lisboa e verificando que havia tudo no bairro para o fazer, vai de lançar a ideia e dinamizar os moradores.
Continuando a citar o nosso informador, esse facto ficou patente na letra ao dizer-se “mudou-se cá p`ro bairro a alegria e trouxe um par”.
Os ensaios começaram após o Sto. António e como já dissemos a marcha desfilou pelo S. João.
Ainda que o Sr. Sargento António Cabreira fosse só o autor da música, acabou por ter influência importante nos ensaios e “a sua acção foi decisiva para o êxito da marcha”.
Segundo aquele músico, se fossem cantar assim para a rua, mais iriam parecer pintos a piar do que rapazes e raparigas a cantar. Era necessário cantar mais forte.
Por outro lado, considerava indispensável a integração no agrupamento musical de um trompete, o que se fez por intermédio do Sr. Fernando Nogueira.
O agrupamento era constituído por mais os seguintes elementos:- Fernando Carvalho (caixa), Artur Silva (contrabaixo), Leonel Bastos (bombardino), Lopes (trombone), Barbosa (2º clarinete) e Manuel Costa (2º clarinete), o único músico nos escritos anteriores.
Confirma-se também a gravação pela Rádio Ribatejo que até entrevistou alguns elementos da marcha.
Para terminar indica-se a letra completa já que a publicada no primeiro artigo omitiu uma parte, além de uma ou duas pequenas trocas que não lhe tiram o sentido.
MARCHA DO BAIRRO DOS COMBATENTES
Letra de Ferreira Campos
I
Andam cá no Bairro
Em sobressalto os corações
A luz que os alumia
Vem do alto dos balões
Afinem as gargantas p`ras canções
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
É p`ra marchar
REFRÃO
O Bairro da Liberdade
Das Padeiras ao Choupal
É o mais belo da cidade
De beleza sem rival
Orgulho de quem cá mora
A aldeia dos macacos
Como lhe chamam os velhacos
Dos macacos lá de fora
II
Mudou-se cá p`ró Bairro
A alegria e trouxe um par
E agora cá no Bairro
Noite e dia é só cantar
Levanta o teu balão com galhardia
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
É p`ra marchar.
REFRÃO
O Bairro da Liberdade
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
III
Rapazes e cachopas
Cantai todos sem parar
Que a Rádio Ribatejo
Pelos modos quer gravar
Afinem as gargantas p`ras canções
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
Vai para o ar.
REFRÃO
... ... ... ... ... ... ... ... ... .. ...
Com esta importante achega, o que voltamos a agradecer ao seu autor, Sr. João Carlos G. Rosado, pensamos ter concluído o tema que ousámos abordar, apesar dos poucos dados de que dispúnhamos.





