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domingo, 18 de novembro de 2012

NOCTURNO (Poema e Pintura)


Pequena nota

Recebemos de um “velho” Amigo, de há mais de 60 anos, o seguinte trabalho poético e de arte que teve a amabilidade de nos dedicar.

Incluo-o nos TEMAS VARZEENSES pois que ainda não o seja pelo nascimento, como nós somos, são de lá as suas raízes maternas.

Obrigado e um grande abraço do” eterno” Amigo,

JV

NOCTURNO

Vi entre as luzes estonteantes

Os seus corpos vibrando em estertores

Tela moderna dos novos amores

Sem amores e sem amantes


Confundido, perplexo, embriagado,

Na nave do tempo embarquei

Em busca de um retrato bem gravado,

Num não muito longínquo passado:

Umas meigas camponesas, já feitas barregãs,

Desiludidas de promessas vãs,

Imagens doloridas, em busca de um amante.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mancebos da Freguesia da Várzea em 1960



Apresento hoje uma fotografia com 52 anos , tratando-se de um grupo de mancebos recenseados pela freguesia da Várzea do concelho de Santarém e de uma maneira geral, todos de lá naturais.

A Inspecção Militar realizou-se no Distrito de Recrutamento e de Mobilização, onde num ano efectuei a minha, ainda que não vivesse lá fui englobado nos mancebos representativos daquela freguesia.

Tratava-se de um velho edifício na parte velha da cidade de ruas, becos e ruelas, para os lados da Travessa de José Paulo e da Igreja do Milagre.

Atendendo a que a inspecção teve lugar em 16 de Junho de 1960, isto é, tudo rapaziada que já ultrapassou os 70. Alguns, infelizmente, já não estão entre nós.

Este dia era popularmente designado pelo “Dia das Sortes”, um dos mais importantes na vida de alguns mancebos que o recordavam pela vida fora.

Era considerado e era realmente o dia da emancipação, o dia da maioridade, o dia em que se podia ser seleccionado para defender a Pátria.

Lá estavam os fatinhos novos a estriar como era apanágio de então.

Sei que havia uns lacinhos de cores diferentes que se colocavam na banda do casaco, significando a sua cor o apuramento para todo o serviço militar ou em oposição o ficar livre.

Os mancebos organizavam-se contratando um músico, normalmente, um acordeonista, que percorria com o grupo os principais lugares da freguesia e à noite realizava-se grande baile, onde as moças casadoiras não faltavam e que durava até às tantas.

Do grupo em questão, alguns estiveram nas guerras coloniais mas só consigo identificar três ou quatro, ainda que muitas caras não me sejam estranhas.

Agradeço ao meu velho Amigo António Augusto, que não vejo vai para 38 anos, (o 2º do lado direito no 1º plano) a cedência da foto para colocar no CORREIO DAS LEMBRANÇAS.

Tudo isto pertence ao passado, hoje para ir à tropa é preciso requerê-lo e a selecção é rigorosa. Só ficam os melhores.

Deixámos, felizmente, de ser um país de generais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Pezinhos de carneiro



Enquanto uns lhe chamam pezinhos de carneiro outros optam por designá-los por mãozinhas de borrego, o que vai tudo dar ao mesmo e constituem as partes dos ovinos que assentam no chão para se movimentarem.

No nosso país, estes animais é no Alentejo onde mais abundam sendo a sua carne muito apreciada em vários pratos sendo talvez o mais conhecido o “ensopado de borrego”.

Há quem muito aprecie cabeças de carneiro assadas no forno. O carneiro ou borrego foi sempre muito utilizado na confecção de pratos de casamento quando este tinha lugar tinha lugar na casa dos pais dos nubentes e quase sempre guisado com batatas.

São muito conhecidos e apreciados os pezinhos de coentrada que aparecem na cozinha alentejana.

Habituei-me desde criança a comer pezinhos guisados com feijão branco, é um dos pratos que mais aprecio e que nunca encontrei na restauração.

Na minha passagem pela Beira-Alta, ninguém conhecia ou admitia que tal se comesse e na serra algarvia, ainda que os comessem não confeccionados assim e isso compreende-se porquê, a quase impossibilidade de se juntar tanto pé.

Em Santarém todos os talhos existentes no mercado municipal estavam abastecidos de tais peças pois eram muito procuradas.

Hoje, vivendo numa cidade do Oeste, nenhum talho vende tal coisa, contudo, “descobri” numa cidade próxima aonde me desloco com frequência, um único talho, que vende tal iguaria e onde me abasteço sempre que lá vou.

Ainda que os cozinhe com batatas novas e ervilhas, prefiro-os com feijão branco. Os pés vêm previamente arranjados e constitui um trabalho moroso que tem de se pagar.

É um prato fácil de confeccionar.

Após um refogado normal com cebola, alho, salsa, louro, em azeite, e a que se juntou tomate e cenoura às rodelas, dá-se uma primeira cozedura aos pés na panela de pressão, ou seja, ficam “entalados”.

Acrescenta-se ao refogado um pouco de água onde foram cozidos os pés e em lume brando os pezinhos ficam a guisar. O feijão mete-se na panela de pressão até esta apitar.

Junta-se depois aos pezinhos não esquecendo de acrescentar um pouco de água onde o feijão esteve a cozer.

Fica a apurar em lume brando.

domingo, 5 de junho de 2011

Massa à barrão



De uma maneira geral, a indicação de um prato começa pela referência à substância mais importante ou mais abundante com que é confeccionado.

Não vou aqui apresentar uma receita formal com quantidades, tempos de cozedura, etc... pois não é isso que está neste âmbito.

O prato indicado, muito utilizado na freguesia da Várzea e em toda a região do “Bairro”, dá pelo nome, como o título indica, de “massa à barrão” pelo que se supõe que a massa seria a “iguaria” e à barrão por “inventada” pelo homem do “Bairro” designado popularmente por “barrão” e onde está impregnado algum sentido depreciativo.

Quando comecei a interessar-me por estes assuntos, há mais de 40 anos, conversei com uma varzeense (*) com alguma idade que sempre viveu na sua freguesia natal onde fez todos os trabalhos do campo destinados às mulheres, procurando indagar como era a alimentação nos seus tempos de trabalhadora rural.

Quando lhe falei na massa à barrão que eu já conhecia e referi a existência de bacalhau no cozinhado, foi peremptória dizendo-me que isso era agora porque no seu tempo de jovem não era assim, pois tratava-se apenas de massa (macarrão) guisada com batata cortada aos quartos. Azeite que na zona todos tinham, nem que fosse o proveniente do rabisco, ou rabiscão, cebola, alho, tomate salsa e louro, conforme as disponibilidades. Nisto tudo, a única coisa que se comprava era a massa e deve porvir daí o nome do prato típico.

Mais tarde e por ser um produto na altura considerado barato começou a ser introduzido o bacalhau que depois de cozido é lascado retirando-se –lhe as espinhas e é com o auxílio da água em que é cozido que o guisado é feito.

Naturalmente que de princípio era só um cheirinho de bacalhau mas quando as condições económicas foram melhorando, este também aumentou.

É um prato que muito aprecio e que não encontro na restauração.

(*) A nossa amiga já faleceu há muito mas tem por cá uma filha e netos com quem por vezes estou.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Visita às origens

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 31 DE OUTUBRO DE 2008)

Quem não gosta de ir, pelo menos por umas horas, à freguesia que está inserta no seu documento de identificação? Poucos serão, certamente.

De vez em quando por lá aparecemos, umas vezes por iniciativa própria, outras a convite.

Num dos últimos fins de semana isso aconteceu mais uma vez, sendo protesto para uma almoçarada e ainda que nos encontrássemos satisfeitos, não resistimos à tentação de comer uma caracolada, guisada com batatas e ervilhas, que alvitrei e que foi apoiada pela maioria dos convivas.

[Prato de caracóis, batatas e ervilhas]

Às oito e meia da noite lá estávamos para degustar o petisco. Confesso que é dos pratos que mais aprecio e que costumo confeccionar. Ainda que um pouco diferente do que costumo fazer, estavam muito agradáveis e todos elogiaram o cozinheiro.

Seríamos cerca de uma dúzia de pessoas e eu era o decano. No lado oposto, estava uma sobrinha bisneta!

A maioria escolheu a caracolada, muito usada e típica dos varzeenses.

Entretanto, numa mesa ao lado, sentou-se um casal igualmente para jantar.

Em determinada altura e tendo-me eu voltado um pouco para trás, acabaram por meter conversa comigo demonstrando que me conheceriam, afirmando que eu era o José Varzeano dos escritos no Correio do Ribatejo sobre a Várzea e que quando ainda estavam no activo das suas profissões, lá para as bandas de Lisboa, se deliciavam com tais leituras sobre a freguesia das suas origens e que pacientemente foram recortando do jornal, coleccionando, o que ainda hoje acontece.

Palavra puxa palavra, não conhecia aqueles meus conterrâneos, mas conhecia, depois da explicação, os seus pais.

Durante muito tempo foi para eles intrigante o tal José Varzeano que supunham ser da Várzea mas que não conseguiam identificar. Só bem mais tarde isso aconteceu.

Para este casal e para muitos mais conterrâneos, se não fossem as croniquetas que há alguns anos venho publicando neste centenário semanário, que possui muitos assinantes e leitores na freguesia, eu passar-lhes-ia completamente despercebido, o que era naturalíssimo pois só vivi quatro anos na minha freguesia natal.

[Casa típica no Cortelo. Foto JV]

Restará dizer que este conterrâneo brindou, a meu pedido, os presentes com três castiços fados, sendo o último o conhecido fado do embuçado.

O fado, que teve sempre cultores no Ribatejo, também se manifesta na freguesia da Várzea, concelho de Santarém.

Obrigado pelas suas palavras.

sábado, 8 de janeiro de 2011

A Inquisição na freguesia da Várzea

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 3 DE OUTUBRO DE 2008)



[Papa Paulo III]
A inquisição foi introduzida em Portugal a pedido de D. João III, por bula do Papa Paulo III, de 22 de Maio de 1536, destinando-se a impedir os abusos e delitos dos hereges contra a Religião Católica, ou crimes considerados graves contra os bons costumes, e a castigar aqueles que os praticassem, tendo sido estabelecidos Tribunais do Santo Oficio em Évora, Lisboa e em Coimbra, pelo menos.

A acção terrífica destes Tribunais fez-se sentir por todo o país e igualmente além fronteiras.

Naturalmente que a freguesia da Várzea, não foi excepção, conforme os exemplos que conseguimos obter.

Certamente existirão outros exemplos que desconhecemos.
Veremos então.

Dois padres da freguesia vieram a ser vítimas da acção danificadora desta Instituição.

O primeiro, Clérigo Presbítero do Cabido de São Pedro, é natural e morador na Várzea, filho de Simão Madeira, Capitão dos Auxiliares e natural da Azóia de Baixo e de Helena Madeira, esta natural da Várzea. Os avós eram considerados lavradores.

Tinha 51 anos e era Cura da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição da Várzea [Várgea] quando foi preso a 7 de Dezembro de 1741 e acusado de “solicitação”, isto é, convidar a ter relações sexuais, quando feitas no acto de confissão (Inquisição de Évora, dos Primórdios a 1668, António Borges Coelho, Vol. I, Ed. Caminho, 1987, págs. 270, 271)
Foi sentenciado quase um ano depois (20 de Novembro de 1742) com as sentenças de abjuração de leve suspeita na Fé, seja privado para sempre de confessar, suspensão do exercício das suas ordens, por oito anos com degredo por igual tempo para fora do Patriarcado de Lisboa e interdito de voltar à freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Várzea. (Processo nº 8672 do Pe António Madeira, Tribunal do Santo Ofício de Lisboa – ANTT)
O segundo caso passa-se com o Pe. Alexandre de Figueiredo, que presumo pudesse ter substituído o anterior e que era natural de Porto de Mós, sendo filho de Francisco Pires, oficial de ferreiro e de Anastácia de Figueiredo.

Tinha 42 anos quando foi preso em 21 de Maio de 1743, acusado de sacrilégio, acto de impiedade com que se profanam as coisas sagradas ou ultraje a pessoa sagrada ou venerável.
[D. João III]
No auto-de-fé de 27 de Julho de 1743, tem como sentença o ser advertido a não repetir a culpa. (Processo nº 44 do Pe. Alexandre Figueiredo, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa - ANTT).
De âmbito completamente diferente, mas também sujeito à apreciação do Tribunal do Santo Ofício, é a pretensão apresentada por Josefa Maria no sentido de exercer o lugar de ama [do Paço].

Natural do lugar de Perofilho, mas residindo na freguesia das Abitureiras, filha de Manuel Pessoa, natural da Quinta do Mocho (Várzea) e de Maria Lobeira, varzeense do lugar de Vale de Donzelas. Os seus avós paternos igualmente eram naturais de freguesia da Várzea e os maternos, ele da Romeira e ela de Vale de Donzelas, onde residiam.
Era casada com Francisco da Costa Sequeira e sobrinha do Familiar do Santo Ofício, Manuel Colaço Lobo.

Na documentação facultada não se refere o resultado da pretensão. (Diligência de habilitação de Josefa Maria, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações de Mulheres, mç. 3, doc.10 – ANTT)
Aqui fica este pequeno apontamento para a história da freguesia da Várzea.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Falsário em Vilgateira?

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 1 DE SETEMBRO DE 2008)

[Rua em Vilgateira. Foto JV, 2010]

Nas leituras que habitualmente fazemos, aqui e ali, ora em documentos originais existentes em vários departamentos para o efeito criados, ora em livros de especialidade, quando menos esperamos encontramos algo que nos interessa e surpreende. Foi o que aconteceu já há bastante tempo quando fomos desfolhando e lendo o valiosíssimo trabalho Archivo Historico Portuguez, Vol. – III, Lisboa, 1915 e em “A Chancellaria de D. Afonso V”, da responsabilidade de Braamcamp Freire e a pág. 415 encontrámos um interessante despacho.

A Chancelaria Régia era um departamento que funcionava junto do rei e onde eram elaborados, autenticados e expedidos os diplomas régios e onde trabalhavam vários funcionários sob a chefia do chanceler-mor.

D. Afonso V passa grande parte do ano de 1446, no Ribatejo, principalmente nos seus Paços de Santarém, onde a 22 de Março é dado o seguinte despacho:

Fernão Lourenço de Villa Gateira, escudeiro do Infante D. Pedro, enviou dizer que algumas pessoas deram delle certos capítulos e denunciações enfamando, que elle com outras pessoas fora e era em conselho e companha de se fazer moeda falsa, etc. Foi preso; fugiu, tendo mais de setenta annos, em cima do rocim em que o levaram para a cadeia.
Carta de perdão. El Rei o mandou per Alvarenga e Luís Martinz. – fl. 20 v.

A aldeia de Vilgateira, em meados do século XV devia de ter alguma importância pois lá residia um escudeiro do Infante D. Pedro que nessa altura, apesar do rei ter atingido a maioridade, solicitou-lhe que continuasse a governar a Nação.

O Fernão Lourenço, acusado de fazedor de moeda falsa, quando era levado para a prisão, em cima de um rocim (cavalo fraco ou pequeno), apesar dos seus setenta anos, foge.

Depois, acaba por obter carta de perdão, possivelmente com a mãozinha do seu amo.

Se alguém pensa que estas coisas são de agora, por aqui se vê que são bem velhinhas!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os arelhos

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 8 DE JUNHO DE 2007 E-REPUBLICADO NO BLOGUE ALCOUTIM LIVRE EM POSTAGEM DE 17 DE SETEMBRO DE 2008)

[Arelhada]

Há quase um ano que não escrevo sobre a freguesia da Várzea devido a vários factores que vão desde a falta de tempo até à lembrança de um assunto que me desperte a atenção e possa construir com aquilo que a memória foi acumulando no decorrer dos anos e uma análise simplista que nos reporte aos dias de hoje.

Do norte a sul do País o homem em períodos de crise, motivados por intempéries e situações políticas complicadas, recorreu muitas vezes às plantas espontâneas para uso alimentar o que acabou, nalguns casos, por dar origem a hábitos e usos gastronómicos que se foram transmitindo no decorrer dos anos, mesmo àqueles a que a vida corria melhor.

Celgas, labaças, cagarrinhas (cardos de folha larga que depois de esfolados se aproveita a nervura central), beldroegas, espargos, túberas, míscaros e outras espécies de cogumelos, serralhas, leitugas, agriões e arelhos, são algumas das espécies utilizadas, cozidas, fritas, guisadas ou cruas, mais propriamente em saladas.

Além disso não podemos esquecer o tempero aromático dos orégãos, da hortelã da ribeira, da erva das azeitonas, do funcho, do alecrim, do poejo e da carqueja, entre muitas outras.

Tenho verificado que a mesma planta tem utilizações diferentes, conforme a região. Enquanto na Várzea só conheço o uso das beldroegas (vulgo valdoregas) em salada, na Serra algarvia utilizam-na na sopa e nos “jantares” que constituem uma espécie de cozido. Por outro lado, as celgas que os varzeenses utilizam em sopas de feijão, naquela zona do sul do país comem-se cozidas.

Vem isto a propósito de há cerca de dois meses ter recebido telefonicamente um convite nos seguintes termos:- Então não quer vir amanhã comer uns arelhos com bacalhau, feitos por um conterrâneo para um grupo de amigos, igualmente varzeenses? Só não são comidos na Várzea, mas numa zona bem próxima.

O convite era tentador, primeiro porque ia saborear um prato que muito aprecio e que já não comia à volta de quarenta anos, segundo porque ia ter a oportunidade de conhecer alguns conterrâneos, que me conheciam de nome, através deste jornal, convivendo com outros já conhecidos, trocando impressões sobre a nossa terra e procurando enriquecer os nossos conhecimentos, já que a oralidade é sempre uma via importante de transmissão.

Além dos arelhos guisados com bacalhau e batatas, sou apreciador de sopa de feijão (ou feijoca) com celgas e todos os anos mato o gosto, porque me é fácil apanhá-las, pois sei confeccionar a sopa. Neste caso, não substituo as celgas pelas melhores couves do Mundo! Para a sua adequada confecção, é necessário conhecer algumas passagens que nem todos praticam ou conhecem.

[Prato de arelhos guizados com bacalhau. Foto JV]

Com os arelhos, não acontece o mesmo. Nunca apanhei tal coisa, ainda que saiba, porque o meu pai mo dizia, criavam-se bem nas vinhas, local onde os procurava.

Nos dicionários que consultei, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Francisco Torrinha, 1946, Lello Universal – Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, Porto, 1975, Dicionário da Língua Portuguesa, por Almeida Costa e Sampaio e Melo “Editora”, 5ª Edição, 1977 e por último o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001, não encontrei o substantivo arelho mas sim alhos-porros e alhos da vinha (espontâneos nas vinhas), entre outros. Estas duas designações presumo que sejam sinónimas de arelhos.

Existe o topónimo Foz do Arelho que José Pedro Machado pretende significar areia (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte /Confluência, 1993) e a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol 3, pág 172 refere o mesmo topónimo existente no concelho da Caldas da Rainha e de uma ribeira que nasce na Serra de Montejunto que se junta à de Arnoia, próximo da lagoa de Óbidos.

Vim a encontrar os mesmos alhos espontâneos na Serra Algarvia, igualmente utilizados na alimentação, mas aqui com um desenvolvimento muito inferior devido às terras serem mais delgadas e conhecidos por alhos-areios, designação que igualmente não encontrei nos dicionários que já referi.

Enquanto na Várzea e zonas circunvizinhas só se aproveita a “cabeça”, na Serra Algarvia aproveitam igualmente a rama (folha) e cozinham-nos de uma maneira totalmente diferente da do Ribatejo, com sopa de pão e fatias de toucinho. Constituem igualmente um bom petisco!

Até hoje nunca encontrei o bacalhau guisado com arelhos em qualquer restaurante que diz servir pratos regionais o que sempre me admirou, pensando eu que seria um prato típico da região completamente perdido.

Pelo que me foi dado ver, meia dúzia de conterrâneos fazem gala de manter a tradição gastronómica dos “arelhos” confeccionando-os com prazer e mestria, mantendo a sua originalidade.

Não compliquem com adicionamentos que possam desvirtuar ou lhe tirar a pureza. É só necessário manter o tradicional, o que por vezes não é fácil.

Procurem transmitir aos vossos descendentes as tradições gastronómicas.

Agradecido pelo convite.

Satisfizemos o estômago e a mente.

Muitos anos de vida para a “Confraria dos Arelhos”.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Uma partida de há 50 anos!

(Publicada no Correio do Ribatejo de 1 de Agosto de 2008)

A ideia de escrever este tema, veio-me recentemente quando me contaram, em local bem distante da Várzea que, quando chegou depois de uma estada na capital, tinham-lhe bebido já três garrafões de vinho novo.

Esta revelação e na altura em que me davam a provar o vinho, que efectivamente era bom, sugeriu-me a pergunta se pelo menos tinham lavado os garrafões, o que me responderam que não.

E a pergunta já tinha a ver com a estória que iria seguidamente contar e que na altura me veio à memória, já com algumas falhas provocadas pelos longos anos passados, mas no fundamental, o facto passou-se efectivamente, ainda que possa parecer mentira.

Não tive qualquer interferência nela, mas sou seu contemporâneo.

Um varzeense solteirão que na altura rondaria os cinquenta e que herdou de seus pais alguns bens rústicos e mesmo urbanos, nunca se dedicou ao amanho das suas propriedades em plenitude, preferindo ir trabalhar para quintas de concelhos próximos onde exerceria funções de “feitor”ou próximas disso.

Nunca me apercebi das competências que teria na área, mas a verdade é que por lá não permanecia muito tempo, regressando à Várzea, sua freguesia natal.

Com espírito jovem por natureza, tinha alguns amigos que o eram efectivamente na idade, de tal maneira que se tratavam por tu lá tu cá, o que não era vulgar na época, como hoje é costume.

Então, depois de uma permanência mais ou menos longa na freguesia onde nasceu, vieram-no contratar para ir exercer funções numa quinta do concelho de Almeirim.
Lá foi o nosso homem ganhar uns trocos para fazer face aos períodos de “descanso” que eram frequentes.

Acontece que se tinha dado ao trabalho de apanhar umas uvas que tinha próximo enchendo um barril de 50 ou 100 litros de vinho, já não posso precisar.

[Casa desaparecida na Fonte de Vilgateira]

Dois amigos meus, da minha idade, que na altura rondariam os vinte anos e que faziam parte dos tais tu cá tu lá, sabendo que o homem estava ocupado nos seus trabalhos lá para os lados de Almeirim e nessa altura não eram fáceis as deslocações, apesar da proximidade, temendo que o vinho se estragasse e conhecendo os segredos da adega, entre Vilgateira e Aramanha, lá foram os dois ver como estavam as coisas. Hoje não me lembro como entraram na adega mas certamente foi através da chave que sabiam onde estava escondida ou de qualquer outra artimanha.

Entraram, observaram, estava tudo bem, mas não resistiram a provar o vinho pois já estaria feito.

Que rica pinga que o homem fez.

Deixaram tudo nos “conformes” preparando-se para quando o amigo regressasse ali se fazerem grandes petiscadas, como era hábito, quando havia vinho e nem sempre isso acontecia.

O amigo continuava sem aparecer e um dia arranjaram chouriço e pão e lá foram os dois, muito calados à adega para confirmarem se o vinho não tinha azedado.

Partiram a corda, como se costuma dizer e continuando o dono sem aparecer, lá foram fazendo o seu trabalho (agora que está em meio, temos que o beber todo, senão estraga-se, era a conjectura que faziam).

[Poço na Aramanha]

E o interessante da estória está aqui:- Lavaram muito bem o barril, emborcaram-no e colocaram-lhe um rótulo com o seguinte dizer:- Preparado para encher novamente.

Quando o homem regressou e deu com o espectáculo, depois do tratamento habitual, concluiu:- Portaram-se bem, são bons bebedores, evitaram que o vinho se estragasse e afectasse a vasilha. Fizeram o serviço completo. Só não lhes perdoaria se não tivessem lavado o vasilhame. É preferível que se estrague o deles do que o meu.

É evidente que o homem já não tinha idade para cá estar, mas os meus amigos e conterrâneos, partiram cedo demais e lembro-os com saudade.

Haverá alguém na Várzea que conheça esta estória?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Trajectos grográficos semelhantes

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 27 DE JUNHO DE 2008)


[Vilgateira, óleo de JV]

Quem é que um dia não encontrou um velho amigo ou conhecido em local mais ou menos distante e ficou de boca aberta?!

Todos nós já passámos por essas experiências, mas quando a idade começa a avançar, as nossas capacidades vão-se perdendo, a memória visual vai-se esbatendo, o poder de concentração volta aos níveis da infância e até o ouvido deixa de funcionar como devia, a voz e o seu timbre, segundo penso, é o que muda menos no ser humano, já não se ouve tão bem, as coisas tornam-se mais difíceis.

Umas vezes somos nós que detectamos os velhos conhecidos, outras, são eles mais perspicazes.

Situações destas apareceram-me durante os trinta a seis anos da minha vida profissional, praticamente em todos os concelhos por onde passei.

Certo dia, vai para vinte e cinco anos, quando atravessava um então vasto largo, um casal veio ao meu encontro e perguntam-me: - Desculpe, não é fulano? Meio embasbacado, tive que dizer que sim. - Eu vi logo que não estava enganado. Continuava sem o conhecer e só o reconheci quando me falou na sua terra de origem, onde eu tinha iniciado a minha carreira profissional e permaneci pouco mais de dois anos e meio. Já não nos víamos há cerca de vinte e cinco anos! Foi um agradável encontro que deu para falarmos umas horas.

Já nesta terra, fui procurado, no meu posto de trabalho, por um indivíduo que me detectou pelo nome como sendo seu conterrâneo e que me conhecia.

[Rua Padre Manuel, Vilgateira. Des. de JV]
Vivi cerca de quatro anos na minha freguesia natal e da minha juventude apenas conhecia três ou quatro que foram meus contemporâneos no liceu de Santarém e depois uns tantos quando já éramos homens mais ou menos feitos.

Depois da explicação acabei por detectar o conterrâneo que conheci, ainda éramos bem jovens e numa ou outra ida de férias.

Esse varzeense há muito instalado nesta terra e que era da área da restauração, montou aqui aquilo que me disseram ter sido o primeiro restaurante que tivesse merecido esse nome e que era muitíssimo bem frequentado.

Quando o conheci, já não era assim ainda que se notassem uns resquícios que o faziam diferente.

O conterrâneo, que me disseram ter sido um bom profissional e já numa situação difícil acabou por falecer ficando sepultado no cemitério local.

No decorrer dos anos fui identificando, de uma maneira geral, de passagem, visto isto ser uma terra de turismo, mais um ou outro conhecido ou amigo, principalmente da cidade de Santarém.

Os anos passaram-se e a aposentação já chegou há doze anos pelo que tenho muitíssimo menos contacto com este movimento de pessoas.

Um dia destes tive necessidade de me deslocar a uma instituição bancária procurando a substituição de um documento. Entrei, tirei a senha e sentei-me esperando pela minha vez.

Se conheço ainda alguns funcionários ali a trabalhar e reciprocamente sou conhecido por eles, outros, não faço a mínima ideia de quem sejam e de onde vieram, se for esse o caso.

A minha vez estava a chegar, mas antes que isso acontecesse, ouço uma voz afável, por detrás do balcão e com um sorriso de canto a canto, chamar:- Sr. Fulano (empregou o nome próprio) que por aqui poucos conhecem e se o conhecem não o usam. Fiquei realmente um tanto confuso e dirigi-me a quem chamava pelo meu nome. Olhei para a pessoa, sem a reconhecer e ouvi dizer-lhe que me conheceu logo e que agora estava a trabalhar ali e eu continuava na mesma. - Então, não me conhece? Sou filha de Fulana. Caí em mim e disse-lhe: - Então não havia de a conhecer!? É muito parecida com a sua mãe e com a avó.

[Velho comércio na aldeia de Vilgateira. Foto JV]

Fez questão de me atender e como não podia deixar de ser, além de outras coisas, perguntou pelo meu filho. É que esta minha conterrânea, dos três a última a chegar, é da idade de meu filho com uma diferença de poucos dias e com quem brincou algumas vezes quando me deslocava de visita a meus pais, à aldeia onde nasci.

Prometi-lhe que o levaria lá para se reconhecerem.

Que seja feliz na sua nova terra.

Três varzeenses, da mesma localidade que razões profissionais trouxeram à hoje cidade de Peniche.

Aqui está a razão deste TEMA VARZEENSE e do seu título.

sábado, 16 de outubro de 2010

Um artesão

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 2 DE JUNHO DE 2006)

Não vou transmitir qualquer novidade aos leitores do Correio do Ribatejo pois o nosso dinâmico digno e jovem director realizou oportuna reportagem dando a conhecer um homem e a sua habilidade de mãos que resolveu após a sua reforma dedicar os tempos livres à confecção, inteiramente manual de objectos, utensílios e veículos de tracção animal e hoje quase todos desaparecidos, que fizeram parte das suas vivências, ocorridas na freguesia da Várzea, onde nasceu, mais propriamente na aldeia de Aramanha.

Jacinto António Aranha Ferreira, hoje com sessenta e cinco anos e de quem sempre tivemos a melhor impressão, e cujos pais foram trabalhadores rurais, viveu bem de perto as actividades agrícolas onde seus pais participavam mourejando, garantindo o seu sustento e o de dois filhos.

Fez a então designada 4ª classe ou o exame do 2º grau de Instrução Primária, na altura e durante muitos anos a escolaridade obrigatória, na escola de Perofilho sendo aluno da Prof. D. Gilhermina Moura a quem faz ainda hoje grandes elogios.

Como acontece a todos os pais, também os seus procuraram dar-lhe uma vida melhor e nesse sentido e por volta dos catorze anos conseguiram que entrasse como aprendiz numa oficina de automóveis onde nada recebia, pelo contrário, tinha de arranjar os macacos. Cabia aos seus pais o sustento e o vestir e calçar que faziam com muito sacrifício como nos contou. Primeiramente a deslocação à cidade era a pé, tendo evoluído com o decorrer dos anos.

Mandaram-no para junto de um “bate-chapas” e foi assim que aprendeu a profissão sem a ter escolhido. Se tivesse ido para junto de um pintor, seria pintor – não havia direito a escolher!

Ainda que não me o tivesse dito, certamente aprendeu a profissão com relativa facilidade e tornou-se num bom mestre.

Procurando melhores salários acaba por ingressar numa fábrica do ramo automóvel onde se deslocava diariamente, apesar da distância considerável, nunca deixando de viver na terra que o viu nascer e onde construiu habitação para a família.

A sua tendência para o trabalho de mãos vem de longe pois em criança construía os seus próprios brinquedos, fazia gaiolas para pássaros e gateava as louças de barro que se partiam! Já pai e para satisfazer um filho, faz-lhe uma carroça para brincar.

O artesanato, cada vez com menos cultores, caminha para a extinção e muitas vezes impingem-nos coisas como artesanato e que pouco ou nada têm a ver com isso. Vendem-nos pratos, vasos e mais peças que são feitas com moldes e que praticamente são iguais umas às outras, outras limitam-se a umas pequenas pinturas feitas nessas peças de fábrica!

Existem ainda alguns artesãos que fazem da sua arte o seu meio de vida, como os que trabalham em verga, cana e outros vegetais, dando forma a variadíssimas peças, muitas delas que funcionam como objectos decorativos. Ainda aparecem alguns funileiros, correeiros, manufactores de calçado, etc.

Jacinto Ferreira é um artesão que realiza os seus trabalhos não para vender mas para ocupar agora os seus tempos livres, numa satisfação pessoal e tendo o intuito de mostrar aos jovens de hoje como as coisas eram e se passavam no seu tempo.

Uma peça hoje, outra amanhã começaram a constituir o puzzle do Ciclo do Pão, já que a freguesia onde nasceu e sempre viveu tinha como actividade principal a agricultura, nomeadamente a cerealicultura (trigo) e o olivicultura.

Aranha Ferreira mostra a quem o desejar, na aldeia onde nasceu e vive, as cerva de sete dezenas de peças que construiu com muito carinho e amor, explicando o seu funcionamento, principalmente destinado aos jovens que não conheceram esse trabalho.

Começando pela preparação da terra, apresenta um arado e mais objectos pertencentes a essa primeira fase do Ciclo, depois a sementeira onde tudo é referido com minúcia e precisão e não faltando o homem que lança com mestria a semente à terra tirada do saco de linhagem.

Depois da monda, bem documentada com a apresentação das várias ferramentas utilizadas, aparece a colheita com a ceifa e aqui o artesão apresenta uma ceifeira trabalhando que se apresenta em estado de gravidez e isto em homenagem a sua vez que ainda ceifou no dia em que ele nasceu. A preparação dos molhos de trigo igualmente está magnificamente documentada tal como o seu acarreto nos carros de bois que os conduziam às eiras onde se efectuava a debulha representada, além do mais, por todos os utensílios: pás, forquilhas, crivos, etc.

Depois de ensacado, lá seguia o caminho dos moinhos (igualmente representado) e azenhas para ser transformado em farinha.



Não podia faltar o forno com os objectos inerentes à sua actividade (pá, rodo, etc.) Podia ter ficado por aqui o artista mas não o quis. Para remate, podemos observar o interior de uma casa da Várzea onde à volta da mesa a família se junta para a ceia, não faltando na mesa posta, o produto final de tudo isto, o PÃO.

Neste interior da casa, lembra-nos pelo seu tipismo e existência da grade com tachos, panelas cafeteiras e frigideiras, entre outros utensílios. Ao canto, a chaminé.

É apresentado também um conjunto de veículos de tracção animal constituído por carroças e charretes e onde o artesão faz a diferença entre o lavrador e o fazendeiro. São peças magnificas com um rigor extremo onde tudo funciona, rodas travões e tudo o mais que é móvel, tudo feito à escala visual o que muito me admirou. As rodas são mesmo enraiadas! Até as figuras naif lhe dão uma nota especial!

O pormenor é surpreendente! Os arreios dos animais são mesmo em cabedal!

O artesão utilizou madeira, ferro, chapa, cabedal, arame e cortiça na confecção de todas estas peças dignas de serem vistas.



Aqui só se faz uma leve referência, tentando aguçar o espírito do leitor interessado. Só visto, não se consegue contar.

Pensamos que podemos dizer que este minuciosamente representado CICLO DO PÃO estará em exposição no pavilhão da Junta de Freguesia da Várzea patente na próxima FEIRA NACIONAL DE AGRICULTURA.

Senhor Jacinto Aranha Ferreira, pode orgulhar-se do trabalho que realizou que além de tudo o mais, é uma lição viva para os vindouros, honra-o a si e à Freguesia onde nasceu.

Aqui lhe deixo mais uma vez, como varzeense, o meu abraço de felicitações e agradecimento pelo que realizou em prol da freguesia onde nascemos.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As caqueiradas

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 9 DE JUNHO DE 2005)

Os costumes, usos e tradições vão-se esboroando no decorrer do tempo!

O que fica ? A memória de alguns dos mais idosos que inexoravelmente vai desaparecendo e quando muito se transmite aos filhos, numa ou duas gerações. O que permanecerá mais tempo, será o que fica escrito aqui e ali, em jornais, revistas ou livros e que não desaparece com facilidade.

A imprensa regional tem um papel importantíssimo – é pena que por vezes nos tenhamos que deslocar a bibliotecas distantes para consultar um jornal pois as Câmaras Municipais, em grande número, descura estas informações extremamente importantes para formar a história de um concelho, de uma freguesia, de uma pequena localidade !

O nosso velhinho CORREIO DO RIBATEJO, é um manancial de informação!

Este pequeno intróito procura justificar a razão deste pequeno escrito.

Haverá na freguesia da Várzea quem tenha praticado o uso ou costume das CAQUEIRADAS? Pensamos que não. Poderá haver quando muito, quem se lembre de ouvir falar a seus pais e avós e isto no caso de terem boa memória, o que não acontece a todos, como sabem.

Tendo nascido comigo o gosto por estas coisas e privilegiando o contacto familiar, nomeadamente com aqueles que me trouxeram ao Mundo, tudo era pretexto para falar e saber coisas passadas.

Dos quase sessenta assuntos que aqui tenho abordado sobre a freguesia da Várzea, se alguns puderam vir a público foi porque o conhecimento sobre eles foi-nos transmitido por minha mãe que além do espírito aberto que possuía, tinha poder de observação e ... boa memória.

Mais uma vez, assim vai acontecer.

Na altura do carnaval e devido a algum alvoroço que em minha casa sempre havia, minha mãe recordava os seus tempos que já não tinham nada a ver com o dos filhos. Ia contando com grande realismo e eu ia aproveitando para fazer perguntas sobre isto e aquilo. Estava atento e como gostava do assunto fixava com alguma facilidade.

Ora, uma das coisas que minha mãe contava, quando era pequenota, talvez por volta de 1914, era o de ir deitar CAQUEIRADAS com as irmãs e alguma vizinha, a uma velhota de que dizia o nome e já não me recordo, que morava numa estreita travessa que ficava nas traseiras da Capela de Stº António, por onde nunca passei e não sei se ainda existe.

[Vilgateira, Rua Padre Manuel Escabelado. Foto JV, 2010]

A mãe, minha avó, não era muito para estas coisas mas a verdade é que ia consentindo anualmente a brincadeira carnavalesca.

Na época própria, no Entrudo, num dia combinado e ao cair da noite juntavam-se as pequenitas que traziam escondidos quartas, panelas ou qualquer outro objecto de barro que durante o ano anterior se tinha partido e não dava conserto já que, nesses tempos, mandavam-se gatear muitas peças partidas. Ainda não havia as colas sintéticas que hoje existem!

Eufóricas mas receosas, lá se organizavam cabendo a minha mãe as decisões mais importantes, já que era a mais extrovertida.

O terreno era previamente investigado por alguma das trabalhadoras da casa dando a indicação de que estavam em condições de actuar.

Lá iam embuçadas as pequenitas e zás, objectos jogados para a entrada da porta da velhota de maneira que causassem o maior barulho e número de cacos! Ao ouvir o estrondo e ver a cacaria espalhada, a vítima chegava à porta fazendo ameaças de todo o tipo e vociferando impropérios (minhas estas ... minhas aquelas) aos autores da proeza que, rindo-se, se escapuliam como podiam. A trabalhadora tinha ficado a vigiar a situação para dar a ajuda necessária, se fosse caso disso.

Regressavam a casa satisfeitas com a proeza cometida, recordando como as coisas se tinham passado.

Encontrei costume idêntico no Algarve serrano onde ainda se praticava nos meados do século passado, dentro de moldes semelhantes e a que chamavam TESTADAS.

Até quando se praticaram as CAQUEIRADAS na freguesia da Várzea?

Nunca chegou ao meu conhecimento mais qualquer nota.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

José Manuel Casqueiro, um varzeense de têmpera

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 24 DE SETEMBRO DE 2004)



Varzeense dos nossos dias, José Manuel Rodrigues Casqueiro nasceu a 21 de Julho de 1944 na Quinta do Freixo, freguesia da Várzea, concelho de Santarém e que pertencia a seus pais, Jacinto Falcão Casqueiro e D. Maria Isabel Costa Rodrigues.

Fez o então ensino primário na escola da sua freguesia natal e o chamado 1º ciclo no Liceu Nacional de Santarém, onde logo se mostrou um “caloiro” irreverente. Não esperou pelo 2º ciclo, para ingressar na Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, como fez seu irmão e ingressou logo, curso que concluiu em 1971.

Era assim engenheiro técnico agrário de formação, tendo sido criado num ambiente agrícola, como era a casa de seus pais.

Exerceu funções no Centro Nacional de Fruticultura, em Alcobaça.

Cumpre o serviço militar, ingressando na Escola Prática de Cavalaria e é mobilizado para a Guiné, onde foi ferido.

Quando já trabalhava na Brigada Técnica de Santarém em 1975, é afastado dessas funções.

Bateu-se pelos direitos dos agricultores contra a “Reforma Agrária” e a hegemonia das forças políticas da esquerda radical, liderando ou participando em movimentos de contestação dos agricultores às políticas agrárias de que é exemplo marcante a agitação em Rio Maior, por ocasião do 25 de Novembro de 1975.

A sua acção veio a impedir os objectivos de ocupação de muitas propriedades rústicas.

Participa activamente na fundação da CAP (Confederação dos Agricultores Portugueses) desempenhando o cargo de secretário-geral durante vinte e quatro anos, demonstrando firmeza, determinação, frontalidade e coragem que o tornou uma figura pública conhecida em todo o País.

Homem de centro-direita, foi eleito deputado à Assembleia da República, como independente, pela AD e pelo PSD, mas nunca pelo círculo eleitoral da sua região natal.

Figura controversa, José Manuel Casqueiro sempre afirmou com clareza e frontalidade os seus pontos de vista gerando naturalmente defensores e opositores. Há quem pense que nessas alturas, para se ser ministro da agricultura, tinha que se merecer o aval de José Casqueiro!

Foi vice-presidente da Feira Nacional da Agricultura e depois presidente do conselho de administração do CNEMA (Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas) e tendo tido acção na promoção da 1ª Feira Nacional do Toiro.

Exerceu igualmente o lugar de presidente da Cooperativa dos Produtores Agrícolas de Santarém, desempenhando ultimamente, em representação da Associação dos Produtores Agrícolas da região de Rio Maior a presidência da Federação dos Produtores Florestais de Portugal.

Católico praticante, na juventude foi dirigente da Juventude Agrária Católica.

Dividia o seu tempo entre o Brasil, onde casou pela segunda vez e dirigia uma empresa de exportação de produtos de artesanato e Portugal.

Vítima de ataque cardíaco, faleceu no Brasil no dia 25 de Setembro de 2003, com cinquenta e nove anos.

O nosso conterrâneo, com quem lidámos na juventude, foi sempre um “brigão”, no bom sentido da palavra. Foi-o na juventude e pela vida fora.

Estou a vê-lo nas jogatanas de futebol, baixo e já entroncada, a lutar com fibra e raça com os “calmeirões” defensivos!

Era assim o José Manuel Rodrigues Casqueiro!

É esta a nossa pequena homenagem, na passagem do primeiro aniversário do seu falecimento.


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A Freguesia da Várzea (do concelho de Santarém)
- Achegas para uma monografia
-1990 - José Varzeano (policopiado)

Expresso Regiões de 8 de Junho de 1985

Jornal “O Ribatejo” de 2 de Outubro de 2003

Correio do Ribatejo, 3 de Outubro de 2003.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Cónego Joaquim Augusto, professor e pedagogo

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 15.FEVEREIRO DE.2002)



Nasceu no lugar da Fonte de Vilgateira, freguesia da Várzea, no dia 11 de Abril de 1875, sendo filho de Francisco Augusto e de D. Maria Augusto.

Seguindo a vida eclesiástica, concluiu os seus estudos em Roma, onde disse a 1ª Missa no dia 10 de Abril de 1898, por isso com apenas vinte e três anos.

É no campo do ensino que mais se destacou, dando aulas no liceu de Santarém, onde leccionou normalmente a disciplina de Francês, no Seminário da cidade e no Colégio de Santarém, estabelecimento de ensino muito conceituado na época e onde exerceu o lugar de director.

Entre os muitos alunos que passaram por este estabelecimento de ensino, contava-se Francisco Câncio, originário do concelho de Vila Franca de Xira que veio a deixar uma vasta obra publicada sobre o Ribatejo, no campo histórico e etnográfico.

Segundo ele, o Dr. Joaquim Augusto era um homem que conseguia ser professor e educador. Bondoso, não deixava contudo de ser disciplinador.

O professor frequentava frequentemente a sua mãe que vivia no lugar da Fonte, fazendo o trajecto a pé, já que nessa altura não existiam os meus de transporte de hoje e as estradas não passavam de umas simples carreteiras com lama no Inverno e grande poeirada no Verão.

Convidava, levando consigo alguns alunos que assim passavam o domingo na Várzea; era o que acontecia com o Dr. Francisco Câncio.

O Cónego Joaquim Augusto pertenceu à Comissão de Salvação dos Monumentos Antigos de Santarém, que foi fundada em 1916 e cuja actividade se baseava na defesa e salvaguarda do património escalabitano. Em 1934 era mesmo o seu presidente, sendo vogais, Augusto César de Vasconcelos e Laurentino Veríssimo.

Além desta actividade, o professor e pedagogo prestou a sua valiosa colaboração à Santa Casa da Misericórdia de Santarém, fazendo parte, durante vários anos, da sua Mesa.

Nestes termos, é representante, entre outros, da mesma, no 1º Congresso das Misericórdias, que teve lugar em 16 de Março de 1924, na velha cidade fronteiriça de Elvas.

Lembro-me muito bem da figura do Cónego Joaquim Augusto. Era um homem alto e magro, um pouco já curvado e nos últimos anos com algumas dificuldades de visão. Sempre de batina e cabeção, como a época exigia.
Sempre o conheci vivendo no Bairro dos combatentes, juntamente com o sobrinho, Fil Augusto Fontes, nosso prezado e saudoso amigo desaparecido em 1977.

O Senhor Cónego Augusto, que foi professor de uma nossa familiar, quando esta o cumprimentava, já no ocaso da vida, respondia-lhe sempre pronunciando o seu nome pois conhecia-lhe sempre a voz (que dizem nunca mudar o seu timbre), desde o tempo de menina.

Faleceu no dia 12 de Novembro de 1954 esta destacada Figura Varzeense que foi sepultado no cemitério dos Capuchos, em Santarém.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O pau

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 9 DE FEVEREIRO DE 2001)


Já se passaram oito anos sobre a publicação do que tinha sido o meu último TEMA VARZEENSE e foram mais de cinquenta!

Considerava então difícil voltar ao assunto devido a vários factores que para o caso não interessa especificar. Referia a falta de abordagem de muitos assuntos, entre os quais o jogo do pau. Como se poderá pensar, não aconteceu um enriquecimento sobre o assunto, principalmente a nível local e o que conheço, faz parte (ainda) da minha memória e transmitido por minha mãe. É evidente que ainda existem varzeenses que conheceram factos semelhantes aos que irei referir e muito mais daquilo que vou dizer mas... se não ficar escrito irá deturpar-se e perder-se com o decorrer dos anos.

Um PAU, feito a partir de uma vara de madeira rija, era robusto sem ser demasiadamente grosso, com alguma flexibilidade e de madeira que a sua altura chegasse à altura da boca do seu utilizador. Próprio o homem de vida campesina, tomava também o nome de VARAPAU, CACHAPORRA, TIRA-TEIMAS, MARMELEIRO e outros, alguns deles utilizados conforme as circunstâncias.

Fazendo parte da indumentária de muitos homens, funcionava principalmente como arma de defesa de pessoas e animais, havendo mesmo quem tivesse o seu PAU domingueiro que utilizava em alturas especiais. Foi muito utilizado na freguesia da Várzea e mesmo em todo o “Bairro”.

Muitas vezes feito de marmeleiro, daí uma das designações, obedecia a um tratamento que não sei especificar com rigor mas que passava pela época própria da colheita, escolha, vara aprumada não muito grossa e com muitos nós.

Além do marmeleiro, arbusto vulgar na região, utilizava-se igualmente a laranjeira, a oliveira e o buxo.

Passava pelo fogo para largar a “pele”, sofrer enquanto quente qualquer pequena correcção no sentido de ficar mais aprumado, sendo envolvido em cal.

Os nós eram à navalha pacientemente abaulados e alisados. Um PAU sem nós, não tinha qualquer valor. Além da configuração apresentada, a estrutura mostrava-se mais rija e consistente. Todo ele ficava com uma cor amarelada ou acastanhada e penso que era bastantes vezes passado com um pano embebido em azeite no sentido de o alisar e lustrar.

A parte mais grossa, a que tocava no chão, encontrava-se muitas vezes ferrada, isto é, embutiam-lhe pequenas peças de metal, ferro ou chumbo.

Como é de calcular, o pau domingueiro era o mais lustroso, o de melhor porte, o mais elegante e eficiente.

Nas actividades campestres, o PAU era um precioso auxiliar, ajudando a transportar cestos ao ombro, por exemplo e nas mais variadas circunstâncias. De pernas cruzadas, o homem a ele se arrimava para descanso momentâneo. Além disso, os mais destros manejadores tiravam a sua licença de caça e os coelhos tinham que se pôr a... pau!

Na segunda década do século passado, a freguesia da Várzea rondava os dois mil habitantes que se ocupavam quase totalmente na actividade agrícola, tendo como fundo a cerealicultura e a produção de azeite. A actividade era intensa e a deslocação à cidade só tinha lugar em situações muito especiais, sendo as feiras da cidade, do Milagre e da Piedade as alturas preferidas pelas trocas comerciais que havia necessidade de fazer Também as feiras de gado (mercados) tinham os seus cultores mesmo que não tivessem gado para vender ou comprar. Bebiam um copo, apercebiam-se dos negócios (aprendendo) e ficavam com uma ideia dos preços praticados. Se o homem do “Bairro” englobava de uma maneira geral o PAU na sua indumentária , ao que se dedicasse ao gado então constituía uma obrigação. Nessa altura, a junta de bois era o tractos da época e poucos a possuíam para lavrar as suas glebas e nos pachorrentos carros, de chiadeira característica, por eles puxados, transportavam os sacos de cereal e a palha que iria alimentar os animais no ano seguinte. Estes pequenos proprietários trabalhavam para os outros à jorna, fazendo os mesmos serviços.

A vida de então fazia-se na própria freguesia e nos dias de descanso, domingos e dias santificados, além do cumprimento das práticas religiosas, os homens juntavam-se nas suas aldeias ou vizinhas, nos estabelecimentos comerciais que eram mistos e onde bebericavam copos de vinho ou de aguardente.

Ou por copito a mais ou por qualquer outro motivo, por vezes, desenvolviam-se zaragatas e como os varapaus estavam sempre presentes, não era raro aparecerem cabeças partidas, suturadas no consultório do médico que na altura exercia clínica na freguesia.

Numa ocasião, por volta de 1926, um dos homens mais temidos pelo manejo do PAU, foi rodeado por opositores que só assim o conseguiram vencer e mesmo nessa situação, não era fácil. O médico encontrava-se em Lisboa onde se tinha deslocado acompanhando um doente, naquele tempo era assim. Chegado o sinistrado, de cabeça aberta e informado da ausência do clínico, não arredou pé solicitando à filha do médico que normalmente o auxiliava nestas situações, que pusesse mãos à obra. Meia hesitante, acaba por aceder e inicia o trabalho dentro das suas limitações.

O valente varzeense, mordendo num lenço para aguentar a dor, e dando coragem à pseudo-enfermeira, ia dizendo:- cosa, cosa ... e os pontos lá iam saindo ! Entretanto, teve de largar o doente para acudir ao namorado que tinha desmaiado ao assistir àquele trabalho!
Florindo da Costa Paulo, o varzeense de que estamos falando e que conheci relativamente bem, era um homem de rija têmpera. De figura meã, mas bem entroncado, as suas mãos calejadas, funcionavam como tenazes. Tez queimada pelo sol, na face arredondada saltavam grandes e vivos olhos e chamavam a atenção, a forte barba, em forma de matacões.

Vestindo à homem do “Bairro”, nunca dispensou o varapau, que o acompanhava para todo o lado, mesmo no ocaso da vida.

Outro episódio que a minha memória ainda não desvaneceu, é o seguinte: Sendo consta, devido a um namoro mal sucedido, os rapazes de uma freguesia contígua, receavam vir aos bailes de Vilgateira, pelo que deixaram de os frequentar até que um dia e por que o período já ia longo, um grupo resolveu pôr cobro à situação e acompanhados dos seus varapaus, apresentaram-se no baile onde dançaram até altas horas, como era hábito, decorrendo tudo dentro da normalidade.

Quando o baile estava prestes a terminar, os rapazes da aldeia que entretanto se tinham organizado, desapareceram como por encanto.



O grupo “invasor” ao regressar à sua aldeia foi surpreendido pelos “ofendidos”, tendo-se desenrolado grande contenda, com enorme alarido e as consequências esperadas.

Consta-me que se as relações eram más, ficaram muito piores e durante muitos anos não houve casamentos entre habitantes das duas aldeias.

Na minha juventude e em férias, desloquei-me algumas vezes a tal aldeia, a pé, com um ou dois amigos e se não sentíamos hostilidade, havia pelo menos desconfiança.

Anos depois, tudo estava diferente e hoje, poucos se lembrarão destes desaguisados.

O manejo do pau requeria muito treino e habilidade, havendo regras como em qualquer outro jogo que os contendores de uma maneira geral respeitavam.

Em Portugal conheceram-se três escolas, a Galega ao norte, a do Ribatejo e a de Lisboa.

Além do já referido, conheci outro bom jogador de pau que se chamava Pedro Ferreira e faleceu aos quarenta e nove anos. Apesar da grave doença que o vitimou, via-o sempre abordoado ao seu varapau.

É muito pouco o que fica sobre o assunto que abordei, mas se algum jovem varzeense ler estas linhas, certamente que ficará surpreendido pois nada disto conhecia.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Dr. Miguel d`Ascenção, médico e democrata

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 21 DE FEVEREIRO DE 1992)
[Aos 46 anos]

Nasceu na cidade de Évora a 26 de Maio de 1880.

Após o curso liceal, feito em Portalegre, dedica-se ao ensino particular em Estremoz, onde casa bem jovem.

Não se libertando da ideia de ser médico, resolve abalar para Lisboa onde se matricula na Escola Médica.

Fá-lo, afirmando à mulher que, ou era médico ou dava um tiro na cabeça.

Sem dispor de suficientes apoios monetários familiares, inicia uma vida cheia de dificuldades; estuda quando pode nos livros dos colegas e dá explicações para manter a família. Conta sempre com a solidariedade dos colegas, um grupo dos quais retirava da sua mesada uma quota para o colega que dela não dispunha.

O seu estudo não podia ser organizado, havia primeiro que angariar como podia o sustento da família. Só depois para ele se virava e mesmo assim não só o podia fazer quando lhe emprestavam os livros.

[Em jovem]
Nos primeiros anos alguns colegas, sentindo a sua falta de preparação, perguntando-lhe se sempre ia fazer exame ao que ele respondia que não tinha outra alternativa. Com grande capacidade de trabalho e inteligência, em pouco tempo punha as matérias em dia e obtinha êxito. Para o fim, quando algum fazia a mesma observação, ouvia-se logo outros dizerem:- Tomaras tu passar com a nota que vai obter. E assim era.

Apesar de tantas dificuldades, consegue vencer, licenciando-se em medicina sem perder qualquer ano.


Inicia o exercício das suas funções na Vila de Veiros, concelho de Estremoz, mas por sugestão do seu amigo, Guerra Semedo, farmacêutico em Santarém, vem exercer funções para o partido médico que tinha sede em Vilgateira e abrangia as freguesias de Várzea, Romeira, Azóia de Cima, Abitureiras e Azóia de Baixo, vago pela saída do Dr. Alberto de Sousa.

A primeira receita que encontrámos registada no livro competente da Farmácia Mendes (1), é passada em 24 de Janeiro de 1914 para aquele que veio a ser seu amigo e compadre, António Luiz Jacinto, proprietário e negociante.

Foi extremamente proveitosa a sua abnegada acção durante a epidemia “pneumónica”, trabalhando de dia e de noite.

Hábil parteiro, era frequentemente chamado para actuar em situações complicadas, em locais distantes para os meios de comunicação da época. Improvisava a “marquesa” para poder actuar, mandando tirar uma porta que colocava sobre bancos.

Causou polémica os tratamentos que realizou, com êxito, pelo método do Dr. Assuero, numa sala do antigo Hotel Luzitano, em Santarém.

De um recorte incompleto de jornal (2) que nos chegou às mãos, transcrevemos:- “ A aglomeração de doentes que desejavam ser tratados era tal que foi necessário distribuir, a cada um, um bilhete de entrada pela respectiva ordem numérica.

[Doente com a muleta às costas]
Foi tratada em primeiro lugar, uma pobre mulher de nome Júlia da Graça, do lugar do Grainho, 51 anos, e que há mais de vinte se achava tolhida com reumatismo gotoso. Submetida ao tratamento e com enorme pasmo dos pre3sentes, recuperou imediatamente as suas forças. Seguiram-se Justina da Conceição, de 19 anos que sofrendo de igual doença ficou também curada; Manuel Fitas, taberneiro, 60 anos, paralisia do braço e perna, curado; Manuel Joaquim Pereira Colaço (cuja fotografia faz parte do recorte), de 63 anos, paralisia nas pernas há mais de quinze e que após o tratamento pôs as muletas às costas; Felismina Ribeiro, que há mais de dois anos se achava atrofiada pelo reumatismo e que, ao ver-se curada, chorando, exclamava:- Tanta vez que eu fui a Fátima e nem lá consegui curar-me!; Josefina Mendes, surdez, cura rápida; Manuel da Silva, de 68 anos, reumatismo, curado; João Galinha, 75 anos e há oito com paralisia numa das pernas abandonou logo a muleta; Luís Fernandes, 13 anos, gaguez, cura rápida. Vicente Rodera que ao sentir-se curado se abraçou ao médico a chorar; Lucas dos Santos, porteiro do Hospital desta cidade, paralítico de uma perna, há 18 anos, curado.”

A continuação da notícia já não a temos e que devia enumerar mais casos.

Limitamo-nos a transcrever a notícia sem comentários.


Republicano convicto, de sempre, pautou a sua vida por um ideal – a democracia – nunca dele abdicando, apesar das perseguições de todo o tipo que sofreu. Nunca negou o seu voto contra o chamado Estado Novo.

Afastado da função pública que desempenhava, o povo, na sua maioria deu-lhe o seu apoio, preferindo-o como médico e auxiliando-o de várias formas para a sua fixação-

Foi na altura criado um regime de avença anual que se chamava pagar “o partido”. Um alqueire de trigo por pessoa, dava direito a consultar o médico no seu consultório. As chamadas eram pagas à parte.



Fundou com o seu amigo António Luiz Jacinto, em 1917(?) a Sociedade Recreativa Vilgateirense, a que já nos referimos.

Fez parte da Junta de Freguesia (1919) e de 20.10.1920 a 19.07.1921, da Comissão Executiva da Junta Geral do Distrito. (3)

Exerce funções na freguesia durante mais de vinte anos mas por volta de meados da década de trinta, por motivos familiares, fixa-se em Santarém, onde continua a sua actividade até poucos dias antes de falecer.

A quando do seu passamento, ocorrido em 13 de Junho de 1965, o “Correio do Ribatejo” (4) refere que foi professor da extinta escola (superior) e “era um grande protector dos necessitados”.

“A República”, que foi sempre o seu jornal, refere-o como “dedicado republicano exercendo com dedicação a sua profissão e era estimado pelo seu porte de extrema modéstia. (5)

Esteve sempre convicto de que as coisas mudariam e que a democracia voltaria para ficar. Assim aconteceu no dia 25 de Abril de 1974.

Foi um apaixonado pela filatelia.

Que seja do meu conhecimento só o semanário “A Forja” (6) lembrou a sua figura, dedicando-lhe as seguintes palavras:- “... o nome do médico Dr. Ascenção, muito embora tivesse nascido em Estremoz (7), foi sempre um amigo dedicado desta freguesia e das circunvizinhas. O seu liberalismo, sempre em ritmo crescente, ainda hoje é recordado pelos povos desta área, onde prestou valiosos serviços às populações.
Tendo sido perseguido pela polícia política, os seus ideais nunca sofreram qualquer alteração.
Até à sua morte o seu sonho esteve sempre ligado à liberdade e ao amor Pátrio”.

Repousa no cemitério dos Capuchos, tendo exercido a medicina cerca de sessenta anos.

Nasceu e morreu pobre.

_______________________________

NOTAS

(1)–Livro que consultámos por deferência do seu proprietário, António Elói Godinho.
(2)–Presumimos tratar-se do jornal diário “O Século”.
(3)–"Junta Geral do Distrito", Abel da Silva, in Boletim da Junta Geral do Distrito, 1936, p 206.
(4)–Número de 19 de Junho de 1965.
(5)–Número de 14 de Junho de 1965.
(6)–Número de 21 de Junho de 1979, “A freguesia da Várzea (Vilgateira) no presente e no passado – Núcleo de Santarém.
(7)-Por lapso é indicada esta cidade, talvez por nela ter vivido alguns anos e onde lhe nasceram três filhas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O povoamento e a população

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 14 DE FEVEREIRO DE 1992)

[Antiga rua de Vilgateira. Desenho de JV]

A passagem dos Romanos pela freguesia, parece estar provada. Assim o indicam as sepulturas descobertas na Quinta da Granja e uma ponte em Perofilho também é dada como obra daquele povo. (1)

Admite-se também a hipótese do topónimo Aramanha, aproximável de Sarmenha, possa ter a mesma origem. (2)

Quanto aos árabes, Mafarra, nome de uma quinta da freguesia é, segundo Pinho Leal (3) corrupção do substantivo árabe”mahafarra”, que significa cova. E efectivamente esta quinta está situada numa baixa.

Pré-nacional parece ser o topónimo Vilgateira, com “villa” no sentido territorial (rústico).

Depois da conquista de Santarém e Alcanede, deu-se o repovoamento com incidência na colonização interna. Assim, Alcobacinha e Coimbrã, denunciam importação trazida por repovoadores.

Vários topónimos medievais denunciam propriedades monásticas e outras. (2)

Temos assim prova do povoamento pré-nacional sob a égide arábica e de repovoamento nacional, após a conquista, acompanhada pela cristianização revelada pelos velhos cultos de São Martinho e São Miguel.

***

O varzeense não abandona com facilidade o torrão natal e mesmo quando iniciou a fuga à vida dura do campo, não mudou a residência, preferindo deslocar-se diariamente ao local de trabalho, regressando à sua aldeia, ao seu casal, onde ocupa todos os tempos livres.

No período áureo, poucos foram os varzeenses que procuraram os francos ou marcos, contrariamente ao que aconteceu noutras zonas do país que ficaram despovoadas.

A população não apresenta índices significativos de oscilação.

De uma maneira geral os casamentos dão-se entre indivíduos da própria freguesia ou das circunvizinhas e a saída de uns é compensada com a entrada de outros.

Aquando da apanha da azeitona, há anos, deslocavam-se grupos de trabalhadores de zonas mais afastadas, ao norte, a que chamavam serranhos e alguns ficaram por cá, principalmente do sexo feminino, constituindo família.

A população da Várzea tem tendência para aumentar e nos últimoa anos, como já dissemos, começou a esboçar-se o sentido de dormitório da cidade.

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NOTAS

(1)-Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40, p. 578.
(2)–Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(3)–Portugal Antigo e Moderno, A.S. Barbosa de Pinho Leal.



(a)–Corografia Portuguesa, Padre António Carvalho Costa.
(b)–Geografia Histórica de Todos os Estados Soberanos da Europa, D. Luiz Caetano de Lima, 1736, p. 215.
(c)–Portugal Sacro-Profano, Comp. E Ord. Por Paulo Dias de Niza, Lisboa, 1768.
(d)-Estatística Paroquial.
(e)-Recenseamento Geral da População, Tomo I, Vol. I, INE.
(f)-Corografia Portuguesa, (2ª Edição) Padre António de Carvalho Costa.
(g)-Dicionário Corográfico, Américo Costa, 1926.
(h)-Directório Prático a todos os que promovem negócios nas Repartições e Tribunais Eclesiásticos, Joaquim José Ribeiro, 1878 (?).
(i)-Portugal Antigo e Moderno, Pinho Leal.
(j)-Dicionário “Portugal”, Edição Romano Torres, Esteves Cardoso e Guilherme Rodrigues.
(m)-Censo. Compreende 21 de Pêro Filho, 16 de Grainho, 23 de Vilgateira e 12 de Aldeia de Alcobaça (actual Alcobacinha) e Póvoa do Baixinho.
(n)–Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Os meios de vida

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 7 DE FEVEREIRO DE 1991)



Pelo que dissemos em temas anteriores, não podia deixar de ter sido a agricultura a principal actividade dos varzeenses, ainda que esteja passando por um período de quase abandono.

Cereais e azeite são ainda apontados como principais produções agrícolas. A cerealicultura era já importante na Idade Média na zona do Bairro, fornecedora principal dos celeiros de Santarém.

No século XIV dá-se a diminuição da vinha em benefício do olival, pomares e terras de pão. Os famosos olivais de Santarém já estavam verdadeiramente definidos nos finais do século XV. (1)

Além do trigo, nas terras mais pobres, semeia-se a cevada ou a aveia. Nas várzeas e terrenos mais frescos, o milho. Sementeiras também de fava e grão.

Pinho Leal (2) no último quartel do século XIX, além das vinhas refere a existência de pomares de excelentes frutos.

“A agricultura é feita nas grandes propriedades por processos pouco perfeitos mas não muito primitivos. Quase não há terrenos incultos”. É assim que informa o Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40.



As lavras feitas com juntas de bois, as mondas e as ceifas pelas mulheres e a debulha pelos animais, já desapareceram tanto na grande como na pequena propriedade, pois são trabalhos efectuados por processos actualizados com maquinaria que vai do simples tractor à debulhadora-enfardadeira.

Consta ter sido o varzeense Virgílio Elói, comerciante do ramos que o primeiro ou dos primeiros tractores para a freguesia, logo seguido pelos principais lavradores que substituíram assim as várias juntas de bois que possuíam para os seus trabalhos.

Pelos finais da década de cinquenta, alguns pequenos proprietários ainda possuíam a sua junta de bois para utilizarem nas suas terras e para trabalhar à jeira.

Já não foram estes agricultores que adquiriram tractores, mas sim gente mais nova e com outras concepções de trabalho.

Por estas alturas, um agricultor nosso vizinho, não consentia que tractores lavrassem nas suas propriedades, visto lhe destruírem o olival, uma vez que as raízes das árvores, segundo a sua opinião, ficavam afectadas.

Os velhos olivedos que davam trabalho a tanta gente de fora e a que já nos referimos em tema próprio, têm de ser reconvertidos a fim de se tornarem rendíveis.

Ao declínio da cultura do trigo e ao semi-abandono do olival, seguiu-se uma curta expansão da fruticultura com a plantação de pomares, principalmente macieiras, pereiras e uvas de mesa, utilizando novas técnicas. Não tardou também o semi-abandono.

Os varzeenses possuem bons hortejos junto dos vários cursos de água em que a freguesia é pródiga.

***
A pastorícia a nível de rebanho parece nunca ter sido de grande agrado deste povo, ainda que nas maiores quintas existissem sempre rebanhos, não esquecendo os da Mafarra, a que já nos referimos. Um ou outro, nunca deu expressão significativa a este tipo de actividade.



Típico e significativo é a criação daquilo a que se chama “o carneiro de porta”.

Actividade que apesar das transformações havidas, nunca abandonou esta gente e tem por base famílias de recursos modestos.

Compra-se um borrego nos mercados de Santarém que se cria o mais próximo possível da habitação – daí o nome – ficando assim debaixo de olho.

Uns, prendem-nos pelo pescoço, outros pelo pé e movimentam-se no círculo que a corda, presa por estaca de ferro ou de madeira, lhes permite.

Quem não tem terrenos à porta, vai amarrá-lo onde pode e a protecção é maior. Por questões de pastagem, climáticas e outras, por vezes mudam-se de sítio no mesmo dia.

Ao cair da noite lá vão buscá-los pois há necessidade de os proteger. É trabalho mais destinado ás mulheres e onde os filhos também ajudam.

Na maior parte dos casos, porque são sós, criam-se bonitos exemplares que muitas vezes são vendidos para abate local.

Com o produto da venda compra-se outro borrego e ainda sobram alguns patacos. Funcionam como um pequeno mealheiro.

Há quem prefira a ovelha ao carneiro, optando pela criação, baseando o lucro nas crias que vendem.

Grande número de varzeenses continuava, ainda há pouco, a criar o seu “carneiro de porta” que em alguns casos são dois ou três.

Outros optam pela criação de gado bovino para abate, em regime estabular.

Normalmente criam um ou dois exemplares, ainda que haja quem o faça em maior número e então começamos a entrar naquilo a que se chama pecuária.

Belíssimos exemplares daqui saídos abastecem os mercados vizinhos, quando não levados para centros de consumo mais distantes.

Há também os que se dedicam ao gado bovino mas para a produção de leite e aqui impera, pelas suas qualidades, a raça turina.

Estas explorações estão ligadas de uma maneira geral, a uma rede de recolha diária, a que se chama, “o leite da bilha”.

Já vão aparecendo em diversos locais aramados que possibilitam a pastagem de gado bovino, aparecendo muitos exemplares da raça “charolesa””.

Também o porco goza de interesse do varzeense, criado em pequenas explorações para venda e em exemplares isolados para consumo próprio.

O varzeense sempre que se afasta da agricultura, cai na pecuária, pelo que é uma actividade basilar da freguesia.

A criação de gado originou entre a população conhecimentos que levaram ao aparecimento de negociantes de gado que se deslocavam a mercados e feiras bem distantes.



A propósito diremos que há trinta e dois anos, um “velho amigo” visitou-nos a mais de três centenas de quilómetros de distância, quando se deslocava para una afamada feira no centro do país.

***
Nunca foi zona virada para o comércio e o pouco que tinha lugar, era de natureza agrícola.

Existiam nos principais aglomerados populacionais, estabelecimentos mistos – mercearia, vinhos e riscados.

A Casa Eloy em Vilgateira, teria sido o principal estabelecimento comercial da freguesia. Além de mercearia, vinhos e fazendas, tinha talho, padaria, objectos e produtos dos mais variados ramos.

Em 1882 a Junta de Paróquia”deliberou requerer a criação de uma estação postal no sítio de Vilgateira, pois sendo uma das freguesias mais populosas do concelho fazem-se grandes transacções comerciais e agrícolas e por isso tem muita concorrência”.

Prestava-se a servir gratuitamente de chefe postal, António Galache. (3)

Em 1918 é indicado José Eloy, comerciante, para encarregado da estação postal de Vilgateira. (4)

Pensamos de interesse referir que após a implantação da República procurou-se criar um mercado anual na aldeia de Vilgateira, o que aconteceria no dia 15 de Agosto. A escolha deste dia parece-nos estar relacionada com a Festa de Santo António.

A proposta foi apresentada em 11 de Dezembro de 1910, em sessão de Junta, pelo membro da mesma, Joaquim Eloy. Depois de aprovada foi presente à Comissão Municipal Republicana.

Chegaram a ser oferecidos terrenos para as transacções de gado e madeiras, por parte de José Eloy e de D. Ludovina Angélica da Silva. O “Largo de Sto. António” era reservado para outras transacções, entre as quais, quinquilharias. O proponente informava que se contava com o prometido apoio dos lavradores locais.

A verdade é que o assunto nunca mais foi abordado em sessão de Junta, pelo que não terá obtido a indispensável autorização nem mesmo o apoio generalizado da população.

O velho tipo de comércio, com o decorrer dos anos, sofre naturais transformações e hoje, ainda que se mantenha, tem aspectos diferentes, não restando nenhum ao modo antigo.

As velhas tabernas, quase desapareceram, dando origem aos cafés-bares-cervejarias, mais ou menos actualizados, aparecendo mesmo jogos de tabuleiro e as mercearias, a minimercados.

Além destas actividades, podem-se indicar uma ou outra oficina artesanal sem grande significado.

Sobre a transformação do grão em farinha e da azeitona em azeite, já nos referimos em temas próprios.

É preciso não esquecer que na zona do Alto do Mocho, grande parte pertencente a esta freguesia, estão instaladas várias indústrias de certo gabarito mas que, por enquanto, pouco ou nada dizem à freguesia no aspecto de interligação.

***

Sem indústria, a cerealicultura está quase abandonada, acontecendo o mesmo aos pomares. Os velhos olivais estão na mesma situação. Quem vive e trabalha na freguesia, tem na pecuária a sua maior receita. Mas a grande maioria dos varzeenses que ali vivem, não têm nela a sua principal actividade, deslocando-se por vezes a terras distantes.

Grande parte trabalha na cidade de Santarém e seus arredores, no campo comercial ou industrial, ocupando os vários escalões e muitos em prestação de serviços do sector administrativo.

Nos princípios do século, todos os varzeenses se ocupavam na sua freguesia. Raramente se deslocavam à cidade. Ainda conheci na aldeia de Vilgateira uma velhota que me dizia nunca ter ido a Santarém!

Hoje, além dos reformados, pouca gente válida mantém o seu modo de vida nas suas aldeias. Todos os dias se deslocam a Santarém e outros locais para a sua ocupação, mas após o trabalho regressam à sua aldeia, ao seu casal, às suas vivendas, algumas bem isoladas.

Repetimos o que já escrevemos nestas páginas (5): - A Várzea começou a constituir um dormitório da cidade de Santarém.

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NOTAS

(1) - Santarém Medieval, Maria Ângela V. Rocha Beirante, 1980
(2) – Portugal Antigo e Moderno.
(3) – Acta da Sessão da Junta de Paróquia de 18 de Junho de 1882.
(4) – Acta da Sessão da Junta de Paróquia de 19 de Junho de 1918
(5) – Temas Varzeenses, “O tipo de habitação”, in Correio do Ribatejo de 21 de Junho de 1991.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Os casamentos

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 31 DE JANEIRO DE 1992)



[Igreja Matriz da Várzea antes do restauro. Foto JV]

Além de todos os motivos de interesse que os casamentos encerram, dos espirituais aos materiais, têm sempre dados etnográficos que é interessante conhecer.

Do norte ao sul do país, de região para região, encontramos (ou encontrávamos) mais ou menos pronunciadamente, diferenças, nem sempre situadas na mesma área.

A freguesia da Várzea e mais propriamente, todo o Bairro e até mesmo zonas circunvizinhas, apresentavam um casamento com características bem definidas e que rigorosamente se cumpriam.

Os anos rodaram e essas características, por diversos factores socioeconómicos, começaram a desaparecer. Hoje, pouco ou nada resta.

Pensamos, apesar de tudo, ter interesse para os vindouros saber como decorriam ou pelo menos conhecer os traços fundamentais dos casamentos dos seus avoengos.

***
Os derriços ocorriam a caminho das fontes, nos trabalhos agrícolas e nos últimos tempos nos bailaricos de aldeia, onde as raparigas, sempre com as mães atrás, nunca faltavam, não fossem perder casamento.

Regra geral, os rapazes de uma aldeia iam procurar companheira a aldeias vizinhas.

Nessa época, para haver casamento, era necessário construir casa pois não existia com facilidade habitação para alugar. Era por isso, preocupação dominante do mancebo, conseguir terreno para a edificar.

Algumas vezes provinha da cedência por parte dos pais ou futuros sogros ou outros familiares, quando não oferecido, vendido simbolicamente. É uma das razões, entre outras, da existência de muitas casas isoladas pois na altura não se colocava o problema da energia eléctrica, água ao domicílio e outras infra-estruturas, afinal acabadas de chegar, podendo mesmo dizer-se que são dos nossos dias.

Era por isso o homem que dentro das suas possibilidades tinha de pôr de pé a casa que ia albergar a futura família.

Além das ferramentas necessárias para o trabalho, quase sempre agrícola, levava uma mala com roupa pessoal: calças, camisas, ceroulas, lenços e pouco mais.

[Torre sineira. Foto JV, 2010]Tudo o que era recheio da casa, competia à mulher que, quase desde que nascia, a mãe começava a fazer o enxoval, já que, para uma casa é preciso muita coisa e as despesas são grandes.

Nesses tempos, pouco ou nada se comprava feito. Quase tudo era confeccionado pela mão da mulher que bem nova ia aprendendo com familiares e vizinhas.

Além de estar preparadas para executar todos os trabalhos agrícolas (apanha da azeitona, mondas sachas, ceifas, etc.), era importante que soubesse fazer calças e camisas de trabalho para o marido e filhos, pôr uns fundilhos e remendar com perfeição.

Como já disse, o enxoval era quase todo feito pela mão da jovem que se punha ao despique com as raparigas da sua idade.

Faziam lençóis e almofadas, travesseiros e toalhas. Grande parte da roupa interior. Cobertas para cama, tapetes e almofadas de retalho como já referimos quando tratámos do artesanato. “Naperons” e rendas.

Os pais iam amealhando como podiam para fazer face às despesas da boda; louças, mobílias e o mais necessário.

Há cerca de trinta e cinco anos e em resposta à nossa discordância pela pouca divisão das despesas, a nossa interlocutora, que tinha tido a sorte, no seu dizer, de ter quatro rapazes, justificava: Elas (noivas) vão receber um homem que tem a obrigação de ganhar para elas uma vida inteira!

Era assim que as varzeenses justificavam o uso, o hábito e a tradição.

***
[Um dos últimos casamentos, ao modo antigo, realizado na Várzea. Anos 60 do século passado]

Ao noivo competia dois padrinhos e à noiva uma madrinha que a vestia de branco, véu comprido e ramo natural da flor da laranjeira, se fosse caso disso e estivéssemos na época da floração.

[D. Cecília, uma das últimas cozinheiras de "casamento" e na altura já retirada. Foto JV, 1961]
Há cinquenta anos o noivo vestia de preto ou azul escuro, gravata de tom escuro, camisa branca e sapato preto.

Nos três dias antes do casamento os noivos faziam a “visita” aos padrinhos, levando-lhe uma travessa de arroz doce e meia dúzia de bolos de noivo. Às outras pessoas levavam um prato de arroz doce e dois bolos. A isto, correspondia sempre uma oferta monetária ou qualquer outra por parte de quem era contemplado.

À porta do quarto os noivos eram felicitados pelos convidados que os presenteavam e em troca recebiam bolos de noivo que levavam para suas casas.

A ementa baseava-se em produtos locais e naturalmente os pratos eram à base de carne – o tradicional carneiro ou borrego guisado com batatas e as aves de capoeira: galinhas, patos e perus corados nos fornos de cozer pão que na aldeia existiam.

[Portal da Igreja Matriz. Foto JV, 2010]De doçaria eram os bolos de noivo que pontificavam. Bolo seco em forma de ferradura, feito aos alqueires, guardava-se em arcas de castanho. Além disso, havia o arroz doce.

É dos nossos dias o aparecimento do pão-de-ló e sucessivamente a restante doçaria, mas o belo bolo de noivo nunca perdeu o seu lugar e parece ser a única reminiscência do casamento de outros tempos.

Durante a boda havia vivas aos noivos lançados pelos convivas, uns já muito conhecidos, outros, criados na altura pelos mais verbosos.

Damos dois exemplos:

Viva a noiva mais o noivo
Quando se lhe tira o chapéu,
No meio dos seus saberes
Parecem uns anjos do céu.

Estas casas estão caiadas,
Quem seria a caiadeira,
Foi o noivo mais a noiva,
Com um raminho de oliveira.


[Escadório onde contiuam a pousar noivos e convidados. Foto JV]
Ao fim de um mês, os noivos voltavam a fazer a “visita” aos padrinhos, levando-lhe novamente uma travessa de arroz e meia dúzia de bolos de noivo.

Hoje é raro haver boda e quando há, é servida numa pastelaria ou restaurante da cidade.

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NOTA

Ainda que realizado bastante longe da freguesia, à boda do nosso casamento, servida num restaurante-café da cidade, não faltou o tradicional bolo de noivo, oriundo da nossa aldeia.
Casamento sem este bolo, não era casamento!