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sexta-feira, 4 de junho de 2010

O espaço, onde e como é

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 24 DE JANEIRO DE 1992)

Se pensamos que a maioria dos nossos leitores são, possivelmente, varzeenses conhecedores da sua terra, admitimos também a existência daqueles que nada têm a ver com a freguesia, não conhecem bem onde se situa e como são os seus terrenos, tanto no aspecto topográfico como geológico.

Se tivesse sido o nosso propósito haver uma ordem esquemática na apresentação dos temas, possivelmente este teria sido o primeiro ou dos primeiros e não dos últimos, como irá ser.

Verdade seja que nos mais de trinta temas publicados, várias referências têm sido feitas a este assunto, mas que agora pretendemos confirmar e fundamentalmente ampliar.

***

[Mapa da freguesia. Des. de JV]

A freguesia da Várzea, uma das vinte e oito que constituem o actual concelho de Santarém, a que sempre pertenceu, situa-se no “Ribatejo do Norte”, em pleno Bairro uma das três regiões consagradas pelo uso regional.

Zona compreendida na parte livre de inundações da margem direita do Tejo (1), e medianamente acidentada e ondulada, constituída por terrenos argilo-arenosos ou argilo-calcários (2), deficientes em azoto e ácido fosfórico. (3)

Linhas de águas numerosas (4) mas que não passam de pequenos ribeiros (5), originam alguns terrenos planos e irrigados (várzeas) que estão na origem da sua designação toponímica.

[Várzea de S. Martinho. Foto JV, 2009]

São terrenos próprios para a cultura da oliveira, a sua maior riqueza, que aqui encontra as melhores condições para o seu habitat (6), cerealicultura, principalmente o trigo que ocupa (ocupava) o espaço livre nos olivais, a vinha, que origina vinhos vigorosos, encorpados, secos e abertos e, nas terras baixas (várzeas) excelentes frutos e mimos hortícolas.

Ocupa uma área aproximada de 25 km2. (7)

Confina com as freguesias citadinas de São Nicolau e S. Salvador e comas rurais de Azóia de Baixo, Romeira, Abitureiras, Moçarria e numa pequena faixa com Almoster.

Moçarria foi criada em 1922 por desanexação de Abitureiras.

***

Está passado o “bilhete de identidade”.

Quem desejar adquirir uma ideia mais concreta, além de percorrer a freguesia deverá postar-se com mais detalhe em lugares que lhe proporcionem um abranger do horizonte.

Costuma chamar-se a estes sítios, miradouros e há maravilhosos por esse país fora.

O miradouro das Portas do Sol em Santarém, é um dos mais apreciados e nas nossas andanças profissionais, da Beira ao Algarve, algumas vezes nos foi referido esse facto por quem bebeu essa surpreendente paisagem que nunca mais esqueceu.

Como é de esperar, a freguesia não nenhum desses locais aproveitados no sentido de miradouros propriamente ditos.

Já dissemos que é constituído por terrenos levemente ondulados. É na zona norte que encontramos as cristas dessas ondulações e consequentemente é aí que se situam alguns miradouros naturais donde podemos desfrutar bons panoramas.

[Quinta da Narcisa. Foto JV, 2009]

Da Quinta da Narcisa admiramos, em dias límpidos, a alcantilada capital do Ribatejo e por enquanto, ainda algumas torres dos seus templos, já que outras foram barradas por torres habitacionais.

Separam-nos velhos olivedos. É paisagem interessante.

Do Alto da Olaia, onde se encontra o actual cemitério, admiramos os excelentes terrenos que circundam a Quinta do Freixo.

Da torre da Igreja Matriz, no Outeiro, apercebemo-nos do que é, em grande parte, a freguesia e a nossa vista espraia-se pela Romeira, Moçarria, Aramanha, Vilgateira, Aroeira e Casais do Maio. Estes Casais, salpicados de fogos, são a zona mais elevada da freguesia com cotas superiores a 100 e onde os desníveis são mais pronunciados, proporcionam-nos alguns trechos onde a oliveira é rainha e os regatos gorgolejam no fundo dos vales cobertos de hortejos e árvores de fruto.

Se fizermos isto, ficamos com uma ideia muito exacta do ESPAÇO da freguesia – ONDE E COMO É.

NOTAS
(1)–Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, 1936, p. 19.
(2)–“A Autonomia Regional do Ribatejo sobre o Aspecto Agro-Climático”, Eng. Agrónomo Eduardo Mendes, in Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40, p. 76.
(3)–“A Evolução Agrícola do Ribatejo”, Eng. Agrónomo Ruy F. Mayer, in Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, nº 37 a 42, 1933, p. 75.
(4)–Vide “A Água, esse precioso líquido”, in Correio do Ribatejo de 13 de Setembro de 1991.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Revolta de Santarém

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 10 e 17 DE JANEIRO DE 1992)
Conhecida também pelo “Movimento de Santarém” ou simplesmente pelo “10 de Janeiro”, faz hoje precisamente 73 anos que estalou na cidade de Santarém.

Ficou muito ligada à freguesia da Várzea pois foi na sua área que se desenvolveram factos importantes que levaram ao seu epílogo.

Dos que conhecemos, é o facto histórico mais importante que aqui ocorreu nos últimos séculos.

***

Após o assassinato de Sidónio Pais, o período que se seguiu, caracterizou-se por uma enorme confusão política – conflito entre monárquicos e republicanos – e dentro destes, democráticos e sidonistas.

[Tamagnini Barbosa]
O General Tamagnini Barbosa é nomeado Chefe do Governo e os monárquicos preparam o assalto ao poder, dando-se ao luxo de exigirem a saído do Governo dos Ministros considerados mais republicanos. (1)

“A República está em perigo. O Governo acaba de capitular perante as chamadas Juntas Militares, que indubitavelmente preparam uma restauração monárquica. A todos os verdadeiros portugueses e a todos os republicanos dignos deste nome se impõe, desde já (...) unir fileiras e seguir para a frente, tendo como único lema, defender as instituições proclamadas pela vontade unânime da Nação, em 5 de Outubro de 1910.

Os homens que sobrescrevem o presente documento, pertencem a todas as correntes da DEMOCRACIA PORTUGUEZA, desde a republicana mais conservadora até à socialista.”

O programa que adoptam é seimples e claro: Constituição de 1911 (...)”.

[Álvaro de Castro]
Eis alguns dados que respigámos da PROCLAMAÇÃO dos revoltosos de Santarém, assinada entre outros por Jaime de Figueiredo, coronel de Infantaria, Aníbal Santos Miranda, coronel do Estado-Maior, Filipe de Sousa Tribolet, capitão de Infantaria, Dr. António Granjo, Dr. Álvaro de Castro, Francisco Cunha Leal, deputado e Augusto Dias Silva, socialista. (2)

É a 10 de Janeiro de 1919 que em Lisboa, Covilhã e Santarém, estala e insurreição militar. Em Lisboa tudo se resumia a um ataque malogrado ao Castelo de S. Jorge, na Covilhã Teófilo Duarte dominou a sublevação com uma coluna que ficou conhecida pela Coluna Negra e que se veio juntar em torno de Santarém, onde a revolta não soçobrou com facilidade. (3)

Recorramos ao historiador scalabitano e jornalista, Dr. Virgílio Arruda que nos dá em poucas linhas, a imagem da situação que afinal, penso, também viveu, ainda que jovem.

Diz assim: “Ouriçados os miradouros de canos de sete e meio, manteve-se a guarnição na defensiva, ao estrondear das posições artilhadas, ribombando as peças, as granadas a assobiarem por cima da Ribeira, a metralha a bater as espaldas das colunas.

Tropas e mais tropas rodeia a cidade, apertando o cerco, numa lura tenaz que a pouco e pouco se fecha, até que sabedores da rendição da Covilhã e do abortar do movimento em Lisboa, ops cá de dentro, - recusando a render-se a qualquer dos comandos monárquicos das forças que os investem, - entregam-se a Teófilo Duarte que lhe intimara a rendição” (4)


Depois destes dados gerais que nos situam no acontecimento, interessa saber o que se passou na freguesia.

É a “Monarquia do Norte”, de Rocha Martins que nos fornece alguns dados que por vezes não explicitam convenientemente os locais de acção.

A pág. 77 escreve-se: “Em torno da cidade, nos explendores da paisagem da Várzea, molhado ainda o terreno apesar do solsito de Janeiro que chegou a chupar as humidades das leivas, retumbava o sector que Almeida Teixeira, com o seu sangue frio, comandava.”

É a artilharia deste sector que destroça a que se encontra a coberto do presídio (pág. 78).

“Quando a noite descia, ela troava mais vivamente, nos seus intervalos o retenido das balas estridentava nas terras.

As granadas passavam rubras, sibilantes, a apavorar os tranquilos casaes; respondia-se da cidade e o combate ia tomando as proporções de um duelo formidável embora só pela retumbância da pólvora. Mantinha-se o propósito de não destruir os belos edifícios mas também o de demonstrar que se sabia fazer calar as posições inimigas.”

O sector de Almeida Teixeira fora o que causaria os maiores destroços.

Manda entretanto este oficial, a dois alferes de Lanceiros, examinar um local que lhe parecia suspeito e seguiram acompanhados de quatro soldados. Domo ocultos num olival, moviam-se vultos. Há galopes, troca de tiros. Acabam por se acharem num cômoro pejado de soldados, alguns dos quais corriam aterrorizados para as bandas de uma alva capelinha. (5) Havia em torno de uma peça, guardas-fiscais e guardas-republicanos, civis e militares.

Os oficiais julgavam-se perdidos quando ouviram uma voz perguntar.
_ Quem está lá? Era o alferes Ferreira que lhes apontava uma pistola.

- Coluna Negra de Teófilo Duarte!

Afinal estavam com amigos neste vasto campo da Várzea e junto de uma capelinha em cujos degraus rolavam recrutas à bofetada e a pontapé pelo comandante, indignado de os ver fugir à aproximação dos cavaleiros.

- Ah! malditos que não mereceis pertencer à Coluna Negra.

Teófilo inteirou-se do que sucedeu, disse aos Lanceiros que tinham cometido uma imprudência e deliberou ir conversar com Almeida Teixeira.

[Tamagnini de Abreu]A Coluna Negra com as suas duas peças, a metrelhadora que ninguém podia mover, dezoito cavalos, guardas-fiscais e guardas-republicanos, soldados da companhia de obuses e vinte oficiais, após a vitória na Beira, viera em direcção ao Entroncamento, fornecera-se de granadas, recebera ordem do General Tamagnini de Abreu para ir ligar-se na Várzea com as outras unidades que ali se encontravam, tendo por quartel uma igrejinha branca e por comandante um sonhador de largos feitos militares que dia a dia se consagrava ao empreendê-los.

Teófilo Duarte não se conformava com aquela situação, era necessário fazer alguma coisa para haver uma mudança no sentido positivo. Deliberou por isso, sem que a ninguém pedisse conselho, mandar um soldado com um ultimato aos rebeldes, impondo-lhe a rendição.

Esta atitude não foi bem aceite por grande parte das outras tropas que cercavam a cidade, pois opinavam dever ser vencida duramente.

Em Santarém recebeu-se o enviado com a carta do bravo cavaleiro. O coronel Jaime Figueiredo, comandante dos revoltosos, compreendia ser impossível levar mais longe aquele luta e respondeu aceitar um oficial ou ir igualmente um oficial para trocar impressões sobre o conflito.

O capitão-aviador, Almeida Pinheiro, encontra-se assim com Teófilo Duarte no entroncamento da estrada da Portela com a de Rio Maior.

[Teófilo Duarte]
Procura o Governador de Cabo Verde demonstrar a impossibilidade de êxito por parte dos revoltosos e quando o aviador voltou, com o coronel comandante, redobrou a sua dialéctica.

Decidiram os de Santarém entregar-se a Teófilo Duarte por ser um oficial republicano.

A declaração de capitulação, entretanto lavrada, é datada da Quinta do Mocho, a 15 de Janeiro.

Teófilo Duarte indica aos vencidos o seu quartel, o seu abrigo, onde lhe daria a mesa e o leito. Ao chegarem ao lugar da ermidinha branca, Teófilo Duarte ordena às forças a homenagem aos prisioneiro.
Soldados! Apresentar ... armas!

[Casa que foi de Joaquim António Montez, vulgo Joaquim da Mariana e hoje transformada em sede de "Os Galitos da Várzea". Desenho de JV]

O Boletim da Junta de Província do Ribatejo, nº 1, ano de 1937/40, pág. 571, informa que numa modesta casa de Santo António da Várzea (Vilgateira), residência de Joaquim António Montez (6), actual sede de “Os Galitos”, veio entregar-se à prisão o comandante das forças revoltosas de Santarém, contra o Governo legítimo. Aceitou a rendição o então tenente e Governador de Cabo Verde, Teófilo Duarte.

Se a luta foi confusa com aspectos mal definidos, ao conhecedor da freguesia também não é fácil determinar com precisão, alguns dos locais indicados nos escritos.

***
Estão decorridas mais de sete décadas sobre os acontecimentos. Ainda é possível aos varzeenses octogenários mais lúcidos, transmitirem, ainda que sem ligação, alguns dados de interesse.

Os que iremos indicar, já nos foram relatados há muitos anos e sempre os retivemos na memória.

Quando a Coluna Negra chegou, a população vilgateirense ficou sobressaltada e muitos dos seus elementos refugiaram-se na Quinta de Soudes, onde o caseiro ou feitor, era natural da aldeia.

Dizem que só ficaram de carácter permanente, três famílias, a do médico, do farmacêutico e do comerciante. Muitos dos que fugiram, pela socapa da noite vinham ver como as coisas paravam e principalmente se as habitações tinham sido devassadas.

Era-nos sempre contado que uma das famílias que abandonou a resodência tinha deixado a mesa posta para que os intrusos, se os houvesse, ficassem bem dispostos e causarem menos prejuízos. Verdade seja que nunca nos foram referidas violações deste tipo.

O médico mandou fazer uma “cozedura” de pão para distribuir pelos soldados.

[Armas ensarilhadas]
As armas ensarilhadas foi outro facto que ficou na memória das crianças de então. (7)

Foi a srª D. Isabel Rodrigues Casqueiro, já falecida, que nos transmitiu com todo o realismo, o que a memória registou: indo pela mão da madrinha, srª D. Josefina Sacoto Galache, apareceu-lhes na frente Teófilo Duarte que voltando-se para a então proprietária da Quinta do Freixo, lhe ordena:- Daqui a uma hora quero a quinta desocupada para acolher os meus homens.

Também o sibilar das granadas de sete e meio ficou na lembrança deste povo, estando instalada uma peça no Outeiro.

Ainda que sem a clareza que gostaríamos de apresentar, aqui deixamos reunido o que nos foi possível compilar e organizar sobre um acontecimento politico-militar que teve fases importantes na freguesia da Várzea.

NOTAS

(1) - “A Primeira República”, António Reis, in História de Portugal, Publicações Alfa.
(2) – “Para a História – O que foi o Movimento de Santarém”, Tavares Ferreira, in O Debate, Santarém, de 13 de Janeiro de 1919.
(3) – Portugalidade – Biografia de uma Nação, Domingos Mascarenhas, Lisboa, 1982.
(4) – “Uma data”, Correio do Ribatejo de 13 de Janeiro de 1984.
(5) – Pensamos que a ermidinha é a Igreja Matriz da Freguesia.
(6) – Vulgo Joaquim da Mariana.
(7) – Dados transmitidos por nossa mãe que viveu os acontecimentos e que na altura tinha treze anos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

D. José da Câmara, 11º Conde da Ribeira Grande

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 3 DE JANEIRO DE 1992)


Título outorgado a D. José Maria Gonçalves Zarco da Câmara, por alvará do Conselho de Nobreza de 20 de Abril de 1947, em nome do Duque de Bragança, Senhor D. Duarte.

Filho do 10º Conde, que foi Par do Reino e bacharel em Direito, nasceu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1898 (1) e faleceu na sua Quinta do Mocho, em 29 de Maio de 1961.

Mais um fidalgo que deixou a sua vida ligada a esta freguesia, na qual residiu e onde possuía avultados bens.

Assistia com frequência à missa dominical na igreja matriz da freguesia. Interessava-se pelos seus problemas e apoiou a fundação dos “Galitos da Várzea”,

Vimos o Senhor D. José do Mocho, como era vulgarmente conhecido, uma únuca vez, teríamos uns onze anos e acompanhávamos o nosso pai.

Apesar da pouca idade, já tínhamos ouvido falar bastantes vezes nele, ao povo e sempre de uma maneira que nos impressionava, já que era unânime as boas referências que lhe ouvíamos fazer.

O cumprimento a que se seguiu uma breve troca de impressões, teve para mim algo de diferente.

Logo que nos foi possível, bombardeámos o nosso progenitor com as mais variadas perguntas para as quais íamos obtendo as respostas possíveis.

[Quinta do Mocho, que lhe pertenceu. Foto JV, 1991]
Era-nos esclarecido ser uma pessoa altamente respeitada pela linhagem, porte, fino trato e bondade, gozando de grande estima entre a população.

Um velho amigo que entretanto tinha aparecido, exímio executante na Banda dos Bombeiros de Santarém, chamou-nos a atenção para o facto de ser grande conhecedor de música erudita e mesmo executante.

[Fonte na EN 114, próximo da Quinta do Mocho e hoje recuperada. Foto JV, 1991]
Pensávamos nós, nos nossos onze anitos, que um fidalgo havia de ser diferente dos outros homens!

Mas para falar do Senhor D. José, nada como recorrer à grande figura escalabitana que foi o saudoso Dr. Virgílio Arruda e respigar alguns dados que sobre ele escreveu na passagem do 25º aniversário do seu falecimento.

“Pertencendo a uma das mais distintas famílias, não se distinguiu apenas pela nobilitante gerarquia dos seus  ascendentes.

Mais do que fidalgo pelo sangue, a sua fidalguia vinha-lhe do coração e do espírito, da nobreza dos seus sentimentos, do ascendente da sua intelectualidade, da sua cultura artística, da sua veia lírica, da sua execução musical e da lhaneza so seu trato pessoal.

Muito lhe ficou devendo Santarém pela sua participação activa em tantas actuações culturais, em obras de benemerência, em concertos musicais, em empreendimentos teatrais, em conferências e em outras iniciativas de interesse público”.

E continua o Senhor Dr. Virgílio Arruda: “Salientemos ainda o mérito que do seu convívio pessoal advinha a sua vontade de bem servir da sua modéstia exemplar, da sua esmerada educação, do seu incessante contributo para o bem dos outros.

Da sua cultura literária, do seu lirismo de poeta desconhecido do grande público, da sua classe de grande instrumentista – exímio no violoncelo – afeita à interpretação magistral de partituras transcendentes, D. José Ribeira assinou uma época da vida santarena que se pode considerar, sem favor, a nossa idade de oiro”.

A vinda a Santarém de orquestras de grande categoria, regidas por Debroen, Igor Maskevizs, Pierino Gammba e outros e de instumentistas, como Ginette Leveux, Michelin, Paul Breton e outras figuras de primeira grandeza, a participação dos maestros Silva Pereira, Luís Silveira, Belo Marques, Fernando Cabral, Joel Canhão e outros dedicados regentes do Coral Scalabitano, para isso contribuíram.

Tendo vivido durante muitos anos em Inglaterra, manteve relações com individualidades estrangeiras que frequentemente o visitavam na sua residência da Quinta do Mocho e na de Santarém”. (2)

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NOTAS
(1)–Nobreza de Portugal, 1961 e Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

(2)–“Uma efeméride – D. José Gonçalves Zarco da Câmara (Conde da Ribeira Grande), faleceu há vinte e cinco anos”, Virgílio Arruda, in Correio do Ribatejo, de 29 de Maio de 1986.

domingo, 11 de abril de 2010

As Invasões Francesas

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 27 DE DEZEMBRO DE 1991)


Paralisado junto das Linhas de Torres Vedras, Massena resolve a 14 de Novembro de 1810, retirar-se para Santarém. Fá-lo protegido por um espesso nevoeiro.

A falta de recursos para fazer viver as suas tropas, já era grande (1).

Devido a isso, os actos de indisciplina amiudavam-se no meio do invasor. Apesar de assaltarem os lugares circunvizinhos e roubarem tudo o que podiam, a miséria agravava-se entre a hoste imperial.

Destacamentos procuravam víveres para serem distribuídos pela tropa. Deste modo, não tinham contam as incursões da soldadesca inimiga que levava a destruição e a morte onde quer que aparecessem.

Estas repetidas infâmias foram indignando cada vez mais os povos que andavam foragidos por onde podiam e não tardaram as vinganças. Sabe-se que da região do Bairro refugiou-se bastante gente para os lados de Almeirim e de Alpiarça. (2)

Desesperados, os paisanos nutrindo pelos invasores o mais justificado ódio, não lhe perdoavam sempre que os podiam apanhar.

Desciam de noite às povoações abandonadas e assassinavam quantos franceses surpreendiam a dormir e de dia davam-lhes caça nas encruzilhadas formando milícias.

A população apesar dos sofrimentos e das humilhações, colaborava na tarefa de tornar impossível a vida dos franceses. Quando abandonavam as suas casas, procuravam destruir tudo o que os franceses necessitavam, quando o não podiam esconder.

Milhares de oliveiras, laranjeiras e outras árvores foram cortadas pelos franceses para queimar ou fazer fortificações.

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Em Alcanede encontrava-se o General Chausel que tinha substituído Junot, baleado numa missão de reconhecimento para verificar se os aliados se reuniam em Alcoentre.

Desde 24 de Outubro que um destacamento das tropas de Massena se aquartelara em Azóia de Cima, onde se conservou mais de quatro meses. Diz o povo local que para essa demora contribuiu a água da fonte da povoação, considerada das melhores das redondezas. (3)

A freguesia da Várzea encontrava-se assim debaixo da acção destes três focos, em que se incluía Santarém. Nestas circunstâncias foi cenário, tal como as freguesias vizinhas, de tão grandes barbaridades.

Existem referências escritas a factos passados nas freguesias da Romeira, Tremes, Arneiro das Milhariças e Abitureiras, entre outras.

Quanto à freguesia da Várzea, que é naturalmente aquela que mais nos interessa, também alguma coisa acabou por ficar escrito. Assim, na primitiva igreja matriz, os arquivos desapareceram e as dez capelas existentes na altura foram profanadas, saqueadas e devastadas, o mesmo acontecendo à dita igreja. Foi assim que começou o desaparecimento da Igreja de Santa Maria da Várzea, medieval e da capela e da capela de S. Miguel, de antiquíssima fundação (4). Das restantes nove capelas, algumas ainda assim continuam e outras até já desapareceram.

Nas zonas afectadas com mais intensidade, o povo mantém na memória alguns factos então ocorridos e que são transmitidos de geração em geração com as deturpações naturais até que diluem.



Foi-nos contado que numa residência da aldeia de Vilgateira, que ainda ostenta no piso superior, duas janelas de arcos ogivais e que pertenceu ao fidalgo, D. António Galache e é actualmente dos herdeiros de António Eloi Godinho, ainda há poucos anos existia, segundo o seu proprietário, um compartimento difícil de localizar que, segundo a tradição, teria sido utilizando com êxito, como esconderijo de alimentos e valores.

Também uma família da freguesia, segundo um dos seus membros, apanhou o apelido de um oficial francês que desertou e que por cá terá ficado, constituindo família.

Na realidade houve inúmeras deserções como afirmam os historiadores da Guerra Peninsular.

O antropónimo referido parece revelar importação.

Reconhecendo a possibilidade de se manter, Massena abandona pela calada da noite de 5 de Março de 1811, Santarém, deixando por falta de gado de tracção, umas doze ou catorze peças de artilharia e trezentas viaturas diversas, naturalmente tudo previamente inutilizado. (5)

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NOTAS

(1)–D. João VI, Mário Domingos, Edição Romano Torres, Lisboa, 1973.
(2)–Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40, Lisboa, 1940
(3)–“Azóia de Cima através dos tempos”, Albertino Henriques Barata, Correio do Ribatejo de 2 de Abril de 1976.
(4)–Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Vol 18, pág. 739.
(5)–“Santarém, seu valor militar na zona do Ribatejo, General Luís Augusto Ferreira Martins, Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Lembrando os varzeenses que se bateram na Guerra Mundial 1914-18

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 20 DE DEZEMBRO DE 1991)


A escolha dos assuntos a abordar, como já verificaram, têm origens diversificadas.

Um dos filões que exploramos, é o facto histórico a nível nacional, pretendendo saber algo que se tenha passado a nível de freguesia.

É nesse sentido que elaborámos o tema de hoje.

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A nossa participação na 1º Grande Guerra Mundial, que se verificou em 1917, não foi pacífica pois havia quem a defendesse e quem preferisse que ficássemos numa posição neutral.

Venceram os primeiros e daí a organização do Corpo Expedicionário Português, efectuado em poucos meses em Tancos e que comportou milhares e milhares de portugueses.

Naturalmente que o recrutamento também se fez sentir nesta freguesia.

É muito pouco o que vamos referir, tudo obtido por via oral mas que talvez por isso mesmo tenha interesse especial pois se não ficar escrito, vai diluir-se no decorrer dos tempos e perder-se.

Garantia-nos em 1980 um ancião vilgateirense amigo (1) e já falecido, que sabia e tinha conhecido todos os varzeenses que estiveram na Guerra, podendo mesmo referenciá-los um por um, sem falhar.

Não está em causa se falhou ou não na sua enumeração e se efectivamente sabia de todos os que tinham sido mobilizados. A verdade é que os indicados teriam mesmo lá estado, sendo dois ou três do nosso conhecimento, adquirido em conversações com a nossa mãe, na altura do conflito, ainda bem jovem.

Alguns dos nomes indicados são provenientes de alcunhas, visto o informador só os conhecer assim.

Fizemos algumas tentativas na década passada para os obter mas não foi possível. Aos eventuais familiares dos alcunhados aqui deixo o pedido de esclarecimento.

Todo este tema podia ser enriquecido por depoimentos de familiares já que é tradicional, assuntos destes passarem de pais para filhos – fica sempre na memória, um ou outro acontecimento que mais impressionou, ainda que haja condições para a deturpação.

***

Estiveram em terras de Flandres, pelo menos treze varzeenses e indicamos em primeiro lugar, como simples homenagem, José Monteiro, que lá perdeu a vida,

Os Monteiro são uma família que ainda existe na freguesia.

Não temos a certeza, mas pensamos que já não vive nenhum dos restantes doze.

Manuel Lourenço, vulgo Ciclá (2), a quem nos referimos noutro tema e que conhecemos bem, por lá andou e contava de uma maneira peculiar o que tinha passado.

Era uma figura típica da aldeia de Vilgateira, castiço, com o seu barrete preto, calça de serrobeco e bota cardada. Vivia numa casita na rua que dá acesso à estrada para a Quinta da Narcisa, mourejando no bocadito de terra que aí possuía.

Recebia uma insignificante importância da Liga dos Combatentes, na altura chamada da Grande Guerra.

Procurava-nos anualmente para lhe fazermos um favor – pagar a “décima” da terra e das casitas – o que nada nos custava e fazíamos com gosto. Ainda estou a ver o seu agradecimento, tirrando de uma maneira muito própria o barrete, que sempre usou.

Outro combatente que conhecemos foi João Montês, vulgo João da Fonte, por morar no lugar da Fonte de Vilgateira, onde ainda tem descendentes.

Quando juntamente com outros cujo nome não posso precisar, regressou à sua aldeia, contava-nos a nossa mãe que tinha sido à noite, era domingo e havia baile.

Foi um alvoroço na aldeia, a notícia correu célere e todos queriam ver e abraçar aqueles seus conterrâneos que duvidavam pudessem regressar.

De Perofilho estiveramAntónio Nunes, António e José Faustino, cujos nomes de família ainda perduram na zona e Manuel Coxo. Este último, certamente por alcunha adquirida após o regresso ou proveniente de algum familiar. Ou seria que na altura “apuravam” mancebos com defeito físico?

António Paulino, vulgo Sardão. Ezequiel da Rosa e Manuel da Costa Baguim, que também conhecemos e foi para o Asilo dos Inválidos Militares, em Runa, são outros dos soldados indicados.

Dos Casais do Maio foi seu represente um António, por isso mesmo conhecido por António do Maio.

O único graduado, 2º sargento, era António Carreira, apelido de família ainda existente.

António Pito acabou por abandonar a região e fixar-se no Laranjeiro, concelho de Almada.

São, como vedes, muito simples as referências que aqui deixamos quando se acaba de comemorar o 73º Aniversário do Armistício.

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NOTAS
(1) – Foi Florindo da Costa Paulo, homem de rija têmpera, bom manejador de um pau ferrado.
(2) – Acabou por vender a fazenda e a casita, acolhendo-se a um Asilo ba Vila de Alcobaça, onde teria acabado os seus dias.

terça-feira, 23 de março de 2010

A saúde e a doença

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 13 DE DEZEMBRO DE 1991)


A aldeia de Vilgateira teve nos finais do século passado e até meados do actual, uma cobertura de saúde, se assim se lhe pode chamar, boa para a época, visto ser sede de um partido médico que abrangia as freguesias da Várzea, Romeira, Azóia de Cima, Abitureiras e Azóia de Baixo, o que chegou a proporcionar a existência de duas farmácias, a Mendes, ainda em actividade e a Souto, de efémera existência.

Além disso beneficiou da acção contínua de dois clínicos, o oficial e o particular, ambos residentes na aldeia.

Como já dissemos noutra oportunidade, a Farmácia Mendes foi fundada em 1909 e vendida em 8 de Março de 1941, por Augusto de Oliveira Mendes a António Elói Godinho.

A Farmácia Souto iniciou a sua actividade no edifício onde residiu Adelino Martins Coelho, hoje na posse de seus herdeiros, passando depois para aquele que pertence e é habitado pelo nosso amigo, António Rafael Glórias Lopes.

Sabemos que em 1911 grassou na freguesia uma epidemia de varíola e em 1915 houve vários casos de varíola e o aparecimento de um cão raivoso que levou a medidas profilácticas.

Mas a pneumónica (gripe epidémica na sua forma pulmonar), de 1918/19, aparecida em todo o País em consequência da Grande Guerra, causou 102.750 mortes (1), matando famílias inteiras e espalhando pânico por toda a parte.

Também na freguesia da Várzea se fez sentir.

[O Dr. Adriano de Oliveira, o último médico do Partido]

Ainda não raiava a manhã, as pessoas amontoavam-se à porta do médico que pouco descansava. Era uma disputa terrível pelo clínico, chegando mesmo a causar desordens e a única solução era começar por um lado e terminar pelo outro.

Saía de madrugada e regressava alta noite. Comia por onde andava e o que lhe ofereciam.

Uma jovem doente de Vilgateira era a primeira a ser visitada. Caiu-lhe o cabelo e perdeu o andar mas a doença não a conseguiu vencer!

Consta que as mulheres grávidas eram facilmente vitimadas pela doença. Em Vilgateira existindo sete, todas resistiram, o mesmo não acontecendo no Outeiro, onde já houve vítimas.

[A centenária Farmácia Mendes, em Vilgateira. Foto JV, 2009]
Parece que o uso de bebidas alcoólicas protegia de certa maneira as pessoas. Em casa de nossos ascendentes, ainda que a epidemia tivesse entrado, não causou vítimas e usou-se muito o anis escarchado.

Que seja do nosso conhecimento, serviram este partido médico os seguintes clínicos: Drs. Júlio Montez, Alberto de Sousa, Miguel d`Ascenção, Cunha Gonçalves e Adriano de Oliveira.


Muitos médicos de Santarém e redondezas, alguns bem conhecidos, fizeram receituários ao povo desta freguesia. Entre eles destaca-se o Doutor Oliveira Feijão que nas suas estadas na Quinta da Mafarra, não deixava de atender quem de si se abeirasse, muitas vezes os seus próprios trabalhadores ou familiares.

Nomes como os Drs. Pompeu, Anacoreta, Manuel Branco, Francisco Godinho, Pereira de Melo, Silva Pereira, Pedroso da Costa, Cortez e J.A. Ferreira, constam frequentemente do livro copiador de receitas da Farmácia Mendes.

Com a saída do Dr. Adriano de Oliveira, Vilgateira nunca mais dispôs de médico permanente. Por vezes, um ou outro ia semanalmente dar consultas.

Com a criação de uma Delegação da Casa do Povo de Santarém, a funcionar no edifício da Junta de Freguesia, têm os varzeenses assegurados alguns serviços de saúde indispensáveis com a deslocação de médicos e enfermeiros.

NOTA
(1) – Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A Sociedade Recreativa Vilgateirense

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 6 DE DEZEMBRO DE 1991)

Já deixámos nestas páginas (1) uma pequena achega para a “história” da fundação do Grupo Desportivo e Cultural “Os Galitos” da Várzea e aí referimos a existência de uma anterior associação de carácter recreativo e cultural, a Sociedade Recreativa Vilgateirense.

Bem poucos ou nenhuns vilgateirenses dela se lembrarão pois a sua fundação ter-se-ia dado em 1916, ou mesmo anteriormente, sabendo-se que ainda existia em 1919.

Possuímos poucos dados, quase todos transmitidos por via oral e que deviam ter sido escrito há trinta anos e não agora.

Sabemos que os grandes impulsionadores foram o Dr. António Miguel d`Ascenção, médico e António Luiz Jacinto, proprietário e negociante.

[António Luiz Jacinto que presidiu à associação]
A sede era um barracão de madeira. Coberto de telha de canudo que para o efeito se construiu no quintal de João Laranjeiro (2). Funcionava como casa de espectáculos, possuindo palco, plateia, geral e até camarotes!

Organizou-se um pequeno grupo cénico que o Dr. Ascenção ensaiava e um conjunto instrumental ao qual o Prof. Fernandes dava apoio. Entre os seus elementos lembram-se de José Carlos (Vilgateira) que tocava viola e um Frederico, sapateiro na Carneiria. Os outros, a memória da nossa informadora, não conservou. (3)

A sociedade promove no dia 11 de Fevereiro de 1917 (4), pelas 20,30 horas, um “atraente espectáculo” dividido em quatro partes, após o qual haveria grande baile.

Foram representadas três comédias, num acto, intituladas: “Um quarto de hora em Rilhafoles”, “A morte do cavalo” e “Os dois fingidos”. A 4ª parte era constituída por um acto de “Folies Bergeres”.

Na arte de representar actuaram Manuel Andrade, José Vargas, Frederico Silva, Maria da Anunciação Vargas, Violete e Henriqueta Silva Ascenção, D. Guilhermina da Graça Lopes e Augusto Pereira.

A interpretação de “Os três sacristas”, feita a pedido pelo êxito alcançado na primeira apresentação, foi desempenhada por José da Silva, Ezequiel Guilherme e José Vargas.



A encenação estava a cargo do Dr. Ascenção.

Em Junho seguinte (1917), a direcção para festejar ou comemorar a fundação, determina levar a efeito pequenos festejos em benefício da mesma e tendo em vista melhoramentos futuros. (5)

Como era dia de Sto. António e alguns dos seus membros serem bastante religiosos, resolveram incluir cerimónias alusivas ao Santo, o que foi considerado provocatório por outros elementos da aldeia, principalmente pelos que compunham a Junta de Freguesia.

Acabaram por se realizar duas festas simultâneas, com os resultados que facilmente se calcularão.

Em reunião da Junta de Freguesia é deliberado mandar intimar a “sociedade” a demolir o esqueleto de uma quermesse que impedia o trânsito entre as duas ruas.

Nisto tudo, não está nem mais nem menos do que a política. Os de esquerda num lado, os de direita, no outro.

Em 15 de Junho de 1919, a Tuna Recreativa Vilgateirense que se encontrava agregada à Sociedade Recreativa, promove festejos nos quais se incluem tiro aos pombos, corridas de bicicletas disputando fitas, cavalhadas e saltos, havendo um prémio para o cavaleiro que der o maior salto com a sua montada. (6)

Haverá também quermesse e fogo de artifício e disputar-se-á uma corrida de bicicletas, contra-relógio, com partida no Chafariz de S. Pedro (Casa do Sr. João Caniço) e chegada a Vilgateira.

As festas são abrilhantadas pela própria tuna que interpretará o seu reportório.

Um lindo estandarte de seda, bordado a ouro (7), ficou em casa de António Luiz Jacinto. Ainda existirá na posse de algum dos seus descendentes?

NOTAS

(1)– “Para a história dos “Galitos” da Várzea”, in Correio do Ribatejo de 17 de Maio de 1991.
(2) – Esse quintal presumimos pertencer à família Carreira.
(3) – Dados fornecidos por minha mãe que fez parte do grupo cénico.
(4) - Conforme programa que aqui reproduzimos.
(5) – Jornal “O Debate”, de Santarém, de 28 de Junho de 1917.
(6) – Conforme programa que aqui reproduzimos.
(7) – Bordado por minha avó materna e que também tina a seu cargo o guarda-roupa.

domingo, 7 de março de 2010

António Elói, autarca e amante da sua terra

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 29 DE NOVEMBRO DE 1991)


Na continuação das Figuras escolhidas sobre o nosso exclusivo ponto de vista, mas baseado em factos, iremos hoje referir um varzeense dos nossos dias.

Verdadeiramente amante da freguesia que o viu nascer a 29 de Janeiro de 1912. De seu nome comppleto, António Elói Godinho, era filho de Luciano Simões Godinho, farmacêutico e de D. Leonilde da Graça Elói.

Herdou do seu pai o gosto pela farmacopeia que nunca abandonou.

Em 8 de Março de 1941 adquiriu a António de Oliveira Mendes a Farmácia Mendes, em Vilgateira, fundada em 1907, mantendo-se, segundo pensamos, ainda na posse de seus herdeiros.

Após a saída do último médico residente em Vilgateira, o Dr. Adriano de Oliveira, António Elói Godinho era o homem a quem se recorria nas aflições de saúde, não para fazer medicina que é própria dos médicos, mas para ajudar a resolver as situações de emergência. O seu conselho era tido em muita consideração.

Ajudante de farmácia encartado e com muita experiência, quando regressava de Santarém, após dia de trabalho à frente do estabelecimento comercial de que era sócio-gerente, percorria a freguesia a dar injecções a quem solicitava a sua presença a sua colaboração. Não o fazia pelo dinheiro que recebia, de que não necessitava e que na maioria das vezes não chegava para pagar a gasolina.

[Casa onde viveu nos últimos anos e de sua propriedade. Des. de JV]

António Elói, como era conhecido geralmente pelos seus conterrâneos podia ter-se fixado com facilidade na cidade de Santarém, como fizeram outros, com vantagem para si e família e não “obrigar” os filhos a acompanharem-no diariamente à cidade, onde frequentavam o ensino liceal.

Não o fez pelo amor que dedicava à sua freguesia.

Aos vinte e quatro anos faz parte da Junta de Freguesia, exercendo as funções de tesoureiro de 1936 a 1941 e de 1951 a 1954.

Dá durante cerca de trinta anos todo o seu esforço em prol da freguesia, sendo vinte na qualidade de presidente, funções que inicia em 1955 para terminar em 1974.

Nessa altura em que era extremamente difícil obter a resolução de tantos e tantos problemas que afligiam as populações, Elói Godinho, além de administrar criteriosamente os parcos rendimentos da Junta que provinham do cemitério, procura por todos os meios ao seu alcance e obtém, benefícios comunitários de muito interesse que os varzeenses não devem esquecer.

Os dois edifícios escolares existentes, para serem erguidos, muito ficaram devendo à sua acção.

Em 1963 inicia-se o fornecimento de energia eléctrica a Vilgateira e arredores, em 1968 é a vez de Perofilho e arredores e um ano depois, Charruada, Laranjeiras, Alcobacinha, Casais do Maio e Carneiria.

Em 1964 adquiriu um edifício no centro de Vilgateira para instalar a Junta de Freguesia e mais tarde a Delegação da Casa do Povo com posto médico. Na altura eram raras as Juntas que possuíam sede própria.

Também lhe pertence a iniciativa da abertura da estrada entre Vilgateira e Alcobacinha, passando pela Pisca e os Casais do Maio (1966/67).

Outra obra a que deixou o nome ligado foi o alcatroamento do troço da estrada entre o Gualdim e Vilgateira (1972). A pavimentação era para ter ficado junto da Capela de Sto. António e foi a sua pertinaz acção, que incluía o abandono do lugar, que a levou a toda a aldeia.

Todos os varzeenses conhecem a sua profícuas actividade em defesa da freguesia.

[Uma Comissão de Festas a que pertenceu. É o primeiro da esquerda. Foto cedida por sua filha D. Isabel]

Também deu o seu contributo na organização das Festas de Sto. António, principalmente no que respeitava as provas velocipédicas.

Dedicou-nos a sua amizade e o nosso conhecimento sobre a freguesia podia ter outra amplitude se ainda pudéssemos contar com o seu precioso auxílio, que estamos certos, não nos seria negado. Contudo, alguns dados apresentados nestes temas varzeenses foram por ele indicados.

Homem muito ocupado, dispunha sempre de tempo para falar sobre a sua e nossa “terra”.

Nascido na Carneiria, faleceu a 26 de Agosto de 1983 e repousa no cemitério local.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Os toiros

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 22 de NOVEMBRO DE 1991)

[Pega de cernelha tendo por cernelheiro o saudoso Ricardo Rhodes Sérgio]

Quando se fala em divertimentos taurinos, associa-se sempre o assunto ao Ribatejo, onde o campino, cavalo e toiro, ainda funcionam como um ex-libris.

Apesar de o toiro ter o seu habitat na lezíria, à charneca e ao bairro nunca lhes foi indiferente.

Os varzeenses sempre dedicaram à festa dos toiros grande interesse, sendo mesmo “aficionados”.

Sabemos que D. José e D. António Sacoto Galache foram grandes aficionados:- D. José, como moço de forcado (cabo), actuou na Corrida da Instauração (Quinta-feira, 10 de Agosto de 1865), na Praça do Campo de Santana, onde se lidaram catorze toiros. D. António foi moço de curro numa corrida na mesma praça, realizada em 5 de Setembro de 1866, sendo corridos doze toiros pelos cavaleiros Francisco Pinto Basto e Marquês de Castelo Melhor. (1)

“Ir aos toiros” a Santarém, principalmente pela altura das corridas das feiras, ainda é um hábito dos de maiores recursos. Mas “as festas dos toiros”não são só corridas com nomes sonantes. As picarias (largadas de toiros em recintos fechados), são um espectáculo inteiramente popular e feito pelos próprios pagantes e que é do agrado de uma percentagem importante dos ribatejanos.

É frequente a organização de picarias na freguesia. Quando se pretende adquirir fundos para algo de interesse comum, é um dos principais recursos a que se deita a mão. Qualquer outro espectáculo, nunca dá tanto lucro, já que a assistência é numerosa, contando-se também com a presença dos povos limítrofes que nunca deixam de aparecer para mostrar as suas valentias.

Nos primeiros anos da década de setenta, realizaram-se várias picarias que além das tradicionais contusões mais ou menos leves, provocaram infelizmente a morte a um jovem.

Em Agosto e Setembro de 1985, nos anúncios de picarias convidavam-se a participar jovens dos 7 aos 70 anos!

O varzeense Chico da Costa, nas grandes picarias de Santarém e arredores, nos anos cinquenta, marcava sempre a sua presença, pegando de caras e até de costas, quando as coisas corriam bem, o que nem sempre acontecia.

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NOTAS
(1) – Dados recolhidos em prospectos facultados por D. Isabel Rodrigues Casqueiro.

quinta-feira, 4 de março de 2010

As cavalhadas

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 22 DE NOVEMBRO DE 1991)


“As célebres cavalhadas” enlevo dos povos destes sítios”é assim que Pinho Leal (1) se refere a este folguedo popular.

As cavalhadas são uma diversão em que vários contendotes, montados em cavalos ou jumentos, procuram com lanças de cana, enristando-as, obter vários prémios, suspensos de argolinhas. (2)

Em 15 e 16 de Agosto de 1880, após o restauro da capela de Sto. António que originou grandes festejos com a abertura do templo, realizaram-se grandes cavalhadas.

Era uma diversão que não podia faltar em qualquer festejo, principalmente nos realizados em “honra do glorioso Sto. António”.

Começa a sentir-se a necessidade de efectuar a actualização, pelo menos em 1937 e 1938 (3), além das cavalhadas de burro, realizaram-se também cavalhadas de bicicletas.



Com a evolução dos tempos, os burros começaram a ser menos necessários e hoje poucos ou nenhuns existem. Consequentemente às verdadeiras cavalhadas não podia acontecer outra coisa – acabar.

Torneios de tiro aos pratos e aos pombos, corridas e gincanas de bicicletas, picarias e outras diversões começaram a fazer a substituição.

As cavalhadas ficaram assim no arquivo das recordações, deixando de ser o folguedo de maior enlevo deste povo.

NOTAS
(1)Portugal Antigo e Moderno, Vol. 10, pág. 233.
(2)Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Dicionário de Morais)
(3)Conforme prospectos das Festas

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Ensino e a Educação

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 15 DE NOVEMBRO DE 1991)


[Grupo de alunas do ano escolar 1937/38 com a sua Prof. D. Isabel Barrera]

Dentro da nossa modéstia iremos hoje abordar outro assunto de interesse para o conhecimento da freguesia, ligando dentro do possível o passado ao presente,

É muito pouco o que iremos referir, mas sempre é alguma coisa que ficando escrita neste velhinho semanário, não se irá perder, admitindo que um dia alguém se venha a interessar pelo assunto. Se assim vier a acontecer, poderá ter aqui algumas achegas visto que nem tudo veio por via documental.

Por outro lado, facilmente pode desaparecer um livro de actas, o que não irá desaparecer certamente é a totalidade da edição do número deste jornal.

Sabíamos ir procurar mais, mas... a vida não nos permite fazê-lo.

***

Na freguesia da Várzea, que eu saiba, nunca se foi além do ensino primário. A telescola que se espalhou por todo o país, nunca aqui se instalou, pela proximidade de Santarém, pela falta de número suficiente de alunos ou pelo desinteresse das entidades responsáveis e das populações.

A pré-primária. De introdução oficial relativamente recente, ainda levou a uma reunião mas não se passou disso.

Em 30 de Abril de 1875 a Junta de Paróquia reunia com o inspector escolar no sentido de se procurar uma solução para a edificação da escola.

[O Padre Fragoso Rhodes]
A Junta não possuía fundos para a aquisição do terreno e construção do edifício, mas o padre “collado”, António Fragoso Rhodes (1) ofereceu terreno para a construção de uma caza escholar e para um piqueno jardim adjacente que sirva de recreio, na sua propriedade intitulada o Facho de S. Miguel, perto da igreja paroquial e cuja construção seria feita com donativos voluntários (2).

Precisamente um ano depois é pedido à Junta de Paróquia que se pronuncie sobre a criação de uma escola de ensino primário do sexo masculino, no Secorio, freguesia de Abitureiras. (3)

A Junta concorda com a construção pelas vantagens que existem, indo mesmo beneficiar algumas povoações desta freguesia. (4)

Só em meados de 1880, altura em que o ensino primário passou a ser obrigatório, isto segundo a acta que consultámos (5), se volta a falar na necessidade da construção em local saudável e não próximo de estradas com muita concorrência 8não estamos a ver onde estariam!) sendo necessário de 600 a 700 m2 para o recreio e no ponto mais central da freguesia.

São estas as condições impostas superiormente.

São considerados como ponto central os terrenos situados entre as Quintas do Freixo e da Pimenteira, cuja aquisição é considerada muito dispendiosa devido à existência de olival.

Visto a Junta não ter rendimentos para acorrer a tal despesa, é novamente falado no terreno oferecido pelo “prior collado” desta freguesia, o Reverendo Padre António Fragoso Rhodes, e que tinha sido aceite pelo inspector.

Um ano depois (1881.02.02) é criada a Comissão de Instrução e Educação Popular da Freguesia que incluía o professor do ensino primário.

É solicitado o lançamento de uma taxa sobre as contribuições gerais do Estado, na freguesia, a fim do do seu produto ser aplicado à “casa de aula”, habitação do professor, mobília e organização da biblioteca.

Em 14 de Abril de 1911 é solicitada a criação de uma escola mista em Perofilho, onde estavam mais de cinquenta crianças sem escola e iria servir as povoações do Grainho, Charruada e muitos casais dispersos.

Meses depois volta-se a insistir na criação da escola e no ano seguinte informa-se que estão naquela zona 108 crianças em idade escolar e não têm escola.

O analfabetismo na freguesia com 2.013 habitantes, é de 82,33%.

Em 1928 já havia escola em Perofilho, onde exercia funções a Prof. D. Ana Guadalupe Teotónio.

A actual escola foi inaugurada em 1948, congregando os alunos daquela zona da freguesia. Por ela passaram, entre outras, as Prof.s D. Odília, oriunda dos Açores e D. Guilhermina Maria Moura.

A outra escola da freguesia situa-se no Outeiro da Várzea e foi inaugurada em 21 de Outubro de 1956 com a presença do Governador Civil, Presidenre da Câmara e Director Escolar, entre outras individualidades. (6) O jovem Carlos Saramajo Eloi Godinho. Estudante liceal, foi um dos oradores, saudando as individualidades e congratulando-se com o acontecimento.

De duas salas, a área coberta é de 179 m2 com logradouro de 769 m2 (7). Obedeceu ao “Plano dos Centenários”, tal como a de Perofilho.


[Local onde primeiro funcionou a escola. Foto JV]

Antes da do Outeiro, começou por funcionar numa casa que já não existe e se situava em frente da garagem que foi de António Eloi Godinho (8), tendo passado posteriormente para o 1º andar do edifício da Família Eloi, ponto vital da aldeia e por último, para outro edifício da mesma família, na subida do rio Pau.

Naturalmente que foram muitos os professores que passaram por estas escolas, ultimamente, só senhoras.

Indicamos os que são do nosso conhecimento: João Ceríaco Pereira, que em 1919 presidiu à Junta de Paróquia, Prof. Féilx, Prof.as D. Maria Vicência, D. Maria José Ferreira, D. Isabel Barrera e D. Julieta do Nascimento Vilares Fragoso, há muitos anos a exercer funções nesta escola, tendo leccionado a maioria das varzeenses da zona, primeiro os pais e as mães, depois os filhos.

O varzeense tenente-coronel, Fonseca Guedes, no seu testamento instituiu um prémio para o aluno mais classificado das escolas da freguesia (10).

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NOTAS
(1) – Pároco da Freguesia desde 14 de Julho de 1833. Foi proprietário da Capela de Nª Sª da Conceição, na Aramanha, hoje profanada e em ruína.
(2) – Livro de Actas da Junta de Paróquia, termo de abertura de 1.12.1873, sessão de 30.04.1875.
(3) – A Freguesia da Moçarria a que Secorio veio a pertencer foi criada em 1922.
(4) – Livro de Actas da Junta de Paróquia, sessão de 30.04.1876.
(5) – A obrigatoriedade do ensino primário data de 1835.
(6) – Correio do Ribatejo de 20.10.1956.
(7) – Matriz Predial Urbana, Art. º 635.
(8) – Foi lá que minha mãe fez a instrução primária.
(9) – Correio do Ribatejo de 27.12.1985.
(10) - Correio do Ribatejo, 27 de Dezembro de 1985.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Flora

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 8 DE NOVEMBRO DE 1991)



(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 8 DE NOVEMBRO DE 1991)

No seguimento dos nossos escritos sobre a freguesia da Várzea, do concelho de Santarém, abordaremos hoje um tema que consideramos necessário para o seu melhor conhecimento.
Dentro das nossas limitações, procuraremos a sua evolução nos tempos.


Após a conquista de Santarém e Alcanede aos mouros, deu-se o repovoamento desta zona com simultâneo desbravamento dos terrenos.

Ainda que na Idade Média apareçam bastantes referências a terras de mato, começam a surgir indicações de olival e árvores de fruto, hortas e pomares. Citações também a lavradores e à existência de quintas, quase todas pertencentes aos conventos de Santarém, dão-nos a ideia de um certo desenvolvimento agrícola.

Hoje, praticamente não existem matos em toda a freguesia, ainda que muitas terras estejam semi-abandonadas.

A flora de uma região está em estreita relação quanto à sua fisionomia geral, com os elementos climatéricos: calor, humidade e sol.

No aspecto arbóreo, a oliveira ainda é dominante pois encontra aqui, bairros margosos e calcários, deficientes em azoto e ácido fosfórico, as melhores condições para o seu habitat. (1)

Por outro lado, não gosta de temperatura mínima inferior a -8º e de altura acima de 400 m, o que aqui se verifica.

Excepto uma ou outra pequena mancha de pinhal nas proximidades do Casal do Poço e na zona da Quinta do Mocho, Quintão, Grainho e Mata-o-Demo, pode dizer-se, de uma maneira geral, que toda a freguesia está coberta de olivedos.

Os olivais soldam-se uns aos outros, entremeando-se oliveiras carcomidas e pluricentenárias com outras sadias e ainda em plena produção.

Desde há muito que não se plantam oliveiras e a grande maioria está decrépita, moribunda. Abandonadas nos últimos anos, talvez pela necessidade de muita mão de obra, já é vulgar vê-las “de raiz ao sol”.

[Velho exemplar situado junto da Fonte da Aramanha. Foto, JV, 208]

Para justificar a abundância, diremos que em 1937, dos 284 há da Quinta do Mocho, 109 eram de olival. Mais significativo era o que acontecia nas Quintas da Mafarra e da Granja, onde mais de 90% dos seus terrenos eram olival. (2)

A oliveira que parece originária da Ásia Menor, reproduz-se por semente ou estaca.

O azeite produzido nesta freguesia é de muito boa qualidade e no século passado tinha reputação o que se produzia na Quinta do Freixo, propriedade de D. José Sacoto Galache. (3)

A freguesia chegou a possuir em laboração dezasseis lagares, quase todos desaparecidos ou inactivos.

A laranjeira, o limoeiro e outros citrinos, mas principalmente os dois primeiros, encontram-se por toda a freguesia, sendo r5aras as famílias que o não possuem. Existem contudo a nível individual de que um ou outro pomar constitui excepção.

O varzeense gosta de ter junto ao seu fogo a laranjeira e o limoeiro, a que dedica muito cuidado.

Belas nespereiras de deliciosos frutos. Pessegueiros, ameixeiras e abrunheiros. Frondosas figueiras de várias qualidades.

São vulgares também as romãzeiras. Macieiras e pereiras, além das isoladas, apareceram há anos em pomares, hoje semi-abandonados.

Junto aos cursos de água, frondosas nogueiras que também aparecem em pomares.

O Dr, Francisco Câncio que deixou vasta obra sobre o Ribatejo, num dos seus livros (4), refere-se a “belas e grandes cerejeiras”,

Ginjeiras. Ao norte da freguesia também é possível ver amendoeiras, normalmente de grande porte.

Quanto a árvores de adorno, encontramos ailantos, ulmeiros, tílias e palmeiras. Destas, quatro exemplares nos Chões, ao longo da estrada nacional e isoladas na Quinta do Rosário, na da Mafarra, na Fonte de Vilgateira e no Casal do Poço, são as que conhecemos.

[Bonito exemplar de sobreiro próximo da Aramanha. Foto JV]

Junto dos pequenos cursos de água, alguns choupos. Nos últimos anos, plantaram-se alguns eucaliptos.

As videiras ocupam também um lugar de destaque. Constituindo vinhas ou latadas, encontram-se por todo o lado. Umas, destinam-se ao fabrico de vinho, outras, são uvas de mesa.

No campo dos arbustos, encontramos alguns diospireiros, carrasqueiros e sebes de alecrim que nos embevecem na época da floração.

Voltemo-nos agora para as herbáceas. Primazia para o trigo cuja cultura parece querer rejuvenescer. Há um século, 2/3 da produção trigueira do concelho de Santarém provinha da cultura feita no “Bairro”, em olivais e terra nele encravada. Cultivava-se principalmente o maçaroco, o argelino e o mentana. (5)

Nas terras mais pobres e em rotação, cevada e aveia. Nos terrenos mais frescos (várzeas), o milho que em 1913, segundo a Junta de Freguesia, produziu 7866 decalitros.

Também teve expressão nessa altura a cultura do grão-de-bico com 3433 decalitros.

[Várzea de S. Martinho plantada de tomateiros. Foto JV, 2009]

De plantas hortenses, de tudo se pode encontrar: alfaces, couves de todo o tipo, cebolas, alhos, ervilhas, muita fava, ervilhas, feijão, cenouras, rabanetes e rábanos, beterraba, vários tipos de abóbora, pepinos, pimentos, batatas, tomateiros, etc., etc.

No campo da floricultura, o varzeense t6inha um carinho especial pela roseira que plantava junto da habitação, muitas vezes ao lado da porta ou então na horta, junto ao poço, para ter sempre o pé fresco. Jarros e crisântemos. Vimos no Quintão uma linda plantação de tulipas.

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NOTAS
(1) – Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40, pág. 75
(2) – Idem, pág. 744
(3) – Portugal Pitoresco e Ilustrado, Alberto Pimentel, 1908
(4) – Ribatejo Histórico e Monumental, 1938, pág. 196
(5) – “O Trigo na Economia Agrícola do Concelho de Santarém”, Eng. Agr. José Henriques Lino, in Boletim da J.P.R., 1937/40, pág. 271.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O "Pão por Deus"

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 31 DE OUTUBRO DE 1991)


Pedir o Pão por Deus, os Santinhos ou Santos, ou os Bolinhos, vem a significar a mesma coisa; a sua aplicação varia de zona para zona, de pessoa para pessoa.

Na região do Ribatejo e na Estremadura, é mais vulgar o uso da primeira designação, daí a nossa utilização como título de mais um Tema Varzeense.

Este velho costume relaciona-se com o culto dos mortos e espalha-se por todo o país mas com diferenças acentuadas de zona para zona, de região para região.

Desde os tempos neolíticos que aparecem manifestações de culto dos mortos sobre a forma de vestígios de consagração de alimentos sobre os locais de enterramento.

[Saco de retalhos que foi substituído pelo de plástico]

Pedir o “Pão por Deus”, cantar “As Janeiras” e “Os Reis”, entre outras, são épocas de peditórios cerimoniais, enquanto a Páscoa e o Natal, são de ofertas.

A castanha que é o produto próprio da estação e que teve grande importância na economia alimentar de outros tempos no Norte do País, e os bolos próprios da ocasião, tinham e ainda têm grande significado em quase todas as regiões.

A razão das esmolas que se pedem nesta festividade cívica, deve procurar-se na natureza especial das comemorações a que respeitam as datas em que se verificam.

Em muitos lugares acredita-se que uma vez por anos, no dia consagrado aos mortos, as almas dos defuntos vêm à terra visitar os lugares que em vida habitaram. Fazem-se por isso bolos destinados às almas, peditórios e esmolas desses bolos e em alguns locais chegam mesmo a pôr a mesa para os defuntos.

***


Depois destas notas de carácter geral obtidas no excelente trabalho de Ernesto Veiga de Oliveira, intitulado ”Festividades Cíclicas em Portugal”, e que nos ajudam a compreender melhor o tema, iremos referir o que se passa a nível da freguesia da Várzea.


Ainda que não tenha aspectos bem marcantes, a verdade é que também aqui se festeja o Dia-de-Todos os Santos. Assim, nesse dia, em caso todas as casas se comem castanhas, nozes, passas de figo, de uva ou de ameixa, amêndoas, etc. Era também uso a oferta entre vizinhos e amigos daqueles produtos que cada qual colhia. Por outro lado e talvez o mais significativo, realizava-se o peditório do “Pão por Deus”.

Logo pela manhã as crianças começavam a pedir aos pais para as deixar ir ao “Pão por Deus”.

Faziam-no com grande entusiasmo e organizavam-se em grupos que percorriam as aldeias mais próximas, batendo de porta em porta.

Notar que nos grupos encontravam-se crianças de todos os extractos sociais.

Lá iam de saco, ainda não plástico, às costas, começando, para se desinibirem, pelos vizinhos com quem estavam mais familiarizados. Nalguns casos eram os pais os primeiros dadores.

Os adultos gostavam sempre de saber o que levavam, alguns diziam que não tinham nada para lhes dar mas acabavam sempre por arranjar alguma coisa.

O mais vulgar que davam, traduzia-se como é natural, nas suas produções e assim apareciam nozes, amêndoas, passas de figo, uva ou ameixa, romãs, marmelos e maçãs, quando não bolos caseiros feitos para o efeito. As castanhas eram nessa altura mais difíceis de dar já que as tinham de comprar.

Com o andar dos tempos, além das castanhas começaram a aparecer os rebuçados, os bolos empacotados e mesmo o dinheiro.

Quem dava, tinha a preocupação de fazer uma distribuição equitativa e se alguma diferença havia era em relação aos mais pequenos. Por outro lado, tinha de contar com os que ainda estavam para vir pois pretendiam contemplar todos.

[As meninas (*) que pediram "o pão por Deus." Foto JV]


A última vez que sentimos o “Pedir o Pão por Deus” foi há cerca de seis anos, quando assistimos ao regresso a casa de três pequeninas, minhas familiares que traziam os sacos cheios das “iguarias” já referidas. Vinham cansadas mas radiantes. Senti o pulsar empolgante dos seus coraçõezitos. Pedi e deram-me explicação da tarefa que nessa tarde de 1 de Novembro se propuseram realizar.

Mais uma vez a tradição tinha sido cumprida.
E continua.

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* A do meio é hoje mãe de duas meninas, a mais nova, Zita, badalado do blogue Alcoutim Livre, a mais velhinha é a mãe da Carminho que originou a última entrada da rubrica "da barriguinha da mamã" no Alcoutim Livre. Da mais novinha, espero que me dê o Pedro, que será o meu 1º terceiro-sobrinho!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A fauna

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 25.10.1991)

A zona ocupada pela freguesia da Várzea teve vida-animal na pré-história, como provam os achados de 1919 na Quinta do Marmelal, quando da abertura de um poço (fragmentos de uma grossa defesa de Proboscidiano e um pequeno dente de Rhinoceros, incompleto).

Na Aramanha também quando da abertura de um poço, um dente de Hyotherium e fragmentos de dentes de Rhinoceros.

A caminho da Quinta da Pimenteira foram encontrados outros elementos de menor interesse (1).

Como se vê, os antepassados dos elefantes e dos rinocerontes viveram por aqui.

***

Os ginetos ou gatos-bravos teriam sido abundantes, pelos menos na zona de Vilgateira, a quando da fundação da aldeia, advindo-lhe daí o nome.

Após o desaparecimento de animais de maior porte, a par dos gatos bravos, ainda existem texugos e raras raposas.

Os caçadores podem encontrar coelhos, lebres e perdizes.

A passarada está representada por melros, pardais de trigo, cotovias, verdilhões, poupas, toutinegras, piscos, felosas, carriças, pintassilgos e chapins, entre outros.

De aves noctívagas, aparecem a coruja e o mocho.

Quanto a espécies domésticas, a criação de gado ovino ainda é do gosto destas gentes e os velhos carneiros da Mafarra tiveram fama e foram o orgulho do Doutor Oliveira Feijão (2).

[Craneiros merinos]

Em 1968 a Junta de Freguesia informa da existência de rebanhos de carneiros merinos na Quinta da Mafarra e pertencentes a Carlos Malfeito Monteiro (3).


Também o gado cavalar teve aqui expressão com a coudelaria da Quinta da Granja, ferro Ribeiro Tropa. Foi fundada em 1930 com éguas adquiridas às Casas Cadaval e Sílvio Augusto de Figueiredo, às quais foram depois juntas mais outras com ferros da Comenda, Irmãos Infante da Câmara e António Rodrigues Duarte.

Isento foi vendido para reprodutor à Fonte Boa, Ulino e Ufano distinguidos com menções honrosas na Feira da Golegã de 1858 (4).

Em regime estabular cria-se gado bovino para abate e leiteiro.

Os asininos eram abundantes mas com a abertura de estradas e o aparecimento de maquinaria foram naturalmente desaparecendo, o que também aconteceu às juntas de bois, substituídas pelos tractores.

Continua a criar-se o porco em cativeiro, tanto para consumo próprio como para vender.

Perus, patos galinhas e coelhos fazem parte do açougue familiar. Principalmente em quintas, faisões e pavões.

O cão, velho companheiro do homem, tem aceitação neste povo como guarda ou auxiliar na caça.

A enguia pesca-se ao remolhão nos ribeiros próximos.

Com fundamento no reino animal a toponímia varzeense refere além de Vilgateira, Cabrita, Mocho e Carraceira.

É interessante verificar que entre as aves que nos indicaram como mais vulgares na freguesia, se conta a toutinegra que afinal veio a dar origem a uma dança e cantar local, recolhida e interpretada pelo extinto Rancho Folclórico da Danças e Cantares de Sto. António da Várzea.

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NOTAS

(1)“Alguns dados Paleontológicos dos terrenos dos Bairros de Santarém e do concelho de Rio Maior”, Francisco A. Ferreira Campos, in Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, 1936, pág. 20
(2)–“Os Gados do Ribatejo”, Dr. Joaquim Pratas, in Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, 1933, pág. 33
(3)–Ofício nº 12 de 3 de Abril de 1968.
(4)–“Cavalos do Ribatejo”, A. Martins Ferreira, in Vida Ribatejana (Revista), nº Especial de 1962.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Igreja de Nª Sª da Conceição da Várzea (Matriz)

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18 DE OUTUBRO DE 1991)


Aqueles que têm seguido o desenvolvimento destes “temas”, já próximo do seu final, estranham de ainda não nos termos referido ao principal templo da freguesia, que afinal também será o seu mais representativo monumento, o que aliás é vulgar acontecer por essas freguesias rurais do País.

Não se trata de um esquecimento, como agora se prova, Já nestas páginas a aflorámos
(1), mas cabe hoje referi-la tentando dizer tudo o que nos foi possível obter, com a convicção de que nem tudo está dito.

***

A igreja que tem por invocação Nª Sª da Conceição da Várzea, matriz da freguesia, situa-se na extremidade nordeste da mesma, num outeiro, pelo que vulgarmente a designam por Igreja do Outeiro.

Larga escadaria de dez lanços, onde têm pousado gerações de noivos, no cimo da qual se erguem duas colunas de alvenaria com trabalhos de argamassa, rematam um muro, dando acesso a amplo adro, todo murado, antigo cemitério e construído com base em materiais da anterior e demolida igreja paroquial.

A passadeira que nos leva ao portal é empedrada toscamente e rematada por três pedras sepulcrais, possuindo a última, em baixo relevo, o brasão de armas dos Galaches (2).

Numa das outras, ainda se nota a palavra Mafarra, pelo que o sepultado deve de estar relacionado com aquela quinta.

[Portal. Foto JV, 2005]
A sua fundação é do século XIX, erguida, segundo se crê, sobre as ruínas da antiquíssima ermida de São Miguel (3), à qual já nos referimos (4).

No século XVI há referências a uma Nª Sª do Outeiro e em 1875 fala-se numa propriedade perto da igreja matriz, intitulada “o facho de São Miguel” (5).

Tal como agora se chama com frequência Igreja do Outeiro, talvez nessa altura a ermida de S. Miguel também fosse conhecida por Nª Sª do Outeiro, devido à sua localização.

Lê-se que a antiga igreja matriz teria sido demolida cerca de 1860 (6).



Em pedra colocada numa das colunas que dão acesso0 ao adro e posta recentemente a descoberto, pode ler-se a seguinte inscrição: - IRMANDADE DO S.S. – 1863.

Parece-nos de admitir esta data como a da construção do adro e fundação da matriz.

É um templo de singelo aspecto arquitectónico, de empena de bico, torre sineira atarracada (7), de secção quadrangular e de três olhais, na qual foi colocado em 1 de Janeiro de 1971 um relógio, oferta do Tenente-Coronel Fonseca Guedes e esposa, naturais desta freguesia (8).

A igreja mede desde o arco cruzeiro até à porta principal, 25,5 m. e de largura, 6,2 m. (9)

[Capitel do portal]

O portal é decorado com duas colunas jónicas que se prolongam em pináculos sobre a pequena arquitrave (7).

De uma só nave, coberta por tecto de madeira de três panos; nas paredes corre um silhar de azulejos do tipo padrão do século XVII, de tipologia invulgar, desenvolvendo um motivo de maçaroca em pintura verde, azul e amarelo, com figurinhas quase profanas de anjos, num conjunto de belo efeito decorativo (7).

Sobre a porta principal está o coro assente sobre duas colunas de cantaria lavrada com capitéis da mesma ordem (9).

A capela-mor tem cerca de 25 m2 e uma campa rasa com a seguinte inscrição:- ESTA SEPVLVRA QVEEIS HE DO PADRE IOM LVIS ELE PEDE A QVEM PARA ELA OLHAR HUM PADRE NOSSO O QVEIRA AIVDAR 1646 (9).

Esta campa parece ter vindo da antiga capela de S. Miguel, uma vez que apresenta uma data muito anterior à indicada para a edificação da igreja.

O trono e o retábulo são detalha dourada.

[Altar. Foto JV, 2008]

O corpo da igreja possui mais quatro altares laterais, sendo um deles do lado da epístola, dedicado a Nª Sª da Graça. Esta imagem é de pedra e denota grande antiguidade, julgando que é oriunda da antiga igreja matriz. Gustavo de Matos Sequeira, considera-a quinhentista (10). Tem de altura, 0,98 m.

Na sacristia um painel sobre tela de autor desconhecido (Se. XVII), muito deteriorado, figurando Cristo crucificado e rodeado de religiosos jesuítas. (7)

No presbitério admira-se um raro tapete de Arraiolos do início do séc. XVIII (7), medindo 4,33 X 4,10 m.

Pinho Leal informa no seu conhecido dicionário que é um templo muito bem conservado, asseado e com todos os paramentos e alfaias necessárias para o culto divino, sendo uma das freguesias mais religiosas do distrito de Santarém.

Sabemos que em 1899 o tecto ameaçava ruína e constituía um verdadeiro perigo para os fiéis que concorriam aos ofícios divinos. Foi pedido um subsídio ao cofre da “Bulla da Santa Cruzada” e proposto obter o restante por subscrição entre as pessoas mais abastadas e piedosas. (11)

Inscrito na respectiva matriz predial sob o nº 882 tem uma área coberta de 237 m2 e descoberta de 1132. A sacristia tem 17,2 m2 e a torre sineira, 11,70.


O que acabámos de escrever sobre a matriz varzeense, há muito que estava feito, muito antes das obras de restauro que beneficiou por volta de 1987. Daí o seu desajustamento à situação actual, ainda que, no decorrer dos trabalhos a ela nos abeirássemos no intuito da avaliarmos as alterações efectuadas.

Depois da conclusão, não tivemos oportunidade, por variadíssimos motivos, de a visitar, já que, quando o fizemos, encontrava-se fechada.

Não conhecemos por isso bem o assunto.

Dizem-nos que a obra se efectuou por estar a ruir o tecto e quando se lhe tocou, outros sectores se sentiram agravando-se a situação.

Exteriormente, a mudança da configuração da fachada não a prejudicou, já que manteve inalterável o portal, conjunto de valor artístico.

Substituíram a simples janela que iluminava o templo por um nicho (dizem que oriundo do seu interior, com uma imagem.

Parece-nos que um óculo circular ou elíptico, protegido por grade de ferro forjado, não destoaria, pelo contrário, e além de iluminar, arejava o templo.

A área da igreja foi aumentada, não sabemos se por vontade própria, se por a parede lateral ameaçar ruir. Igualmente desconhecemos o que aconteceu ao silhar de azulejos a que oportunamente nos referimos. Se foi destruído, lamentamos profundamente o facto, já que constituía um dos motivos artísticos de maior valor da igreja.

***
Aqui contraíram casamento os meus pai há sessenta e quatro anos. Aqui recebi o sacramento do baptismo há cinquenta e três.

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NOTAS

(1)– “Porquê Freguesia da Várzea”, nº de 22.03.1991.
(2) – Trata-se da sepultura do avô de D. Josefina Sacoto Galache, madrinha de D. Isabel Rodrigues Casqueiro que nos prestou a informação.
(3) - Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40.
(4) “As dez capelas que possuía nos começos do Séc. XIX”, in Correio do Ribatejo de 16.08.1991.
(5) – Acta da Sessão de 30.04.1875, da Junta de Paróquia.
(6) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(7) - Tesouros Artísticos de Portugal, Selecções do Reader`s Digest, 1976.
(8) – Acta da Sessão de 21.12.1970, da Junta de Freguesia.
(9) – Portugal Antigo e Moderno, A. S. B. Pinho Leal.
(10) – Inventário Artístico de Portugal, Lisboa, 1949, Vol. III, pág. 96.
(11) – Acta da Sessão de 30.04.1899, da Junta de Paróquia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Professor Oliveira Feijão, médico e lavrador


(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 11 de OUUBRO DE 1991)
Voltemos hoje a esta variante dos TEMAS, as FIGURAS.

Se algumas que já referimos são pouco conhecidas e outras, nem por isso, com a de hoje já assim não acontece pois trata-se de uma personalidade bem marcante da sua época.

Também não é varzeense pelo nascimento pois viu a luz do dia em Almada a 24 de Novembro de 1850.

Faleceu contudo nesta freguesia na sua Quinta da Mafarra a 11 de Novembro de 1918 e onde passou os últimos anos da sua vida.

Há pelo menos oitenta anos a sua fotografia encontrava-se na escola primária de Vilgateira. Qualquer manifestação de interesse colectivo da freguesia tinha de contar com a presença do SENHOR DA MAFARRA, como lhe chamou o Dr. Virgílio Arruda.

Temos conhecimento, por exemplo, que a pequena mas significativa festa do “Dia da Árvore” de 1914 (?) em que além de recitação de várias quadras alusivas ao dia se plantou a amoreira de Vilgateira, já aqui referida, contou com a sua presença.

Lembramo-nos que há trinta anos e a nossa solicitação, qualquer homem “maduro” da freguesia o descrevia, lembrando o seu porte.

É incontestável a ligação à freguesia e muito fácil organizar uma “biografia” desta figura, já que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira o não podia deixar de referir e o Dr. Virgílio Arruda, baseado no In Memoriam, do Dr. Francisco Tavares Proença, o lembrou nas páginas deste jornal (1) na passagem do 60º aniversário do seu falecimento e isto, convém dizê-lo, pela ajuda dada por outra figura varzeense, já aqui referida, o Tenente-Coronel Fonseca Guedes.

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[Portão da Quinta da Mafarra. Des. de JV]
O Doutor Francisco Augusto de Oliveira Feijão, de seu nome completo, concluiu o curso de medicina em 22 de Julho de 1873. Foi nomeado para o banco do Hospital de S. José em 3 de Fevereiro de 1874 e era director de enfermaria em 3.12.1885.

Hábil cirurgião, sabia intervir nas várias situações patológicas. Não admira que em 1880 já regesse a cadeira de Obstetrícia. Promovido por Decreto de 29.09.1881 a Lente, foi-lhe destinada a cadeira de Clínica-cirúrgica.

Foi o primeiro cirurgião que em Portugal extirpou pela ovariotomia um tumor do ovário e fez a operação da tiroidectonia (intervenção cirúrgica sobre a glândula tiróide).

Médico da Real Câmara, acompanhou nessa qualidade a Rainha D. Amélia e o Rei D. Carlos na viagem que os soberanos fizeram aos Açores.

Foi também médico assistente de muito diplomatas.

Após a implantação da República, deixou de exercer a medicina, dedicando-se exclusivamente ao ensino e à sua actividade de lavrador. (2)

Era grande a paixão que o Professor Oliveira Feijão possuía pela agricultura, a que se dedicou com entusiasmo.

Em 1888 entra como sócio para a associação Central da Agricultura Portuguesa. Em 20 de Março de 1902 é escolhido para o cargo de Presidente. Procura que através da agricultura que se arrancasse a província ao marasmo em que jazia.

O ilustre clínico empenhou-se na instrução e educação da gente dos campos pois estava convencido que sem pessoas aptas para as novas tecnologias não seria possível divulgar e pôr em prática os novos processos de trabalho agrícola.

“Quando se acumulam inventos que tendem a abreviar o tempo e o espaço, mal vai quem não acompanha o progredir da sua época” – são palavras do sapiente médico o mostram como via i futuro da Humanidade.

Sugere a fundação de adegas sociais e a organização de cooperativas de produção e de venda que iriam ter efeitos positivos na comercialização.

Como deputado independente, defendeu a causa dos agricultores.

Participou em vários congressos, entre eles ode olivicultura e indústria do azeite, em 1905, ao qual apresentou uma comunicação intitulada, A Época da Maturação e Apanha da Azeitona, Escolha e Lavagem do Fruto.

Já anteriormente, em 1900, tinha tomado parte, como representante do sindicato agrícola do distrito de Santarém, no congresso vinícola promovido pela Associação de Agricultura.

Também se interessou muito pela cultura dos cereais e pode dizer-se que da sua quinta fez um laboratório agrário.

Abandonou por motivos de saúde a presidência da Associação Central de Agricultores em 17 de Agosto de 1914.

Na pecuária tinha predilecção especial pelos ovinos e a fama dos carneiros da Mafarra ultrapassou as fronteiras nacionais.

Além de artigos dispersos por vários jornais, publicou: Organismo e Traumatismo, Lisboa, 1813, Patogenia das Metástases, Lisboa, 1875, Feridas e Pensos, Lisboa, 1877 e “Lições de clínica cirúrgica feitas no anfiteatro anexo às enfermarias de clínicas escolares do Hospital Real de S. José, Lisboa, 1883.

Além de conhecer a fundo o Latim, era poliglota, tendo deixado algumas traduções. Discursava em Francês com a mesmo facilidade com que o fazia na língua mãe.

Também as musas não lhe foram alheias na sua mocidade, ainda que os poemas não tivessem saído de familiares e amigos.

Frequentou com muita assiduidade os grandes salões aristocráticos e diplomáticos, que abandonou após o regicídio.

Bom cavaleiro, montando com grande elegâncias, fazia equitação todas as manhãs, no que era acompanhado pela esposa, exímia amazona.

Além de caçador afamado, era amador de touradas não faltando às ferras promovidas pelos lavradores das redondezas.

[Ao fundo, a Quinta da Mafarra, Foto de JV]

O Doutor Oliveira Feijão nunca recusou a quantos dele se abeiravam, a sua abalizada opinião sobre as doenças que os apoquentavam, não recebendo contudo qualquer retribuição monetária. Muitos, eram os seus próprios trabalhadores e seus familiares.

A título de curiosidade, indicamos o número de receitas despachadas na Farmácia Mendes, em Vilgateira, assinadas pelo sapiente médico.

Em 1909, 12; 1910, 11; 1912, 26; 1913, 28; 1914, 23; 1915, 62; 1916, 23 e 1918, 8.

Aqui fica algo do que compilámos sobre esta impressionante figura, ainda na lembrança dos mais idosos varzeenses que relatam acontecimentos da época.

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NOTAS
(1)“O Senhor da Mafarra – Oliveira Feijão – e a sua exemplaridade na Medicina e na Lavoura – o médico que tentou revolucionar a agricultura”, Virgílio Arruda, in Correio do Ribatejo de 30 de Novembro de 1978.
(2)Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.