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domingo, 23 de maio de 2010

Os toiros

Às três da manhã acordei e a insónia instalou-se. As tentativas para a debelar, foram infrutíferas.

Quase sem querer, comecei a recuar no tempo, fui parar à minha meninice e adolescência e consequentemente ao MEU BAIRRO. E tudo isto acontece porque gosto de recordar os meus progenitores, é a maneira de matar saudades.



Santarém é conhecida, entre muitas outras coisas, por ser terra dada aos toiros com relevância para os seus forcados. Ora no MEU BAIRRO como não podia deixar de ser, havia aficionados.

Uma das preferências dos miúdos era brincar às touradas, para o que estabeleciam regras. Os “burladeros” eram as portas da área demarcada. O toiro, figura escolhida por um de nós e era desempenho muito disputado, saía de um corredor dos muitos então existente no MEU BAIRRO e que davam normalmente acesso a habitações, algumas constituindo pátios e quintais. Mas alto, o toiro só saía após o toque feito pelo cornetim, possivelmente o mais hábil para tal missão, na oportunidade, colocando as mãos como se estivesse a tocar o instrumento de sopro.

Havia os cavaleiros montados em canas, por vezes com chapéus de jornal quando havia tempo para os fazer, peões de brega (capinhas) já que espadas eram todos e todos bandarilhavam.

O toiro tinha que actuar um pouco curvo, de braços hirtos, tentando imitar os cornos, marrar a direito, por isso com “nobreza”, possibilitando os passes dos artistas, berrar e raspar a terra, imitando os cornúpetos. O pior era quando o boi que queria ser o mais bravo possível, deixava de cumprir as regras e começava a distribuir socos por todos que apanhava no redondel. Quando o cornetim tocava para a unha, eram todos forcados, caindo tudo numa molhada.

A rapaziada sentava-se no lancil do passeio para descansar, comentar os factos ocorridos e discutir. Forças recuperadas, nova toirada se organizava e com novo toiro!
Uma coisa que nos fascinava, eram as farpas verdadeiras devido ao colorido do papel e aos diferentes feitios das franjas. Havia um dos miúdos que era louco por elas e que conseguia arranjá-las, mas sem ferro. Ouvia dizer e parece ser certo que o artista que as fazia era um indivíduo a que chamavam, por alcunha, o Patetinha. Ora o nosso amigo de infância dizia que era o Patetinha e acabou por lhe ficar o Pateta, o que no sentido literal da palavra, nada tinha a ver com ele, pelo contrário.

Era este o desporto radical, com o qual os nossos pais não gastavam um tostão. Agora, os seus bisnetos, já não brincam às touradas, utilizam skates, patins em linha. BTT, pranchas de surf, etc. e quando assim é, já não é nada mau.

Os miúdos do MEU BAIRRO, pelos mais variados motivos, em que se incluem entre outros, a falta de espaços, os familiares deslocados no trabalho, o perigo que a própria rua constitui, (trânsito, roubo, etc.) por exemplo e até a actual concepção de vida, já não permite que os actuais miúdos do MEU BAIRRO queiram ou gostem de brincar aos toiros.

Falámos dos mais pequenos. E os outros, um pouco mais velhinhos e que começavam a entrar na adolescência?

Ainda que não nos escorraçassem, já não nos admitiam nos seus entretenimentos. Ficávamos muitas vezes a ouvir e a ver - já não era mau ! Éramos todos amigos e hoje quando nos encontramos é motivo de grande satisfação.

O ídolo taurino que acabava de desabrochar, era Manuel dos Santos. Lembro-me de o ver tourear, uma única vez e levado pela mão de meu pai, na velha e desaparecida praça de Santarém, em S. Domingos.

Todos queriam ser como o Manuel dos Santos, todos pensavam que eram capaz de fazer o que ele fazia!

Arranjaram uma tourinha (nós dizíamos tourina) isto é, uma armação suportada por uma roda, no caso penso que de bicicleta em cuja frente tinha fixados os cornos de um toiro. Logo a seguir estava um bocado de cortiça reforçado e a parte traseira rematava com dois braços para que uma pessoa a pudesse mover. Tratava-se por isso da simulação de um toiro e que se destinava a treinos. Possivelmente havia alguém que orientasse os treinos, mas se havia não me lembro de quem seja A cortiça servia para fixar as bandarilhas.



Talvez depois de terem ensaiado e medido alguns passes com a tourina, teriam- -se sentido mais seguros e se lembrarem de pôr pés ao caminho e ir para a Ponte Asseca, margens do afluente do Tejo onde pastava então gado bravo que penso seria propriedade de algum lavrador do Vale de Santarém.

As coisas parece não terem decorrido bem pois os campinos, conscientes da sua missão, evitaram que pudesse ter surgido complicações desagradáveis. Lembro-me bem do alvoroço que houve no MEU BAIRRO quando se soube do que se tinha passado, com as mães todas aflitas procurando pelos seus filhos. Mais de meio século já lá vai, pelo certo!

Já na minha juventude, primeiro nas picarias das redondezas, com destaque para as da Ribeira de Santarém e depois nas primeiras Feiras do Ribatejo, entre muitos outros, José Pança que morava no MEU BAIRRO, pegava ou agarra toiros conforme lhe dava jeito!
Aqui fica mais esta pequena MEMÓRIA que o tempo vai corroendo na sua acção imparável.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma esmolinha ...

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE NOVEMBRO DE 2003)

Aqui estou novamente para mais uma pequena conversa com os possíveis leitores que eu sei que existem mas que é impossível quantificar.

Muitos dos jornais regionais, como é o caso deste “velhinho”, chegam aos quatro cantos do Mundo e são muitas vezes o único elo de ligação que se tem com as terras de origem e existem portugueses em todos os países do Mundo!

Por isto ou por aquilo, ali acabaram por se fixar e alguns ainda pensam regressar às terras de origem, o que muito não vêm a fazer pelos motivos mais variados.

Morreram os avós, morreram os pais, os irmãos e cada um seguiu a sua vida, um para aqui, outro para ali, as idas à terra começaram a ser mais espaçadas.

A casa onde fomos criados já não existe, os vizinhos já morreram e muitos dos amigos de escola igualmente desapareceram.


Quando vou à minha terra, é meu hábito calcorrear as ruas que ainda me são familiares, nomeadamente as do meu bairro. É muito raro conhecer alguém e reconhecer, não é fácil pois os anos de afastamento são muitos. Além de muitas das casas existentes, algumas em ruína, ficaram nomes de vizinhos e amigos e a vida vivida com as suas pequenas estórias.

Ao ler hoje um interessante artigo intitulado A Vida lisboeta nos séculos XV e XVI- Peditórios e pedintes, de autoria de Victor Ribeiro, publicado no Vol.VIII - Lisboa 1910 do Archivo Historico Portuguez, fez-me recordar o que se passava no MEU BAIRRO há cinquenta anos.

Como temos escrito muitas vezes, o MEU BAIRRO era habitado fundamentalmente por famílias modestas e trabalhadores, operários, trabalhadores no comércio e indiferenciados tal como o funcionalismo de base. Os industriais, comerciantes, profissionais liberais, a burguesia viviam ainda dentro do recinto que tinha sido amuralhado, em palácios ou casas apalaçadas de que restam alguns exemplares. Só depois apareceu o conjunto de vivendas que alguns mandaram construir para os lados de Santa Clara/São Bento.

A mendicidade foi e será sempre um flagelo e tem as mais variadas origens, algumas de contornos complicados. Pede-se para matar a fome, pede-se porque não se tem trabalho, pede-se porque não se quer trabalhar, pede-se porque não tem saúde para trabalhar, pede-se porque o que se ganha é insuficiente para a manutenção da família, pede-se para matar o vício do álcool, pede-se para alimentar a dependência da droga e ... há quem tenha essa actividade como profissão.

A maçaneta da porta faz-se ouvir (nesse tempo as campainhas eléctricas eram muito raras no Meu Bairro e não só) e lá vinha eu a correr saber quem era. Da própria porta, informava:- É um pobrezinho que pede uma esmolinha por amor de Deus. Diz-lhe que tenha paciência mas não pode ser. Havia dias que eram vários aqueles que batiam à porta, mendigando e não havia possibilidades de a todos contemplar.

Por vezes minha mãe mandava-me perguntar ao pobre se queria um bocado de pão e quando era afirmativo, o que normalmente acontecia, lá vinha eu buscar o pão que minha mãe cortava.

Quando o pobre nos impressionava por qualquer motivo, não dizíamos da porta quem era e pessoalmente íamos dizer que se tratava de um pobrezinho assim ou assado e dizíamos logo, dê-lhe alguma coisa, coitadinho. A impressão causada era muitas vezes a velhice, a maneira de falar ou o aspecto. Quando se apresentavam de cabelos compridos, longas barbas, de bordão na mão e de saco às costas, por vezes tínhamos medo.

Muitos deles era gente dos arrabaldes ligados ao campo e que devido à idade, já não tinham forças para trabalhar e nesse tempo não existiam pensões sociais como hoje e os filhos, o que ganhavam, não chegava para sustento dos filhos pois nem sequer todos os dias tinham jorna. Eram os próprios pais que, para aliviar os filhos e já não podendo trabalhar, resolviam pegar num bordão e, saco às costas, lá partiam esmolando de quinta em quinta, de porta em porta.

[Velho portão na Avenida do Meu Bairro.Foto JV]

Quando a dádiva não era pão, transformava-se numa pequena moeda na base dos vinte centavos que junto a outras, ia minorando a miséria.

A minha mãe, dentro das suas modestas possibilidades, foi sempre uma pessoa esmoler. Tinha cerca de meia dúzia de pobres certos, o que significava que todos os meses por lá passavam batendo à porta e que já não necessitavam de fazer o pedido que aparecia sempre dentro das disponibilidades. Já se lhe conhecia o nome e até a origem. Havia sempre uma troca de palavras a propósito da vida e dos seus desaires. Alguns fizeram isto durante anos. Quando deixavam de aparecer, notava-se a sua falta e admitia-se a sua morte ou então a dificuldade em se deslocar.

Ainda que a mendicidade fosse proibida, lá se ia fazendo. Os vagabundos eram apanhados e levados para o Albergue Distrital, trabalhando na quinta onde estavam instalados. Tinham uma farda de surrobeco onde não faltava o barrete. Ouvia-se na altura dizer muitas vezes, se não te portas bem vais parar ao albergue!

Lembro-me muito bem de um homenzinho que se tinha algum defeito era o de beber um copito a mais. Depois de umas fugas acabou por se habituar ao local e tinha o seu dia de folga e lá vinha ele a pé até à cidade, bebendo o seu copito aqui e ali. Toda a gente conhecia o Zé Caneco e havia sempre mais um copo. Quando regressava à Quinta, já não ia sozinho.

Hoje os albergues mudaram de nome e todos nós os conhecemos. A maioria espera, mais dia, menos dia, dar lá entrada, se houver vaga!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A barbearia

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 26 DE ABRIL DE 2002)


O tema que nos tínhamos proposto abordar, não era este mas no desenrolar da escrita a que o pensamento deu forma, aparece-nos este estabelecimento onde passámos muitas e muitas horas, principalmente na época de férias; eu e os meus amigos.

Estamo-nos a reportar, como é hábito, nestas simples e despretensiosas croniquetas aos anos cinquenta do século passado.

Se existem coisas comuns aos dias de hoje, as diferenças não são poucas. Ainda que a função seja a mesma, as técnicas evoluíram, o ferramental modificou-se, com tendência para a mecanização, os produtos utilizados são completamente diferentes, os cabeleireiros apresentam-se equipados de uma maneira diferente e até os nomes das coisas se alteraram, são mais pomposos e procura-se uma actividade para ambos os sexos em situações e posições consideradas mais evoluídas.


O barbeiro do MEU BAIRRO trabalhava no sábado até altas horas para pôr em ordem barbas e cabelos visto que muita gente só tinha vagar para o fazer nesse dia e por outro lado era para muitos dia de receber a féria. Além de cabelos, havia fregueses certos para a barba que era cortada só aos sábados.

Não se pense que não se trabalha ao sábado, ou que só o barbeiro o fazia. Nessa altura, só o domingo era considerado dia de descanso. Por vezes conseguia-se uma pequena dispensa do patrão que acabava por ser compensada na semana seguinte.

[Junto à barbearia para irmos jogar uma partida de futebol. Que eu saiba, metade já faleceram. Foto de 1958]

Havia alguns bigodes, que muitos dos velhos republicanos não dispensavam, e um ou outro rapaz novo usava o seu, copiado de algum conhecido artista de cinema .Pêras e barba, era raríssimo aparecer.

O mestre barbeiro, quando conhecia menos o freguês, perguntava para desinfectar a cara se desejava álcool ou sublimado.

Alguns dos jovens desse tempo usavam o cabelo “à pipi”, o que significava ser puxado todo para trás, tendo à frente uma grande popa, toda uma estrutura que o “fixador ”armava. Quando acabava o corte do cabelo voltava a aparecer a pergunta sacramental.- brilhantina ou fixador ?

Havia também quem por motivos de vária ordem, nomeadamente económicos e sanitários, o cortasse “à escovinha” ou “à máquina zero”.

A pequena barbearia situava-se no rua principal do MEU BAIRRO, a chamada Avenida e numa posição central, o que também acontecia, de uma maneira geral, com o comércio tradicional e próprio da época. Tinha a competente cadeira giratória para adultos e um banco de madeira, alto, para as crianças. Algumas vezes nele me sentei e quando passei para a cadeira, senti-me um homem!

Um espelho rectangular e ao alto, duas pequenas meses, uma de cada lado do espelho onde o artista colocava o seu ferramental constituído por pentes de alumínio, tesouras de pontas arredondadas, máquinas (manuais) em que se substituíam as peças conforme o trabalho a realizar, várias navalhas com o seu assentador que estava frequentemente a ser utilizado, para dar fio, quando elas trabalhavam, pincéis de forma cilíndrica que se humedeciam em pequenos recipientes, tipo tigelas e invariavelmente de alumínio, depois de previamente abastecidos de um pó branco (pó de sabão) retirado de caixas de papelão em forma de paralelepípedo.

Um pincel avantajado destinava-se a retirar os cabelos já cortados e um pequeno espelho era dado ao cliente para poder verificar se estava do seu agrado o corte feito na parte directamente não visível. Uma escova para o retoque final no freguês era peça indispensável.

Na pequena divisão contígua, encontravam-se as toalhas para a barba e as alvas toalhas destinadas ao corte de cabelos.

As pequenas mesas, de tampos rectangulares e penso, sem ter a certeza, protegidos por um vidro grosso, além de receberem os objectos no tampo, tinham outro para o mesmo fim e por cima da gaveta que o barbeiro utilizava para guardar o dinheiro. Em secção distinta, existiam os recipientes de formas abauladas, feitos de qualquer liga parecida com o “inox”, para álcool e sublimado, a caixa de pó de arroz, da mesma substância, além dos frascos de brilhantina, fixador e até de perfume. A petizada ia sempre cheia de pó de arroz!

Junto da parede oposta à do espelho, encontrava-se uma pequena mesa igualmente rectangular, com trabalhos circundantes de embelezamento sob o tampo e cujos quatro pés de secção quadrangular e longilíneos, eram mantidos em boa posição por uma ligação de madeira entre eles.

Nesta mesa era certa a presença semanal do Correio do Ribatejo que os fregueses aproveitavam para ler enquanto esperavam pela sua vez. Quem não tinha ido assistir aos jogos locais, aproveitava para ler as grandes reportagens em que entravam “Os Leões” ou o “União Operária”. Nas horas mortas de trabalho, a mesa era aproveitada para algum jogo de bisca lambida ou uma partida de poker

Penso não errar ao afirmar que existia um aparelho de rádio portátil.

Além da mesa, por cima da qual existia um suporte feito de ripas para chapéus e bonés e na outra parede um cabide, existiam pequenos bancos de tampo circular, (ou seria quadrangular?) de pés resistentes e confeccionados a partir de duas tábuas que ao meio se cruzavam.

[O autor destas linhas, o barbeiro Ramiro Valamatos (já falecido), Mário Bento e o miudo que morava no pátio ao lado e a quem chamavamos "Marcelino", por brincadeira. Foto de 1958]

Todo o mobiliário era de madeira e pintado de verde mas não sei bem porquê, penso que teria sido o azul a primeira cor utilizada. Nunca me lembro de haver qualquer outra mobília e penso que foi o meu bom amigo, Senhor José de Oliveira que fundou tal oficina e que foi obrigado a deixar devido a outras actividades profissionais pois tinha estabelecimento comercial misto constituído por taberna e mercearia. Quando exerceu a sua actividade de barbeiro, vestia uma bata branca.
Além deste Senhor, que muitas vezes me cortou o cabelo em criança, não posso deixar de lembrar o meu saudoso amigo, Ramiro Valamatos, que já trajava de uma maneira diferente, usando um casaco branco, infelizmente já falecido, vítima da doença que sempre o atormentou. Há muitos anos que era proprietário de um estabelecimento do mesmo ramo na cidade de Torres Novas onde veio a fixar-se e faleceu.

Lembro-me de ter cortado o cabelo, na rua do Matadouro no senhor Horácio, ao lado ou perto da oficina de bicicletas, Pestana.

Como já disse, comecei a escrever procurando traduzir outras reminiscências e quando dei por mim, estava enfronhado nesta que acabei por concluir. É possível que existam falhas e imprecisões que o leitor do MEU BAIRRO e da minha época, corrigirá, se nos ler.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Carnaval

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 16 DE MARÇO DE 2001)

Acordei cedo e bem disposto, o que nem sempre acontece. Recostei-me na cama e deitei a mão a um dos livros que tenho sobre a mesa-de-cabeceira. Não são livros de começar na primeira página e ir até ao fim, o que acontece quando se lê um romance, são livros de conteúdos ligados mas que se podem ler separadamente, saltitando conforme o interesse específico e momentâneo do leitor. No caso tratava-se do XIV volume da História de Portugal do Senhor Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, recentemente dado a público. Procurei-o em quatro cidades (é verdade, não estou a brincar) no centro e sul do país e não foi possível adquiri-lo e acabei por recorrer à nossa cidade onde o encontrei na primeira casa em que entrei.

Peguei no livro, fui ao índice escolher assunto, li dois ou três e acabei por pô-lo no mesmo lugar. Não estava virado para aí!

Apeteceu-me pôr o computador já com mais de seis décadas e que vai revelando algumas roturas, a funcionar, procurando algo no arquivo das recordações.

Apesar das falhas encontradas, alguma coisa se nos avivou e é isso que pretendemos transmitir para o papel, fazendo recordar estes e outros factos às gentes do MEU BAIRRO e da minha geração e dando-os a conhecer aos hipotéticos jovens que nos possam ler.

Pelo menos na minha vivência, a cidade de Santarém nunca teve grandes tradições carnavalescas e isso consequentemente se reflectia no MEU BAIRRO. Na minha meninice, ouvia falar no Carnaval de Alpiarça onde a farinha era rainha e segundo se dizia todos os veículos que por lá passassem eram “obrigados” a parar pagando os seus ocupantes uma taxa que se traduzia por serem enfarinhados. Nas redondezas, não me lembro de ouvir falar em qualquer outro.


Recordo haver restrições ao uso da cara tapada com a consequente intervenção policial e a algum tipo de brincadeiras, consideradas não adequadas.

O Carnaval no tempo da juventude de meus pais, na vigência da 1ª República e segundo contavam, era muito diferente com a utilização, além da farinha, do pó de sapato e de ovos podres, entre outras coisas o que fazia referir a meu pai ser uma pouca vergonha não se podendo sair à rua. Nos salões da cidade os “confettis” abrilhantavam os bailes com arremessos nos mais variados sentidos conforme as preferências das donzelas.

No MEU BAIRRO, os miúdos, que aderem sempre muito bem a estas coisas, alguns a custo conseguiam uns tostões para comprar uma caraça feita de pasta de cartão e exteriormente pintada com uma cor ainda hoje utilizada pelo palhaço rico. Quem não arranjava os tais tostões, resolvia o problema fazendo uma com o cartão de uma caixa de sapatos, desenhando-a à sua medida, fazendo os buracos para os olhos, boca e nariz, pintando-a a seu gosto e fixando-a através de um elástico que atava junto à nuca, tal como acontecia com aquelas que se compravam no comércio do Bairro e que já referimos. Também aqui se vendiam serpentinas avulso já que muito poucos tinham dinheiro para adquirir os pacotes, sacos de papelinhos e estalinhos, igualmente avulso. As garrafinhas de mau cheiro já existiam mas só se vendiam no comércio da “cidade” como nós dizíamos.

Já espigadote, uma querida tia comprou, a mim e aos filhos da mesma idade e no Senhor Zé Magrinho (depois dos Bigodes), permita-me o meu bom amigo a expressão mas só assim é possível a identificação comum, uma novidade da época e a que poucos chegavam: - uma bisnaga, penso que era assim a designação que lhe dávamos

Tratava-se no caso de um pequeno reservatório de secção circular, insuflado, transparente de um lado e colorido do outro (a minha era azul claro) e que possuía um pipo. Como era feito de uma substância com alguma maleabilidade, introduzido o pipo num líquido e pressionada, acabava por encher ficando assim pronta a ser utilizada com novas pressões que originavam a saída de um esguicho que iria molhar as nossas vítimas.

O líquido a utilizar era normalmente água mas havia quem usasse perfume e mesmo ... urina.

Uma das brincadeiras mais usadas por miúdos e graúdos constava da utilização de rabos, isto é, cortavam-se tiras de papel, vulgarmente de jornal que se ligavam por intermédio de um alfinete dobrado na ponta. Sorrateiramente e na melhor ocasião que podia ser sentado ou a andar, se espetava na calça ou saia, no traseiro pelo que a pessoa quando se levantava ou andava, mostrava o traseiro rabudo, motivo de sorrisos, comentários e mesmo gargalhadas, o que punha em alvoroço e por vezes em irritação o contemplado.

Os mascarados que percorriam as ruas do BAIRRO, normalmente em grupos, limitavam-se a vestir andrajosamente (roupas velhas e avantajadas) e quando não tinham caraças, cobriam a cara de negro passando uma rolha de cortiça queimada por ela ou em alternativa “desenhando” grandes bigodes e barbas.

De uma maneira geral os mascarados trocavam de “sexo”, aliás, como ainda acontece.

O que hoje se faz com imitações bastante perfeitas de bicharada e outras, lembro-me que se fazia no MEU BAIRRO com os frutos de uma planta expontânea que unidos com alguma habilidade e sendo verdes, “fabricavam” lagartos que provocavam medo às moças mais impressionáveis pois fixavam-se com facilidade nas suas roupas.

Não esqueço o João Vareiro que festejava o Carnaval saindo com o seu cantil de “louça das Caldas” colocado à cintura e passeando pelas ruas do BAIRRO não deixando de beber um copo com os amigos nas tabernas existentes.


Os trajes finos e a rigor eram muito poucos (damas antigas, ciganas, sevilhanas, etc.) e destinavam-se aos mais jovens, fazendo visitas a familiares e amigos aproveitando-se então para tiragem de uma fotografia que ficaria para a posteridade.

Pela parte que me toca, mascararam-me uma única vez com traje fino de que me lembro perfeitamente e era bem pequeno pensando rondar os quatro anitos. Por vezes mete-me confusão como me lembro tão bem do facto !

Foi um casal de vizinhos, com idade de serem meus avós, que o fizeram, duas pessoas que nunca esquecerei pelo carinho que me dedicavam apesar de terem filhos, um rapaz, o mais velho e uma rapariga, gente já casadoura. Lembro-me bem do nome dos quatro e mesmo das suas figuras. Moravam na minha frente num prédio que já não existe.

Faziam-me todas as vontades e eu corria para eles como se fossem da minha família. Ela então, que era amiga de minha mãe, estava sempre a defender-me de qualquer traquinice que fizesse, já que minha mãe não era para brincadeiras. Pois num ano resolveram mascarar-me de moço de forcado, a rigor. Não sei se alugaram ou fizeram o traje, o que eu sei é que me sentia muito inchado por estar vestido assim, de cinta apertada, jaqueta justa, barrete na cabeça e caminhando todo emproado de forcado na mão. Fiz com eles um grande passeio, para os lados da Escola Agrícola e no regresso tiveram que me trazer ao colo.

Estimado leitor, sobre o Carnaval do MEU BAIRRO e há mais de cinquenta anos, foi o que o meu computador me trouxe à MEMÓRIA. Certamente se lembrará de outras coisas, porque não as revela?

quarta-feira, 31 de março de 2010

Material escolar e outras coisas

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 19 DE JANEIRO DE 2001)


Intitulei A ESCOLA, a IV MEMÓRIA DO MEU BAIRRO, publicada no “Correio” de 18 de Dezembro de 1992. Como o tempo passa, parece que foi ontem!
Ainda que assim intitulada, baseou-se fundamentalmente na figura do meu professor, Agnelo da Silva Lázaro, que nunca esquecerei.
Ao olhar para o material que as crianças hoje usam na escola primária, fez-me lembrar o que se passava no meu tempo e na escola do meu bairro.

O uso diário da bata branca era obrigatório, incluindo os professores e só abolido após o 25 de Abril de 1974.

[Turma da 4ª classe (1948/49) com o Prof. Agnelo da Silva Lázaro]

Lembro-me que número significativo de alunos iam para a escola descalços, chovesse ou fizesse sol e alguns dos que se apresentavam calçados, quando chegavam a casa, descalçavam os sapatos para não os estragar, indo brincar de pé ao léu, mesmo jogando a bola.

Por pouco usados, por vezes não se chegavam a estragar mas... deixavam de servir, o que também não importava muito pois iam calçar o irmão mais novo.

As carteiras comportavam um banco corrido para dois alunos a que nós chamávamos “passás” (parceiros na nossa linguagem). Dizíamos: - o meu passá é fulano. O meu era o Lúcio, infelizmente já desaparecido a alguns anos. Além disso, os tampos levantavam-se para colocar numa divisão, a pasta, mala ou sacola.

[Ardósia (pedra) e pena]


Na parte mais elevada (horizontal), já que o tampo era levemente inclinado, situava-se ao centro o tinteiro de porcelana branco e de cada um dos lados, uma reentrância na madeira para colocar caneta, lápis e pena.

As carteiras colocadas às filas, tinham à sua frente o quadro preto, de ardósia, que se alcançava subindo para um estrado no qual se situava a secretária e cadeira do professor, de gavetas e dimensões avantajadas. No outro canto, a lareira que nunca funcionou no meu tempo e certamente por muitos anos, por falta de lenha. Era só para ser bonito pois não havia verba para o combustível e em salas grandes se não se ia bem agasalhado, tiritava-se de frio.

[Livro de leitura da 1ª classe]

Na parede do quadro, um crucifixo, a fotografia do Presidente da República, na altura General Carmona e no lado esquerdo a do Presidente do Conselho de Ministros, Professor Doutor Oliveira Salazar.

Perto, o Mapa de Portugal Continental, com a figura do seu autor ou coordenador que ainda estou a ver com o seu bigode e que se a memória não me atraiçoa, se chamava Ladeiro ou Landeiro e no qual tínhamos de indicar sem hesitação os rios, com seus afluentes, as serras dentro dos seus sistemas, as capitais de província e de distrito, os cabos, as penínsulas, as linhas férreas, eu sei lá que mais!

Além deste ainda havia o mapa do Portugal Colonial e das Ilhas Adjacentes do arquipélago da Madeira e dos Açores e ai de quem não soubesse localizar as Desertas!

No Império Colonial lá estavam Cabo Verde, Guiné, S.Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, o chamado Estado Português da Índia, com Goa, Damão e Diu, Macau, com as ilhas de Taipa e Coloane, Timor com o ilhéu de Ataúro e ainda o Forte de S. João Baptista de Ajudá, na costa ocidental da África. E sobre tudo isto tínhamos de saber a sua localização, capitais, produções, etc. etc.

[Livro de leitura da 3ª classe]

Num armário envidraçado guardavam-se um metro de madeira, penso que uma balança de pratos com pesos e a caixa dos sólidos, igualmente de madeira e da qual constavam : cubo, cilindro, prisma, pirâmide, cone e esfera. Além disso era lá que o professor guardava o livro das frequências, a caixa do giz (de cor eram poucos paus e quando o professor os utilizava era dia de alegria para os miúdos) a garrafa da tinta de escrever e os nossos cadernos diários que o professor fazia cortando ao meio as folhas de papel de vinte e cinco linhas, as quadriculadas e as lisas que eram colocadas na proporção da sua utilização. Com uma pequena máquina, fazia-lhe dois furos por onde passava um cordão que as atava em laço. A primeira folha funcionava como capa e identificava a escola, a classe e o aluno. Penso que o caderno era levado para casa no fim do ano mas não tenho a certeza.

O caderno diário, que não era utilizado todos os dias, deduzo que servia para justificar os conhecimentos do aluno. Nele se faziam ditados, redacções, contas, resolução de problemas de aritmética e desenhos à mão livre, principalmente objectos de linhas curvas: - jarras, potes e bilhas (a asa era um flagelo mesmo para os que tinham alguma habilidade). Por vezes apagava-se tanto que se rompia o papel! Para quem nasceu sem um mínimo de habilidade, era um verdadeiro martírio.

O transporte do material escolar fazia-se em malas de cartão, de faces rectangulares, reforçada nos cantos e na aba por chapas, com uma correia de coro para pôr a tiracolo (para as meninas, a mesma mala tinha uma pega), em sacolas, de serapilheira, igualmente com uma fita para pôr a tiracolo e que tinha a particularidade de ter na face da aba, um desenho estampado de cores berrantes que atraía as crianças mas que durava pouco tempo. Eram compradas no comércio do bairro enquanto as de cartão se adquiriram no comércio da especialidade. Muito excepcionalmente existia uma pasta de coro, só utilizada por alguns professores. Lembro-me contudo que um colega meu a tinha, o Carlos Alberto, que era filho de um dos proprietários de uma conhecida livraria da cidade e que faleceu bem jovem, num acidente de viação.

Só me lembro de ter uma mala de cartão pois quando a aba de fechar, se cortou, pelo uso, visto não haver dobradiça, mas sim um vinco, foi cosida e durou até completar a primária.

Quando era preciso correr, por gosto ou necessidade, a mala, colocada a tiracolo e segura pela mão com o auxílio do braço, fazia grande chocalhada provocada pela agitação de livros, cadernos, pedra, caneta, aparos, lápis, lápis de cor, penas, apara lápis e borrachas, isto indicando o conjunto que poucos tinham.

["Pires de Lima", o meu livro de leitura da 4ª classe]
O primeiro exame oficial a que me opus, foi o da então chamada 3ª classe e que já realizei na escola do meu bairro, que frequentava. Lembro-me que foi numa sala do rés-do-chão, vesti um calção castanho e uma blusa creme de que estou a sentir nas minhas mãos o seu tecido e feita por um excelente alfaiate da cidade, que ofereceu o tecido e o seu valioso trabalho. Da prova, só me lembro do ambiente da sala, talvez pela sua decoração e do sítio onde me sentei que ainda hoje era capaz de identificar, do conteúdo, nada ficou, só sei que fui aprovado. Já lá vão pelo menos cinquenta e três anos, é muito tempo!

Quanto a livros e reportando-me à 4ª classe, muito trabalhosa até porque foi simultânea com o exame de admissão ao liceu, lembro-me dos seguintes:- livro de leitura que no meu caso era o chamado “Pires de Lima”, que ainda possuo. Na admissão ao liceu o conhecido professor de Português, Dr. Gonçalves Neto, mandou-me ler a lição Vasco da Gama e perguntou-me se eu sabia o que eram calafates.

[A minha História de Portugal, de Tomás de Barros que faz parte dos meus livrecos]

A História de Portugal era de Tomás de Barros, a Geografia da Colecção Escolar “Progredior”, a Aritmética, Ciências e Gramática, da Escolar Educação, de António Figueirinhas, tudo do Porto. Possuo todos estes exemplares.

Os chocolates que as crianças comiam na altura, eram muito poucos. Havia umas pequeninas tabletes forradas a papel prateado de uma só cor e que tinha colado um pequeno boneco que ocupava todo o seu cumprimento. As figuras eram muito variadas. A tablete já era pequena aos nossos olhos mas ainda era menor quando se abria. Apesar da qualidade deixar muito a desejar, proporcionava-nos comer (era duro) uma guloseima de que gostávamos, tirávamos a prata com muito jeitinho para não se partir, passávamos- -lhe a unha para a alisar e púnhamo -la dentro dos livros, o mesmo fazendo com o bonequinhos, que eram um encanto. Era assim a vida de então, com uma pequena coisa tínhamos três satisfações! As tabletes custavam três tostões, se a memória não me atraiçoa.

Para os dois primeiros anos, havia sempre uma Tabuada.

Havia um caderno para os trabalhos de casa, a que nunca faltava uma cópia, contas, reduções, problemas para resolver, etc., etc.

Na primeira classe havia caderno de duas linhas para educar a caligrafia.

Não podia faltar a pedra, noutras regiões designada por ardósia ou lousa, como a designavam alguns dos professores originários, principalmente dos distritos da Guarda, Castelo Branco e Viseu. Alguns regressaram ao seu torrão natal, outros por cá ficaram.

A pedra era constituída por uma lâmina de xisto escura, uma rocha sedimentar igual à existente no quadro preto, só muitíssimo mais fina. Recebia à sua volta, de formato rectangular, um caixilho de madeira que a protegia e que com o uso se desmanchava. Havia-as de tamanhos diferentes. Nelas se escrevia através da pena, utensílio mais ou menos cilíndrico e longilíneo, igualmente de xisto. A parte superior era enrolada e colada com uma pequena facha de papel de várias cores e padrões, conforme o fabricante e as séries produzidas. Havia dois tipos de penas, as de leite, mais macias mas de menor duração, e as rijas, mais duráveis por isso mesmo pelo que os nossos pais as preferiam. Afiavam-se passando-as sobre uma zona cimentada, pois assim iam-se gastando à sua volta. A escrita traduzia-se pelo riscar da superfície pontiaguda na plana, ambas de xisto.

[A minha Geografia da 4ª classe]

Penso que custavam dois tostões cada uma e vendiam-se no comércio do bairro onde se encontravam em caixas de cartão que continham um pó branco (seria talco ?‘) para as conservar. Ao caírem no chão, o que acontecia com frequência, partiam-se com muita facilidade; fazia-se outro bico e continuavam-se a utilizar.

[Um dos mapas que tínhamos de estudar, o do Estado Português de Índia]

Havia quem tivesse atada a um dos vértices do caixilho, uma almofada para apagar o que já não interessava ou então algo que se pretendia corrigir. Tinham também um frasco com água para embeber a almofada feita de trapos. Nem sempre era assim e não havia ninguém que de vez em quando não fizesse a limpeza com os dedos e as mãos e quando necessário, lá ia o lenço ou a manga da bata, tudo isto com o auxílio da saliva (cuspo).

E aquelas contas enormes de dividir ou de multiplicar que enchiam todo um lado, com a operação inversa no outro! Grandes trabalheiras quando não dava certo à primeira!

Hoje, é tudo diferente, só interessa saber como se faz e ter a noção da operação porque o resto pertence às máquinas de calcular - afinal elas só servem para isso mesmo !

[O livro de Aritmética da 4ª classe]

Quando iniciei a minha profissão, vi-me confrontado com a necessidade de efectuar muitas operações aritméticas, principalmente adições de muitas dezenas de parcelas e que os erros cometidos se pagavam com o nosso dinheiro. Lá me adaptei o mais depressa possível mas nunca adquiri a prática dos funcionários mais velhos pois entretanto chegaram as máquinas de somar. Os velhinhos somavam mais depressa e mais certo à mão, do que os novos com as máquinas!

As máquinas foram evoluindo, tornaram-se muito práticas e eficientes até porque a prática na sua utilização subiu consideravelmente. Da gente nova, ninguém somava duas parcelas se não fosse à máquina e quando faltava a energia eléctrica era um pandemónio naquela casa pois o serviço não podia parar. Quase todos tinham na sua secretária uma calculadora a pilhas e assim iam dando conta do trabalho.

A existência da pedra era uma medida económica pois evitava-se assim um gasto contínuo de papel que a grande maioria das bolsas de então não podiam suportar.

Apesar de tudo, a pedra, provoca-me um sentimento de nostalgia.

domingo, 21 de março de 2010

Um baile da pinhata

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE ABRIL DE 2000)

É a trigésima sétima MEMÓRIA que pretendo escrever, ainda que o seu conteúdo seja limitado.

Não me perguntem porque me lembrei de tal, mas a verdade é que a ideia apareceu e aparentemente sem saber porquê, foi tomando volume e pretende concretizar-se.

No fundo, lá bem no meu íntimo, estava um pequeno grão que isolei, seguramente, durante mais de cinquenta anos e que agora, depois de tanto tempo, acabou por germinar.

Bailar e dançar foi sempre um folguedo apetecido, tanto pela gente do povo, como pela burguesia e nobreza.

Há conhecimento de sumptuosos bailes dados em França por Carlos V e Carlos VI, isto só para indicar os mais antigos. Em Portugal, por ocasião da boda de D. João I com D. Filipa de Lencastre, realizou-se no Paço do Porto, o primeiro baile na Côrte.

Com o liberalismo, deu-se a democratização do divertimento e começam a aparecer os salões de dança, principalmente na capital.

Pela província, as associações e de características mais variadas, optam pela realização de bailes nos quais conseguem, muitas vezes, adquirir fundos para suporte das mesmas, já que muitas viviam com dificuldades financeiras.

Por estas alturas e reporto-me aos finais da década de quarenta, que eu me lembre, por ouvir dizer, realizavam-se grandes bailes no Clube de Santarém, por vezes na Associação Académica, frequentemente no Grupo de Futebol Empregados no Comércio (vulgo Caixeiros) , no Teatro Taborda (hoje Círculo Cultural ...), na Sociedade Recreativa Operária e no salão dos Bombeiros Voluntários Tinham fama igualmente os bailes realizados na Ribeira de Santarém, no Clube Ribeirense e no Sporting Ribeirense.

Ainda que tivessem lugar todo o ano, havia épocas próprias, como os bailes de máscaras, pelo Carnaval, para comemorar a fundação da associação ou os bailes da pinha ou pinhata que tinham lugar no primeiro Domingo da Quaresma.

A arrumação das clientelas fazia-se tendo em conta o extracto social a que se pertencia, o que na época era ainda muito frisante.

Em zonas mais conservadores do País, nos anos sessenta e nas festas chamadas populares, ainda o senti, o que então me fazia confusão. Existiam dois recintos para dançar, dando apoio a um, o melhor apetrechado, a chamada “barraca do chá” e ao outro, a “barraca do caldo verde”.

Se é verdade que o acesso estava aberto a toda a gente, provocava-se a diferença de ambiente e ... de preços !

Por volta dos meados dos anos cinquenta, conheci quase todos estes ambientes da cidade, ainda que na altura não fosse bailador ou dançarino. Mas a MEMÓRIA que pretendo avivar é anterior e situa-se, como já se deu a entender, nos finais da década de quarenta.

Como referi na minha MEMÓRIA - VII, de 15 de Janeiro de 1993, os Santos Populares eram fortemente festejados no MEU BAIRRO, sendo a Travessa (ou Rua) de José Paulo a única que pedia meças aos festejos. Eram naturalmente os jovens que os faziam, mas a colaboração da gente madura, por todos os motivos tornava-se, na concepção da época, imprescindível - sem ela, nada feito.


Num ano, que não posso precisar mas se situa no espaço que indiquei, um grupo de raparigas do MEU BAIRRO, no qual se incluia a minha irmã mais nova, resolveu organizar-se para fazer um baile particular, da Pinhata.

Eu teria os meus dez anos e como tal não tinha conhecimento dos meandros da organização mas alguma coisa ia observando e que afinal me ficou na MEMÓRIA.

Não era fácil obter a colaboração dos pais pelas razões mais diversas. Os pais das moças, quando não entravam no jogo, tinham de saber com antecedência a quem o assunto estava entregue para assim autorizarem as filhas a estarem presentes e a prestarem a sua colaboração.

Nestes assuntos, a minha mãe era muito solicitada pois tinha habilidade de mãos, fazendo com papel “ventarolas” e outras peças de interesse decorativo (tenho alguns moldes que não sei aplicar), sabendo mesmo decorar e pôr a funcionar a pinha (ou pinhata) que era o móvel daquele baile.

Lembro-me bem da sua tentativa de fazer abortar o projecto que lhe apresentavam, mas resolvidos outros problemas e depois de ter sido “picado” pela minha irmã para choramingar à sua volta, acabou por aceder, dizendo que era a última vez que o fazia.

Além das características que apontei, a minha mãe que conhecia toda a juventude do bairro, era uma mulher com grande sentido de equilíbrio e que não consentia a mais leve falta de respeito, fosse e quem fosse. Por outro lado, estava sempre disposta a prestar o seu auxílio, quem dele necessitasse, fosse a que horas fosse - batiam à janela do seu quarto e levantava-se logo para socorrer quem necessitasse.

O baile realizou-se numa casa situada a meio do último quarteirão da Rua Almeida Garrett, do lado direito como quem vem do hospital velho. Aí morava uma amiga da minha irmã, com os pais e mais três irmãos, sendo o mais novo da minha idade.

Pouco me lembro dos participantes e de momento veio-me à memória a presença de duas raparigas amigas de minha irmã que já não consigo localizar mas que penso a mais velha chamar-se Elvira e a mais nova ser muito morena!

O que me lembro muito bem é que coube à minha mãe a ornamentação e a engrenagem da abertura da pinhata que se fazia através de fitas de seda de várias cores e larguras (penso que eram levadas pelos convidados) e se juntavam num molho, tendo cada, uma argola na ponta.

Preparou-se um trono e foi a minha mãe que fez as coroas, forradas a papel de prata, para os reis, aqueles que abrissem a pinhata.



Num quarto fechado, as mães presentes decidiram qual a fita que iria abrir a pinha. Meti-me lá num cantinho e quando foi dado pela minha presença, alguém levantou o problema mas a minha mãe disse que tinha confiança em mim e disse-me: - livra-te ... se disseres a alguém (...).

A fita que abria era estreita e azul claro e havia mais do que uma.

Lembro-me de a minha mãe dizer que só esperava que não fosse a filha a abrir a pinhata.

Calculando a minha irmã que eu saberia do segredo e juntamente com o seu par (não tenho a certeza quem era), apesar da minha primeira resistência, não foi difícil convencer-me até porque eu gastava afinal que fosse ela a rainha!

As fitas eram muitas, mas à terceira tentativa a mana puxou a fita, a pinhata abriu saindo um casal de pombos brancos!

A minha mãe ficou pior que estragada!

Se tem sabido da inconfidência, eu e a minha irmã teríamos levado uma tarei das rijas - não havia ninguém que nos salvasse.

Nunca tive a coragem de lhe fazer tal confissão, apesar de muitos anos passados!

A MEMÓRIA funcionou mais uma vez!

domingo, 14 de março de 2010

Dona de casa

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 24 DE FEVEREIRO DE 2000)

[Av. dos Combatentes (Pátio do Frade)]

A última MEMÓRIA que aqui escrevi, foi publicada em 18 de Março de 1999. Como o tempo passa! Já lá vai quase um ano. MEMÓRIA que não foi bem uma memória mas sim uma pequena achega sobre as árvores do Meu Bairro.

No último dia do ano e uma vez em Santarém, não deixei de visitá-las numa rápida escapadela.

O decorrer da vida, sem sabermos bem porquê, mas certamente com algum fundamento, traz-nos à memória situações que vivemos directamente ou que conhecemos de um contacto mais ou menos próximo.

Esse facto ou episódio que nos aflorou, de seguida ou dias depois leva-nos a outro dentro do mesmo âmbito e depois mais outro pelo que começamos a puxar pelo fio e começa a reproduzir-se algo com alguma ligação. Faz-se mais um pequeno esforço e se não é hoje, é amanhã que surge mais uma peça para completar o quadro.

Como já viram pelo título, a MEMÓRIA de hoje tem a ver como se desenrolava a vida de uma DONA DE CASA no meu BAIRRO há cerca de cinquenta anos.


*
Igualdade para a esquerda, igualdade para a direita, já chegou ao Ministério da Igualdade!

É verdade que, ainda que estejamos com diferenças consideráveis, já se deu um grande e útil salto mas... ainda falta muito para andar.

À DONA DE CASA, como era então designada a mulher do então CHEFE DE FAMÍLIA, começava por lhe competir fazer a gestão (como se diz hoje) de um normalmente débil salário. Chegar ao fim do mês, sem saldo negativo, não era fácil.

Só bem mais tarde se juntaria ao salário do homem da casa, o dos filhos que por volta dos onze, doze anos, após o exame da 4ª classe (e muitos não o faziam), procuravam arranjar um ofício, por vezes igual ao do pai mas sempre que possível melhor, que tivesse mais saída e fosse melhor remunerado. Nos primeiros anos, era para aprenderem, começavam sem ganhar nada e depois o recebido não dava para a roupa e calçado. Quando começavam a ganhar alguma coisa que se visse, pouco ajudavam o orçamento familiar visto entretanto constituírem família.

Para que o saldo não fosse negativo, a DONA de CASA tinha de fazer grande ginástica e sacrifícios que passavam despercebidos aos filhos e nalguns casos ao próprio marido. É preciso tomar bem nota que as faltas faziam-se sentir sempre e em primeiro lugar na mãe, na DONA DE CASA como então se dizia. É uma boa DONA DE CASA, era frase feita mas nem todas a mereciam. Ser boa DONA DE CASA era saber administrar o salário do marido, saber cozinhar com equilíbrio, ter conta na mão ao deitar o azeite no tacho ou na panela, descascar as batatas deitando fora o mínimo possível, contar bem os elementos para que nada se estragasse ou deitasse fora.

Tinha de saber fazer tudo com perfeição dentro da sua casa:- lavar a roupa (o sabão tinha de endurecer para se gastar menos), passar a ferro, cozinhar, caiar, costurar, lavar a casa, tratar dos filhos, ser enfermeira e muito mais.

De uma maneira geral, era a primeira a levantar-se em casa preparando o pequeno almoço para o marido e filhos quando já tinham obrigações de escola ou de trabalho. Ela é que sabia as quantidades a fornecer e tudo isto com o espírito de equilíbrio. Era sempre a última a servir-se.

[Fogareiro a carvão]

O fogareiro de carvão tinha sido aceso com a ajuda da carqueja, vendida por uma velhota que vivia nos campos das redondezas, para lá da carreira de tiro. Carregando do produto uma pequena burrinha castanha, percorria as ruas do bairro que na altura não eram tantas como hoje, ou pelo menos havia muito terreno para construir.

De feições miúdas e seca de carnes, de pele enrugada e um pouco encurvada. de lenço pela cabeça cobrindo os cabelos alvacentos, vestia sempre de preto.

Não tenho presente, mas o preço do molho não ultrapassava os dois tostões. Quando era para o fim, os últimos molhos eram mais baratos pois ia-se fazendo tarde para regressar a casa e queria acabar com a carga. A mesma mulherzinha tinha épocas em que aparecia a vender queijo fresco.

Lembro-me perfeitamente do tamanho dos molhos e da sua cor verde escura a atirar para o castanho. Eram atados por baraço vegetal.

Em casa havia sempre uma reserva de carqueja pois a sua utilização acelerava o atear do carvão.

Seguia-se o varrer a casa e fazer as camas que tinham enxergões de palha de centeio feitos por artífices a que se chamavam e chamam colchoeiros. Enquanto nas camas de ferro constituíam peça única, nas de madeira eram dois, ao lado um do outro. Sobre os enxergões assentava o colchão, normalmente de tecido às riscas, espécie de saco em forma de estreito paralelepípedo, que possuía ao centro uma abertura por onde a DONA DE CASA metia a mão para mexer e remexer as camisas, que era a designação que tomava a palha de milho ripada. A sua substituição era periódica e tinha a ver com a utilização, possibilidades económicas e outros factores. De uma maneira geral, talvez o fossem de dois em dois anos. Compravam-se então, às vezes ao Manuel Serralha, dois ou três panos de camisas. Mais uma tarefa para a DONA DE CASA, a de ripar a palha com a ajuda das filhas ou das vizinhas. Da palha velha ainda se aproveitava a que estivesse em melhores condições, saindo a que já estava transformada em pó. De palha nova, ficavam a grande altura mas depressa acamavam.

A abertura central do colchão era fechada através de pares de nastros, que serviam de atacadores.

Em casas de maiores possibilidades, os colchões eram cheios de lã De custo muito mais elevado, tinham de ser de tempos a tempos despejados para a lavagem da lã que tinha de ficar uns dias ao sol, a enxugar. Havia uma grande desvantagem, muito quentes no Verão, mas apetecido no Inverno.

Lençóis e almofadas, invariavelmente brancos e nos melhores panos, bordados à mão.

Depois confeccionava-se a refeição, onde não faltava a sopa e depois, mais frequentemente, o peixe que na altura era mais barato do que a carne. Desta, além do que se podia criar no quintal, aves de capoeira principalmente para a utilização de ovos e coelhos, talvez a de porco fosse a mais utilizada, com relevância para os enchidos.

Os pratos eram sempre feitos pela DONA DE CASA que começava por servir o chefe da família. Ela era sempre a última, reservando para si os piores bocados.

Lavava a louça utilizando dois enormes alguidares de barro vidrado de tons melados ou esverdeados. Um destinava-se à lavagem propriamente dita, o outro para enxaguar. Acontecia que o talher, principalmente os garfos e as facas, depois de lavados e enxugados, tinham de passar por outra operação, aborrecida de executar - serem lixados para ficarem brilhantes. Onde estava o inoxidável?!

Normalmente cabia às filhas esse trabalho (digo filhas e não filhos) que antes do executarem deitavam a seu lagrimazita.

O arear de tachos e panelas já competia à DONA DE CASA. O esmalte misturava-se com o alumínio. As frigideiras, muitas vezes de ferro e a grande preocupação do seu interior ser bem limpo e areado. Ainda era muito vulgar o uso da louça de barro vidrado, principalmente frigideiras, tachos e tabuleiros para ir ao forno, na altura de lenha.


[Fogão a lenha]
As tardes não tinham uma utilização uniforme. Umas eram utilizadas para a lavagem da roupa que numa fase mais antiga era feita numa selha, vaso redondo de madeira com aduelas suportadas por aros de ferro. Havia uma tábua para a roupa ser esfregada, impregnando-a de sabão azul, consistente. Determinada roupa, mais suja e grosseira, ficava em potassa de um dia para o outro. Só mais tarde apareceram os tanques feitos de cimento e considerado um luxo, grande ambição das DONAS DE CASA.

Após a secagem que se realizava em arames estendidos nos quintais, era recolhida, separada e dobrada para a passagem a ferro que normalmente se realizava de noite, por vezes quando a família já dormia.

[Fogareiro a petróleo]

Passava-se em cima de um cobertor velho colocado numa mesa. Tábuas e de madeira, muito poucas existiam.

O ferro, com pega de madeira, tinha de ter a sua base bem lisa e polida, o que era feito através da passagem de lixa as vezes que fossem necessárias. No interior colocavam-se as brasas de carvão a fim de o aquecer à temperatura adequada nem sempre fácil de obter. Quando as brasas esmoreciam era necessário avivá-las com o abano. O grande problema dava-se quando saltava uma fagulha que ia queimar a peça que se estava passando, fazendo-lhe um buraco.

Seguia-se a tarefa de pregar os botões que faltassem e “dar uns pontos” onde se tornasse necessário. Passajavam-se as meias com o auxílio de um ovo de madeira, hoje, quando aparece um buraquito, deitam-se fora. As passagens tornavam-se em verdadeiros cerzidos.

Quando o orçamento permitia, compravam-se tecidos com que se faziam, desde saias a camisas, passando por tudo o que era necessário numa casa. Pouco ou nada existia feito.

Os enxovais dos bebés, tinham origem nas mãos das mães, incluindo as peças tricotadas com agulhas de lã, tão necessárias.

Noutros dias, lavava-se o chão com sabão de amêndoa (amarelo), tarefa para a qual se usava uma pequena peça de madeira que podemos definir como sendo um prisma triangular de cerca de meio metro de comprimento e de quinze a vinte centímetros de aresta, uma delas sofrendo leve abaulamento. Esta face era completamente aberta. Era aqui que a DONA DE CASA se ajoelhava para ir executando o árduo trabalho, mudando-a conforme a necessidade.

A mesma peça utilizava-se para as casas enceradas e aqui o trabalho talvez fosse mais violento. Primeiro raspava-se a cera que por ser velha estava suja e depois com um pano dava-se nova mas isso, não chegava, havia que puxar o lustre, com as mãos e panos de lã. Ainda não era o tempo dos enceradores eléctricos, pelo menos, pelo MEU BAIRRO.
Ainda não está esgotada a actividade da DONA DE CASA. Competia-lhe igualmente fazer as caiações necessárias, uma vez por ano. Já havia casas estucadas, é uma verdade mas a maioria eram caiadas e mesmo as estucadas, o exterior e muros do quintal que quase todas tinham, caiavam-se.

Nas doenças, fazia de enfermeira de serviço.

Quando os pais estavam velhos e acamados (na altura não havia os lares que há hoje) só contavam as filhas para os cuidar, o que acontecia também em relação aos sogros pois ia ocupar o lugar do marido - as noras alinhavam ao lado das filhas, em pé de igualdade nos trabalhos.

E quando havia morte na família? Com luto rigoroso a DONA DE CASA tratava de tingir em grandes panelões e a lume de lenha, as roupas necessárias para todos poderem vestir de preto, como mandava o uso e a tradição.

Responsável por tudo isto, se possível, ainda o era mais pela criação dos filhos. Quantos homens de então mudavam as fraldas aos filhos? Nenhum, eu pelo menos não conheci. Mesmo que o homem o pretendesse fazer, a mulher não o consentia pois aceitava essa obrigação e não queria que o marido ficasse mal visto, como então se dizia. Seria um escândalo, para ele e para ela!

Não esgotei as tarefas que competiam à DONA DE CASA no MEU BAIRRO à cinquenta anos, mas dei uma ideia aos novos que as desconheciam e que certamente ficarão de boca aberto.

A vida mudou muitíssimo, a mulher começou a sair de casa para trabalhar e nos primeiros tempos ainda foi maior vítima porque além de tudo o que já fazia, exercia a sua profissão.

A evolução da vida a isso levou e a pouco e pouco a mulher foi-se libertando até porque ser-lhe-ia impossível manter toda essa actividade sem a ajuda de todos da casa, marido e filhos. Enquanto ela faz as camas, ele trata do filho. Hoje os trabalhos são divididos mas ainda estamos longe da Igualdade a que dificilmente chegaremos.

A geração actual já funciona com alguma igualdade. Elas e muito bem, batem o pé nas tarefas caseiras e eles já vão alinhando porque as mães os foram preparando para isso.

Confesso que enquanto fui solteiro nunca fiz a minha cama, nunca descasquei uma batata, nunca lavei um prato, para não dizer estrelar um ovo.

Segundo as regras de então, essas tarefas não me competiam. Tudo igual aconteceu ao meu pai, como chefe de família, excepto uma coisa, o cozinhar que fazia por gosto de vez em quando, principalmente determinados pratos em que era exímio. Do resto, nada.

[Rua Padre Inácio da Piedade e Vasconcelos]

Fui criado neste ambiente mas aos vinte e um anos quando saí de casa para iniciar a minha vida, compreendi que as coisas não podiam ser assim e senti a necessidade de aprender a fazer as coisas de casa que competem tanto à mulher como ao homem, a designação de chefe de família acabou e muito bem e hoje as tarefas têm de ser divididas.

[Medidora]

Ainda fui a tempo de cozinhar para a minha mãe, fazer-lhe a cama, lavar-lhe a louça e a casa, dar-lhe banho.

Presentemente e já no ocaso da vida, sinto muito orgulho de saber fazer tudo numa casa e de ajudar nas tarefas a minha mulher. Se não faço mais é que ela não gosta muito do meu trabalho, que considera imperfeito, excepto a culinária, tarefa que me passa sempre que pode.

Se à gente da minha idade e do MEU BAIRRO eu fiz recordar coisas que sabe tão bem ou melhor do que eu, se algum jovem ler este escrito, pensará duas vezes e ficará a conhecer a vida da sua avó, mesmo sem ela lhe a ter contado, isto se não pertencia aos extremos da sociedade. O MEU BAIRRO era habitado quase exclusivamente por gente do povo, operários, empregados por conta de outrem e funcionalismo público. Havia uma ou outra bolsa de pobreza que não alcança os parâmetros que acabo de caracterizar, tal como em sentido inverso havia quem vivesse muito bem.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

E as árvores ...!

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18 DE MARÇO DE 1999)



Cheguei ontem (8 de Março) a esta cidade que se situa junto do Cabo Carvoeiro depois de uma ausência precisamente de um mês.

Fui para um local completamente diferente, a cerca de quatrocentos quilómetros de distância, ainda que no mesmo país, neste País de assimetrias notórias e que o decorrer dos anos mais vão acentuando.

Além do mais, dormir tranquilamente sem o barulho frenético de bares e discotecas que não nos deixam descansar, executar tarefas que aqui não podemos realizar, fomos com a ideia base de plantar árvores, que realizámos depois de grandes tarefas e foram vinte e duas. Tal actividade, deu-nos grande prazer. Ainda que da máxima de alguém eu já tenha realizado a trempe, a plantação de árvores está a uma distância muito grande, ainda que nunca a minha vida estivesse virada para tal actividade.

Ao regressar a casa, onde ninguém se encontrava devido às suas actividades, dei uma vista de olhos pela correspondência entretanto recebida onde se encontravam vários periódicos regionais. Foi assim que na última página do Correio do Ribatejo de 19 de Fevereiro último li na última página um artigo intitulado, Arborização no Bairro dos Combatentes - QUE FUTURO ? que mexeu muito comigo e de autoria do Sr. Eng. Luís Cunha Romão. Ainda bem que há gente que não fica calada e traz para o jornal a sua opinião e que corresponde certamente à esmagadora maioria dos residentes do Bairro. Não tenho o prazer de conhecer pessoalmente o Sr. Eng. Luís Romão, mas lembro-me muitíssimo bem se não faço confusão, de o ver pela mão de seus pais, de bibinho. Os pais eram um casal extremamente simpático e que recordo frequentemente. Desculpe este pequeno parêntesis.

Estou totalmente de acordo como não podia deixar de ser e os motivos são muitos.
*
Nas Memórias do Meu Bairro várias vezes tive oportunidade de a elas me referir. Muitas estarão perto das seis décadas. Os miúdos do Meu Bairro, como eu, não as destruíamos, pelo contrário, tínhamos uma adoração pela árvore que ficava próximo da nossa porta a que chamávamos “nossa”. Queríamos que fosse a melhor, a maior, a mais aprumada, a mais robusta e entrávamos em discussão uns com os outros, chegando a vias de facto, na defesa da nossa “dama”. Nas dúvidas procedíamos a medições do seu tronco, através de cordéis procurando a posição mais vantajosa. Muitos de nós procedíamos à sua rega assiduamente de tal maneira que a minha mãe ensinou-me que se regasse muito, a raiz apodrecia e a árvore morreria. Devo à minha árvore a origem deste ensinamento.

Apesar das minhas preocupações para o seu engrandecimento nos aspectos já referidos, a verdade e eu já o reconhecia na altura, a minha árvore era muito inferior às suas vizinhas, da direita e da esquerda e em todos os aspectos. Era a de tronco mais reduzido, a menos aprumada, a mais débil mas igualmente nos protegia nos dias de calor que apesar disso não evitava as nossas brincadeiras. Apesar de tudo, tinha-me sempre como seu defensor.

A minha árvore já não existe, já morreu. Tive o cuidado de o verificar e quando vi outra no seu lugar, um ainda jovem exemplar, tive pena da minha árvore mas ao mesmo tempo fiquei satisfeito pela sua substituição, desejando que o novo exemplar seja mais esbelto. A minha árvore desenvolveu-se sempre com aquilo que um leigo, como eu, considera uma doença no tronco que certamente a viria a vitimar.

Quando na época própria se procedia à sua indispensável poda, era uma altura de grande alvoroço para a rapaziada como descrevemos na MEMÓRIA IX, com o subtítulo LIMPEZA DAS ÁRVORES, pelo que, para mim e certamente para a grande maioria para não dizer a totalidade dos ex-moradores e actuais, as árvores da AVENIDA são absolutamente indispensáveis pelo que assassiná-las seria uma torpe ofença para a população do Bairro.



Na minha última MEMÓRIA da 1ª Série, publicada no número de 11 de Junho de 1993, escrevi: Algumas árvores secaram e não foram substituídas e outras, com um porte bastante avantajado, estão decrépitas e já não produzem a folhagem suficiente para embelezamento e proporcionar uma certa fresquidão nos dias quentes de Verão.

Era para este aspecto que eu chamava a atenção na altura das Entidades responsáveis, nunca imaginando que alguém um dia pudesse pensar na sua eliminação.

Algumas pessoas tentaram contactar comigo na altura (mesmo do estrangeiro !) no sentido de me alertarem para o que se estava passando.

Tenho conhecimento que várias vozes se fizeram ouvir, algumas transmitidas no papel e não quero nem posso deixar de nestas pequenas croniquetas de dizer o que penso sobre o assunto.


Além do que já afirmei, penso que é necessário ponderar, entre outros, nos seguintes aspectos:
- O renque de árvores da Avenida dos Combatentes, segundo creio, é o único do tipo existente na cidade de Santarém;
- Foram principalmente elas que deram origem à classificação de Avenida e ao desaparecerem as placas toponímicas teriam de ser alteradas para Rua;
- A beleza que transmitem à velha artéria, não se pode desdizer;
- Em dias de canícula, a protecção que dão aos viajantes é notória;
- Ao entrar no novo milénio e quando as preocupações ambientais começam a atingir parâmetros aceitáveis, ninguém compreenderia que se roubasse a esta avenida o verde que possui.
- Além de tudo o mais que se possa dizer, são o ex-libris do Bairro.



Estamos convictos que foi uma tempestade num copo de água.

Se a Edilidade alguma vez pensou em eliminá-las, por motivos” economissistas”, certamente que irá mudar de posição e atender a opinião fundamentada dos utentes/eleitores, a fim de evitar, além do mais, de possíveis deslocação de votos na altura do ajuste de contas, que são as próximas eleições. Se fosse no “Norte”, seria de uma maneira diferente.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Lembrando Silva Rabico, Mestre de Encadernação


[José da Silva Rabico]


(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 4 DE FEVEREIRO DE 2000)

A MEMÓRIA de hoje se tem alguma coisa de comum com as até agora escritas, e tem, é diferente de todas as outras.

A figura do MEU BAIRRO, recentemente desaparecida e que vou lembrar, conheci-a precisamente devido a estas croniquetas que venho escrevendo nas páginas deste semanário desde inícios de 1991.

Velho assinante deste jornal, leitor por devoção e acrisolado amor a tudo o que dissesse respeito à sua terra natal, começou a seguir semanalmente os TEMAS VARZEENSES, recortando-os para coleccionar. Quando no último tema informei os leitores interessados que dispunha, por intermédio de fotocópias, algumas colecções para quem estivesse interessado, foi a primeira ou das primeiras “encomendas” que recebi.

Era nome completamente estranho para mim e não o via ligado à Várzea. À minha dúvida respondeu-me que não era varzeense, mas santareno nascido no Jardim de Cima, freguesia do Salvador.

Daquele primeiro contacto e devido ao interesse mútuo, outros foram acontecendo a nível de correspondência. Devido ao meu nome, Silva Rabico começou a relacionar-me com alguns dos meus famílias que conheceu mas que naturalmente tive que indicar a relação de parentesco. Começou a nascer uma amizade.

Acontece que José da Silva Rabico morou alguns anos no MEU BAIRRO, na confluência da Rua Almeida Garrett (antes, Rua B) com a Frei Gaspar do Casal no canto da Zulmira, quando ali existia uma mercearia propriedade de uma senhora com esse nome. É devido a esta circunstância que incluí esta lembrança nas MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO.

Silva Rabico que ficou órfão de pai de tenra idade, foi criado e educado no Asilo da Misericórdia onde fez a instrução primária em 1933. Entra entretanto para a escola de encadernação daquela instituição e com dezoito anos apenas, quando findou o período de internamento, fica como encarregado da oficina, funções que desempenha até 1946.
Aquela escola - oficina gozava e penso que ainda goza de grande reputação entre os especialistas e amantes de boas e artísticas encadernações. Devido ao meu afastamento, à morosidade na execução, por avalanche de trabalho e porque entretanto encontrei na cidade onde vivo um bom artista do ramo, deixei de recorrer àqueles serviços, onde conheci não o Mestre Silva Rabico mas o seu substituto, Mestre Eliezer Fonseca que lá trabalhou muitos e muitos anos. Na minha pequena colecção de livros possuo alguns encadernados (umas dezenas) naquela oficina e que considero muito bons trabalhos, todos em carneira e artisticamente decorados.

De 1946 a 1967 Silva Rabico junta-se a outro grande profissional, formando a dupla Torres & Rabico.
Porque penso que me o autorizaria, não resisto à tentação de transcrever o que em carta este nosso já saudoso amigo nos transmitiu:- Fizemos milhares de encadernações para muita gente simples e humilde, mas também para gente grada, oriunda de um elevado extracto social dessa época e bem colocados na vida. Hoje sinto um certo orgulhozinho por ter servido essas pessoas, que certamente preferiram as nossas encadernações porque o trabalho era bem feito e lhes agradava.

Entre outros, em Santarém, trabalhou para o Dr. Eduardo Figueiredo, advogado, Dr. Correia de Lima, médico, Coronel Mário Cambezes, Dr. Ruy Leitão, reitor do liceu, Prof. Doutor Veríssimo Serrão e Capitão Costa Pinto. Foi para este senhor, que foi secretário da Rainha D. Amélia, que pensa ter encadernado maior número de livros, na sua grande maioria autografados pelo autor e com dedicatórias.

Mas a sua actividade estendia-se praticamente a todos os concelhos circunvizinhos e principalmente a Lisboa. Alcanena, Alpiarça, Almeirim, Coruche, Chamusca, Cartaxo, Benavente, Alcobaça e Nazaré eram concelhos onde possuíam bons clientes. Em Lisboa, trabalhou para o Embaixador Eduardo Brazão, Eng. Ferraro Vaz, Eng. Gonçalo Ribeiro Teles, Prof. Doutor José Hermano Saraiva, Marquês da Graciosa e trabalhou para o Arquivo Histórico Ultramarino, Fundação Gulbenkian, Misericórdia de Lisboa e Sacor, entre outros.

Em Novembro e Dezembro de 1987 desloca-se ao Em 1968 parte para Lisboa onde trabalha durante dois anos numa oficina de encadernação, passando em 1970 a dirigir os trabalhos relacionados com a sua arte numa firma editora, o que faz até à sua aposentação que ocorreu em 1986, após cinquenta e três anos de trabalho.

Brasil (Recife) onde ministra um curso de encadernação tradicional promovido e patrocinado pela POOL EDITORIAL S/A com a colaboração do Gabinete Português de Leitura e o apoio da Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes do Estado de Pernambuco.


Silva Rabico, além de ter sido um excelente profissional de uma arte (artesanal) em vias de extinção, tinha uma verdadeira paixão pelos livros e pela sua terra natal. Dela, coleccionava tudo o que podia, possuindo alguns livros e pequenos opúsculos hoje difíceis de obter. Silva Rabico lia tudo o que encontrava sobre Santarém e tinha conhecimentos sobre a sua cidade para além da média. A sua colecção de livros rondava o milhar o que para uma pessoa de fracos recursos económicos representa um grande esforço e um grande sentido de cultura.

Se hoje posso ter na minha estante o maravilhoso livro Santarém, Princesa das Nossas Vilas, de Areosa Feio - 1929, devo-o a Silva Rabico que num gesto que não esqueço, teve a amabilidade de me o oferecer, quando lhe podia render bom dinheiro. Dizia-me que tinha dois e não lhe interessava ter livros em duplicado. Sabia que na minha mão, seria estimado e auxiliar-me-ia nos meus trabalhos (trabalhecos, digo eu). O exemplar a que me refiro tinha sido adquirido num alfarrabista de Lisboa, como indica a etiqueta.

Possuía muitas centenas de recortes sobre Santarém e outros assuntos que lhe interessavam, como arqueologia e numismática. Cultivava também a medalhística.

Silva Rabico deslocou-se propositadamente da terra onde vivia àquela em que resido, no dia 30 de Julho de 1995, numa distância que ronda os cem quilómetros, para me conhecer pessoalmente ! Não merecia tanto.

Mantivemos correspondência que acabou por criar uma amizade. As cartas de Silva Rabico tinham princípio, meio e fim e estava ortograficamente actualizado. Tinha o dom da escrita e muito com ele aprendi.

Devido aos meus afazeres, por vezes atrasava-me nas respostas. Ao regressar de uma temporada passada em lugares um poucos distantes, procurei responder rapidamente ao meu amigo, até porque tinha dois trabalhos meus para lhe mandar, com o que ficava sempre muito satisfeito. A resposta não apareceu como era habitual e pressenti que algo se tivesse passado. Peguei no telefone esperando ouvir a sua voz do outro lado. Ninguém atendia. Voltei a telefonar em horários diferentes e o mesmo silêncio.

Contei o facto a minha mulher, denunciando os meus receios. Voltei a sair. Telefonicamente, minha mulher informa-me: - Telefonou a filha do Senhor que só te trata por José Varzeano para dizer que o pai tinha falecido.


Perdi um grande Amigo que o “escrevinhar” me trouxe.

Perdeu-se um Mestre de Encadernação que honrou a sua Escola, a sua Arte e até a sua Terra.

Um País não é só feito de “doutores”! Artistas destes devem ser mais conhecidos.
Aqui fica a minha singela homenagem a José da Silva Rabico.

Obrigado por tudo, AMIGO.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Quando nevou no meu bairro

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 11 FEVEREIRO DE2000)

O tempo sentido ultimamente no País, com temperaturas baixas e nevões nas terras altas da Estrela e Trás-os-Montes, com interrupções de estradas e até o isolamento de pequenas povoações, trouxe-nos à memória factos passados e que recordamos com saudade.

Hoje as “televisões” que invadem luxuosas moradias e míseros tugúrios, tudo mostram, de bom e de mau. Em parte são responsáveis pela falta de conversação entre os elementos da família, que poucas vezes se encontram por divergências de horários e outras razões, pela falta cada vez mais notória de leitura e consequente desconhecimento da língua mãe, para não dizer “escola” que se transformou para os mais vulneráveis.

Acontece muitas vezes e porque os programas são diferentes, cada qual escolhe o que mais gosta e recolhe-se ao seu aposento pois todas na casa dispõem de televisor para evitar conflitos. Agora vai-se dizendo que os portugueses gastam mais do que podem e andam endividados com consequências imprevisíveis!

Claro que a televisão tem coisas boas como não podia deixar de ser, nós é que por vezes temos dificuldade em fazer a depuração.

Nunca fui grande amante de televisão, a não ser nos seus primórdios, deslocando-me aos locais em que se encontravam para tudo ver, especialmente os concursos conduzidos por Artur Agostinho e de que me lembro do Quem Sabe, sabe. Nessa altura, muito poucos tinham possibilidades de comprar um televisor e mesmo esses, pequeno número o fazia. As associações e alguns cafés é que os possuíam comprados muitas vezes a prestações para fruição de associados e fregueses. É o que se assemelha hoje um pouco ao canal desportivo.

[Rua Fernão Lopes de Castanheda]
O conhecimento de um miúdo de então, resumia-se ao que aprendia com a família e com a vivência da sua rua, quando muito do seu bairro. Brincava-se e guerreava-se com os vizinhos e com as raparigas, nem pensar. Se muito excepcionalmente, uma ou outra entrava por exemplo num jogo de escondidas, era logo chamada de rapazona!

De NEVE eu conheceria só A BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES e isto pelo conto que me contavam pois ainda não sabia ler. Esse livrinho que vim a possuir e que existiu até não há muitos anos, foi dos primeiros que teria lido e que fazia parte, com outros, de uma colecção que, se a memória não me atraiçoa, tinha o título de Joaninha.

Numa manhã de Inverno do já distante ano de 1945, as minhas irmãs quando acordaram e o seu quarto tinha uma porta larga e envidraçada que dava para comprida “marquise” e para as traseiras da casa, viram os terrenos que circundavam o presídio militar, na altura um olival onde se semeava trigo, todos branquinhos, de tal maneira e muito admiradas, foram comunicar aos pais que tinham de noite espalhado cal nos terrenos do presídio, que viessem ver como era verdade!

Lembro-me, como se fosse hoje!

Fomos então esclarecidos que aquele branco não era de cal mas sim de NEVE o que era muito raro acontecer em Santarém. Ficámos eufóricos e sem nos importarmos do frio que fazia quisemos logo ir para a rua para mexermos naquela coisa branca, sentir nas nossas mãos o que era a neve que pela primeira vez víamos.

Aquilo é que foi brincar, fazíamos bolas e o que a nossa imaginação nos transmitia. Era o correr, o rir, o saltar, o atirar a neve uns aos outros. Os adultos igualmente não escondiam a sua admiração e bem poucos já teriam visto neve tão perto. O pior, e lembro-me da minha tristeza, foi quando a temperatura começou a subir... tudo desapareceu e a criançada não queria que tal tivesse acontecido! E perguntei a meus pais se no outro dia não havia neve outra vez? Tinha ficado fascinado!


Mas a neve voltou ao MEU BAIRRO não no dia seguinte, como eu queria, mas nove anos depois, e isto se posso confiar na minha memória.

Devia ter sido nos primeiros dias de Fevereiro de 54, já então era um homenzinho. Já não brinquei como da primeira vez visto a idade ser outra mas alinhei nas brincadeiras dos mais velhos.

Lembro-me que um vizinho que era chefe da polícia e anormalidade para tirar umas fotografias à rapaziada, que me lembro de ver e amador fotográfico, daqueles que faziam as revelações, aproveitou a até me recordo onde foram tiradas.

Nessa altura, a Avenida não tinha saída. Havia um mau caminho que nos levava à escola primária que devia ter meia dúzia de anos de construída. Logo após a descida e antes de chegar ao pátio da escola, existia uma barraquita a que depois meteram, por dentro, algo parecido com paredes. Lembro-me de chegarem a viver ali três famílias. Pois foi no pequeno largo em frente desta construção que as fotografias se tiraram. Simulou-se um combate de boxe, servindo a neve de luvas.

Além desta memória também consigo recordar que no campo de Sá da Bandeira (Campo Fora de Vila como os mais velhos continuavam a chamar), frente ao Regimento de Artilharia 6 e onde se encontra hoje a PSP, os soldados fizeram com a neve um grande boneco que causou alguma sensação.

É claro que não nevou só no MEU BAIRRO, os nevões para alcançarem Santarém tiveram âmbito nacional e foram “manchete” nos jornais.

Só voltei a ver neve em 1962 quando me encontrava exercendo a minha actividade profissional nas abas da Serra do Caramulo. Ali já era um acontecimento, que não sendo normal, também não era invulgar, pelo que passava quase despercebido. Depois, e muito mais tarde, voltei a vê-la, onde no País é rainha - na Serra da Estrela, onde a fui mostrar pela primeira vez ao meu filho que com ela delirou, tal como eu, em 1945, com uma diferença, ele era mais novo do que eu.

Certamente que os moradores do MEU BAIRRO daquela altura e que por ventura leram este arrazoado, a sua MEMÓRIA trabalhou e quem sabe, lembram-se de mais coisas do que eu.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Outra Figura marcante

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 19 DE FEVEREIRO DE 1999)

Não será fácil identificar ao cidadão comum, do meu tempo, esta figura para mim marcante. E marcante para mim, porquê ? Existe efectivamente uma razão para isso, é que este homem era irmão de uma minha tia por afinidade e daí eu conhecer coisas que outras não conhecem. Ao vê-la chorar, eu, criança, ficava oprimido e perguntava-lhe a razão e era então que me fazia a explicação que apesar de não compreender bem, me deixava chocado.

Viveu muitos anos na Rua Almeida Garrett, no segundo quarteirão do lado direito de como quem entra, oriundo do “Largo das Amoreiras”. Nessa altura, era a única possibilidade de entrar no hoje velho bairro.

Vivia numa pequena casa que tinha na sua frente um quintal, tipo de construção muito típica no meu bairro nos seus primórdios e de que hoje restam poucos exemplares, presumindo que este seja um deles.

Aí criou os filhos como pode , como pode é uma maneira de dizer já que, trabalhando, vencia o suficiente para manter com a dignidade da época, a família que não era pequena. O que acontecia é que o regime de então o privava por vezes da sua liberdade, encarcerando-o, deixando assim a família em situação difícil.


Profissional competente, sempre o conheci como encarregado de um serviço, respeitado por patrões e colegas de trabalho seus subordinados que o consideravam um mestre competente e exigente.

Os filhos que lhe conheci, eram mais velhos do que eu.

Nunca o vi falar com ninguém, nem com o próprio cunhado que era meu tio. Limitava-se à saudação habitual de bons dias, tardes ou noites, conforme as circunstâncias.

Pessoa extremamente fechada, tinha boas entradas no cabelo, baixo e um pouco para o forte.

Com a minha saída do bairro, deixei de o ver e tive conhecimento que faleceu ainda relativamente novo, muito antes do 25 de Abril.

Alguns que o criticavam por não abdicar das suas ideias políticas, vieram a “defendê-las” após aquela data.

Nada o fez abdicar das suas convicções políticas, pelas quais se bateu até à morte.

O seu comunismo foi ao ponto de dar o nome de um dos símbolos do comunismo ao filho primogénito que no decorrer dos anos e até ao 25 de Abril devido a isso, viu-se sempre olhado com desconfiança.

Para ti Victor, o meu abraço de amizade.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Quem se lembra?

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 12 FEVEREIRO DE 1999)


Numa visita recente ao que resta da família que ainda vive na minha cidade, agora só a nível de primos direitos, em conversa que procurou recuarmos no tempo, foi-me chamado à memória uma figura que estava arrecadada no meu subconsciente. Quando a minha prima me falou dela, não conseguia saber quem era, mas quando o nome lhe ocorreu e o pronunciou, o meu cérebro funcionou ao ritmo de um moderno computador e a minha memória trouxe-me a figura que tentarei reproduzir por palavras.

Era minha vizinha, morava do outro lado da rua, no último quarteirão da Avenida. Lembro-me do pai e da sua actividade profissional na área da camionagem. Da mãe, nada me recordo e penso que era filha única.

A casa onde viveu, um rés-do-chão, já não existe, tendo-se construído na sua área um prédio de 1º andar e isto se a minha recente memória não me atraiçoar.

Eu tinha os meus seis, sete anos, quando muito. Ela, rondaria os vinte. Alta, loura, elegante, para o forte sem ser gorda, arranjava-se muito bem e numa época em que raramente as mulheres o faziam pelos motivos mais diversos.

Estaríamos em finais da década de quarenta.

Cabelo impecável, bem pintada e maquiada. Vestia e calçava na moda e tinha extenso guarda roupa. O branco e as ramagens, segundo a minha memória, mereciam a sua predilecção.

Não era propriamente uma mulher bonita, mas sem dúvida que era extremamente vistosa, sabendo realçar os pontos que a natureza melhor a dotou.

Muitos a consideravam a mulher mais vistosa e bonita do Meu Bairro.

Casou cedo e tenho uma vaga ideia do seu casamento, lembrando-me muitíssimo bem do marido, um beirão cuja família se fixou por esta cidade onde ainda se mantém, ainda que ele, pouco tempo depois de casar tivesse tomado o rumo de Moçambique, com a mulher.

Em casa de meus pais existiam algumas fotografias dela, ao seu estilo e talvez as minhas observações tenham mais a ver com as fotografias do que com a realidade.
Ainda houve troca de correspondência e de fotografias mas foi-se diluindo com o tempo, apesar de nunca ter sido esquecida.

*
Um dia, teria eu dezasseis, dezassete anos e quando ninguém a esperava, apareceu a visitar os meus pais.

Os anos tinham passado, agora já era uma mulher bem madura que procurava e de certa maneira conseguia, encobrir os anos.

A sua alegria e vivacidade mantinham-se tal como o gosto de ser admirada, de chamar a atenção.

Lá esteve conversando com os meus pais, conversas a que não assisti. O que me recordo bem é de me ter pedido, com aquele sorriso maroto que lhe era peculiar, para a ir levar a casa de familiares do marido que tinha ficado em África. Nessa altura parecia mal as senhoras andarem sozinhas !

Se por um lado fiquei eufórico por poder acompanhar mulher tão vistosa, por outro senti receio de não sei de quê.

Saímos. De imediato me deu o braço. Pisava o chão como ela sabia, firme e ritmicamente. Eu ali só servia de fraca bengala de adorno.

Lá fomos andando segundo a sua orientação. Por onde passávamos, todos olhavam. Ela, portava-se como uma senhora, elegante, vistosa, bonita, apesar de já não ser propriamente uma jovem. Eu, um rapazeco que nunca me tinha visto em tal situação, sentia-me embaraçado e desejoso que o trajecto acabasse.

O que aconteceu ? Em lugar de seguirmos o caminho mais directo para o Bairro do Milagre, levou-me por outro trajecto, passando no centro da cidade e junto ao desaparecido Café Portugal, tudo locais onde se encontravam os “mirones”
Era uma época em que ainda se usava o piropo e com a passagem da “brasa”, não podiam faltar e cada vez que se ouvia, sentia um apertão no meu braço.

Quando chegámos ao destino, se por um lado me senti ufano por acompanhar aquela mulher, por outro senti um grande alívio de que não sei definir os contornos.

Tive conhecimento anos depois que visitou familiares meus em Lisboa, regressando a África, mais propriamente à África do Sul onde me consta ter falecido.

Pergunto à gente do Meu Bairro que nele viveu na década de quarenta, quem se lembra dela ? Se dissesse o nome, muitos se lembrariam, talvez melhor do que eu! Mas isso, eu não vou fazer.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Piropos e coisas mais...

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 8 DE JANEIRO DE 1999)

[Interessante habitação de paredes forradas de azulejos e situada na Avenida do Meu Bairro. Foto JV]

Durante os passeios higiénicos que faço depois do jantar, caminhando tranquilamente pelas ruas da cidade em que resido, cruzo-me com muita gente, incluindo jovens, muitas vezes em grupo, quando a noite começa a cair e em maior número na época estival.

É frequente ouvir algo das suas conversas, já que o tom de voz é elevado, desinibido e esfuziante. Mau sinal era se a juventude não fosse irreverente!

Temos sempre tendência para pôr em paralelo o que agora existe com o que se passava nos nossos tempos. Não era melhor nem pior, era naturalmente diferente.

Havia mais paternalismo, mais “tabus” e muitíssimo menos poder económico.

A família era um todo, gravitando à volta do então chefe de família, o braço que angariava um salário baixo, que o cônjuge, além do desmedido trabalho caseiro (cozinhando, lavando, cosendo, etc.) tinha de administrar.

Mas... andando.

Na minha juventude os rapazes faziam grupos e a sua linguagem, ainda que livre, era comedida. As raparigas, quando muito, juntavam-se duas a duas.

Hoje, os grupos são mistos e o palavreado é muito mais claro e incisivo, fazendo gala na linguagem mais chocante, o sexo feminino (talvez em tentativa de afirmação) com predominância dos fedelhos de catorze, quinze anos, quando não menos.

No meu tempo havia genericamente um certo respeito pelos “grandes”, A sua aproximação motivava o alerta para o mais distraído e no sentido de haver moderação na linguagem. Se saía alguma mais forte, havia logo uma reprimenda feita por qualquer um, em voz alta, funcionando como o pedir desculpa ao venerando passante.

Na altura o contacto familiar era intenso - pais, filhos e muitas vezes avós. Não havia dispersão, havia um todo. Quando se sentava um à mesa, sentavam-se todos e só em circunstâncias raras e muito especiais sem o agora extinto chefe de família.

Se os velhotes não viviam com os filhos e continuavam nas suas residências, a assistência que se lhe dava era a mais intensa possível, sendo a mulher (filha ou nora) a responsável por mais esta árdua tarefa em que os homens colaboravam, segundo as regras, só em situações muito especiais.

Os avós constituíam o símbolo do trabalho, das boas maneiras, da honestidade. Os que ainda tinham alguma vitalidade, ajudavam os filhos na criação dos netos. Hoje, é tudo diferente. As crianças aos três, quatro meses vão para amas e depois para infantários. As mães não as podem ter junto de si já que têm de ir trabalhar fora para ajudar o orçamento familiar. Quando não existe a necessidade monetária, impõe-se a realização pessoal. Depois, dá-se o reverso da medalha, são os filhos que têm a necessidade de ir depositar os pais nos albergues ou lares como agora é costume chamar.

Afinal, estou a afastar-me daquilo a que me tinha proposto abordar.
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Na minha juventude estava na moda o piropo, galanteio ou madrigal de intenção lisonjeira, chegado à rua e muitas vezes deturpado pelos seus praticantes, chegando mesmo a cair no ridículo e no impropério.

Parece que o piropo teria origem nos grandes salões aristocráticos e que a pouco e pouco foi extravasando, chegando à rua, com as adulterações próprias de quem o maneja. Em consequência, o piropo foi também utilizado para o homossexual com um sentido de “crítica” e ultrapassou limites, caindo na ofensa como já referimos.

[Antiga e interessante habitação (hoje em ruínas) da Avenida do Meu Bairro]

Praticado pelo homem, como na altura não podia deixar de ser, eram os jovens os seus maiores utilizadores, ainda que os melhores piropeiros estivessem no homem feito. Eram das suas bocas que saíam oportunos e pronunciados num bom tom de voz. Estes, muitas vezes obrigavam a um leve sorriso da destinatária. Aceites com naturalidade, por vezes a corte iniciava-se com este sistema, dando origem ao namoro e casamento.

Tudo era motivo para o piropo, mas constituíam alvo preferencial o corpo da mulher e onde se destacavam os olhos, pernas, seios, etc.

Era certo que as moças da minha juventude evitavam passar perto de um grupo de rapazes no sentido de evitar o piropo.

Havia os piropeiros originais e os que se limitavam a reproduzir os que ouviam aos outros.

Dizia-se nesse tempo que mulher séria não tem ouvidos pelo que só em situações muito excepcionais havia uma retaliação. Era frequente, além de um leve sorriso e do baixar do olhar, um rápido “corar”.

O piropo dirigido a determinadas figuras locais era lançado com sentido provocatório visto o lançador saber de antemão ir receber a resposta adequada, por palavras ou acções o que originava muitas vezes e atempadamente “dar à sola” para evitar confusões.

O piropo, pelo menos o de rua, com o decorrer dos tempos foi entrando em desuso e há muito que está praticamente extinto. Pensamos que isso teve lugar devido à cada vez maior aproximação do sexo, cada vez a mulher è mais “homem” e o homem mais “mulher”. Cada vez a mulher desempenha mais funções que na altura eram exclusivas, mesmo por lei, dos homens e o homem já vai fazendo coisas que noutros tempos eram consideradas exclusivas da mulher.

Por outro lado o muro interposto entre o homem e a mulher foi ruindo a pouco e pouco e hoje um simples tijolo os separa.

A lei, procura a igualdade mas a realidade ainda é (até quando?) outra.