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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Implantação da República

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 4 DE OUTUBRO DE 1991)



Desta vez, não foi difícil encontrar o tema a desenvolver. Ele ajusta-se ao momento visto passar amanhã mais um aniversário da queda do regime monárquico.

Interessará por venturas aos varzeenses e... não só, saber alguma coisa do que se passou nesse já distante ano de 1910.


É de sempre o choque provocado pela mudança profunda de qualquer regime político. As cenas repetem-se, chegando mesmo à utilização de termos revolucionários. Sucedem-se as justiças e injustiças, aproveita-se a mudança para retaliações de ordem pessoal, de fachada política. Para falarmos só nos últimos tempos, foi assim com a implantação do liberalismo, foi assim com a República, foi assim com o 28 de Maio de 1926, foi assim com o 25 de Abril de 1974.

A freguesia da Várzea não ficou inerte com a Proclamação da República e apenas dezoito dias chegaram para que a Comissão Paroquial Republicana, nomeada por alvará de 21 de Outubro de 1910, do Governador Civil, tomasse posse. Era constituída pelos cidadãos, Joaquim Eloy, Manuel Glórias e Joaquim Lopes, e a posse foi-lhe dada pela Junta Paroquial cessante, de que faziam parte, o Padre João Nuno Cotrim (presidente), João Costa e Guilherme Vargas.

Foram entregues os valores existentes, entre eles uma imagem do Sagrado Coração, um estandarte, um resplendor de prata dourado, etc., objectos pertencentes ao extinto Apostolado da Oração da Várzea.

A Comissão empossada resolve reunir de quinze em quinze dias, ordinariamente, aos sábados, pelas sete horas da tarde e em casa do cidadão membro da mesma, Joaquim Eloy. (1)

No dia seguinte, 24 de Outubro, realiza-se a primeira sessão mas com a presença de mais dois elementos, João Lopes da Fonseca e António Fragoso Rhodes.

Não se sabe porque não tomaram posse no dia anterior e nem a eles se faz qualquer referência naquele acto.

Procedeu-se à eleição para os cargos, que deu o seguinte resultado: João Lopes da Fonseca (presidente), Joaquim Lopes (tesoureiro) e Joaquim Eloy, secretário.

É nítida a preocupação de arranjar alguém que pudesse desempenhar capazmente a presidência e daí talvez o seu aparecimento tardio.

Republicano convicto? Talvez não. Republicano de ocasião, é possível.

Por proposta do vogal Manuel Glórias, resolveu-se informar o Governo Civil da recusa da anterior Junta, em entregar vários objectos, entre os quais um harmónio de que se desconhece o paradeiro. (2)

Mais tarde são entregues um Menino Jesus, um crucifixo e uma imagem de S. Pedro.

Outros são negados pois declara-se pertencerem a particulares. Apesar disso são pedidas providências no sentido de serem punidos pelas irregularidades detectadas, solicitando-se para o efeito uma audiência à Junta transacta. (3)

Em 29 de Outubro, ainda em ambiente político quente, o tesoureiro, Joaquim Lopes, propõe que se oficie ao Administrador do Concelho, para que seja extensivo a esta freguesia a proibição do dobre pelo sino, no dia de Finados.

A par da medida revolucionária é a vez do presidente propor um bodo a vinte pobres, dos mais necessitados, para regozijo da Proclamação da República. (4)

Entretanto, o vogal António Fragoso Rhodes é substituído por António Luiz Jacinto.

Como é natural, processa-se o saneamento político da Comissão de Beneficência, que passou a ser constituída por:- Dr. Júlio César Madeira Montez, Augusto de Oliveira Mendes, António Duarte do Carmo, David Martins Heitor e João Costa Constâncio. (5)

O horário do comércio local foi assunto muito debatido nas primeiras sessões republicanas e originou posições divergentes, o que não era habitual.

Pretende-se uniformizar a hora de encerramento tendo sido proposto e acabou por ser aprovado por maioria: “deverá o regedor mandar por um cabo de polícia, fazer o sinal com o toque da sineta existente na Capela de Santo António, procedendo o mesmo cabo, em seguida, a uma ronda por todas as tabernas. Como porém há sítios onde a sineta não é ouvida, deverão ser colocados editais para o mesmo fim com fiscalização feita pelos mesmos cabos de polícia”. (6)

[Actual edifício da Junta de Freguesia. Foto JV, 2005]

Na sessão de 1.7.1911 é aprovado um voto de regozijo pelas melhoras do Dr. Afonso Costa, Ministro da Justiça, voto que se deve fazer chegar ao seu conhecimento.

Cabe a esta Comissão o primeiro pedido para a criação de uma escola mista no lugar de Perofilho, pois fica a uma distância de 5 km. (7) da única existente na freguesia, situada em Vilgateira.

É pedida em contrapartida a dissolução da Irmandade Fabriqueira da Freguesia. (8)

Outra deliberação curiosa foi tomada:- Pedir autorização para que seja dados nomes de pessoas ilustre e históricas às ruas de Vilgateira e numerar todas as portas(9). Passados oitenta anos (!), ainda não foi feito, apesar do fornecimento de energia eléctrica e água ao domicílio.

Na década de setenta a Junta de Freguesia deu o nome de “Heróis do Ultramar” a uma das ruas de Vilgateira, mas nem sequer foi colocada placa toponímica, já que não havia verba para isso.

Pela leitura das actas das sessões nota-se o azedume causado pelos monárquicos locais, alguns referidos directamente mas outros que se lêem nas entrelinhas.

É curiosa a proposta feita por Joaquim Eloy, que foi aprovada:- “(...) caso rebente a contra-revolução se tomem rigorosas medidas visto haver grande número de beatos e religiosos encapotados e que toda a cautela é pouca, convidando-se por meio de editais para os cidadãos que queiram ir defender a Pátria e a República e que se queiram alistar, a começar pelo proponente”. (10)

É natural que alguns factos passados neste período tenham ficado ma memória do povo varzeense, transmitidos de pais para filhos pela via oral.

As circunstâncias da vida não nos permitiram ir procurá-los para aqui os deixarmos escritos.

[Edifício onde funcionou a antiga Junta de Freguesia, hoje biblioteca. Foto JV, 2009]

Pensamos que se a fonte documental é a base de uma investigação, os “floreados” da tradição, e nunca passando de tradição, ajudam-nos a compreender talvez melhor os assuntos. Existem mesmo factos reais que a documentação não regista por variadíssimos condicionalismos.

Também somos de opinião que seria interessante verificar a trajectória política destes “políticos”.Talvez tivéssemos dificuldades nalguns casos, entrando em dúvidas se não existiam duas pessoas com o mesmo nome!

As certidões de nascimento encarregavam-se de nos confirmar que se tratavam de uma única e só pessoa!

NOTAS

(1)– Livro de Actas da Junta de Paróquia, iniciado em 1.12.1873, sessão de 23.10.1910
(2) – Idem, sessão de 24.10.1910
(3) – Idem, sessão de 12.11.1910
(4) – Idem, sessão de 29.10.1910
(5) – Idem, sessão de 1.12.1910
(6) – Idem, sessão de 24.12.1910
(7) – Ofício do Presidente da Câmara, datado de 14.4.1910
(8) – Ofício do Presidente da Câmara datado de 24.3.1911
(9) – Acta da Sessão de 9.10.1912
(10) – Acta da sessão de 1.7.1911

sábado, 19 de dezembro de 2009

A farinação

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 27 SETEMBRO DE 1991)


Desde tempos recuados que pelo menos vem da Idade Média, que há referências a moinhos de vento.

Depois de moer o pão com o batimento de duas pedras, passou-se para os moinhos de braços, movidos por escravos e mais tarde por animais.

Em Portugal estes últimos tomaram a designação de atafonas, daí a existência deste topónimo, como acontece em Santarém.

Para aproveitamento da força do vento, existiram moinhos de vários tipos mas os mais difundidos em Portugal são constituído por um corpo em forma de tronco de cone, relativamente baixos, de alvenaria, caiados de branco e onde se rasgam a porta e uma ou mais janelas. É coberto por um tejadilho cónico e giratório que assenta no topo da parede. É dele que sai o mastro onde se fixam os varais, cruzados e onde se situam as quatro velas triangulares de pano e lona.

O tejadilho move-se conforme o vento impõe e por sistema não uniforme,

Os moinhos têm dois pisos ligados por escada interior. A moenda instala-se no superior e no inferior ficam a caixa onde cai a farinha que é para ali levada por uma conduta de madeira, e os anexos.

A estes moinhos chamam de tipo mediterrânico.

Encontram-se espalhados por todo o País, mas da grande maioria só restam as paredes, quando não parte.

É o que acontece na freguesia da Várzea que também teve os seus moinhos, não fosse ela uma região cerealífera, laborando numa altura já distante pois os idosos de agora nem aos avós ouviram falar do seu trabalhar.

[Moinho de Vilgateira.Des.de JV.]

Um, bem junto a Vilgateira, é conhecido naturalmente pelo moinho de Vilgateira (cota 79) e o outro, pelo moinho da Quinta da Amendoeira (cota 45), pela mesma razão.

Sobre o primeiro sabemos da existência de uma lenda que não chegámos a recolher, o que hoje muito lamentamos.

Quem a conhecia, já faleceu. Haverá na freguesia ainda alguém que a saiba contar?

Dentro do segundo nasceu e desenvolveu-se uma árvore, cuja copa ocupa o lugar da cúpula.

<[Moinho da Quinta da Amendoeira. Foto JV, 2009]

Em 8 de Janeiro de 1972 a Junta de Freguesia respondendo a um ofício da Câmara Municipal, informa existirem dois moinhos de vento dos quais só restam as paredes sendo de parecer que deveriam ser classificados como imóveis de interesse público. <[

O moinho de Vilgateira cuja área coberta é de 25 m2, tem um logradouro com 75 m2.


Se dos moinhos de vento ninguém se lembrar de trabalharem, não acontece o mesmo em relação aos hidráulicos – azenhas e moinhos propriamente ditos.

Os ribeiros que correm na freguesia proporcionaram a criação de um número apreciável de azenhas, chegando mesmo algumas a trabalhar ainda nos nossos dias.

A azenha é um moinho hidráulico de roda motriz vertical que dava grande rendimento, principalmente quando se verificou poder ser accionado por um fio de água conduzido pelo alto, por meio de uma caleira de madeira.

O moinho propriamente dito tinha roda horizontal e era o mais numeroso no País, onde se calculava existirem cerca de cinco mil!

No Ribeiro de Perofilho ficava, na Idade Média, um moinho “alveiro e segundeiro”, propriedade conjunta da Alcáçova e do Convento de Santa Clara. (1)

Uma azenha na Ribeira de Vilgateira, das últimas que deixou de trabalhar, acabou por dar origem ao topónimo Casais da Azenha. Já em 1838 o local era assim designado.

Na década de cinquenta deixou de funcionar uma azenha no ribeiro das Laranjeiras e na de 20, a da Quinta da Granja, no ribeiro das Fontainhas.

A dos Limões, no ribeiro de Perofilho, é referida com frequência e teria sido das últimas a deixar de trabalhar.

Pinho Leal, no seu sempre referenciado Portugal Antigo e Moderno, a pág. 766 do volume X, diz que o ribeiro de Perofilho move alguns moinhos.

Com o aparecimento de moagens de nova tecnologia, o que também aconteceu na freguesia, as azenhas foram ultrapassadas e consequentemente deu-se o seu natural abandono.

NOTA
(1) – Santarém Medieval, Maria Ângela V. Beirante, 1980, pág. 166.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

As vias de comunicação

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 20 DE SETEMBRO DE 1991)

[Carroça no Outeiro da Várzea fazendo o trajecto de Vilgateira-Santarém em 1936. Retirado de memoria com.historia]

Boas vias de comunicação foram sempre e serão um factor, entre outros, de primordial importância para o desenvolvimento de uma povoação ou região.

Ainda que a freguesia da Várzea conte com a presença de duas estradas nacionais, nº 114 (Santarém-Peniche) e 362 (Santarém-Porto de Mós), situam-se praticamente nos extremos, localizando-se Vilgateira e outras aldeias, entre elas, consequentemente fora de mão, circunstância que tem sido negativa para o seu desenvolvimento.

Não há muitos anos os vilgateirenses para utilizarem os transportes públicos colectivos, tinham que se deslocar ao apeadeiro da Quinta do Gualdim ou ao de Perofilho, ambos situados a distâncias consideráveis.

As estradas municipais de macadame e os caminhos, além de poucos, encontravam-se sempre em mau estado, negando-se muitas vezes os motoristas a efectuar os serviços solicitados.

Na década de cinquenta, a linha viária dorsal da freguesia foi beneficiada com a criação de uma carreira que ligava Santarém a Rio Maior, passando pelo Cortelo, Outeiro da Várzea, Vilgateira, Carneiria e Casais de Alcobacinha, isto só para referir as povoações da freguesia directamente beneficiadas. O isolamento das populações levou, com esta medida, grande machadada.

[Estrada do Cortelo. Des. de JV, 1980]


A deslocação à cidade era feita antigamente de burro, noutros animais de sela para os mais endinheirados e, de carroça, quando não a pé.

Existia na aldeia um breque que era o táxi da época.

As peripécias passadas nesse percurso, e algumas ouvimos contar, davam matéria para extensa descrição!

Era penosa a ida à cidade, apesar da sua proximidade. Quantas vezes se tinha de recorrer às juntas de bois para retirar as viaturas!

Por estas razões e outras, as deslocações faziam-se em reduzido número, só quando havia imperiosa necessidade, mas as feiras da cidade eram sempre contempladas.

Faziam-se as compras para o ano, desde os utensílios para a lavoura, até às necessidades da casa, passando pelo vestuário e calçado.

Apesar das grandes modificações operadas, o varzeense gosta ainda de ir à Feira da Piedade ou do Milagre e alguns procuram também os mercados mensais de gado.

Apareceu entretanto o luxo da bicicleta! Muitas vezes tinha que se transportar a máquina às costas, a corta-mato, pelos olivais, já que por aí se tornava mais fácil passar!

Ainda vive na aldeia quem quando viu para primeira vez um automóvel subir a ladeira do Rio de Pau, fugiu espavorido.

O troço municipal que saindo junto das Quintas do Gualdim e da Granja, nos leva a Vilgateira, foi o primeiro a ser asfaltado (1972).

Só após 1974 se deu movimento ao asfaltamento das outras estradas municipais, o que constituiu um melhoramento muito considerável. Podemos hoje dizer que a freguesia está bem servida de vias de comunicação.

[Estrada da Perofilho. Foto JV, 2009]

Asfaltou-se o troço de Outeiro-Aramanha. Em 1979 foi a vez da ligação de Perofilho ao Cortelo e finalmente a estrada municipal nº 34, oriunda do alto do Mocho, via utilizada pela Rodoviária Nacional e que constitui a mais curta distância entre a cidade e Vilgateira.

Para completar a rede faltará, se a memória não nos atraiçoa, o troço Vilgateira-Aramanha, passando pela Fonte de Vilgateira ao Maio, pela Pisca e seguindo por Alcobacinha.

As vias de comunicação foram sempre das principais preocupações dos autarcas locais.

A freguesia da Várzea éw hoje atravessada pela auto-estrada (Lisboa-Porto), o que deu ligar a expropriações mas pensamos que tal facto irá pesar no desenvolvimento da freguesia.

Terminaremos o tema com a indicação cronológica de acções desenvolvidas neste campo:

1873 – A Junta de Paróquia deu parecer favorável devido aos benefícios e vantagens que traz à inclusão definitiva da estrada municipal, a que parte ao quilómetro 6 da Estrada Real nº 65 e que termina no lugar de Albergaria, servindo Outeiro da Cortiçada e Correias;

1880 – A pedido da Junta de Paróquia de Abitureiras e com o aval da da Várzea, a mesma estrada passa a “distrital”;

1907 – A Junta de Paróquia pede à Câmara Municipal para que a “contribuição de trabalho” da freguesia seja aplicada na estrada entre Perofilho e Baixinho, que estava intransitável;

1910 – São pedidos cem mil réis para o arranjo do ramal vivinal para a Fonte de Vilgateira;

1911 – Prevê-se o arranjo de 7 km de estrada municipal e a conclusão da estrada de Vilgateira (210 m) com calcetamento nas valetas;

1915 – É deliberado pedir à Câmara Municipal para que também se construa a estrada do Gualdim ao entroncamento com a estrada do Cortelo;

1933 – A Câmara Municipal deliberou mandar reparar a estrada da Fonte de Vilgateira, e um maoa das estradas municipais do distrito de Santarém classificava as seguintes no que respeita à freguesia da Várzea:

E.M. nº 32 – De Perofilho ao Baixinho e ramais;

E.M. nº 33 – De Perofilho ao Gualdim;

E.M. nº 34 – Do Mocho à Várzea e ramais;

1940 – Construção da estrada de Perofilho ao Grainho, e pavimentação inteiramente renovada da estrada de Perofilho à estrada da Várzea;

1947 – É projectada a estrada entre a freguesia da Várzea e a Romeira;

1960 – A população dos Casais dos Chões pede à Junta autorização para consertarem, por sua conta, uma esxtensão de 200 m de estrada que faz limite com a freguesia da Moçarria;

1961 – Foi concedido um subsídio para o arranjo da estrada de Alcobacinha e arranjo da estrada da Charruada – 1 km já se encontre terraplanado. Existem 50 m3 de brita e são necessários outros tantos. Fizeram-se setecentos e cinquenta metros de estrada nova e repararam-se 650;

[Estrada dos Casais da Charruada. Foto JV, 2009]

1966 – Estrada de Vilgateira ao Maio, passando pela Pisca e seguindo por Alcobacinha (1.500 metros). Foi concedido um subsídio de 15 contos. Alargado e construído um aqueduto;

1968 – A Junta de Freguesia pede a construção dos seguintes caminhos: Da Laranjeira aos Casais do Orégão, numa extensão de 455 metros e de Vilgateira ao Rio Feitor, de 165 metros;

1970 – A J. F. gasta 41.495$00 no arranjo da estrada do Quintão ao Grainho;

1972 – Alcatroamento da estrada da Quinta do Gualdim a Vilgateira e pedido à Câmara Municipal do mesmo em relação à do Alto da Olaia ao Alto do Mocho;

1973 – É novamente solicitado o alcatroamento da estrada do Cortelo e a reparação do caminho da Aramanha à fonte do mesmo ligar, numa extensão de cento e cinquenta metros. Igualmente se solicita a reparação da “rua” que parte de Vilgateira para a Fonte do mesmo lugar e da estrada de Vilgateira aos Casais da Aroeira, já da freguesia das Abitureiras;

1979 – É pedido o asfaltamento da estrada do Cortelo, Perofilho e Casais do Rosário;

[Carneiria, autoestrada. Foto JV]

1980 – A J.F. deliberou propor o alcatroamento de:- Rua do Moderno, Casais do Mocho à Flor do Mato, Rua do Quintão. Estrada dos Casais da Charruada, Rua da Parreira, no Grainho e troço da estrada entre a Quinta de S. Martinho e o Laureano. É proposto também o empedramento de: - Estrada das Hortas (Casais da Azenha aos Casais da Narcisa), estrada da Carraceira (do Rio Pau à Carneiria) e estrada dos Casais do Maio e Casais da Aroeira.

Aqui fica o que foi possível reunir sobre o assunto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A água, esse precioso líquido

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 13 DE SETEMBRO DE 1991)

Numa conversa familiar alguém nos pergunta, olhando para o volume dos nossos apontamentos e antes de os ler:- Tudo isto é sobre a freguesia da Várzea? Afinal o que há para dizer sobre meia dúzia de aldeolas, algumas nem esse nome podem ter, que constituem essa freguesia? Para mim, e continuava, uma folha chegava e tinha dificuldade em completá-la.

O que este familiar nos disse, pode ser extensivo a muita gente, incluindo os varzeenses.

O gosto que temos por essa temática obriga-nos a ler isto e aquilo, umas vezes para encontrarmos referências, outras para podermos traduzir o que vimos ou que nos contaram. Se colocarmos a sensibilidade ao serviço da questão, conseguimos de pequenos nadas que passam despercebidos a muita gente, organizar um tema que ao ler-se, pode interessar aos leitores.

Este pequeno intróito justifica o tema que hoje iremos abordar.

Quem já tinha pensado nele?

***

Água, esse precioso líquido, não é escassa na freguesia, bem pelo contrário, pode-se considerar região rica em águas nativas.

Sem qualquer rio, possui contudo grande rede hidrográfica constituída por pequenos cursos de água, ribeiros, regatos e arroios.

Procuraremos agora dar uma ideia dos ribeiros existentes que em épocas recuadas moveram moinhos e azenhas que constituíam a principal indústria moageira, importante numa região cerealífera como esta.

DAS FONTAÍNHAS
Ao norte da freguesia corre este ribeiro que deve ter origem na vizinha freguesia da Romeira, atravessa a Quinta da Granja, sendo conhecido por isso como “Rio da Granja”. Corre depois paralelamente ao alongado povo do Cortelo, cruzando-se com a estrada do “Casal do Poço”, o que provoca largo aqueduto.

Atravessa depois a estrada nacional nº 114 e entra na freguesia de S. Nicolau, irrigando a dispersa povoação que lhe deu o nome e indo desaguar ao Rio Asseca, afluente do Tejo.

O topónimo Fontainhas tem origem no grande número de pequenas fontes existentes na zona.

DE VILGATEIRA
Na parte central da freguesia destaca-se este ribeiro que, segundo nos informaram recentemente, tem origem num olho de água que brota no Casal das Figueiras. Depois de passar pela Fonte da Aramanha, Casais da Azenha e Fonte de Vilgateira, toma a designação de “Rio de Pau, atravessa a estrada, dando origem ao que impropriamente se chama “Ponte do Rio de Pau” e entre em terrenos da Quinta do Freixo. Corre depois pelo vale paralelo ao alongado povoamento da Carneiria e na várzea” deita as suas águas no Ribeiro de Perofilho, aqui designado por “Rio de S. Martinho”.

DE PEROFILHO

[Ponte romana em Perofilho. Foto JV]

Fica ao sul este curso de água que é o mais importante da freguesia e se formou pela junção dos ribeiros da Lamarosa e do Vidigão.

Vai recebendo os regatos do Baixinho, de Alcobacinha, que nasce nas proximidades dos Casais da Aroeira, da vizinha freguesia das Abitureiras, e o da Pontinha que é conhecido por “rio Feitor” e rio das Laranjeiras”, conforme os locais por onde passa.

O ribeiro de Perofilho depois de atravessar a estrada nacional nº 114, corre pelo vale situado entre os Casais do Rosário e os da Charruada e Mata-o-Demo, desaguando na vala da Asseca. (1)

***

Acabámos de ver os pequenos cursos de água, mas não são só estes que nos interessam abordar.

Se as fontes existentes na freguesia hoje pouco ou nada representam para a população, não há muitos anos tinham grande importância sendo das principais preocupações dos órgãos autárquicos. Chegou mesmo a haver o pelouro das fontes.

Além de fornecerem água para o consumo doméstico, pois nem todos tinham possibilidades de mandar abrir um poço, davam de beber aos animais e abasteciam os lavadouros públicos, naturalmente muito frequentados e o principal ponto de coscuvilhice.

Hoje, a sua utilização é muito restrita e deveriam constituir verdadeiros “monumentos” locais que deveriam ser preservados. (*)

Iremos assim referi-las com os dados que nos foi possível obter.

DE VILGATEIRA
A sua existência teria acabado por dar origem a um pequeno aglomerado populacional, em desenvolvimento. Localiza-se numa baixa, como é próprio, e num lugar frondoso, na linha do ribeiro de Vilgateira.

[Antiga Fonte de Vilgateira. Foto JV]

Em 15 de Junho de 1890 compareceu na reunião da Junta de Paróquia, D. José Sacoto Galache que fez algumas considerações sobre a maneira de empregar bem o dinheiro concedido pelo Ministério das Obras Públicas para reparar a fonte. As suas sugestões foram tomadas em boa conta e aprovadas pelos presentes. D. José tinha-se deslocado a Lisboa usando os seus bons ofícios para a concessão do subsídio.

António Vargas arrematou por concurso a perfuração da mina nume extensão de 27 metros (20.07.1890).

Actualmente possui tanques cobertos por bom telheiro. Três bicas. Duas abastecem pias que dão de beber aos animais, hoje em reduzido número.

Uma placa de pedra tem a seguinte inscrição:- J P (que significa Junta de Paróquia) – 1896. Deve atestar qualquer reparação importante que sofreu.

Ainda que não tivesse ficado assinalado por inscrição, sabemos que foi reparada em 1911, 1933 (2) e 1945, mas neste caso ficou inscrição a atestá-lo.

Na frontaria, trabalho simples de argamassa onde realça uma estrela de cinco pontas.

Em 1960 a Junta de Freguesia solicita providências ao Delegado de Saúde por causa das águas estarem impróprias para consumo devido a infiltrações de água de rega. Um ano depois procura-se expropriar uma faixa de terreno para evitar tais infiltrações.

DA PONTINHA
A outra fonte que abastecia Vilgateira, situa-se na linha de um regato com o mesmo nome. Menos apetrechada do que a anterior, tem acesso difícil, principalmente na época invernosa, ainda que no Verão de 1986 tenha tido arranjo considerável com utilização de máquinas. Possuindo tanques para lavagem de roupa e pia para o gado beber, foi coberta cerca de 1975, o que foi feito com muito mau gosto.

Em sessão da Junta de 18 de Agosto de 1918, concluiu-se que era necessário limpar a mina e nascente e conveniente evitar a entrada por intermédio de porta com fechadura, não possibilitando assim que a garotada lançasse peras, paus e outros objectos.

Em 1961 foi cimentado o chão junto ao tanque.

[Fonte da Pontinha, restaurada em 2008. Foto JV]

DE PEROFILHO Situa-se nas proximidades da aldeia que servia, no velho caminho da ponte romana que vence o ribeiro do mesmo nome.

Parece-nos de antiguidade considerável.

[Antiquíssima Fonte de Perofilho. Foto JV]
Em 1911 a Junta de Paróquia não orça qualquer verba para o seu arranjo, visto “se encontrar n`uma rocha enorme e tornar-se muito dispendioso mexer-se nela”. Sete anos depois diz-se que necessita de grande limpeza, além de se dever procurar um maior caudal.

A situação vai-se arrastando e em 1961 a Junta de Freguesia procura resolver a precária situação em que vivia o povo perofilhense, prevendo-se a construção de um depósito para recolha de água a fim de abastecer a população e lavadouros públicos entretanto a construir.

Nada disto é realizado e dois anos depois fala-se na construção de um alpendre e tanques individuais.

Em 5 de Junho de 1964 a Junta de Freguesia oficiando à Câmara Municipal informa que só foi conseguido o arranjo da mina, apesar dos pedidos formulados em 1953, 1961 e 1963 e nunca satisfeitos.

Pretende-se que rapidamente sejam feitos um reservatório subterrâneo, a construção de tanques individuais e alpendres. O Ministro do Interior visitou a fonte acompanhado do Presidente da Câmara e reconheceu o interesse da obra.

Nem mesmo assim o trabalho avançou e em 1973 era voz corrente que houve uma reunião com indivíduos de Perofilho e entidade particular não especificada, para resolver em Lisboa, com urgência, a construção de fontanários e tanques.

Só após 1974 o abastecimento de água foi resolvido mas não por intermédio da fonte, completamente abandonada.

DA ARAMANHA
Situa-se na linha de água conhecida por “rio Pau”. A bica cilíndrica de chapa de ferro sobressai no paredão que a define, rematado por adorno simples. Placa de mármore com “C. M. – 1871” indica certamente grande reparação feita pela Câmara Municipal. Ladeiam o local para colocação de vasilhas, poiais de pedra.

A água quando não recolhida pelas vasilhas segue o caminho das duas pias e do tanque com cerca de 10 X 5 metros, com telheiro a quatro águas, efectuado pela Junta de Freguesia da Várzea em 1952, como atesta a inscrição. As pias foram feitas com pedras sepulcrais oriundas do antigo cemitério da freguesia.

Sabemos que em 1911 fizeram-se reparos que montaram a 50 mil réis e em 1918 há preocupações pelo mal que causam as raízes da árvore próximo, que inutilizam as manilhas.
[Fonte da Aramanha restaurada em 2007. Foto JV]

DO CORTELO
Aparece também indicada como poço. Em 22 de Setembro de 1960 é pedida autorização para atravessar o Aqueduto do Alviela na trincheira nº 37, com uma canalização de água do lavadouro, o que foi concedido.

Em 8 de Dezembro seguinte são inaugurados os tanques com a presença do vereador da Câmara Municipal, António Ribeiro de Fragoso Rhodes.

Em 1961 é considerada necessária a expropriação duma faixa de terreno para serventia pública e construção de uma caleira para a condução de águas de despejo dos tanques.

DA CARNEIRIA
Indicada como de mergulho e situada junto a uma propriedade que foi do Tenente-coronel Fonseca Guedes. As obras projectadas para esta fonte foram abandonadas.

DE ALCOBACINHA
Igualmente indicadas como de mergulho. Em 1961 pretende a Junta colocar uma bomba aspirante e a construção de tanques.

***

Depois de termos falado de ribeiros e de fontes, resta-nos referir os poços.

Nas margens dos cursos de água, abrem-se dezenas de poços que possibilitam boa horticultura e variadíssimas árvores de fruto.

Na aldeia de Vilgateira são poucos os fogos que não possuem poço, o mesmo acontecendo noutros aglomerados populacionais. É evidente que estamos a referir-nos às habitações antigas.

O abastecimento de água era e é naturalmente uma preocupação dos órgãos autárquicos. Fontes e estradas (caminhos) foram durante séculos preocupações dominantes da Junta de Freguesia (ou de Paróquia) e daí ser o tema mais abordado em reuniões.

[Fontanário nas Casais da Charruada. Foto JV, 2009]

Em Setembro de 1981 foi aberto um furo no sítio das Hortas e que tem 182 metros de profundidade. Com bom caudal, a água é conduzida para um depósito situado nas proximidades dos Casais da Narcisa e abastece ao domicílio praticamente toda a freguesia e mesmo várias localidades circunvizinhas.

***

Isto é o que nos foi possível reunir sobre o assunto. De maneira nenhuma, aliás como em qualquer outro, está esgotado.

É preciso continuar a reunir novas achegas. É preciso corrigir o que está errado. Só assim é possível conhecer melhor a freguesia da Várzea.

NOTAS
(1) - Carta militar de Portugal, folha 352.
(2) - Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, nº 37, Julho/Dezembro de 1933.

(*) – Escrevemos então e já lá vão 18 anos! “Hoje, a sua utilização é muito restrita e deveriam constituir verdadeiros “monumentos” locais que deveriam ser preservados”.
Como algumas fotografias que apresentamos demonstram, os responsáveis locais entenderam, tal como nós, que as “fontes” tinham de ser preservadas. Prestaram um bom serviço ao património da Freguesia o que devia ser seguido pelas suas congéneres.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Alimentação e culinária

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 6 DE SETEMBRO DE 1991)



Nos pequenos escritos que temos vindo a publicar nas páginas deste secular semanário, por deferência do seu Director, procuramos, como já dissemos, variar os temas.

Pensamos que isso pode proporcionar aos possíveis leitores, uma leitura menos fastidiosa.

Assim, abordaremos hoje um assunto que também consideramos de muito interesse para a análise da vida varzeense.

Como já afirmámos, o que temos escrito não pode ser considerado como conclusivo, bem pelo contrário, constituem pequenas achegas sobre os temas abordados.

***
O tipo de alimentação, confecção, número e horário das refeições, esteve sempre ligado ao modo de vida dos povos e às produções locais. Por isso, compreende-se que o pastor utilize bastante o leite e os seus derivados, o pescador o peixe, o magarefe a carne, o hortelão a hortaliça e o agricultor, os produtos provenientes da sua actividade.

O trabalhador rural varzeense que só possuía a força braçal que vendia principalmente aos lavradores locais por magros salários, sentia dificuldade em manter a família, só possível pela abnegada ajuda da companheira na apanha da azeitona, nas mondas nas ceifas, nas sachas e em qualquer outro trabalho a si destinado.

Sempre que podia e não era fácil, arrendava algum bocado de terra onde procurava fazer hortejo, colhendo batatas, favas, feijão, couves, nabos, alfaces, etc.

Como por todo o País, em período de crise de trabalho e não só, o varzeense recorria a muitas plantas espontâneas para uso culunário, tais como:- arelhos (alhos porros), celgas, cardos (tagarrilhas), serrelhas. Agriões, saramagos, ineixas, beldroegas, labaças, etc., proporcionando alguns pratos curiosos.

O povo desta região fazia normalmente três refeições, almoçava, jantava e ceava, sendo esta a refeição mais substancial. Ao levantar muitas vezes “matava o jejum”ou o “bicho”, bebendo normalmente um cálice de aguardente.

A alimentação variava conforme as circunstâncias, os dias festivos tinham os seus pratos próprios que nada tinham a ver com a alimentação do dia a dia, confeccionada muitas vezes, quando os trabalhos se realizavam afastados das residências, no campo com o auxílio da “burra” onde se pendurava a caldeira ou marmita.

O azeite, riqueza da região, entrava na maioria da preparação dos pratos, sendo muito utilizado para temperar vegetais cozidos e saladas. Todos os varzeenses possuíam uma “pinga” de azeite, quando não das suas oliveiras, de rabisco.

Enquanto o alentejano usa e abusa do pão e da carne de porco, o beirão da batata e do milho, o trasmontano da castanha e do centeio, podemos dizer que o varzeense usa e abusa dos vegetais dos legumes e do azeite.

Em dias festivos, a canja de galinha estava sempre presente e as aves, galinhas, patos e perus, “corados” com arroz nos fornos de cozer pão que quase todos os fogos possuíam.

O carneiro ou borrego guisado com batatas não podia faltar nos casamentos e outras reuniões festivas.

Como dissemos, os pratos estão muito condicionados às primícias. Aparecem em Maio (Maio as traz, Maio as leva – diz o Povo) , as favas e então há que aproveitar e comem-se favas com torresmos, favas cozidas temperadas de azeite e vinagre, ou de qualquer outro modo. Quando já estão muito feitas (duras), usam-se nos purés, acontecendo o mesmo quando secas. As saladas de folha tenra da figueira alegram as refeições.

As ervilhas vão contrabalançando como podem e aparecem algumas vezes feitas com ovos.

Chega o tempo do tomate e então e então é ele o rei nas saladas com batatas cozidas às rodelas e principalmente nas “molhangas” (molho de tomate).

Saladas também de alface e beldroegas.

A apanha da batata proporcionava “sopas e batatas” (sopa de pão, batatas às rodelas e ovos, não faltando a cebola, o alho e a hortelã, como temperos), “batatas inteiras” (batata cozida com a pele, temperada com azeite e vinagre) e acompanhada com o que seja possível, na altura muitas vezes o bacalhau.

“Massa à Barrão” e bacalhau de caldeirada, são pratos não muito vulgares noutras regiões.

Quando a vida se circunscrevia à freguesia e a ida à cidade era um luxo, além do bacalhau, de peixe, só se comia a sardinha, trazida primeiro em burros, depois em carroças e já há muito em “motorizadas”.

Hoje, segundo nos informam já aparecem os veículos automóveis que além da sardinha e do carapau já trazem algum peixe grosso, mas pouco.

Em tempos que já lá vão e porque o peixeiro que anunciava a passagem de corneta, vinha quando vinha, comprava-se mais sardinha que se conservava em sal, escorchando-a. Nas faltas, eram então cozidas ou assadas e acompanhada de grelos de ineixa ou de saramagos, quando não havia de couve ou de nabo.

Arelhos guisados com bacalhau são um prato muito genuíno e que consideramos de interesse gastronómico a nível turístico mas que até agora, e que seja do nosso conhecimento, ainda ninguém explorou.

Chícharos cozidos e temperados com azeite e vinagre, cebola e salsa, com ovos cozidos ou bacalhau assado, são muito do agrado destas gentes. Ainda hoje o chícharo é uma leguminosa muito procurada mas escasseia.

O cardo (tagarrilha) utiliza-se com carne de porco.

As sopas dos varzeenses são muito substanciais, de misturas muito variadas onde se pontificam os legumes (feijão, feijoca, grão e mesmo fava) se juntam batata aos “quartos miúdos”, couve feijão verde ou ervilhas, nabo, cenoura, abóbora ou chuchu (tudo dependente das épocas) de azeite mas que muitas vezes não dispensa uma morcela, um naco de toucinho ou uma farinheira.

Outras sopas típicas são as de celgas com feijão (de azeite) e de cardos com grão, de carne de porco.

Além das já referidas e das de uso comum, fazem saladas de papoilas, labaças e serralhas.

Ao rábanos aproveitam os homens, abertos com sal, como aperitivo para beberem um copo de vinho na taberna.

O caracol em que a zona é rica, é muito apreciado e nos últimos anos, quando a sua procura aumentou devido a generalizar-se o seu consumo, originou uma boa fonte de receita de mulheres e reformados.

Na doçaria o bolo de noivo é rei. Próprio da zona do Bairro e estendendo-se pelo maciço de Porto de Mós, já se encontra semi-industrializado sem contudo e como é compreensível, conseguir manter as suas reais características. Tomando a forma de ferradura e de tamanho avantajado, é tipo de bolo seco. Saber fazer este bolo era obrigatório à varzeense. A receita é para a quantidade de um alqueire. Juntamente com o arroz doce constituía a doçaria dos casamentos.

Pelas festas cíclicas, fazem fritos como coscorões e filhós, massas de farinha batida com ovos, frita e povilhada com açúcar e canela.

Em determinad época do ano, que já não sabemos determinar, a Sra. Maria Amália fritava, porque fazia bem, folhas de laranjeira previamente molhadas numa massa de farinha. Tinha sempre meia dúzia delas para oferecer em minha casa. Era agradável principalmente pelo toque do gosto da folha.

Do que descrevemos, pouco se mantém, mas é preciso que ao varzeenses de agora saibam como os seus antepassados se alimentavam.

sábado, 17 de outubro de 2009

D. Manuel de Melo, 3º Conde de Fornos de Algodres

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 30 DE AGOSTO DE 1991)



Dizia-nos o douto investigador scalabitano, o Dr., Virgílio Arruda, que a freguesia da Várzea destacava-se, de certa maneira, por ter sido residência de gente de linhagem.

A figura que hoje apresentamos, pertencia a essa estirpe.

Que se saiba, sem ser varzeense pelo nascimento, aqui lhe nasceu o filho que o substituiu no título. Ficou muito ligado à freguesia pelos bens que aqui possuiu e localmente, nos fins da década de sessenta ainda era possível encontrar quem o tivesse conhecido e dele falasse.

O Conde Fornos de Algodres, 3º desse título, nasceu a 26 de Julho de 1839 e faleceu a 2 de Janeiro de 1913.

De seu nome completo Manuel Nicolau d ` Abreu Castelo-Branco Cardoso de Melo, fidalgo da Casa Real, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra.

Foi 4º filho do 2º Conde e da condessa sua mulher, mas primogénito à morte de seu pai.

Exerceu as funções de Governador Civil de Leiria.

[Palácio dos Condes em Santarém]
Casou em 13 de Janeiro de 1869 com D. Eduarda Henriqueta d´Abreu Castelo-Branco do Amaral e Sousa, sua prima e Viscondessa de Fornos de Algodres. Falecendo esta senhora em 18 de Janeiro de 1879, sem deixar sucessão, passa seu marido a segundas núpcias, casando em 14 de Agosto de 1880 com D. Maria d´Assunpção d´Almeida Correia Correia de S´s, filha de José Correia de Sá Benevides, fidalgo de geração e de sua mulher, D. Eugénia d´Almeida Soares Portugal Lencastre e Silva, filha-herdeira dos 5ºs Marqueses do Lavradio.

O título foi-lhe renovado por decreto de 13 de Dezembro de 1879 (D. Luís I).

D. Manuel de Melo foi presidente da Câmara Municipal de Santarém, e nessa qualidade assistiu à verificação da existência dos restos mortais de Pedro Álvares Cabral (1882) na Igreja da Graça, em Santarém.

[Quinta da Pimenteira, Várzea. Foto JV, 1985]
Do segundo casamento nasceu a 3 de Maio de 1885, nesta freguesia, José d´Almeida Castelo-Branco que veio a ser o 4º Conde do mesmo título e casou em Viana do Castelo a 8 de Junho de 1927, com sua prima co-irmã, D. Maria Rita Vaz Almada.

Usava o título por Alvará do Conselho de Nobreza de 29 de Novembro de 1946.

Os Condes de Fornos de Algodres foram proprietários das Quintas da Granja e da Pimenteira.

NOTAS

(1) - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(2) – Nobreza de Portugal, Vol. II, Lisboa, 1960.
(3) – Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, 1936, pág. 169.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

"As dez capelas que possuia no séc.XIX"

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 16 e 23 de AGOSTO DE 1991)
Em todas as obras colectivas, tipo enciclopédia ou dicionário que nos chegam às mãos, procuramos inevitavelmente o que se encontra sobre a freguesia da Várzea mas pouco ou nada diferem umas das outras, tratando-se de simples cópias mais ou menos disfarçadas. Quem quiser saber mais, tem de ir pelos seus próprios meios às fontes documentais e orais.

Não sabemos as origens dos relatos apresentados mas pensamos que devem provir das Memórias Paroquiais (1758) e também do Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal, do último quartel do século passado.

Uma das coisas que em todos encontramos, è a referência à existência de dez capelas na freguesia no princípio do séc. XIX e isto enquadra-se bem no que diz Pinho Leal, se (...) esta freguesia uma das mais religiosas do distrito administrativo de Santarém.

Ao facto, que nos serve de título deste tema, todos acrescentam que foram profanadas pelos franceses.

Dez capelas numa freguesia rural cuja área ronda os 25 km2, é obra, não é normal.

Para quem não conhece e pensa existir uma capelinha em cada aldeia, diremos que não é verdade.

Antes de conhecermos a freguesia, já nos preocupávamos no sentido de encontrar as dez capelas, uma vez que nenhuma das referências era acompanhada da indicação total, ainda que refiram algumas.

Décadas passadas e após calcorrearmos toda a freguesia, de marco a marco, arriscamos identificar do seguinte modo as capelas existentes em princípios de oitocentos:- São Miguel, Santo António, São Francisco, Nª Sª da Conceição, Nª Sª da Piedade, Nª Sª do Amparo e as das Quintas da Laranjeira, Freixo Mafarra e Mocho.

Estará a nossa identificação correcta? Pensamos que sim. Reparar que quatro não têm ou não se conhece o nome da invocação, sendo conhecidas pelo nome das quintas em que se situam, das restantes sais, três situam-se também em quintas, restando três e mesmo destas, é possível que uma também fosse particular. Ao cero, só a de Santo António seria pública.

Como se vê, eram quase todas pertencentes às quintas. Dizia-nos um velho Amigo, nado e criado na aldeia de Vilgateira que uma quinta para merecer essa designação, tinha de possuir a sua capela, tão necessária como o lagar de azeite e a adega.

Pertencente à fidalguia que em muitos casos as teriam mandado edificar, acabaram por cair nas mãos da burguesia.

A capela era para o senhor “feudal” mais um símbolo de prestígio social e sinal de que, até na vida espiritual, afirmava a sua independência.

Perguntar-se-á o que é feito dessas capelas, onde se situam ou encontravam?

Diremos que algumas, bem poucas, continuam a missão para que foram erigidas, outras estão profanadas com utilizações diversas, umas tantas em ruína bastante adiantada e outras desapareceram completamente.

Iremos referi-las, pela ordem indicada, ainda que estejamos distantes daquilo que gostaríamos de dizer e que é possível obter se dispuséssemos de tempo para isso.

***
DE SÃO MIGUEL

Este velho culto que acompanhou a reconquista, esteve representado numa ermida situada”na extremidade nordeste da freguesia, em lugar alto, com belas e extensas vistas. (1)

Em abono deste culto, podia aludir-se à situação, um outeiro, o que concorda com o facto de os templos dedicados ao arcanjo S. Miguel, se edificarem, de preferência, em locais elevados.

A sua construção perde-se no recuar dos tempos. Sabe-se contudo que por e ruína da igreja paroquial, e possivelmente a ermida também o estivesse, passa a desempenhar essas funções, tendo sofrido obras de restauro e ampliação, isto por volta dos anos 60 do século passado. (2)

Desaparece assim a ermida de S. Miguel. Dando origem a actual igreja matriz.

Uma sepultura datada de 1646 e enquadrada na capela-mor, é certamente originária da ermida. Recentemente chegou-nos às mãos uma fotografia que nos mostra a seguinte inscrição – NO ANO DE 1689, aparecida numa das paredes do templo devido a recentes obras de restauro e ampliação.

Sabe-se que em 1522 dois casais de camponeses possuíam junto a Vila Gateira, “no limite de Nª Sª do Outeiro, as suas courelas” (3). Não terá esta referência ligação com a ermida? Pensamos que sim.

DE SANTO ANTÓNIO


Sobre esta capela que se situa em Vilgateira e dada como construção do século XVII (1623), já dissemos o que nos foi possível nas páginas deste jornal (4) pelo que o não vamos repetir agora, remetendo os possíveis interessados para aquele número.

Pertencente à Fábrica da Igreja Paroquial, serviu de matriz quando aquela esteve em obras (1987).



DE SÃO FRANCISCO

Também se situava em Vilgateira esta desaparecida capela que no último quartel do século passado ainda se encontrava de pé, apesar de profanada.

A localização não foi difícil de determinar por via da tradição oral, mas ainda nos lembramos, por volta dos anos cinquenta, de um nicho existente no estabelecimento comercial de Adelino Martins Coelho, recentemente falecido, construção que aproveitou restos da capela de que o nicho fazia parte.

Escrito, só tenho conhecimento do que Pinho Leal nos transmitiu. (2)

A capela situava-se muito próximo de uma antiquíssima residência, já desaparecida e que hoje lamentamos não ter fotografado ou desenhado. Pertencia à ilustre Família Azevedo Moncada e que devido ao hábito local poderia a capelinha ter pertencido àquela família, hoje desaparecida da freguesia.

DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

Sem dúvida que era uma das dez existentes nos princípios do século XIX.

Situava-se na aldeia da Aramanha numa quinta do mesmo nome, desmantelada por vendas e partilhas e que pertenceu ao Ver. Padre António Fragoso Rhodes, prior “collado” desta freguesia. (5)

A origem é atribuída ao século XVI (6) mas o lintel da porta tem gravado a era de 1744.

Era alpendrada e pelo menos no século passado ainda se encontrava bem conservada. Segundo nos informaram, a ruína e profanação começou a desenhar-se por volta dos anos cinquenta dos nossos dias.

Hoje, é um montão de ruínas, nem para pocilga já serve!

Reconhece-se ainda, além da porta rectangular de cantaria e encimada por uma cruz do mesmo material, uma coluna do alpendre adossada à fachada e a sineira, mas a sineta naturalmente desapareceu já que o bronze rende dinheiro.

Continuando a pertencer à Família Fragoso Rhodes, a imagem de Nª Sª da Conceição, de grande devoção, foi recolhida na Quinta da Narcisa, residência que foi da mesma família.

DE NOSSA SENHORA DA PIEDADE

Situada na Quinta da Amendoeira (Perofilho), entre as dez que existiram na freguesia, é uma das três que na altura (último quartel do século XIX) Pinho Leal indica em condições de culto.

É particular esta pequena capela, dada como construída no século XVIII. (6)

A imagem da padroeira é de barro. Como as restantes, também teria sido profanada pelas tropas de Massena.

Está adossada ou mesmo incluída no edifício residencial da quinta que pertenceu durante muitos e muitos anos à distinta Família Canavarro.

Porta rectangular de cantarias lisas. Pequena sineta situada fora da fachada e uma armação de argamassa apropriada.

Tem sido considerada bem cuidada.

Segundo informação telefónica prestada em 1989, pertence actualmente a uma firma e ao perguntarmos se estava aberta ao culto, foi-nos dito:- Quando o povo quer, vem cá o padre e celebra a missa. (7)

Continua assim a sua função esta pequenina capela construída certamente para uso exclusivo dos seus proprietários.

DE NOSSA SENHORA DO AMPARO

Também é pequenina esta interessante capela com sineira e antecedida de bonita buganvília. Segunda da mesma invocação, pertence à Quinta de São Martinho.

A primeira, que nos revela Pinho Leal, foi profanada também pelas tropas de Massena, entrou em ruína e no último quartel do século passado pertencia a Paulo Maria da Costa Barros, importante proprietário na freguesia.

DA QUINTA DA LARANJEIRA

Se o teve, desconheço o nome da invocação. A quinta desapareceu com vendas e partilhas, prevalecendo contudo na toponímia.

Era templo dado como do século XVII, com curiosos azulejos (6), vendidos segundo nos informaram, na década de setenta dos nossos dias.

Pertenceu também a Paulo Maria da Costa Barros, que já referimos e que Pinho Leal nos apresenta como “cavaleiro estimadíssimo” e que muito o auxiliou nos dados que apresenta no seu dicionário no que diz respeito a Várzea de Santarém e “Villa Gateira”, topónimos abordados.

Quando a visitámos em 1980, ainda tinha de pé as quatro paredes e a sineira. Sem telhado, servia de galinheiro e curral.

DA QUINTA DO FREIXO

Também desconheço o nome da invocação. Profanada pelas tropas francesas em 1810, como aconteceu a todas existentes na freguesia.

Na verga da porta, ainda se pode ler o ano de 1666 que possivelmente indica o ano da sua fundação.

Mantinha-se de pé, servindo há muito de palheiro, foi assim que a encontrámos em 1980.

Da família Sacoto Galache, passou para a de Jacinto Falcão Casqueiro e entretanto vendida pelos seus herdeiros.

DA QUINTA DA MAFARRA

Diz a lenda que aqui viveu e morreu uma princesa, D. Mafalda, e na capela está um túmulo que da inscrição só se consegue ler, Mafalda. Segundo Pinho Leal, Mafarra é corrupção de “Mahafarra” – a cova, porque efectivamente esta quinta está situada numa baixa. (2)

D. Maria Esteves Mafarra, que foi abadessa de Sta. Clara, na primeira metade do século XIV, foi sua proprietária. Mais tarde o convento veio a herdar a quinta juntamente com outros bens. (8)

Foi do Estado pois estava incluída nos “próprios nacionais”. Vendida quando esses bens foram postos em praça pelo liberalismo.

Em 1838 era seu feitor, Francisco Ribeiro Lemos. Num nascimento desse ano constava Quinta da Mafalda e não da Mafarra.

Desconhecemos o tamanho e características da Capela que nunca tivemos oportunidade de visitar.

DA QUINTA DO MOCHO

Quando dizemos que percorremos a freguesia palmo a palmo, é uma forma de dizer que a conhecemos relativamente bem. Acontece que a Quinta do Mocho só a temos visto da estrada nacional que lhe passa próximo, nunca dela nos abeirámos.

A única informação verbal que obtivemos dela foi de que estava em ruína e a sua área se dividia pelas freguesias de Várzea e S. Nicolau.

Sabemos que a capela perdeu o seu alpendre pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755, sendo propriedade na altura do Conde de Castelo Melhor. (9)

***

Aqui fica o que nos foi possível reunir sobre nove capelas da freguesia da Várzea, já que a de Santo António possibilitou um escrito separado, precisamente aquele com que iniciámos estes Temas Varzeenses.

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NOTAS

(1) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(2) – Portugal Antigo e Moderno, A.S. Barbosa de Pinho Leal, 1873/1890
(3) – Santarém Quinhentista, Maria Ângela Rocha Beirante.
(4) – “A Capela de Santo António, “Ex-libris” de Vilgateira”, in Correio do Ribatejo nº 5210, de 22 de Fevereiro de 1991.
(5) – Benemérito e homem culto. Serviu como Pároco da Freguesia desde 14 de Julho de 1833, desconhecendo quando cessou funções.

(6) – Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40.
(7) – Informação gentilmente prestada em 1989.06.14, por uma senhora que presumo ser funcionária da firma.
(8) – Santarém Medieval, Maria Ângela Rocha Beirante, 1980.
(9) – O Terramoto do 1º de Novembro de 1755, em Portugal e um estudo demográfico, Francisco Luiz Pereira de Sousa, Lisboa, 1919

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O artesanato


(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 2 DE AGOSTO DE 1991)
Todos nós temos conhecimento da importância que o artesanato hoje pode representar para uma região.

O artesanato é o processo manual de transformação de matérias primas, para o que se exige sentido estético , habilidade e perícia e não é isso muitas vezes o que nos é apresentado nas casas ditas da especialidade.

Diz Pinho Lel np seu “Portugal Antigo e Moderno (1873-1890)” que a freguesia da Várzea é a mais rica da comarca de Santarém e uma das mais ricas e férteis do Distrito Administrativo. Se efectivamente o era, não o foi em arte popular, talvez por isso mesmo.

É muito pobre e quase inexistente o artesanato varzeense, pelo que não é fácil falar dela. Não concebíamos deixar completamente em branco este assunto na análise que temos vindo a fazer da vida varzeense e, afinal, se tivermos sentido de observação, sempre algo encontramos que mereça ser referido.

Vamos por isso assim indicar dois tipos de artesanato,um, próprio do homem, o outro, da sua companheira.

***

O homem civilizado preocupou-se sempre com a higiene, ainda que essa preocupação tenha passado por fases bem diferenciadas.

Há muito que a vassoura é utensílio indispensável em casas, pátios, jardins, quintais, palheiros, ruas, eu sei lá, em todo o lugar em que seja necessário recolher o lixo.

Hoje temos nas nossas casas vassouras provenientes de fábricas, onde predominam os materiais sintéticos, com relevância para o plástico.

A piaçaba ainda vai aparecendo, mas a palma, é raro ver-se.

Estas vassouras começaram por constituir um artesanato, mas mais tarde e naturalmente apareceu a industrialização do produto. Se ela se impôs no fabrico de vassouras para casa (interior), o mesmo não aconteceu para os grande espaços e outros de menor requinte.

Ainda hoje a rua por onde passámos estava a ser varrida com vassouras de giesta e não material sintético.

É claro que o homem para as fazer tem de recorrer ao que tem à mão, ao mais fácil de obter, tanto no aspecto de quantidade como de qualidade. Fazem-se vassouras das mais variadas plantas e arbustos por esse Portugal fora. No nordeste algarvio encontramos vassouras de tamuje e de mata-pulga, por exemplo.

O que fazia o varzeense para suprir as suas necessidades? A que recorria?

A ineixa é uma planta herbácea de pequenas flores amarelas, da família das crucíferas, a que pertencem também a couve, o nabo e o goiveiro, espontânea e muito vulgar na freguesia.

Depois de seca, o varzeense colhia variadíssimos pés que acomodava à volta de um pau, ou mesmo de um bocado de cana, formando o cabo com o auxílio de arame de fardo e antes do aparecimento deste, com corda.

A rama era ajeitada também com arame ou corda, colocada de maneira a armar a ramalhuda vassoura, de uma forma levemente achatada.

Segundo nos informaram, a vassoura só ficava em condições ideais para servir, depois de acamada, isto é, de servir uns dias.

A feitura desta vassouras, algumas bem avantajadas, era arte conhecida de todos os varzeenses, variando a qualidade com a habilidade do artista e o tamanho com a utilização que se lhe pretendia dar. Tudo varriam e consideradas insubstituíveis para separar o casulo nas eiras.

Pensamos que presentemente e devido a vários condicionalismos a sua existência deve ser muito precária.

***

Ao artesanato feminino já nos referimos muito levemente quando abordámos o tipo de habitação. (1)

Trata-se de trabalho de agulha e dedal que actua sobre titãs de diversos tecidos de molde a confeccionar cobertas (para cama e malas), almofadas, tapetes, passadeiras e até sacos.

Cortavam-se tiras que se cosiam sobre um fundo, de modo a formar figuras geométricas, onde predominavam rectângulos, quadrados e triângulos. Estes normalmente utilizados nas cercaduras.

Apareciam trabalhos interessantíssimos já que a selecção das cores e oe tipos (estampados), proporcionavam arranjos harmoniosos.

Era principalmente neste campo e na perfeição de execução que se distinguiam uns dos outros, já que as formas pouco variavam.

Constituíam, como então dissemos, o principal recheio decorativo da habitação. Lá estavam na cozinha o saco pendurado, na casa de fora os tapetes e as passadeiras, não esquecendo as almofadas sobre as cadeiras e nos quartos de cama. As cobertas, almofadas ou almofadões.

Não era arte exclusiva da freguesia, já que se estendia por outras zonas, nomeadamente pelo maciço de Porto de Mós, mantendo ainda vivo algumas, ao contrário do que aqui acontece.

Não conhecemos qualquer outro tipo de artesanato digno de referência, já que o fabrico de queijo e de pão fogem ao âmbito da nossa concepção.

É, como vedes e dissemos, muito pobre o artesanato varzeense.

Que razões poderemos encontrar para isso? Falta de matérias-primas? A existência de mercados abastecedores bem perto como acontecia coma as feiras de Santarém? Ou seria que as outras ocupações se tornavam mais rendosas? Talvez esta última hipótese e em consonância com Pinho Leal, tenha mais razão de ser.

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Nota
(1) – Correio do Ribatejo de 12 de Junho de 1991.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O cemitério da freguesia através dos tempos

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 26 DE JULHO DE 1991)




Quem ficou admirado de abordarmos este assunto? Não será o cemitério o términus da nossa vida, pelo menos no sentido da matéria? É tão importante falar deste tema como de qualquer outro que já abordámos ou que venhamos a abordar. Aliás, não é a primeira vez que o “estudamos” (1) pois uma análise mais profunda obriga-nos a estabelecer diferenças que muito têm a ver com a vida espiritual e material das gentes.

***
Com a implantação do liberalismo e por decreto de 21 de Setembro de 1835, criaram-se os cemitérios públicos, mas só em 1844, Costa Cabral faz publicar o diploma que determina ser expressamente proibido enterrar os mortos dentro de qualquer igreja ou capela da freguesia onde houver cemitério.

O cumprimento desta determinação legal não era fácil pelos mais variados motivos, repartidos pelo poder de Estado e pelas populações.

São conhecidas as revoltas ditas populares que se deram com o pretexto do não enterramento nos templos e foram necessários alguns anos para que as populações começassem a aceitar os cemitérios públicos.

Além do aspecto religioso havia também a dificuldade de encontrar os terrenos viso as autarquias não possuírem recursos para os adquirir.

Na freguesia da Várzea, como em qualquer outra, os enterramentos faziam-se nas igrejas, capelas e seus adros, com maior incidência, como é natural, na igreja matriz. Como aqui já dissemos, a igreja matriz situava-se numa várzea da ribeira de Perofilho, principal curso de água que corre na freguesia, perto da Quinta de São Martinho. Naturalmente que seria nela e no seu adro que os varzeenses encontravam sepultura – os filhos de algo, no seu interior, os plebeus, no adro.

Pelo menos nos anos cinquenta, as luzinhas provenientes do fósforo, eram muito referenciadas pelos varzeenses que passavam naqueles sítios, nas noites de Verão.

Com a ruína deste templo, que tinha por invocação, Nª Sª da Várzea, a que não esteve alheio a acção “jacobina” dos franceses, construiu-se (ou adaptou-se a antiga capela de S. Miguel) no lugar do Outeiro, nos primeiros anos da década de sessenta do século passado, possivelmente em 1863, uma nova matriz.

Passaram para aí, então, os enterramentos, efectuados no amplo adro que se preparou, entrando nele, por aproveitamento, muitos materiais do antigo templo.

A pedra sepulcral mais próxima do portal possui um brasão de armas em relevo, dos Galaches.

Para os menos jovens diremos que se trata da sepultura do avô de D. Josefina Sacoto Galache, que bem conheceram e que foi, como os seus ascendentes, proprietária da Quinta do Freixo. Segundo nos diziam, esta Senhora, quando ia à missa, a que normalmente não faltava, nunca pisava aquela pedra, como sinal de respeito por aquele seu antepassado.

Sabemos que em 1947 existia o mesmo brasão de armas num palacete da Rua Direita, em Vila França de Xira (2).



Segundo informação fidedigna recentemente prestada, em operações de reconstrução de um prédio em terrenos contíguos ao adro, quando do arrancamento de uma oliveira, foi encontrado grande número de ossadas humanas que possivelmente teriam constituído uma vala comum.

Sabemos que em 15 de Abril de 1877 a Junta de Paróquia reúne-se na sacristia da igreja e aprova por unanimidade, o Regulamento do Cemitério. Era presidente o Padre António de Carvalho (3).

Este facto parece indicar-nos que o novo cemitério, nas traseiras da igreja, e bem perto dela, funcionaria por estas alturas, ainda que à entrada se possa ver uma lápide gravado com J.P. 1892.

Ainda conhecemos este cemitério com bastantes pedras sepulcrais, pois os restos mortais de muitos não foram trasladados para o cemitério actual, pelos mais variados motivos.

Por lá passámos algumas vezes, lendo os epitáfios e temos pena de não os ter recolhido pois ajudar-nos-iam a decifrar hoje algumas situações que em nós permanecem obscuras.

Algumas dessas pedras vieram a ser utilizadas pela Junta de Freguesia nas pias para dar de beber aos animais e nas escadas da sacristia da Capela de Sto. António, em Vilgateira.

Em 5 de Junho de 1906 o Presidente da Junta chama a atenção do coveiro no sentido de manter o cemitério limpo e dois meses depois, acaba por despedi-lo.

Delibera-se por esta altura fazer uma capela e levar pedra para o local. Pretende-se terreno de 4X5 m e falar com o dono do foro que vivia na vila de Óbidos.

Pensamos que a capela não chegou a ser construída, talvez por dificuldades na otenção do terreno e só se volta a falar no cemitério após a Implantação da República, para fixar novas taxas.

Assim, os covachos, como são designados os covais, obrigam ao dispêndio das seguintes verbas:

ADULTOS – Urna, 1.500 réis, Caixão, 800 réis; e Corpo à terra, 500 réis.

CRIANÇAS – Urna, 800 réis, Caixão, 240 réis e Corpo à terra, 200 réis.

Ficavam isentos os que apresentavam certidão de miséria passada pelo regedor (4).

Em 18 de Janeiro de 1914 considera a Junta de Paróquia conveniente a construção de uma casa mortuária que pensamos também não ter sido construída, talvez pelos mesmos motivos,

Nas actas das sessões da Junta só na de 15 de Fevereiro de 1928 se volta a falar no cemitério e desta vez no sentido de se construir um novo. Foi deliberado em reunião, solicitar um subsídio e mais qualquer auxílio no sentido de construir com urgência um novo cemitério, pois o actual é insuficiente para a mortalidade da freguesia e encontra-se num local impróprio, condenado pela Lei.

O novo cemitério veio efectivamente a ser feito no Alto da Olaia, possivelmente em 1934, já que é esta a data que consta do portão de acesso.

De 1933 a 1944 a Junta se reunia não lavrava actas, daí a dificuldade em confirmar esta data.



Sempre me constou que o terreno tinha sido oferecido pelo lavrador, Guilherme Vargas, cujo jazigo de família foi o primeiro a ser construído.

Em 2 de Fevereiro de 1971 é deliberado criar um talhão para os “Combatentes” e em 6 de Setembro do mesmo ano é pedido um subsídio à Câmara Municipal para a construção de quarenta e oito gavetões que são feitos no ano seguinte.

Constou-me que recentemente o cemitério foi consideravelmente aumentado.

Ao terminar este tema não resisto à tentação de relatar um facto que desde bem pequeno ouvimos contar a nosso pai.

Indo acompanhar ao cemitério um amigo que tinha falecido em Vilgateira, ouviu o seguinte diálogo que nunca esqueceu e repetia com muito realismo, segundo pensamos.

Coveiro – Oh Fulano, queres que lhe ponha cal?
Genro do falecido – Ouve lá, tenho que a pagar?
Coveiro – Tens.
Genro do falecido – Então, “prantalalá”.

Nesses tempos. Era hábito na freguesia o coveiro faltar a este seu dever, o que a família enlutada muito agradecia, pela má impressão que lhe causava e... para o coveiro, a mesma cal era paga por muitos.

Aqui fica o que até agora consegui reunir sobre o assunto.

________________________________

Notas

(1) – “Cemitério da Vila de Alcoutim, da origem aos nossos dias” in Jornal do Algarve de 10 e 17 de Março de 1988.
(2) – “Vila Franca de Xira”, Fausto Dias, in Vida Ribatejana, nº especial de Julho de 1947.
(3) – Acta da Sessão de 15 de Abril de 1877.
(4) – Acta da Sessão de 1 de Dezembro de 1910.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Os Trajes

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 19 DE JULHO DE 1991)



[Antigo cavador da Várzea de Santarém. Foto cedida por Luís Fontes]

Quem se debruçar sobre o passado de uma região, mais ou menos circunscrita, nunca pode deixar de ter em consideração a maneira de vestir e calçar das suas gentes.

O seu conhecimento ajuda-nos a compreender melhor a região, desde a maneira de ser do seu povo aos trabalhos que então executavam.

Não vou apresentar aqui um estudo sobre o assunto, primeiro porque não tenho conhecimentos para isso, segundo porque não é esse o sentido do “escrito” e por último porque tem este semanário colaboradores verdadeiros especialistas na matéria que aliás têm com frequência tratado do assunto com propriedade.

Pretendemos sim, dentro das nossas modestas possibilidades, dar continuação a temas da vida varzeense que temos vindo a abordar e como tal não podíamos fugir a este.

É nesse sentido que aqui estamos.

***
A maneira de vestir e calçar esteve sempre ligada à actividade desenvolvida e ao meio em que ela se exerce.

O minhoto não traja como o alentejano, por exemplo, nem a mulher dos campos do Sorraia como a transmontana.

As diferenças são muit6as, desde as formas, passando pelos materiais e mesmo as cores.

Nesses tempos, era quase tudo feito pelas próprias pessoas ou por artesãos locais.

O desenvolvimento dos trabalhos agrícolas e artesanais com a introdução de novas tecnologias, a abertura de novas vias de comunicação e o aparecimento de novos meios, vieram estabelecer igualdades e paralelismos então inexistentes.

Hoje, a fábrica que produz camisas ou sapatos fá-lo para venda em todo o País e mesmo no estrangeiro. Chegam a todos os locais quase ao mesmo tempo.

Se o trabalho manual está reduzido ao mínimo possível, a maneira de trajar deixa naturalmente de se impor, por desnecessária.

Reparar que as grandes feiras anuais que se realizavam por todo o país, estão em completo declínio a favor dos mercados mensais que começaram a proliferar – mercados de um dia e não feiras de oito ou quinze, é a resposta dos novos tempos. Não mais o homem pode esperar um ano para adquirir o que necessita. Tudo naturalmente mudou.

***
Por volta dos finais da década de cinquenta e princípios da seguinte, dos nossos dias, ainda era possível ver na freguesia homens com os seus trajes característicos, ainda que o número já não fosse significativo, aparecendo muitos casos com desvirtuamento.

Na freguesia da Várzea não havia uma maneira própria de trajar. O varzeense trajava como qualquer outro homem do “Bairro de Santarém”.

Assim, usava calça à boca-de-sino, faixa, camisa branca e barrete ou chapéu de aba larga. As mulheres vestiam blusa, saia de pano grosso, pequeno avental (o seu luxo) garridamente bordado ou enfeitado com rendas e lenço de ramagens graciosamente posto na cabeça.

Nos trabalhos de campo, o calçado para ambos era de couro, ensebado para se conservar e cardado ou brochado para mais durar.

Para mim, e de todos que conheci, era o meu vizinho José Calhariz (localmente Calharizo), o que vestia mais genuinamente.

Quando o conheci, já estava bem entrado na idade, pelo que, entregou as fazendas ao genro e já não trabalhava.

Era uma figura meã, seco de carnes, a calça muito justinha, caindo sobre o atacado da bota cardada, a aba, o que fz lembrar, pelo recorte, a boca de um sino e daí, segundo pensamos o nome. Jaqueta bem justa.

Quando por ali estávamos, por volta das dez da manhã, contendia connosco. Dava um saltinho, muito característico para vencer a pequena regueira junto de sua casa e lá ia ao seu mata-bicho, que não dispensava.

Quando jovem, contava-nos a nossa mãe, dançava muito bem o fandango.

Com o seu desaparecimento, e já lá vão cerca de trinta anos, o nosso eleito passou a ser, José Ulisses (localmente Lícias), que nos lembramos muito bem ver enrolar a cinta preta que não dispensava, tal como o barrete.

Também não nos esquece o seu cumprimento ou agradecimento de barrete na mão.

Por estas alturas, havia mais homens ainda a cumprir a tradição já em franco declínio. Hoje, tudo acabou e se os jovens querem conhecer como vestiam os seus bisavós, terão de reparar num rancho folclórico de danças e cantares do bairro de Santarém, mas nem todos servem para observação.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Lembrando o Dr. Silva Pereira no 110º Aniversário do seu Nascimento

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 05.07.1991)



Deixámos nas páginas deste jornal (10 de Maio de 1991), uma pequena biografia deste poeta varzeense quase desconhecido dos seus conterrâneos.

De um poeta, tem-se sempre algo mais para dizer, já que são sempre personalidades ricas e controversas.

Mas hoje, não é nesse campo que vamos entrar. Pretendemos apenas recordá-lo no seu aniversário que passa amanhã, dando a público um poema intitulado, ECOS DISTANTES, no qual o poeta, além de mostrar o seu valor literário, revela mais uma vez o grande apego ao lugar onde nasceu.


[Casa onde nasceu e faleceu o Dr. Silva Pereira. Foto JV]

ECOS DISTANTES

Vós, meninas dos meus olhos,
Aprendestes a chorar, a chorar,
Com a fonte de água fria
Que mansamente corria
Junto à casa em que eu nasci!

A chorar,... a cantar,...a rezar...
Que singular e estranho hino,
Murmurado, noite e dia!

Mas aquelas eram frias,
E vós sois quentes, requentes,
Lágrimas minhas dolentes.

Ah! mas quem me dera ali,
Quem me dera ser menino,
Junto à casa em que eu nasci!

E os rouxinóis e carriças,
Junto à fonte, junto ao rio,
Pelas quintas pequeninas,
Cantavam, ao desafio,
Te-deuns solenes e missas,
E vésperas e matinas!...

Foram estes os missais,
Por que eu aprendi,
A rezar, a cantar, a chorar,
Quando eu era pequenino,
Junta à casa em que eu nasci.

Correrá inda a fonte,
Ou ter-se-á secado o monte?
Terá caído a casa em que eu nasci?
Existirá o quadro em que eu sonhava d’antes?

Como tudo fica longe!
-Tristes ecos, já distantes,
Duma vida que eu vivi...

Ah! que saudades eu tenho
Da casa pequenina em que eu nasci!

Mas, não, não quero ver-te mais!
Que vendo-me nascer, sendo o meu berço,
Quiseste um dia ser o inverso:
- Foste e na minha ausência, a tumba de meus pais!


A fonte que abastecia a povoação, correndo mansamente, o seu murmúrio, noite e dia!, sempre o desejo (encoberto por vezes) de voltar à casa em que nasceu; os rouxinóis e as carriças que por ali ainda saltitam, com o seu cantar ao desafio; as quintas (tão características da freguesia) e o sentido religioso, sempre uma constante.

O terror que o invade ao admitir a fonte seca, a casa arruinada.

Sempre a saudade, a distância a que se encontra...

Nos quatro últimos versos, é o choque de posições, tão próprio dos poetas!

Aqui fica este poema, inédito segundo pensamos e escrito há mais de cinquenta anos! Mais uma vez a memória do poeta que nos perdoe o atrevimento.

Pensamos que possuindo a freguesia um grupo cénico, não seria descabido que nos seus espectáculos fossem ditos alguns poemas deste conterrâneo, principalmente aqueles em que lugares da freguesia se possam rever. Para mais, temos o grupo orientado no aspecto artístico por um senhor que muito bem dizia e que certamente continua a dizer, poesia, o que facilitava a possível escolha e preparação de um elemento que muito pode aprender com Nuno Neto de Almeida.

É uma sugestão que aqui deixamos.


[Actual estado da casa onde nasceu o Dr. Silva Pereira. Foto JV, 2009]


Pequena nota

Os textos aqui publicados são a cópia fiel dos que foram publicados no Correio do Ribatejo. Muitas vezes as ilustrações não são as mesmas pelos motivos mais variados, como neste acontece.
Ficam assim os nossos leitores alertados para o facto.

JV

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A medicina popular

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 12 DE JULHO DE 1991)


[Rua de Vilgateira, 1968. Desenho de JV]

Na linha temática diferenciada que temos vindo a desenvolver nas páginas deste hebdomadário, abordando sem ordem esquemática natural vários temas da vida varzeense, referiremos hoje, ainda que muito superficialmente este assunto.

É tema para corrigir, rectificar e principalmente para aumentar.

Pensamos que no contexto que idealizámos da vida desta freguesia, ocupa um lugar que não podemos desprezar, pois ajuda-nos a compreender melhor a realidade varzeense.

***
Ainda que a constante evolução da medicina seja um facto que todos nós prezamos, nem por isso pusemos de parte os seus primórdios de que as mezinhas são parte importante.

Conseguindo resistir ao decorrer dos séculos, transmitidas pelos avoengos, vão passando de geração em geração, utilizando-se com maior ou menor intensidade, conforma as regiões.

De uma maneira geral são utilizadas antes de recorrer à medicina convencional ou quando a ela se recorre e não se obtém os resultados desejados – é muitas vezes, a última esperança!

Não podemos esquecer o facto dos medicamentos laboratoriais terem por base os produtos naturais onde abundam os do reino vegetal.

Algumas das mezinhas que os varzeenses conhecem e utilizam, são do conhecimento geral, do Norte ao Sul do país, mas, com outras, assim não acontece e são próprias da zona.

Vamos assim indicar algumas que recolhemos e onde encontramos daqueles dois tipos.

***
É vulgar saber-se que “a água das rosas brancas” desinflama a vista, tal como a normalização que causa arterial o chá da folha do marmeleiro, oliveira ou figueira.

Também não admira referir que as lavagens com água das cascas ou das “coroas” da romã, são benéficas ao combate do hemorroidal.

Quando se sente fastio, toma-se o chá da macela (camomila), vulgo marcela, que apesar do seu gosto amargo, faz abrir com facilidade o apetite.

A diarreia é combatida com o chá da “erva das cabaças” ou dos “ouriços” e o fígado sente-se bem com o chá do hipericão da serra.

As rodelas de batata colocadas sobre a testa com o auxílio de um lenço que se aperta, aliviam, devido ao poder do amido, as dores de cabeça.

Para a bexiga funcionar bem, chá de barbas de milho ou da “erva pinheirinha”.

O catarro é combatido com o chá de alecrim e “para refrescar o sangue”, usam o da sargacinha. O chá da agrimónia ou da alfavaca da cobra usa-se para os intestinos.

Entrando num campo menos vulgar, diremos que para o constipado, o varzeense faz um lambedor, fervendo em água, casca de amêndoa, flor do sabugueiro, borragem, figos secos e passas de uva.

Se quer fazer desaparecer a impingem, misture vinagre forte com poeira e aplique a pomada daí resultante sobre a parte afectada.

As feridas são curadas fazendo arder losna (absinto) e aplicando a sua cinza.

Fazer um defumadouro com folhas secas de “tomates do inferno”, alivia os ataques de bronquite.

Para a tosse convulsa, aproveita-se o suco da folha da piteira, a que se junta açúcar.

Terminaremos o tema com a seguinte “estória” contada por um varzeense.

Quando os serrenhos vinham para a apanha da azeitona, um dia bateram-me à porta perguntando-me onde poderiam encontrar “caganitas” de rato. À minha admiração, justificaram dizendo que uma companheira estava com cólicas e um chá daquilo aliviava-lhe bastante o sofrimento!

Não me admira pois já recolhi algumas do mesmo tipo noutras regiões.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Dr. Sousa Cirne, magistrado e político

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE JUNHO DE 1991)


[Armas dos Cirnes]

Voltemos ás figuras da terra varzeense e desta vez o evocado não nasceu na Várzea mas a ela ficou ligado pelos bens que lá possuía.

Para nós, a sua revelação enquadrada na freguesia é feita pelo infatigável Pinho Leal (1) que ao não indicá-lo quando se referiu a Santarém, aproveita a oportunidade para encaixa-lo nesta freguesia, invocando a circunstância de ali ser grande proprietário, mas não indica esses bens.

Enquanto não os sabemos e talvez isso nunca venha a acontecer devido ao nosso afastamento de Santarém, onde não seria difícil localizá-los nos arquivos locais, iremos referir o que nos foi possível obter de carácter geral.

Manuel da Sampaio Freire de Andrade de Sousa Cirne, de seu nome completo, nasceu em Santarém no dia 24 de Fevereiro de 1790 e aí faleceu em 5 de Outubro de 1860.

Era filho do desembargador e conselheiro, João Sampaio Freire de Andrade e de D. Bárbara Gertrudes Tavares de Sousa Cirne.

Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo.

Doutorou-se na Universidade de Coimbra em 3 de Julho de 1813, ingressando na magistratura como corregedor do crime do Bairro de Belém, que tinha anexa a Provedoria de Oeiras (1815).

Em 1821 foi nomeado desembargador da Relação do Porto e em 1829 colocado na Casa da Suplicação onde se conservou até 1833.

Quando as forças do Duque da Terceira entraram na capital, não se apresentou aos liberais, pelas suas convicções realistas, o que não impediu que recebesse as mais inequívocas provas de respeito e consideração, o que deve atribuir-se à forma digna e leal com que se houve no julgamento de crimes políticos. (2)

Tinha verdadeiros amigos, parentes e condiscípulos, em ambos os campos – realista e liberal.

Foi aposentado como desembargador, com honras de conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

Em Setembro de 1836, pelo falecimento do seu tio materno, Manuel Eusébio Tavares de Sousa Cirne, uma das pessoas proposta pela Câmara como capaz de ser Comandante do Corpo Voluntário Realista da vila de Santarém (3), o que veio a verificar-se já que Pinho Leal o indica como tenente-coronel, comandante do Batalhão de Voluntários Realistas de Santarém, herdou o morgado dos Cirnes, indo então residir para a terra da sua naturalidade.

Por morte de outro tio, também materno, o Padre António Filipe de Sousa Cirne, bacharel formado em cânones e cónego de Santa Maria de Alcobaça, uma das pessoas indicadas como “mais circunspectas e de toda a probidade que possam servir de testemunhas no que for a bem do Real Serviço” (3), herdou o restante da Casa dos Cirnes.

Casou em Santarém com D. Maria Guilhermina de Barros Sampaio Cirne (4) e Pinho Leal informa que era seu filho, Guilherme de Sampaio Freire de Andrade de Sousa Cirne, fidalgo cavaleiro da Casa Real, na altura, o representante da ilustre Casa.

Parece-nos que a designação toponímica de Alto do Freire, está relacionada com algum elemento desta família pois a zona rústica ter-lhes-ia pertencido.

Aqui fica o que até agora pudemos obter sobre esta Figura que após a aposentação teria levado uma vida muito ligada à freguesia da Várzea.

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NOTAS
(1) Portugal Antigo e Moderno, 1873/1890.
(2) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(3) Santarém entre as Guerras Liberais, 1820 – 1835, Luís Eugénio Ferreira, 1977
(4) Dicionário “Portugal”, Ed. Romano Torres, 1915.