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sábado, 16 de janeiro de 2010

A doença

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 31 DE DEZEMBRO DE 1998)


[A Avenida no Meu Bairro. Foto JV, 1992]

Há quarenta, cinquenta anos, período básico a que se reportam estas modestas croniquetas, as reacções perante a doença pouco tinham a ver, como é natural, com o que se passa hoje.

O sistema assistência era praticamente nulo. Só as misericórdias continuavam a sua acção de séculos, destinada aos mais desfavorecidos.

Naqueles tempos, havendo problemas de saúde, só em casos urgentes ou muito graves se recorria ao hospital. De uma maneira geral, chamava-se a casa o médico e cada família tinha o seu, não com o significado que tem hoje o médico de família Era então que o médico verificava se o doente tinha necessidade de ser internado no hospital, o que se fazia em último caso.

O hospital de então, que ficava à entrada do meu bairro, pertencia à Misericórdia, o Hospital de Jesus Cristo, fundado por João Afonso de Santarém que absorveu mais de uma dezena que então existiam na vila de Santarém.

Nessa altura, a enfermagem era feita pelas irmãs da caridade, como lhe ouvia chamar quando lá ia pela mão de minha mãe, visitar familiares e amigos.

As enfermarias, eram enormes, foi uma ideia que me ficou.

Por esses tempos e que eu me lembre, não residia no bairro qualquer clínico e muito menos existia consultório médico – tudo então estava concentrado no centro do velho burgo. A maior parte das vezes o consultório funcionava na própria habitação do médico a que se tinha retirado para o efeito, duas salas, a de espera e a do consultório propriamente dito.

A chamada do clínico era feita através de um familiar ou vizinho do doente que se deslocava à residência ou consultório, solicitando a presença do médico que normalmente não se fazia esperar.

Deslocava-se muitas vezes a pé, passando depois a fazê-lo de automóvel e por estas alturas os médicos possuíam quase todos uma “arrastadeira”, como era conhecido determinado modelo de uma conceituada marca de veículos automóveis.

O médico ia encontrar o doente no leito e ao abeirar-se dele, “tomava-lhe o pulso”, isto é, avaliava qual o ritmo cardíaco procurando verificar se havia febre. Depois, por intermédio do ouvido, auscultava o paciente na tentativa de perceber os ruídos que se produziam no interior do organismo.

Só mais tarde se começou a utilizar o termómetro, quase sempre trazido pelo próprio médico, e o estetoscópio.

Após o exame, o médico era encaminhado ao lavatório de ferro ou de madeira, onde se encontrava a toalha de linho, poucas vezes servida, o sabonete colocado na saboneteira de louça ou de esmalte, quase sempre a estrear e naturalmente o jarro de água a condizer com a saboneteira. Só depois os médicos começaram a pedir algodão e álcool.

A dona da casa ou a pessoa que a substituía, perguntava então se a doença era alguma coisa de maior cuidado, isto enquanto o médico ia passando a receita, indicando como os medicamentos deviam ser tomados e fazendo as considerações que julgava pertinentes.

À saída, o chefe da casa ou quem as suas vezes fizesse, perguntava ao médico quanto lhe devia e efectuava o pagamento.

Lembro-me que na altura ainda se usava com alguma frequência as ventosas, os clisteres, as papas de linhaça, os sacos de água quente e de gelo. Os caldinhos de galinha ainda se usavam como dieta.

As injecções estavam em grande uso pelo que existiam na cidade vários profissionais desta arte a que se recorria quando necessário. Lembro-me de três residindo no meu bairro, sendo um o saudoso Francisco Leonor, conhecido por todos por Sr. Chico enfermeiro. Além de ser um conceituado profissional, era uma excelente pessoa, extremamente afável. Nunca passava por ele que não tivesse uma palavrinha para o miúdo que conhecia quase desde que nasceu.

Durante a minha vivência no bairro, cerca de vinte anos, dei entrada duas vezes no hospital, uma pelo corte da língua e outra num pé. A segunda, de que ainda possuo cicatriz, foi mais complicada, havendo necessidade de uma pequena intervenção cirúrgica. Os factos tiveram lugar quando tinha quatro, cinco anos e foi um amigo da família de nome, Manuel Machado há muito desaparecido que me tirou do colo de minha mãe e que acabou por me levar ao hospital. Apesar dos muitos anos passados, tenho tudo presente na minha memória.

Aqui fica esta Memória, sentida e compreendida pelas gentes do meu bairro e da minha época mas que aos jovens de hoje, parece pertencer à época medieval.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A morte

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 23 DE DEZEMBRO DE 1998)


Como a doença muitas vezes nos leva à morte, resolvemos, e em seguimento da Memória anterior, pôr a memória a funcionar e tentar reproduzir o que então se passava no meu bairro.

Ainda que no fundamental as coisas se repitam, existem diferenças acentuadas de procedimento.

Após exalar o último suspiro, familiares, por vezes auxiliados por vizinhos, procediam ao amortalhar, operação que tinha de ser feita com o maior carinho. Se a morte estava prevista, a mortalha já estava preparada e constituída pelo melhor que o defunto possuía. Tratando-se de pessoa idosa do sexo feminino, era ela própria que a gostava de preparar, enquanto tinha saúde, muitas vezes feita pelas suas mãos. Transmitia o facto e o desejo aos familiares mais próximos, principalmente à filha mais velha, quando existia, a fim de ser satisfeita a sua vontade.

Cumprindo o ritual da higiene, o cadáver era lavado e quando homem, a barba cortada, sendo de seguida vestido, o que deve ser feito ainda com o corpo quente, já que assim é maleável.

A divisão mais espaçosa da casa, muitas vezes a casa de jantar ou casa de fora, era transformada em câmara ardente. Os móveis tapados com panos pretos, o caixão e em casos mais raros, a urna, colocado no meio da casa, ladeado por cadeiras. Sinais do culto católico já que só muito excepcionalmente, e isto para não dizer nunca, se praticava outro.

Já se usavam as velas de cera (estearina) mas a maioria da gente preferia a lamparina de azeite.

Familiares mais distantes, vizinhos e amigos iam chegando, invariavelmente vestidos de preto ou escuro, para apresentar condolências e muitos velarem o defunto até à hora do funeral. Ouvia-se dizer que era a última noite que se podia acompanhar aquele ou aquela que tantas vezes se havia acompanhado noutras circunstâncias.

Alguma vizinha ou familiar mais afastado fazia um caldinho de galinha para matar a fraqueza e um café forte para afastar o sono.

Havia sempre junto ao defunto alguns dos familiares dos mais chegados, vestindo todos de preto. Se de momento não era possível os homens vestirem de negro usavam um fumo preto no casaco mais escuro que tivessem e mesmo na lapela. Se fosse necessário, as mulheres rapidamente tingiam as suas roupas.

Chegava a hora do funeral. Os acompanhantes começavam a chegar, apresentavam os “sentimentos” a quem de direito e formavam grupos junto da porta por onde ia sair o caixão. Entretanto aparecia a carreta, onde o negro e dourado se impunham. Dois homens, vestidos de preto, puxavam-na.

Após a retirada do caixão com as cenas próprias provocadas pelo desgosto por que se estava passando, era amarrado à carreta por intermédio de cintos afivelados e lá seguia a caminho do cemitério dos Capuchos com o padre exercendo a liturgia referente ao acto.

Os homens puxavam a carreta, um de cada lado do varão e quando aparecia uma subida mais acentuada, neste caso na Rua António dos Santos, junto à oficina da então Camionagem Ribatejana, tinha de haver ajuda prestada pelo patrão (vulgo cangalheiro), que seguia na retaguarda, normalmente com uma das mãos já colocada na carreta.

Os familiares mais chegados seguiam logo atrás. As acompanhantes levavam ramos de flores cujo pé se resguardava com uma “prata”.

Ao portão do cemitério, o caixão ou urna era retirado da carreta funerária para seguir na própria do cemitério, a caminho da sepultura. Havia igualmente a possibilidade de ser levado à mão ou ao ombro por camaradas, amigos ou companheiros, o que acontecia algumas vezes.

Na altura era raro a missa de “corpo presente” e não tenho a certeza porquê mas presumo que fosse por uma questão económica.

Junto à sepultura, o padre terminava as exéquias. Depois, havia a possibilidade do despedimento dos familiares e amigos, o que normalmente acontecia. O caixão era colocado no fundo da cova e os coveiros completavam o seu trabalho. Havia sempre algum familiar menos chegado que permanecia no local até à conclusão dos trabalhos após os quais se dirigia aos familiares mais próximos transmitindo a situação.

As viúvas tinham luto para a vida inteira e durante certo tempo que já não posso determinar cobriam a cabeça com uma espécie de mantilha preta.

Havia outras regras de luto pela morte de familiares que igualmente não posso precisar e na qual se englobavam o luto carregado e o aliviado.

Ainda que alguns aspectos se mantenham, a verdade é que existem grandes diferenças com o que se passa hoje, de tal maneira que esta Memória será considerada pelos jovens do meu bairro como sendo factos ocorridos há centenas de anos!

domingo, 27 de dezembro de 2009

O Natal

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18 DE DEZEMBRO DE 1998)



Quando escrevemos a última “Memória”, informámos os nossos leitores que tínhamos o desejo e a esperança de voltar às páginas do velhinho “Correio”, talvez o primeiro jornal que lemos, soletrando, principalmente os artigos de âmbito histórico ou desportivo, os que mais nos interessavam. É que, depois de ler o jornal na barbearia do MEU BAIRRO, logo que monetariamente fui independente, assinei-o, o que ainda hoje acontece. Há trinta e nove anos que o “Correio da Extremadura”, como lhe continuaram a chamar os idosos do MEU BAIRRO, pois assim o viram nascer, chega semanalmente às minhas mãos, sem qualquer interrupção, a não ser o atraso que os CTT de vez em quando lhe dá.

Quando estamos longe da nossa terra, a chegada torna-se mais valiosa porque nos inibe de cortar o cordão umbilical. Temos assim possibilidade de acompanhar a vida da nossa terra. Hoje, talvez a necessidade seja um pouco menor pois os meios audiovisuais diariamente levam-nos a casa tudo de importante que se passa no País. Não leva contudo a pequena notícia que ao cidadão comum nada diz mas que a nós, diz-nos muito.

Não vamos escrever nova série de “MEMÓRIAS” mas sim publicar duas ou três que temos escrito há muito e que estão na gaveta, aguardando companhia que pode nunca chegar. De um dia para o outro vão para o cesto dos papéis e acabou-se. Nada de valor ou importante se perdia. O único interesse (se o têm), segundo penso, é fazer trazer à memória dos velhos moradores do MEU BAIRRO, coisas de nada que conhecem tão bem ou muito melhor do que eu.

Tenho a certeza que aos assuntos apresentados os leitores referidos acrescentarão sempre mais isto ou aquilo e farão correcções que acharem por conveniente.

Vamos então ao assunto que nos trouxe.

Onde estava o subsídio de natal? Nem se sabia o que era isso! É uma conquista de ontem! Falava-se à socapa que fulano ou beltrano recebia as broas de Natal que o pat4rão dava a alguns chegados colaboradores, principalmente aos que tinham mais anos de casa. Mas isto constituía uma excepção tal o número exíguo de contemplados, considerados uns felizardos.

Na função pública, por exemplo, o magro vencimento só podia ser recebido a partir do último dia do mês. No dia 23 ou 24 os fundos, se os havia, eram bem poucos, quando não se estava gastando a crédito daqui e dali.

Carne, pouco se comprava; o peixe era mais acessível na altura. Comiam-se ovos pois havia galinheiro no quintal, legumes e hortaliças, afinal o que hoje os técnicos dizem ser uma alimentação saudável.

Apesar de tudo, nesses já distantes anos da década de 40/50, comemorava-se o nascimento do Menino Jesus no MEU BAIRRO, mas a níveis muito diferentes dos de hoje.

Fazia-se o presépio? É claro que sim mas... ia-se às pedrinhas, ao bonito musgo que se encontrava agarrado ao casco das oliveiras que constituíam os olivais do Louro, do Arrais e do Telhadas, que rodeavam o MEU BAIRRO. Traziam-se também de lá umas piteirinhas para compor a paisagem.

Do areeiro existente ao fundo da Avenida, onde se encontra hoje o Bairro de Santa Isabel, extraíamos a areia necessária.

As imagens eram de papel, que adquiríamos em folhas soltas na “Silva” ou na “Escolar”. Limitando-se a indicar os contornos, pintávamo-las com lápis de cor, colávamos em cartão e finalmente recortávamos.

E como se fazia a iluminação?

Certamente que não íamos às casas dos trezentos que evidentemente não existiam, comprar por dois tostões uma instalação eléctrica. Só conheci tal quando já era um homem feito. Se nessa altura ainda havia casas no MEU BAIRRO que não dispunham de energia eléctrica!

Mas nem por isso os presépios deixavam de ser iluminados. Em casa de meus pais utilizavam-se as cascas (conchas) de caracoletas que se enchiam de azeite colocando-se um pavio de algodão ou de uma planta cuja uma das partes se prestava a essa utilização, depois de convenientemente seca e que era conhecida por erva das lamparinas. Posicionavam-se enterradas na areia e em sítios estratégicos, evitando-se a sua visibilidade.

Havia quem utilizasse como lamparinas outros objectos e o petróleo igualmente era utilizado, aqui provocando um cheiro nada agradável.

Havia que ter cuidado e muitas vezes aconteciam incêndios.

A estrela também nós fazíamos, em papelão e forrada com a película “prateada” que envolvia alguns maços de cigarros de então.

É evidente que havia presépios mais evoluídos, de figuras impressas a cores e outras formando logo o conjunto e mesmo de barro ou louça, mas o vulgar, era o que descrevemos.

Nessas alturas mal se falava no Pai Natal. A mim diziam-me que as prendas eram postas no sapatinho pelo Menino Jesus que descia pela chaminé. Nesse sentido, foi sempre lá que pus o sapato

Havia uma regra a respeitar, é que o Menino Jesus só vinha depois da meia-noite e não se sabia a hora a que chegava, já que o trabalho era muito. As crianças, não se queriam deitar mas à hora habitual o sono chegava e lá íamos para a cama. A minha preocupação, lembro-me bem, tinha a ver, além das prendas, com a chegada do Menino Jesus, que queríamos conhecer.

Só no outro dia (dia 25), quando nos levantávamos, éramos alertados para a circunstância de ainda não termos visto o que o Menino Jesus nos tinha posto no sapatinho. Era a euforia, os pulos, os beijos, as primeiras observações!

O que é que o sapatinho no MEU BAIRRO tinha normalmente? Um brinquedo muito simples (automóvel de folha, camioneta de madeira ou carro de bois, uma pequena bola de borracha, prenda não muito usada porque partia os vidros das janelas dos vizinhos quando não das nossas, etc.) as meninas contempladas com bonecas, camas, tachos e panelas. Começavam bem cedo a secundarização da mulher!

Além disso havia umas “tabletes” de chocolate ordinário, daquelas que tinham uns bonecos colados à “prata” envolvente, que penso custavam trinta centavos, uns rebuçados e uma peça de vestuário. Quem tinha tudo isto era muito bom – sentia-se feliz. E bem pouco era!

Notar que não havia habitualmente prendas para os filhos mais crescidos que, quando já trabalhavam, eram os “meninos jesus “dos mais novos. Mais ninguém na família recebia prendas!

Não posso deixar de aqui referir duas prendas que o meu sapatinho acolheu.

Teria dez anos e por isso já sabia na altura que o Menino Jesus era outro, no caso a minha irmã mais nova: - uma caixa de madeira (dupla) para transporte e arrumação de lápis e borrachas, que muito gostei e uma pequena bússola. Pois caro leitor, apesar de tantos anos passados, essas duas insignificantes peças ainda fazem parte do meu património e têm para mim, elevadíssima cotação.

Também nessa altura se procurava ter uma mesa mais rica. A consoada não era muito uniforme. O bacalhau (na altura a pataco) com batatas e couves constituía o prato dos pobres, um galo corado no forno e nalgumas casas cabrito recheado constituíam algumas das hipóteses nas casas com menos dificuldades. Mas eram pratos que apareciam na mesa uma vez por ano!

Mais uniforme era a doçaria que se tratava quase exclusivamente da massa frita representada nos velhozes (filhós), “fritos” e coscorões. Quem tivesse origens alentejanas, como a mim me acontecia, não deixava de haver as azevias de grão ou batata-doce.

Sobre o assunto, foi o que a Memória me conseguiu trazer ao invocá-la.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Lembrando o Prof. Albertino Henriques Barata

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 20 DE OUTUBRO DE 1995) *

Nota Breve
Esta segunda parte das MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO que intitulámos de CRÓNICAS SOLTAS seguiu-se a uma primeira série que pensávamos que fosse única.
Pelas razões que fomos explicando ao longo das croniquetas, foram aparecendo pequenos nadas que nos foram sugerindo mais esta, mais aquela e publicadas com grande irregularidade e que se espalharam ao longo dos anos com destaque para 2004 em que foram publicadas dezassete.




Desloquei-me propositadamente a Santarém para assistir ao lançamento do nº 3 – Março de 1992, dos Cadernos Culturais da C.M.S., intitulado NOTÍCIAS HISTÓRICAS SOBRE O CONCELHO DE SANTARÉM, que reuniu as crónicas publicadas neste semanário e na “Voz do Espinheiro”, sobre o concelho de Santarém e de autoria do Prof. Albertino Henriques Barata.

Ao regressar a casa, a cerca de noventa quilómetros de distância, fui buscar uma carta datada de 19 de Abril de 1976 e assinada pelo Prof. Barata, colocando-a, após pequena colagem, no final do livrinho, pois entendemos que o completa.

Pena tenho de me ter desaparecido uma outra posterior que, com as andanças da minha vida profissional se perdeu ou ainda não encontrei. O meu mundo dos papéis, recortes de jornais, revistas, boletins, cartas, papéis avulso, eu sei lá, antes da selecção, organização e arquivo, sofria por vezes alguns ataques de limpeza, de autoria de gente estranha.

Nessa carta, Albertino Barata, com excelente caligrafia, própria dos mestres da sua época, agradecia-nos as palavras que lhe tínhamos endereçado e datadas de 9 de Abril de 1976.

O cronista do “Correio do Ribatejo”, no número de 26 de Março de 1976, tinha feito publicar uma das suas habituais crónicas históricas, intitulada A FREGUESIA DA VÁRZEA ATRAVÉS DOS TEMPOS. Ainda que conhecêssemos tudo ou quase tudo do que lá se escrevia, senti-me na obrigação de lhe agradecer o que tinha escrito sobre a minha freguesia natal, que muito prezo. Ler coisas sobre a nossa terra é sempre agradável.

Quando escrevi ao Prof. Barata, relacionei-o com o Dr. José Henriques Barata que conhecia desde a minha juventude pela leitura de alguns dos seus trabalhos, como “Fastos de Santarém” e artigos dispersos no “Correio do Ribatejo” e “Vida Ribatejana”, de Vila Franca de Xira e admiti que fossem irmãos o que era fácil de deduzir e que se veio a confirmar.

Em contrapartida fui relacionado com os meus familiares, foi-me dado o meu avô como possível “pai” e o que me seria o meu pai. Na segunda carta, a explicação veio:- como é que um homem tão novo se interessava por estes assuntos; fazia-me muito mais velho!

Ao sugerir a publicação das crónicas em livro, o professor dizia-nos:- É POSSÍVEL QUE AS MINHAS CRÓNICAS PUBLICADAS NO “CORREIO DO RIBATEJO” POSSAM SER APROVEITADAS PARA UM (livro). Felizmente que isso veio a acontecer, ainda que o tivesse sido dezasseis anos depois! Mais vale tarde que nunca, como diz o povo.

Faz precisamente hoje nove anos que faleceu o Prof. Albertino Barata.

Sem ser um técnico no assunto, o professor passou muitas e muitas horas em bibliotecas e arquivos compilando o que já se tinha escrito sobre as cidades, vilas e aldeias ribatejanas e sempre que possível, acrescentava algo de inédito e mais recente, que era do seu conhecimento.

Estas crónicas, que foram republicadas neste jornal no que respeita ao concelho de Santarém, tiveram a grande vantagem de numa linguagem acessível levar ao cidadão comum os principais conhecimentos históricos, geográficos, etnográficos e outros sobre as suas terras e vizinhas, o que de outra maneira não lhe seria fácil obter.


[Rua Almeida Garrett onde viveu no Meu Bairro o Prof. Albertino Barata]

Aqui fica esta pequena lembrança ao Prof. Albertino Henriques Barata que viveu muitos anos no MEU BAIRRO, mais precisamente na Rua 2º Visconde de Santarém e daí a inclusão nas MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO.

* Este escrito saiu indevidamente publicado na nossa rubrica FIGURAS RIBATENAS, quando o devia ter sido nas MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, aliás como se deduz do texto. Daí esta explicação.

sábado, 28 de novembro de 2009

Memória "Última"

(PUBLICADO NO 11 DE JUNHO DE 1993)

As MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO vão terminar hoje. A “Memória Última” vai ser dividida em duas partes.

Após a publicação dos primeiros números, começaram a chegar aos meus ouvidos, não as sugestões que tinha pedido mas sim pedidos de reclamação quanto a situações que se passam no bairro e que muitos dos seus moradores não aceitam.

Informámos dentro das nossas possibilidades que a temática das MEMÓRIAS nada tinha a ver com esses assuntos que afinal têm de ser postos aos órgãos autárquicos competentes das maneiras que julgarem convenientes.

Contudo, e porque conheço também alguns dos problemas e tratar-se de uma MEMÓRIA especial, vou aproveitar para chamar a atenção de quem de direito, para os problemas que me ventilaram.

O alcatroamento das ruas é muito deficiente, com buracos e remendos que naturalmente provocam desníveis e mau aspecto, As ruas do populoso e já “velho” bairro citadino, mereciam bem um tapete uniforme de asfalto.

Também é notório, por vários motivos, alguns desnivelamentos nos passeios.

Dizem-nos que há sarjetas entupidas já que a “assistência” não é feita com a regularidade desejada.

Algumas árvores secaram e não foram substituídas e outras, com um porte bastante avantajado, estão decrépitas e já não produzem a folhagem suficiente para embelezamento e proporcionar uma certa fresquidão nos dias quentes de Verão.

Um dos velhos candeeiros (lembro-me de serem colocados e chamávamos-lhe “cabeças de nabo” foi derrubado e ainda não voltou ao seu lugar!

É regra, e por falta de número suficiente, os recipientes do lixo não comportarem o mesmo e assim muito fica espalhado pelo chão.

Muitos proprietários das habitações não as caiam ou pintam há anos pelo que oferecem mau aspecto. Não haverá uma postura municipal que os obrigue?

Aqui ficam as reclamações que nos pediram para transmitir.

***
[Casa do Meu Bairro onde vivi dos 2 aos 19 anos. Foto JV]
Agora iremos abordar a segunda parte.

Se existiu na primeira MEMÓRIA uma pequena nota explicativa que pensamos se justificava pois havia necessidade de indicar aquilo que nos propúnhamos realizar, hoje existe a mesma razão ao terminar o trabalho e fazer o balanço.

Como já dissemos, ao programar as MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, tínhamos previsto cerca de doze escritos. Afinal e como sabeis, foi para o dobro! Mas queríamos escrever mais e é compreensível que isso seria possível. Mas então porque não fazê-lo? É que escrever e para mim é algo que só se faz com prazer, é dar alguma coisa de nós, como nos dias há dias e a propósito, um velho amigo. Nem sempre existe disponibilidade para isso, tanto temporal, como mental. Além disso, o afastamento do local impede-nos de abordar alguns temas de interesse que de certo modo poderiam completar a ideia fundamental que nos norteou.

Por agora, o sótão das nossas recordações está inerte. Quem sabe se um dia despertará novamente para estes assuntos?

O mais difícil é aparecerem as ideias, quando surgem e têm conteúdo e antes da pena, a pouco e pouco vamos “pegando” as pequeninas coisas e dando corpo assim a essa ideia, procurando sempre apresentá-la com cabeça, tronco e membros, o que nem sempre conseguimos fazer.

Durante o período da publicação, que ultrapassou os seis meses, com duas únicas falhas, chegou-nos ao conhecimento que o número de leitores interessados ia aumentando e até alguns factos que muito nos sensibilizaram.

Quando as “falhas” surgiram, começaram a dizer que tinham acabado as MEMÓRIAS, o que não era verdade. Hoje sim, será a última, pelo menos desta série. Quem sabe se um dia aparecerá uma segunda?

Ao terminar as MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, queremos agradecer a todos aqueles que de qualquer modo as ajudaram a “construir”, tanto com as suas achegas, como com os incentivos que chegaram ao nosso conhecimento, de várias formas.

Não podemos deixar de exarar um agradecimento especial à nossa prima Anel, uma verdadeira apaixonada do bairro onde nasceu e ainda vive, tanto pela sua colaboração poética, como pelos esclarecimentos prestados e até pela ligação que acabou por estabelecer entre mim e alguns leitores, nomeadamente do bairro.

Os nossos tempos livres que gastamos nestas assuntos, irão agora para outras paragens que igualmente nos são muito queridas e que gostamos de divulgar.
Um dia regressaremos às páginas deste “velhinho” semanário, é uma ideia que não queremos abandonar

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tipos humanos

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 4 DE JUNHO DE1993)




As figuras populares são uma constante desde sempre de pequenas “terras”, bairros, zonas mais alargadas e até mesmo de “terras” maiores, onde a sua projecção acaba por se “impor”

A figura típica abrange todos os extractos sociais mas tem mais incidência nas de menor ou nulo poder económico.

É se figura popular sem o procurar-se ser – a sociedade em que está inserido e involuntariamente é que acaba por o determinar.

As razões dessa “eleição” determinam-se por características que evidenciam, de que não abdicam, utilizando-as em excesso, muitas delas ou quase todas com algum sabor picaresco.

São assim pessoas conhecidas de todos, ainda que muitas vezes não se lhe conheça o nome, mas quase sempre a alcunha, algumas provenientes do seu próprio tipismo.
A MEMÓRIA de hoje é dedicada a três figuras humanas do MEU BAIRRO e da minha adolescência.

Não sei o nome de nenhum e penso que quem os conheceu como eu, também não o saberá, mas creio que as minhas palavras facilmente as trarão à memória.

Homem meão, para o baixo, curvado, de meia-idade mas de cara já enrugada, jaqueta, calça justa de cotim já coçada. Solteiro.

Aos sábados, após o sol-posto e depois de receber a jorna, aparecia no MEU BAIRRO, muitas vezes de enxada de bicos às costas e que constituía o seu ganha-pão e da mãe, com quem vivia.

Nunca soubemos onde morava mas penso que seria numas casitas na periferia do bairro, para o lado da Fonte das Padeiras.

Com uns magros escudos, vinha para o seu passatempo favorito, beber uns copos nas tabernas do bairro.

Ainda “são”, ia dizendo numa linguagem atrapalhada e pouco perceptível:- (...) com um bocadi de bacalhá, pã e um li de vim, mim tabalha di intê.

Não seria preciso muito para se embebedar e quando as tabernas fechavam, meio cambaleando, caía aqui e ali, acabando por se sentar ou deitar, onde calhava, de Verão ou de Inverno.

Bom homem, nunca ofendeu ninguém, mas... o seu apito, que não dispensava, não deixava de apitar e nas casas que tinham o azar de ficar próximo do local onde “assentava arraiais”, não se conseguia descansar até alta noite!
Quem não se lembra deste pobre homem trabalhador que todos conheciam por Bacalhá!
Como o tempo passa!
A sua figura continua no meu sótão das recordações!

***

As outras duas figuras constituíam um casal. Ele, magro e alto, sempre de boné enfiado na cabeça para lhe acomodar o cabelo, barba invariavelmente crescida, aspecto macilento, movendo-se com lentidão. Pouco menos que andrajoso, carrega numa saca os utensílios do trabalho.

Ela, baixa e franzina, andrajava-se de preto e transportava numa antiga alcofa, o misérrimo pecúlio. Aparentemente mais velha do que ele, corriam as ruas do MEU BAIRRO com o seu pregão característico. Dizia ela, numa voz esganiçada: - É o gateiro e o chapeleiro; respondia ele num tom mais grave e pausado – co – la – tudo.
A miudagem apanhou o sotaque (que ainda hoje tenho) e vai disto, um pouco à frente ou um pouco atrás (para obter segurança, não fosse o diabo tecê-las ia repetindo o pregão, sem qualquer reacção da parte dele mas ela, de vez em quando fazia ameaças e principalmente saía-se com grande palavreado.

Pernoitavam onde calhava e o alpendre da escola protegeu-os muitas vezes da chuva e do frio.

Lembro-me de os ver no seu trabalho, ela sentada no chão com os seus óculos ovais na ponta do nariz, gateando alguidares e tachos, ele substituindo varetas partidas em chapéus-de-chuva.

Quando adquiriam alguns tostões, entravam na taberna e ela pedia um copo dos grandes para ela e um pequeno para o “marido”, justificando sempre que “eu é que trabalho!”
Dizia-se que esta pobre mulher, em tempos, casada, tinha vivido muito bem.
Algumas vezes a minha mãe lhes matou a fome, chegando a impressionar a maneira sôfrega com que comiam.

Pobre gente, de que nunca soube o nome!

Aqui fica está MEMÓRIA que como é óbvio, não teve o intuito de menosprezar as pessoas, mas sim recordar gentes que me marcaram e não esqueço.

Por detrás daquelas vidas de que conheci uma mínima parte, que tramas se teriam desenrolado?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

De Convento de S. Domingos das Donas aos dias de hoje

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 28 DE MAIO DE 1993)



Quando na XVI MEMÓRIA, intitulada, “O HOSPITAL DE JESUS CRISTO E A SUA IGREJA”, publicada em 26.03.93, referimos a limitação do MEU BAIRRO, a grosso modo, por dois conventos, o dos Frades Terceiros de S. Francisco, que deu origem ao extinto Hospital de Jesus Cristo, e o das Dominicanas das Donas, demos a entender que mais tarde diríamos alguma coisa sobre este último. Assim vai acontecer hoje.

***
Antes de reproduzirmos aquilo que recolhemos na literatura da especialidade, iremos procurar voltar à nossa meninice e dar uma ideia do que era nos anos quarenta aquele grande casarão para o qual olhávamos com admiração pelo seu volume e número de janelas.

Quando seguíamos pela mão do nosso pai e passávamos perto, havia sempre perguntas a fazer a que ele respondia dentro das suas possibilidades e em linguagem que nos fosse perceptível.

Dizia-me que tinha sido um antigo convento a que chamavam das “Donas”.

Lembro-me que as paredes eram pintadas de ocre amarelo e foi-o assim durante alguns anos. Os terrenos adjacentes e que eu percorria quando ia a casa de meus avós, estavam apenas terraplenados. Se no Inverno as poças provocavam lamaçal, no Verão ou no Outono, quando se levantava ventania, vinham nuvens de poeira que tapavam o nosso horizonte e nos deixavam todos sujos. Era isto o Campo-Fora-de-Vila como então chamávamos ao já oficialmente Campo de Sá da Bandeira.

A estrada para Lisboa passava junto ao muro do Seminário e em frente da Rua Teixeira Guedes, aos Correios, havia a “Gaiola do Canário”, como chamávamos a uma cabina semafórica manual, de forma cilíndrica, envidraçada até ao meio na parte superior e pintada de vermelho, se a memória não me atraiçoa. A estrada contornava o Largo das Amoreiras, curvando à Fonte do Boneco.

No Campo-Fora-de-Vila só havia meia dúzia de árvores junto a um velho e derruído muro e onde se encontra hoje uma estação rodoviária. Chamávamos a estas árvores “bagueiras” pois davam um pequeno fruto esférico, preto quando maduro e que apreciávamos muito o seu gosto.

Era neste campo que se realizava a instrução militar e aproveitavam a sombra destas árvores para apresentar armamento e outras lições do tipo. Muitas vezes ali nos quedávamos a ouvir as lições e quando chegávamos a casa, havia “barulho”
Também aqui se realizavam as feiras anuais e os mercados de gado e também grandes largadas de toiros de que ainda me lembro. Velhos tempos!

Mas, não é sobre o Campo-Fora-de-Vila que nos propusemos escrever alguma coisa, mas sim sobre o Convento das Donas, como me ensinou meu pai.

Lembro grandes obras no que respeita à parte exterior e virada para o Largo das Amoreiras, afinal tal como se encontra hoje. Ainda não havia estrada, era um terreiro.

Vamos então ao que respigámos sobre o velho Convento das Donas.

Em meados do século XIII, reinando D. Sancho II, uma “dona” da então vila de Santarém, Elvira Duranda, que frequentava a igreja do Convento de São Domingos (onde se veio a construir o primeiro redondel da cidade) teve uma visão miraculosa, causando-lhe isso tal perturbação que resolveu desprezar as coisas terrenas.

Mandando fazer um cubículo subterrâneo junto da ermida da Senhora da Abóbada, então existente perto do Convento da Trindade, onde se “emparedou”. Aquele cubículo só tinha uma fresta para dentro da ermida, por onde passavam os alimentos e os “sacramentos”, Adoptou naturalmente a “emparedada” o hábito de São Domingos.
Após Elvira Duranda, mais “donas” de Santarém lhe seguiram o exemplo, chegando facilmente a dezanove.

Como dissemos, as celas encontravam-se na érea do Convento de São Francisco mas as “emparedadas” recebiam a direcção espiritual dos dominicanos. Esta circunstância acabou por dar origem a um litígio que se prolongou por vários anos, acabando numa solução conciliatória, deixando as “emparedadas” as suas celas, reunindo-se em comunidade perto da porta de Mansos, onde se mantiveram até à extinção das ordens religiosas (1834).

O Convento chamou-se de S. Domingos das Donas, para não se confundir com o de S. Domingos dos Frades, sito na Rafoa.

As dependências do mosteiro passaram a ser utilizadas para fins militares. Fizeram dali quartel várias unidades, como um regimento de infantaria, batalhão de ciclistas (daí o topónimo popular Rampa dos Ciclistas), regimento de artilharia, dependência da Escola Prática de Cavalaria e presentemente, se julgo saber, Distrito de Recrutamento e Mobilização, além da PSP.

Informa o Senhor Professor Doutor J. Veríssimo Serrão, na sua monumental História de Portugal, vol. X, pág. 238 que “Considerando o pedido da Câmara Municipal e da Associação Comercial de Santarém, o Governo... concedeu o extinto Convento de S. Domingos das Donas para instalar um aquartelamento e escola do ensino primário, ficando as obras de adaptação a cargo do Município” (30.01.1902).

Do Convento resta apenas a configuração e um ou outro vestígio, como fragmentos de lápides, pedras brasonadas e azulejos.

Na igreja, além de outros nobres, repousaram os Teles de Meneses, condes de Unhão.
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BIBLIOGRAFIA

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971

Santarém, Vitor Serrão, 1990

Tesouros Artísticos de Portugal, Selecções do Reader`s Digest, 1976

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os derriços

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 7 DE MAIO DE 1993)


[Rua 2ª Visconde de Santarém. Foto JV, 2005]

Como eram os namoricos no MEU BAIRRO há trinta ou quarenta anos? Seriam iguais a todos os outros na “cidade”.

Em escritos anteriores referi o recato das meninas da minha idade que só saíam à rua por absoluta necessidade, não brincavam com os rapazes e quando muito punham-se à janela vendo passar as pessoas, nas quais, como é evidente, os rapazes eram um alvo especial.

A separação de sexos era rígida e prolongada. Havia escolas distintas para ambos os sexos. Quem ia para o liceu (nessa altura ainda não havia Escola Industrial), encontrava-se a mesma separação até ao quinto ano, só raramente havia uma turma mista no 1º. Para completar a turma das meninas, metiam meia dúzia de rapazes, escolhidos a dedo entre os mais novos!

Por esses tempos, após a 4ª classe, que nem todos conseguiam fazer por vários motivos nos quais se contava uma matéria inadequada à idade e o muito uso, sem grande proveito, da memória, poucos rapazes continuavam os estudos, os outros, nos onze, doze anos, procuravam aprender um “ofício”, como então se dizia, ou inclinavam-se para a parte comercial. Dos meus amigos, uma faixa importante foi para as oficinas de automóveis, na altura em grande expansão e saíram mecânicos, electricistas, pintores, bate-chapas, etc. Outros, preferiram andar mais limpos (como diziam) e procuraram as lojas de fazendas e a carreira de empregado de balcão ou caixeiros. De ambos os tipos, alguns atingiram o patronato.

Com as raparigas era tudo muito diferente. Se dos rapazes poucos continuavam a estudar, das raparigas, muito menos. A maioria ficava por casa, onde aprendia as tarefas caseiras com a mãe, a quem ajudava.

Limpeza da casa, varrer, lavar (roupa, chão e louça), caiar, passar a ferro, cozinhar, bordar, costurar e saber alguma coisa de alfaiate, era próprio da grande maioria das mulheres do MEU BAIRRO.

Algumas raparigas empregavam-se no comércio da cidade, principalmente como “caixas” e outras aprendiam a alfaiate (calceiras) ou a modistas. Todas iam só para os empregos, pelo menos não podiam ser acompanhadas por rapazes, nem que fossem os vizinhos e seguissem o mesmo trajecto – é que parecia mal!

Houve raparigas da minha idade, criadas no MEU BAIRRO, com quem nunca passei de um adeus cá, adeus lá, não porque houvesse qualquer animosidade, mas porque “assim é que devia ser”.

O interesse de um rapaz por uma rapariga era demonstrado primeiramente pela “corte” que consistia em ter os olhos nela o máximo de tempo possível, olhá-la, admirá-la, segui-la, enviar-lhe missivas amorosas.

Nessa altura dizia-se que fulano andava atrás de fulana e elas diziam que fulano lhe fazia a corte.

Nessa época, o Jardim da República, onde se situou o Passeio da Rainha, era vedado por interessante gradeamento assente sobre muro de alvenaria. O acesso era feito por três largos portões que o guarda municipal encerrava diariamente à hora determinada pela edilidade e que não posso precisar. Penso que havia o horário de Verão, mais alargado e o do Inverno.

Lembro-me da construção do lago circular ao coreto e de pedir ao meu pai que me lá levasse para ver os cisnes e peixinhos vermelhos, o que me dava grande satisfação. Alguns anos depois fez-se um pequeno lago quadrangular com uma estatueta central e que penso ainda existir. Antes deste lago existiam três (ou seriam dois?) de forma rectangular, com um repuxo ao meio que foram transformados em canteiros.

De vez em quando a Banda dos Bombeiros dava o seu concerto e o jardim enchia-se principalmente de velhotes muito inclinados para esta arte que nas suas juventudes lhes era muito querida.

Havia nos meus tempos de rapaz uma cabina sonora que ia rodando discos pedidos pelos passantes a troco de uma taxa, intercalando com a indispensável publicidade. O encarregado também vivia no MEU BAIRRO.

Os bancos enchiam-se de gente já entrada na idade e os jovens davam voltas e mais voltas às ruas do jardim, em grupos. Andavam-se quilómetros! Se umas vezes se davam as voltas para as encontrar de frente, outras eram precisamente o contrário, seguia-se o mesmo trajecto. Nesta última situação aproveitava-se para alguma troca rápida de impressões, mas tudo isto longe do olhar das mães, tias ou avós!

Lá se ouvia no altifalante que, ”de um admirador para a menina da saia tal ...” e outras dedicatórias semelhantes.

Não recordo a taxa a pagar por cada disco, mas sei que “A mula da cooperativa”, cantada pelo inesquecível Max e devido ao seu excessivo uso, tinha um preço elevadíssimo e mesmo assim, fazia-se uma vaquinha e todas as noites era tocado, afinal com satisfação dos presentes.

Quando a corte era aceite e o namoro do agrado de ambas as famílias, e isto não podia acontecer em pouco tempo, o rapaz era convidado pela moça a ir pedir ao pai dela autorização para que o namoro se “oficializasse”.

Já se sabia da resposta afirmativa, mas sempre dada com algumas restrições. O namoro era feito à janela com dias e horas marcadas que tinham de ser cumpridas. Nada de passeios juntos. Uma ou outra vez ao cinema mas nunca sós. Competia à mãe fazer a companhia. Também se aproveitavam os bailes que se realizavam nas sociedades locais

Só quando se falava em casamento o rapaz começava a entrar em casa dos futuros sogros, deixando de namorar à janela.

É claro que estas regras não eram rígidas, mas o seu não cumprimento criticado pela sociedade.

As transformações foram-se operando naturalmente e hoje nada resta desses usos, continuando a transformação em ritmo acelerado – o que é hoje, já não é amanhã.

A título de curiosidade direi que o primeiro casamento de que me lembro, foi o do Sr. José de Oliveira com sua esposa, D. Maria da Luz. Devem de estar perto das “bodas de ouro”. Oxalá que as venham a realizar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Grupo Desportivo Bairro dos Combatentes, "Agremiação Popular"

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 23.04.1993)

Numa das MEMÓRIAS anteriores, falámos do futebol e da acção que provocava no MEU BAIRRO – ia desde os clubes de Lisboa, aos da “terra”.

Deixámos para uma MEMÓRIA própria, que eu penso justificar-se, do que foi o Grupo Desportivo do Bairro dos Combatentes.

Ainda hoje, quando encontro velhos amigos do MEU BAIRRO, que há muito não vejo, é assunto que vem sempre à baila.

Tenho vários dados concretos (que na altura escrevi) sobre o assunto, que por ora não posso consultar, não sabendo mesmo se alguma vez o venhamos a fazer. Mais uma vez, é à memória que recorremos, apesar das lacunas que nos oferece. Temos contudo recebidas algumas informações de leitores amigos, “gabando-nos” a memória e que só eu os faria recordar coisas de que já não se lembravam!

A rapaziada do MEU BAIRRO, no meu tempo, dava uns toques na borracha, como então dizíamos, no átrio da escola primária, mas o local era proibido para o fazer e a polícia aparecia com muita frequência. Já espigadotes, tínhamos vergonha de sermos obrigados a fugir. Onde jogávamos, não era possível partir vidros e o único inconveniente que podia haver era podermos sujar um pouco uma das paredes laterais, onde a bola batia. Isto só acontecia se a bola estivesse enlameada, o que raramente acontecia.

[Equipa do G.D.B.C.:- De cima para baixo e da esquerda para a direita - Manuel Custódio, Virgílio, "Lelo", Joaquim José, Jaime, Alberto e António Carlos; no primeiro plano, António Miguel, Carlos Torgal, NN, António Martinho e António Oliveira]
Nunca os jovens do MEU BAIRRO assaltaram a escola, partindo tudo o que encontrassem pela frente, em puros actos de selvajaria e vandalismo. O nosso crime era querermos jogar à bola num local que nos oferecia o mínimo de condições! Ai tempos, tempos!
Com a construção do Palácio da Justiça (eu ainda sou do tempo do velho Tribunal, ao Canto da Cruz) obra efectuada pelo trabalho de presos vigiados por guardas prisionais em guaritas estrategicamente colocadas e a abertura das vias do Campo Fora-de-Vila (Campo Sá da Bandeira) houve necessidade de arranjar novo local para as feiras e mercados da cidade:- Nª Sª da Piedade, SS Milagre, Feira do Ribatejo acabada de criar e mercados mensais de gado. Eram então os certames conhecidos e hoje muito mais alargados, alguns que nem sequer conheço.

Era um olival, se a memória não me atraiçoa, da conhecida Família Telhadas.

Depois de terraplenado, o que devia ter acontecido por volta de 1953, ficámos com um óptimo campo para jogar futebol, já que nessa altura não havia qualquer construção e ninguém nos proibia de tal. Como ficava perto do MEU BAIRRO, era fácil utilizá-lo.

Lá fazíamos os nossos treinos, principalmente na época de férias e tínhamos de esperar por aqueles que estavam a trabalhar, que saíssem dos empregos.

Começou a nascer a ideia de formar um grupo, havendo necessidade de arranjar local onde nos reuníssemos. Obtive a concessão, por parte de meus pais, que nestes assuntos sempre me deram total apoio, da cave do prédio que habitávamos. Levámos para lá a luz eléctrica, fizemos de caixotes que arranjámos aqui e ali, bancos e mesas. Tínhamos jogos de damas, livros e revistas (antigos).

Era a nossa sede, como pomposamente lhe chamávamos e lá nos juntávamos diariamente no tempo de férias, para muitos, depois do jantar.

Quotizávamo-nos e fazíamos sorteios conseguindo assim angariar os patacos necessários para comprar bola, camisolas, que numerámos e calções.

Entretanto a “malta” da zona da rampa dos Ciclistas (Rua Capitão Montês) actuaram no mesmo sentido, formando o seu grupo que baptizaram de “Os Terríveis”, equipando de camisola azul e calção branco. Do outro lado, era a “malta” do Matadouro mas que não posso precisar se chegaram a comprar o equipamento semelhante ao nosso. Talvez sim, sendo as camisolas vermelhas.

[Antes dos jogos e com apoiantes.]

O “G.D.B.C” que equipava de camisola amarela e calção branco, começou a ser conhecido no MEU BAIRRO e até a merecer alguma estima dos adultos. Um entusiasta arranjou uma grande bandeira de seda amarela e branca e onde colocou o emblema do clube, de minha autoria e pintado a óleo. Ficou a constituir o nosso “estandarte”, acompanhando-nos nos jogos que efectuávamos.

Ainda que o nome oficial fosse o que titulou esta MEMÓRIA, o grupo era conhecido pelo Grupo da Avenida, em alusão à artéria principal do MEU BAIRRO.

Se a rapaziada mais velha era entusiasta, os mais novos não lhe ficavam atrás. Estavam sempre esperando pela falta de algum mais velho para poderem alinhar.

Assistiam aos jogos com grande entusiasmo, chegando mesmo a acompanhar a equipa quando jogava fora, afinal o que mais desejávamos.

Se umas vezes as equipas visitadas nos pagavam as viagens nos transportes públicas, outras pagávamos nós.

A primeira deslocação que fizemos foi a Vila Nova de S. Pedro, interessante aldeia do concelho de Azambuja, donde era natural um amigo que na época de aulas se hospedava numa casa da Rua 2º Visconde.

[No desaparecido Estádio Alfredo Aguiar, dos Leões de Santarém. Antes dos jogos, com o estandarte.]
Lá se combinou o jogo e no dia marcado tudo seguiu na “carreira” a caminho do Cartaxo onde apanhámos ligação para Vila Nova.

Lá ia a cesta de verga que continha duas divisões e pintada de vermelho. O Maroca Santana levava a “farmácia” a fim de prestar a “assistência” a quem necessitasse!
Ganhámos o jogo, penso que por três a um com grande exibição do nosso mais jovem jogador, que alinha a extremo-esquerdo, como se dizia nessa época, o Carlos Torgal que marcou pelo menos um golo.

Sem pretender formar a equipa que jogou, recordo o recentemente falecido, Joaquim José (Aguiar), os irmãos Jusa (José Francisco e António Augusto), o António Martinho, uma pedra sempre influente, além do mais, com as suas partes gagas, os irmãos Cardoso (Virgílio e Hernâni), António Oliveira, um polivalente e o José Luís (Colaço).

Depois do jogo, houve um petisco em caso do nosso amigo onde pontificava o chouriço assado e pão fabricado por um dos intervenientes no encontro, acompanhado naturalmente por um copo de tinto, saído do casco ali ao lado.

Quando fomos para o baile, ficámos desiludidos pois era baile de roda a que não estávamos habituados.

Se a satisfação era grande quando partimos, o regresso foi mais eufórico pois trazíamos uma vitória no “bornal”. Lembro-me que nesse dia fui para Almeirim onde episodicamente se encontravam os meus pais. Cheguei por volta das onze da noite o que já causava preocupações aos meus progenitores! Nessa altura, um rapaz com dezassete ou dezoito anos já era tarde chegar às onze horas da noite; hoje uma moça de catorze ou quinze anos é cedo chegar às três da manhã!

Efectuámos jogos em várias terras circunvizinhas, como Pernes, Alcanhões, onde o jovem Fernando Fontes fez grande exibição, Vale de Santarém, Várzea (Vilgateira) e Graínho. Aqui dava-se a circunstância de no campo haver duas oliveiras, que tínhamos de “fintar”!

Quando jogávamos em “casa”, utilizávamos o estádio Alfredo Aguiar, com Luís de Melo a aturar - nos , ou então o Chã das Padeiras.

Também nos lembramos de ter formado uma equipa de jovens para defrontar em jogo treino igual equipa dos Leões”. O treinador Artur Quaresma, que morava no MEU BAIRRO e apoiava a nossa equipa, aceitou o desafio “impondo nós a condição dos residentes no bairro alinharem pelo GDBC e não pelos Leões, onde estavam inscritos.

Não posso precisar o resultado, mas penso que consigo recordar a equipa que formei, assim constituída:- Fernando Fontes, Fernando Cabo, Fernando Alves e Carlos Rodrigues; Emídio Aguiar e Carlos Cabo, Rui Manhoso, João Torgal, Costa, Carlos Torgal e Waldemar Gonçalves.

Lembro-me que Artur Quaresma dizer que o Carlos Torgal já era muito grande, efectivamente assim acontecia em relação aos outros. O Carlos, nessa altura dava para tudo e veio a ser, vários anos titularíssimo na equipe de “Os Leões”, que ajudou a vencer o Nacional de III Divisão.

Nesta jovem equipa, muito homogénea e capitaneado pelo Emídio, alinhava a extremo direito um grande entusiasta do grupo, o Rui Manhoso, actual Presidente da Associação de Futebol de Santarém e cujo gosto pelo dirigismo, talvez o tivesse obtido no GDBC, como recentemente nos confidenciou.

Ainda que o grupo procurasse alinhar com a “malta” que residia no bairro, também procurávamos efectuar as nossas “aquisições”, lembrando-me de duas nas quais tive influência, pois tratavam-se de colegas de liceu, o completíssimo Correia Bernardo, para os amigos Niza, excelente guarda-redes, que alinhava a qualquer lugar, incluindo extremo-esquerdo Foi o desportista mais completo da minha geração.

Distinto oficial do Exército, o nosso velho amigo, Coronel Correia Bernardo, mantém-se em Santarém onde comanda O D.R.M.. O outro foi Fernando Lucas, conceituado industrial na cidade, habilidoso atacante que ainda há pouco e em sua casa me recordava esses tempos e a circunstância de o ter encarregue, como capitão da equipa, de marcar uma grande penalidade que, com uma biqueirada, ... falhou!
Alguns desses jovens de então, que hoje seriam cinquentões, infelizmente já não se encontram entre nós, como é o caso do José Torgal, do António Carlos (Tocá) e do Joaquim José, isto os que são do meu conhecimento.

Não posso terminar esta MEMÓRIA sem referir os jovens que deram vida ao e que de momento vêm à minha memória:- os irmãos Torgal (José, Carlos e João), os irmãos Cardoso (Virgílio e Hernâni), os irmãos Aguiar (Joaquim José e Emídio), os irmãos Correia (Jaime e Manuel), os irmãos Jusa (José Francisco e António Augusto), António Martinho, José Luís Colaço, João Fernandes, Alberto (Beta), Manuel Custódio, José do Seixo, Júlio Porfírio, António Oliveira e outros.

Muitos deles, não os vejo há mais de trinta e cinco anos nem sei por onde param.
Naturalmente que a vida nos traçou rumos diferentes, cada qual seguiu a sua profissão. Enquanto uns se mantiveram na cidade e mesmo no MEU BAIRRO, outros fixaram-se por esse país fora, alguns bem distantes.

***

[Equipa do G.D.B.C.De cima para baixo e da esquerda para a direita:-Manuel Custódio, João Fernandes, Fernando Lucas, Romão, António Martinho, Jusa I, Jusa II, António Miguel e Correia Bernardo. Primeiro plano e pela mesma ordem: Mário Leal, Hernani Cardoso, Carlos Torgal, José Luís e Alberto]
Ainda que nada tenha a ver com o futebol, não posso deixar de lembrar aqui um facto que nunca desapareceu da minha MEMÓRIA.

Aqueles que frequentavam o liceu e estabelecimentos similares, adquiriram algum interesse por outras modalidades, como acontecia com o voleibol, basquetebol e atletismo.

Lembro-me do brilharete alcançado pela Associação Académica de Santarém no 1ºPasso, uma organização do Sporting Clube de Portugal e apoiado por um jornal desportivo.
Acontece que enquanto eu procurava dedicar-me ao salto em altura, havia um amigo que estava muito interessado no lançamento do peso. Conseguiu arranjar um peso de chumbo, proveniente de uma roda de balanço de uma qualquer máquina, mas que tinha o feitio de uma pêra, o que muito o desgostava e segundo dizia, não lhe proporcionava o treino adequado. Logo me propus tornar o objecto esférico e ainda que não o tivesse conseguido, pelo menos ficou mais parecido.

O meu “velho” amigo acabou por se licenciar em Educação Física!
Lembraste Victor?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O lume

(PUBLICADO CORREIO DO RIBATEJO DE 08 DE ABRIL DE 1993)

Quando pensei pôr em prática uma “ideia” que me acompanhava há bastante tempo, pelos cálculos que fiz, as MEMÓRIAS dariam para abordar uns doze assuntos. Como podeis verificar, esse número já lá vai e os assuntos ainda não esgotaram, mas já começo a sentir o seu término.
Tem chegado ultimamente ao meu conhecimento, que as MEMÓRIAS começam a ter um maior número de leitores assíduos que “reclamam” conhecer aquelas que foram publicadas mas que não leram, por falta de conhecimento.
Veremos quantos assuntos ainda conseguiremos encontrar no sótão das nossas recordações.

***

A primeira dificuldade que encontro para o desenvolvimento do tema de hoje, começou pela escolha do título.
Qualquer dicionário indica como sinónimos de lume, fogo, luz, fogueira e clarão.
Se lume e fogo são sinónimos, na minha infância, que passei no MEU BAIRRO, ouvia sempre dizer: - vou acender o lume. Já maduro e nas voltas que a profissão motivou, na região em que mais me enraizei, ouvia dizer: - vou fazer o fogo.
Reparei que os fumadores quando necessitam, pedem lume ou fogo, conforme os seus hábitos, o uso das regiões de origem.
Entre as duas designações, optei naturalmente pela da minha origem – aquela que o MEU BAIRRO me ensinou.
Mas afinal, o que é que o lume tem para dizer ou recordar?!
O leitor é capaz de ter razão, mas eu tenho a impressão que talvez consiga despertar o seu interesse e levá-lo a concluir a leitura deste escrito que certamente não será longa. Depois, ajuizará.

***


O lume, purificador e divinizado. A sua pureza era considerada pelos Antigos como o mais nobre dos elementos, o que mais se aproximava da divindade, e como que a imagem do astro do dia.
Na antiguidade greco-romana, o fogo não se deixava apagar em cada casa. De dia mais vivo, crepitava, de noite amortecia mais e ao raiar da manhã, “limpava-se” da cinza e novamente vivificava.
Os dois meios iniciais da produção do fogo foram a percussão e o atrito.
Em fins do século XVIII os habitantes de Azinheira (Rio Maior) ocupavam-se na manufactura de pedras para isqueiros que dali saíam para todo o lado e exportavam-se para o país vizinho.
São muito variáveis as aplicações do lume (fogo) que vão desde a iluminação à preparação dos alimentos. É fundamentalmente sobre este último aspecto que nos iremos referir, aquele que na minha infância mais feriu a nossa sensibilidade.
No MEU BAIRRO, nos fins da década de quarenta, só excepcionalmente uma ou outra moradia mais modesta (e ainda conheci algumas) não possuíam luz eléctrica. Não era contudo a electricidade que fornecia o calor para a preparação dos alimentos e outras actividades do lar, como o aquecimento, o passar da roupa e outras formas de higiene e manutenção.
As refeições eram esmagadoramente preparadas no calor do fogareiro de carvão. Havia três tipos: o fogareiro feito de uma panela velha de esmalte, em que se abriam também dois ou três furos para respirar e que, com o auxílio do barro (greda), se faziam as paredes, sendo a parte superior, onde ardia o carvão, separada por pequenas barrinhas de ferro, formando grelha e os apoios, normalmente três e um pouco mais elevados, constituídos pelo auxílio de pequenas chapas dobradas.
Sempre caiados, pois além de lhe dar um aspecto limpo, possibilitava uma contextura interior mais sólida. Sempre que se acendia o lume, o combustível provocava mascarras que a cal depois tapava.
Zé U, de Alfange, dedicava-se à feitura desses “aparelhos” que vendia pelas portas do MEU BAIRRO e por outros pontos da cidade.
De sentido mais evoluído, os oleiros faziam igualmente fogareiros e também os havia de ferro fundido.
A ideia que me ficou disto, é que os primeiros que referi, além de mais baratos, eram os que davam melhor rendimento na sua utilização, pelo menos era assim que a minha mãe se pronunciava.
Estes fogareiros trabalhavam a carvão, por vezes com o auxílio de bolas (pó de carvão amassado) consideradas mais duradouras e por isso, económicas. Ateadas com carqueja ou com qualquer outra acendalha que de momento se arranjava.
Era este o meio vulgar de produção de calor para a confecção dos alimentos.
Nalgumas casas e quando o dia ou número de pessoas o justificava, havia e utilizava-se o fogão de lenha.
Em minha casa existia um de ferro, feito pelo meu avô paterno, para mim muito bonito e que recordo com muita saudade.
Foi a minha mãe que deu as medidas, pouco antes ou depois de casar. Pelas contas que faço, por alto, durou mais de trinta anos ao nosso serviço e ainda continuou noutras mãos, sabe-se lá por quanto tempo.
Possuía duas bocas circulares, caldeira de cobre, ao lado da fornalha, seguindo-se o forno com duas divisões. Na parte superior tinha um varão de metal que andava sempre muito limpo, tal como a caldeira que possuía naturalmente uma torneira. A porta da fornalha e a do forno, possuíam à sua volta um aro de ferro, achatado, que era muito bem lixado, reluzindo como um espelho.
Quem trabalhava com ele conhecia-o bem e assim podia controlar o seu calor, principalmente quanto ao forno.
Em minha casa e penso era o normal, acendia-se sempre em dias de “nomeada” (como dizia a minha mãe) Natal, Páscoa, e aniversários natalícios ou quando havia mais gente em casa. Quando estava muito tempo sem se acender, a minha mãe tomava isso em consideração, dizendo que o tinha de fazer para assim manter a sua conservação, evitando a ferrugem. Quando isso acontecia, ficávamos sempre satisfeitos. Porquê? Além da culinária ser diferente, havia sempre o aproveitamento do forno para fazer uns bolinhos que desejávamos.
Também conheci nesta altura, ainda que de uso relativamente restrito, os fogões que trabalhavam a aparas de madeira.
De “carrinho de mão”, lá ia o pai ou algum filho mais grandote à estância do “Louro” comprar uma ou duas sacas de aparas, que traziam bem cheias, até não poderem levar mais.
O fogão era de ferro e cilíndrico. No sentido do eixo colocava-se o rolo, um bocado de madeira de forma igualmente cilíndrica. As aparas iam-se espalhando à sua volta e bem batidas com um pau. Operação trabalhosa, se o fogão não ficasse bem atacado, não trabalhava, isto é, as aparas não ardiam pois o lume abafava.
O pau redondo depois de retirado originava uma espécie de canal por onde circulava o ar que alimentava a combustão. Ateado por baixo, quando trabalhava bem, punha-se em brasa.
Gostava imenso de ajudar os meus amigos a atacar o fogão de aparas.
Anos depois, a evolução trouxe-nos outro tipo de fogareiro – o a petróleo. Desapareceram quase os de carvão mas manteve-se o fogão de lenha.
Havia vários formatos de fogareiros sendo o depósito da maioria, de metal. Três suportes sobre os quais assentava uma base circular, possibilitavam o colocar da vasilha.
Existiam dois tipos de “cabeça”, os silenciosos e as ruidosas. Se as primeiras não provocavam barulho, as segundas eram mais rápidas e avariavam menos.
O álcool desnaturado enchia um pequeno reservatório que circulava a cabeça. A sua combustão aquecia-a. O petróleo, pressionado pela introdução de ar por intermédio de uma bomba, era lançado em combustão cuja chama o espalhador distribuía. O bico por onde o petróleo saía, desobstruía-se por intermédio do espevitador
Quando funcionavam bem, era uma alegria a sua utilização, mas quando avariavam provocavam irritações enormes e ... o almoço não estava pronto a horas. Lá ia eu, de fogareiro metido numa alcofa, a caminho da oficina do meu tio para se proceder à reparação. Dava-me logo outro para trazer para casa e mandava-me voltar com ele à tarde ou no dia seguinte, conforme o trabalho que tinha e a reparação a efectuar
Os fogareiros a petróleo (de que possuo um como relíquia e que já tenho posto a trabalhar para a gente nova conhecer) e os fogões de lenha vieram a ser vencidos de uma maneira quase efectiva, no MEU BAIRRO, nos fins da década de cinquenta, pelo gás de botija.

***


O aquecimento das casas era feito principalmente pela combustão do cisco (aparas de carvão) colocado em alguidares velhos ou “braseiras” feitas de folha zincada, cobre ou metal, conforme as posses. Colocavam-se estas últimas em caixas (estrados) de maneira que iam dos de forma quadrada aos oitavados.
Numa ou noutra casa já havia aquecedor eléctrico (um luxo) mas que só dava para uma pessoa e não para a família, como se pretendia e nesse tempo havia família e quase sempre numerosa, o que hoje raramente acontece. Naturalmente que este meio de aquecimento veio a desenvolver-se, juntamente com o do gás e hoje carvão, não é fácil de encontrar, quanto mais cisco! Além de sujar as casas, havia que ter cuidado com o anidrido carbónico que quando não havia cuidado, causava a sua vítima.
O passar da roupa era feito com um pesado ferro de passar que foi buscar o nome à substância de que é feito. Estes interessantes objectos, tinham pega de madeira. Além dos orifícios para estimular a combustão, atraía-nos o fecho, que em muito exemplares, tinha o feitio de um galo.
Lembro-me muito bem do primeiro ferro eléctrico que entrou na minha casa. Muito rudimentar, custou cem escudos e foi adquirido no Sr. José de Oliveira que além de barbeiro, vendia telefonias e ferros eléctricos, pelo menos. Situava-se ao lado do desaparecido Café Portugal que me traz muitas recordações.
Penso que escrevi tudo o que tinha imaginado.
Agora caro leitor, ajuíze se mereceu a pena gastar cinco minutos com esta leitura.
Afinal, tudo é muito diferente, naturalmente, do que se passa hoje. Mas é bom não esquecer o passado.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A tuberculose, a sida da minha infância

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 2 DE ABRIL DE 1993)




Nesta vivência do MEU BAIRRO não se abordam só assuntos que nos causam saudades e que gostamos de recordar. Também existe naturalmente o outro lado. Nele, haverá assuntos que marcaram a nossa existência e que não podemos esquecer.

Já referimos a Guerra 39/45 que sentimos, ainda que não profundamente, de uma maneira que deixou marcas.

Hoje iremos lembrar com alguma amargura, outro assunto. Ainda que tivéssemos tido a felicidade de nenhum familiar próximo ter sido vítima dessa terrífica doença, apesar da nossa pouca idade, sentimos bem o ambiente que se respirava, deixando assim e também as suas marcas.

Doença infecto-contagiosa, produzida por um bacilo (bacilo de Koch) ataca sobretudo os pulmões.

Lembro-me muito bem de moradores no MEU BAIRRO serem vítimas desta então mortífera doença, para além disso, extremamente contagiosa.

Havia necessidade de evitar um certo número de contactos pelo que, apesar da nossa tenra idade, éramos constantemente alertados para isso.

Quando se dizia que fulano estava tuberculoso, o seu destino facilmente se adivinhava. Os padecentes emagreciam, apresentavam-se pálidos (macilentos) uma ponta de febre, tosse seca (tosse de cão), débeis, aparecendo por fim as hemoptises.

Quando se chegava a este ponto, era o terror, a possibilidade de contágio e alguns dos meus amigos tinham familiares doentes.

Quando havia posses, os doentes iam para o campo respirar ares puros, repouso absoluto e uma super alimentação, avultando a carne grelhada, muito mal passada, de maneira que o sangue escorresse.

Outros iam para os sanatórios, situados principalmente em lugares altos, sendo a serra do Caramulo um ponto bem marcante.

As pessoas afectadas tinham louça própria e nada podiam compartilhar com os outros. Havia uma desinfecção cuidadosa de tudo o que usavam e quando faleciam, era tudo queimado.

Lembro-me também de se ir ao dispensário fazer o “pneuma”.

Por volta de 1942 o aparecimento da estreptomicina começa a resolver os problemas e então já a grande maioria se salvava.

Aqui fica esta meia dúzia de palavras que recorda uma época difícil da nossa infância em que a doença fez vítimas em muitas famílias do MEU BAIRRO.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Hospital de Jesus Cristo e a sua igreja

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 26.03.1993)




A MEMÓRIA de hoje é um pouco diferente das que os nossos leitores estão habituados, mas pensamos que tem todo o interesse, ainda que não haja praticamente nada de inédito.

O nosso bairro, novo como é, e fundamentalmente destinado ao povo, às classes trabalhadoras, não tem no seu interior monumento para mostrar. Contudo, o bairro construiu-se a partir da retaguarda de dois antigos conventos, o da Ordem Terceira de S. Francisco e o das Donas, que tinham sido edificados para além das muralhas do velho burgo, “em distância de setenta passos, quase a poente”, no dizer do Padre Inácio, o autor de “Santarém Edificada” e a que já nos referimos quando abordámos a toponímia.

Os dois seculares monumentos que têm sofrido variadíssimas transformações com o decorrer do tempo, são as balizas da Avenida dos Combatentes, acabando também por se poderem considerar, integrados de certa maneira no MEU BAIRRO.

Ao Hospital de Jesus Cristo, que me lembre, recorri duas vezes, por dois cortes, um, na língua (!) e o outro num pé. Nesta última situação não esqueço que foi o Sr. Manuel Machado, que foi futebolista de “Os Leões”, que me tirou do colo de minha mãe e me levou ao banco do hospital, onde me laquearam duas artérias. Já se passaram quase cinquenta anos!

***

No local da “Madalena” ou do “Sítio” existia o Palácio da Mitra (medieval) que foi o Paço dos Arcebispos de Lisboa.

Tramou-se aqui uma das conspirações contra D. João II, planeando eliminar o rei, prender o Príncipe D. Afonso, herdeiro do trono, que veio a falecer da queda de um cavalo ocorrida nas redondezas, e a subida ao trono do Duque de Viseu, D. Diogo, primo do monarca.

O rei, ao ter conhecimento da tramóia, veio a apunhalar o Duque de Viseu, seu cunhado, nos Paços de Setúbal (1484). Dos restantes conjurados, o bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, natural de Santarém e instigador da conjura, foi preso no Castelo de Palmela onde veio a morrer pouco tempo depois, envenenado; seu irmão, D. Fernando de Meneses e D. Pedro de Ataíde, foram logo degolados; D. Gutierres Coutinho, Comendador de Sesimbra, envenenado na torre do Castelo de Avís e D. Fernando de Ataíde, esquartejado.

D. Fernando da Silveira, que escapou para França, acabou por ser morto em Avinhão onde o alcançou a implacável vingança real. Isaac Abravanel, um dos mais ricos judeus da Península foi acusado de financiar a conjura e condenado à morte, mas conseguiu sair do país.

Em 1590, os frades Terceiros de S. Francisco que ocupavam o Convento de Sta. Catarina dos Olivais, no sítio das Assacaias – Saúde, a primeira casa dos Terceiros em Portugal, rogaram ao arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro, que lhes permitisse a transferência para aquele local, desejo que foi atendido e depois sancionado pelo Senado da Vila. Ocorre isto por volta de 1615.

Aconteceu que a essa transferência se opõem as Dominicanas do Convento vizinho, com base num Breve Pontifício que impedia a fundação, nas proximidades de outra mansão conventual. O processo arrastou-se por cerca de três anos pois só em fins de 1617 os frades puderam ocupar a sua casa.

Com a implantação do liberalismo, foram extintas as Ordens Religiosas em 1834 e desalojados os frades da Ordem Terceira de S. Francisco.

O Hospital de Jesus Cristo, fundado por João Afonso de Santarém e ao qual se tinham anexado, no reinado de D. Manuel, todos os outros que existiam em Santarém, em número de quinze, vem ocupar este lugar, deixando aquele em que se encontrava, ao “Canto da Cruz” e onde se encontra hoje o Teatro Sá da Bandeira.

Em 1987 o novo hospital distrital entra em funcionamento na zona de São Domingos pelo que o antigo foi desactivado. Nas instalações desenvolvem-se várias actividades no campo assistencial e de saúde.

***

A igreja chamada do Hospital de Jesus Cristo, foi fundada pelo arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro e as obras decorreram entre 1615 e 1649. Nesta última fase a cargo de Joana Coelha, natural de Cabo Verde e viúva de um capitão de Cacheu.

É de uma só nave. Fachada de “estilo chão” e disposta em três andares, duas torres sineiras laterais de base quadrangular e unidas por balaustrada.

O portal principal possui colunas clássicas. As outras duas portas, que ladeiam o portal são bastantes mais pequenas e de frontão interrompido, com volutas.

As nove janelas da fachada são decoradas por frontões, ora triangulares, ora curvos.
A capela-mor tem abóbada de meio canhão.

Algumas pinturas do século XVII.

Paredes cobertas de azulejo em branco e azul.

Na parede da capela mor está o túmulo de Pedro Escuro, companheiro de D. Afonso Henriques e por este incumbido de guardar a porta de Valada, quando da conquista aos mouros.

Diz a lenda que o alcaide mouro que governava a cidade em nome do rei de Sevilha, raivoso da derrota, promete voltar com reforços e então, pagar-se-ia. Pedro Escuro, responde-lhe: - Iedes e viredes e aqui me acharedes ou morto ou vivo.

Pedro Escuro não faltou ao que tinha prometido. Por testamento ordenou que ficasse sepultado junto à porta de Valada, onde ele próprio mandou edificar uma ermida e um hospital que se designou do “Reclamador e Palmeiro”.

Muitos anos depois é que os restos mortais do cavaleiro foram removidos para este jazigo.

Vítor Serrão classifica a Igreja do Hospital de Jesus Cristo como excelente espécime das peculiaridades arquitectónicas do “estilo chão” português, pela elegante projecção da sua frontaria, concebida em solução maneirista numa altura em que o resto da Europa se seduzia já pela ostentação do Barroco proselitista.
É considerado monumento nacional desde 1947.

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BIBLIOGRAFIA

Vasconcellos, Padre Ignácio da Piedade e – História de Santarém edificada, 1740
Lemos, Eugénio de – Santarém. Lenda e História, 1940
Arruda, Virgílio – Santarém no Tempo, 1971
Luís Montez Matoso, historiador e jornalista, 1980
“A propósito do Paço dos Arcebispos e do que dele há a esperar”, in Correio do Ribatejo de 27.03.1987
Serrão, Vítor – Santarém, 1990

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Grande Guerra 1939-1945

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18.03.1993)

Como vai distante a segunda conflagração mundial mas que a minha memória infantil registou com profundidade, ainda que, como não podia deixar de ser, sem grande ligação entre os assuntos.

Como me lembro das senhas do racionamento da mercearia e do pão, pelo menos!

Pequeninos rectângulos destacados na aquisição dos produtos mas que não sei explicar em pormenor pois na altura também o não sabia.

Havia imensa dificuldade ou até impossibilidade na aquisição de determinados produtos, como acontecia por exemplo com o açúcar e o azeite.


Não havia açúcar para adoçar o café e quem o quisesse beber, ou fazia-o sem açúcar ou chupava rebuçados como acontecia em minha casa, para tirar o “amargo” do café!
Se o açúcar fazia falta, muito mais fazia o azeite. Indispensável na alimentação do homem do mediterrâneo. O pouco que se conseguia, era exclusivamente utilizado onde não podia ser substituído, e mesmo assim, em quantidades diminutas. Os preços eram extremamente especulativos!

Em minha casa eram cinco pessoas. Recordo pedir pão a minha mãe e ela não o ter para me dar visto nas padarias não lhe venderem mais e o da candonga ser a preços incomportáveis para a bolsa familiar.

Mesmo os endinheirados nem sempre conseguiam adquirir o que necessitavam, não por falta de dinheiro mas sim por falta dos produtos.

Lembro-me de o meu pai arranjar açúcar a preços elevados para um familiar pois a sua bolsa não suportava tal preço. Também faz parte da minha memória o auxílio de um tio que devido à sua profissão, percorria o país e ia trazendo o que podia dos sítios por onde passava na sua actividade. Quando trazia azeite, era uma festa!

A minha mãe dizia muita vez:- se isto se mantém por muito tempo, morremos todos de fome.

O gado cavalar era na altura um meio de transporte ainda importante. Lembro-me de o meu pai comentar em casa a remonta efectuada, pois era necessário prover o exército de mais gado.



Havia um vizinho no MEU BAIRRO que era industrial de transportes pelo que tinha duas ou três camionetas que trabalhavam a gasogénio (gás pobre) por falta de outros combustíveis melhores. A minha memória de criança regista um cano situado atrás da cabina por onde era expelida grande fumarada proveniente da combustão.

Também foi possível aperceber-me, apesar da tenra idade, das discussões entre “germanófilos” e “aliados”.

O meu pai comprava de vez em quando “O Século” para ir acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. Habituei-me a conhecer Winston Churchill que descobria em qualquer reportagem fotográfica que o englobasse. Era o meu ídolo que designava por “Chucha”!
Vinte e cinco anos após o armistício, fui “prendado” com uma lata de cinco quilos de açúcar pilé, armazenado naquela altura e que surpreendentemente ainda estava em boas condições de utilização.

Que jeito tinha feito se o tivesse recebido vinte e muitos anos antes!

É pequena esta MEMÓRIA mas para nós trata-se de uma das mais significativas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O futebol

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 12.03.1993)


Entre os anos quarenta e cinquenta dos nossos dias, o descanso semanal circunscrevia-se ao domingo e mesmo assim, não era para todos.

Como ocupá-lo? Ouvir o relato de futebol feito pelo Domingos Lança Moreira ou por Amadeu José de Freitas, na telefonia da taberna mais próxima e que estava suficientemente alto para se ouvir bem na rua.

Numa ou noutra casa, já havia telefonia, e quando vinham ouvir o relato para a porta, os vizinhos aproveitavam.

Como não podia deixar de ser, de um lado os sportinguistas, do outro os benfiquista.
Nestes tempos não havia dinheiro para se ir ver os clubes da sua simpatia a Lisboa, como alguns anos depois veio a acontecer, mesmo ao estrangeiro. Por vezes havia, tal como agora, grandes discussões entre os mais ferrenhos. Era o tempo dos violinos, do Moreira e do Chico Ferreira, este que ainda vi, depois de se ter retirado, fazer uns jogos nos “Leões”, onde jogou algumas épocas o seu irmão António, que era o capitão da equipa. Entre os “leões” e as “águias”, metia-se um “pastel de Belém” ferrenhíssimo adepto do Clube da Cruz de Cristo.

Outros simpatizantes do futebol viravam-se para os jogos locais, havendo nessa altura dois agrupamentos de futebol sénior, o Sport Grupo Scalabitano Os Leões e o Sport Grupo União Operária (vulgo Operário) já que o Grupo de Futebol Empregados no Comércio (vulgo Caixeiros) e a Associação Académica de Santarém ou abandonaram a prática do futebol ou deixaram de ter essa categoria, e o Sport Lisboa e Santarém e “Os Treze”, tinham desaparecido completamente.

Os adeptos, como é natural, dividiam-se por uma e outra equipa. Os Leões, jogavam do estádio Alfredo Aguiar e o Operário no Campo Chã das Padeiras.

Os “dérbis” locais desapareceram quando os Leões jogaram vários anos na 2ª Divisão Nacional, o que nunca aconteceu ao grupo Operário. Os Leões estiveram mesmo a um passo da 1ª Divisão, o que nunca aconteceu ao União de Santarém, produto da fusão entre os dois clubes.

Neste período de diferença entre os dois grupos, a rivalidade aparecia quando se encontravam na categoria de juniores.

Tive o prazer de ser interveniente nesses prélios e no primeiro que disputei, os nervos eram tantos que quando me equipei, tive dificuldade em atar as botas! O jogo disputou-se no Estádio Alfredo Aguiar e na segunda-feira seguinte estive a contas com um professor que tinha assistido ao jogo e era adepto da equipa minha adversária, pois resolveu chamar-me para avaliar os meus conhecimentos. Afinal não era isso que estava em causa, o que ele queria era “mandar umas bocas” por causa de uma ou duas jogadas em que entrei mais rijo! Afinal, “ele” tinha ganho o jogo e folgadamente.

A miudagem do MEU BAIRRO nesses tempos, se os pais não eram adeptos do futebol, como acontecia com o meu, ia bem cedo para a porta dos campos e pedia a quem passava se podia entrar com ele. Já conhecedores da situação eram por vezes eles que nos chamavam para esse efeito e assim assistíamos a todos os jogos.

Lembro-me de uma vez me ter visto aflito ao entrar no Estádio Alfredo Aguiar pelo referido sistema. A avalanche era tal que sentia estar a ser esmagado pelo que tive de gritar o mais alto que pude – foi então que o meu protector e alguns homens que estavam perto conseguiram com muita dificuldade fazer um pequeno círculo que me deixou um pouco mais desafogado.

Tratava-se de um jogo de passagem de divisão, da 2ª para a 1ª. Se a memória não me atraiçoa, era entre o Elvas e o Oriental, que a equipa de Lisboa teria acabado por vencer.

Lembro-me bem do Sr. Leonel da Trindade Pinto, já falecido (vulgo Leonel Padeiro) ter uma grande bandeira do “Operário”, clube da sua simpatia e de que foi dirigente. Foi também grande entusiasta da columbofilia.

***
Viveram nesta época no MEU BAIRRO muitos praticantes de futebol que atingiram nível local ou mesmo nacional. Indicarei os que me vierem à MEMÓRIA, alguns já desaparecidos.

Jogaram em grandes de Lisboa, Octávio, Faustino e Cardoso que treinou várias vezes os Leões e o Operário e era considerado um bom técnico para a época, mas que nunca abraçou o profissionalismo.

Manuel Machado, José Pereira (vulgo Zé Catorze) e o extremo direito Lima, homens da terra que defenderam as cores dos Leões. Baptista, um profissional ex-Benfica, defesa e marcador de grandes penalidades.

O treinador Artur Quaresma, ex-jogador internacional de “Os Belenenses” também aqui viveu na Rua 2º Visconde de Santarém, enquanto treinou os Leões.

Do Operário, passou depois para os Leões, Miguel, um dos melhores guarda-redes que Santarém teve e que jogou até bastante tarde, Martinho, Fernando Pê e Lobato.

Madeira, treinou muitos anos os juniores da Académica.

Fernando Fontes (guarda-redes), os Torgais (José, Carlos e João) e José Aguiar (Zezinho) formaram outras gerações.

Muitos mais ficarão por referir.

Em escrito próprio, voltaremos ao futebol para recordar a grupo popular que na minha juventude se formou no MEU BAIRRO.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Uma figura do Meu Bairro - Margarida Jerónima Fernandes

(CORREIO DO RIBATEJO DE 05.03.1993)



Com tal antropónimo, só os familiares saberão de quem se trata; pela nossa parte só soubemos do seu nome completo para escrever este pequeno apontamento.

Nesta série de MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, logo de início esteve nos meus planos “escolher” uma ou duas pessoas, das muitas que lá conheci, que devido à sua acção, justificariam uma abordagem.

Ainda que a maioria fosse gente modesta, havia igualmente doutores e endinheirados e também o lado oposto.

Entre tantos, destaco uma mulher que sempre me impressionou. Conheci-a já entrada na idade. Baixa e atirando para o forte, a varíola tinha-lhe deixado uma ou outra marca da sua presença. Um olhar penetrante, um rosto que inspirava confiança e ao mesmo tempo espargia generosidade. Se nunca a vi galhofar, nunca a vi zangada.

Lá seguia todas as manhãs para o mercado municipal onde tinha o seu posto de trabalho, a venda de pão. Não me lembro de a ter visto sem o lenço na cabeça, de tons amarelos acastanhados, que atava como tinha aprendido com os seus familiares.

Se não nasceu nas margens do Tejo, veio de Vieira de Leiria ou de praias limítrofes, bem nova. É que nos princípios do século, daquela zona, começaram a vir no Inverno, para o Tejo, famílias de pescadores já que naquela altura do ano, o mar, não permitia que saísse para o seu ganha-pão. Nessa altura, o Tejo, era abundante em sável, tainha e barbo, além de outras espécies, e aqui faziam a sua vida, até regressarem no Verão.

Estes homens e mulheres que migravam periodicamente, eram conhecidos por “avieiros”. Na década de trinta deixaram de regressar a Vieira de Leiria. O rio, muitos anos depois, começou a dar menos sustento. Os pescadores viram-se na necessidade de se transformarem em agricultores e encaminharam os filhos para outras actividades e hoje restarão meia dúzia, senão menos.

Apesar disso, muitos continuaram a viver junto do rio e alguns mesmo nas construções palafitas que eles próprios construíram.

Como é do conhecimento geral, Alves Redol, com base nas suas vidas, escreveu o romance Avieiros

Margarida Fernandes, filha de “avieiros”, cedo teria abandonado tal actividade, se alguma vez a teve. Já a conheci viúva e na actividade que desempenhava.

Morava no terceiro quarteirão da minha rua mas do lado oposto ao meu.

Havia com frequência quem procurasse a sua porta. É que ela era exímia em colocar no lugar “ossos desmanchados” e as “linhas” debaixo da acção das suas mãos, igualmente obrigadas a ir ao ligar. Tinha também um conjunto de mezinhas que aconselhava a quem a procurasse nesse sentido.

Lembro-me de ter tratado um meu familiar e de em minha casa se guardarem as lâmpadas após o filamento queimado (lâmpadas fundidas) pois o produto proveniente do esmagamento do vidro, com o auxílio de mel, era por ela empregue em emplastros.

Estava sempre disposta a atender quem dela se abeirasse, desde que fosse assunto dos seus conhecimentos. Não cobrava um tostão a ninguém, limitando-se a aceitar as lembranças de quem o quisesse fazer.

Informam-me que aprendeu a arte com familiares.

Toda a gente do MEU BAIRRO a conheceu e sabe de “problemas” que resolveu, mas tenho de dizer que era a Senhora Margarida Pescadora, como era conhecida por todos. Se o não fizesse, eram capazes de ter dificuldade em identificá-la.

Faleceu com 88 anos e nasceu em 1886.

Era uma boa alma que aqui gostosamente recordamos nesta simples MEMÓRIA e com muita admiração.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

"A Marcha cá do Bairro" - Outra achega

PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 14.05.1993)

A MEMÓRIA de hoje, caro leitor, não se trata propriamente de uma MEMÓRIA, com o sentido de novo assunto, mas sim de achegas importantes a MEMÓRIAS anteriores.
Como pensamos já ter alertado, as MEMÓRIAS estão a chegar ao fim. Quando idealizámos os escritos, tínhamos previsto cerca de doze assuntos a abordar, número já largamente ultrapassado mas... não esgotado. Faltará a memória e principalmente o “engenho e arte” para ir mais além.


E AINDA “A MARCHA CÁ DO BAIRRO”

É a terceira vez que vamos abordar a MEMÓRIA que titulámos de “A MARCHA CÁ DO BAIRRO” e ainda bem que o fazemos visto terem chegado mais achegas ao assunto o que aliás solicitámos quando o abordámos pela primeira vez.

Numa carta colaboradora, o Sr. José Carlos G. Rosado, residente na Amadora, vem-nos prestar precioso auxílio fornecendo dados novos e correcções ao que tínhamos escrito, algumas entretanto já feitas na MEMÓRIA XVII, de 2 de Abril.

Aconteceu que este senhor, então com dezassete anos, foi um dos componentes da marcha “e com o seu par continuou a marcha pela vida fora, com o passo certo, a garganta afinada, os corações unidos e tranquilos”.

Iremos então transmitir aquilo que este senhor teve a amabilidade de nos fornecer.
Parece que a ideia da marcha germinou num casal vindo de Lisboa (freguesia de Arroios) que se instalou no bairro, o Sr. Eduardo Moreira (bate-chapa de profissão) e sua esposa, D. Idalina ou Natalina.

Habituados às marchas de Lisboa e verificando que havia tudo no bairro para o fazer, vai de lançar a ideia e dinamizar os moradores.

Continuando a citar o nosso informador, esse facto ficou patente na letra ao dizer-se “mudou-se cá p`ro bairro a alegria e trouxe um par”.

Os ensaios começaram após o Sto. António e como já dissemos a marcha desfilou pelo S. João.

Ainda que o Sr. Sargento António Cabreira fosse só o autor da música, acabou por ter influência importante nos ensaios e “a sua acção foi decisiva para o êxito da marcha”.

Segundo aquele músico, se fossem cantar assim para a rua, mais iriam parecer pintos a piar do que rapazes e raparigas a cantar. Era necessário cantar mais forte.
Por outro lado, considerava indispensável a integração no agrupamento musical de um trompete, o que se fez por intermédio do Sr. Fernando Nogueira.

O agrupamento era constituído por mais os seguintes elementos:- Fernando Carvalho (caixa), Artur Silva (contrabaixo), Leonel Bastos (bombardino), Lopes (trombone), Barbosa (2º clarinete) e Manuel Costa (2º clarinete), o único músico nos escritos anteriores.

Confirma-se também a gravação pela Rádio Ribatejo que até entrevistou alguns elementos da marcha.

Para terminar indica-se a letra completa já que a publicada no primeiro artigo omitiu uma parte, além de uma ou duas pequenas trocas que não lhe tiram o sentido.

MARCHA DO BAIRRO DOS COMBATENTES

Letra de Ferreira Campos

I
Andam cá no Bairro
Em sobressalto os corações
A luz que os alumia
Vem do alto dos balões
Afinem as gargantas p`ras canções
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
É p`ra marchar

REFRÃO

O Bairro da Liberdade
Das Padeiras ao Choupal
É o mais belo da cidade
De beleza sem rival
Orgulho de quem cá mora
A aldeia dos macacos
Como lhe chamam os velhacos
Dos macacos lá de fora

II
Mudou-se cá p`ró Bairro
A alegria e trouxe um par
E agora cá no Bairro
Noite e dia é só cantar
Levanta o teu balão com galhardia
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
É p`ra marchar.

REFRÃO

O Bairro da Liberdade
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
III
Rapazes e cachopas
Cantai todos sem parar
Que a Rádio Ribatejo
Pelos modos quer gravar
Afinem as gargantas p`ras canções
E toca a andar
Que a marcha cá do Bairro
Vai para o ar.

REFRÃO
... ... ... ... ... ... ... ... ... .. ...

Com esta importante achega, o que voltamos a agradecer ao seu autor, Sr. João Carlos G. Rosado, pensamos ter concluído o tema que ousámos abordar, apesar dos poucos dados de que dispúnhamos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ainda "A Marcha cá do Bairro"

Pequena nota

Quando escrevi a Memória “A Marcha cá do Bairro” foi praticamente só com a base da minha memória de treze anos e com algumas informações que me chegaram oralmente não tendo eu feito parte da “Marcha”.
Pedi nesse escrito o auxílio de leitores e que felizmente chegaram. Republico agora a primeira achega e depois será uma segunda que veio a esclarecer muitos aspectos.


(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 2 DE ABRIL DE 1993)
Quando publicámos a XIII MÉMÓRIA DO MEU BAIRRO, intitulada “ MARCHA CÁ DO BAIRRO”, manifestámos as dificuldades encontradas para a organizar, atendendo a que, quando isso se passou, tínhamos treze anos.

No escrito solicitámos aos leitores as correcções e aditamentos possíveis.

É com prazer que hoje, aproveitando esta MEMÓRIA mais curta (XVII) faço rectificações e acrescentos ao que então escrevi, segundo informações colhidas junto de elementos da marcha, que os muitos anos decorridos levaram ao esquecimento e à confusão, o que é naturalíssimo.

Acabou de nos chegar às mãos fotocópia de um recorte de jornal que nos dá em traços rápidos, os dados mais importantes sobre a Marcha. O autor, que não assina, intitula o artigo “A Marcha do Bairro dos Combatentes” – foi uma lição de bom gosto que deve ser aproveitada.


Este recorte, que não indica o jornal nem a data, foi guardado todos estes anos por uma senhora residente no MEU BAIRRO, que o fez chegar às nossas mãos e a quem muito agradecemos.

É preciso ter muita sensibilidade para guardar um recorte destes tantos anos!
A notícia julgo ser oriunda deste velhinho semanário, pois penso que na altura não havia outro na cidade.

Quando pensei abordar o assunto, admiti que tivesse sido referido netas páginas.

Seria fácil verificá-lo pela consulta na Biblioteca Municipal, ou mesmo na Redacção, mas o meu afastamento da cidade tal não permitiu.

Há pois que “dar o seu ao seu dono”, como diz o povo, rectificando o que está errado e evitar que a “inverdade” se sobreponha à verdade.

A letra afinal não é do Sargento António Cabreira, mas sim de Ferreira Campos, dado como colaborador do jornal e que conheci muito bem. A música sim, é que é do Sargento Cabreira.

Aceitei a informação prestada porque é muito vulgar os autores da música serem também os das letras.

O ensaiador foi o Sr. José Luís que eu penso saber quem era e que morava no bairro, possivelmente auxiliado pelo Sr. António Cardoso que é apontado como pertencente à organização.

Refere-se também a presença do Sr. Manuel da Costa como fazendo parte do acompanhamento musical. Também ele era morador no bairro, uma figura muito simpática com quem contactámos anos depois a nível profissional.

Entre os trinta arcos levados, cada um pelo seu par, sobressaía um “Cabaceiro” saído das mãos habilidosas do Sr. José Luís Colaço, igualmente morador no MEU BAIRRO e que conheci muito bem.

Continuando a citar o articulista, a marcha desfilou pelo bairro na noite de S. João, mas no dia seguinte, como se tinha saído tão bem, “foi um triunfo, uma honra para o bairro”, desfilou pelas ruas da cidade, dando duas voltas à estátua do Marquês de Sá da Bandeira, tudo com pleno agrado da população.

Informa-se também que o Sr. José Conde, também morador no bairro, brindou os componentes com um belo “copa de água”, bem sortido de bolos e vinho, o que dizemos nós é uma nota muito simpática a referir.

Depois foi o bailarico até às tantas na garagem Vinagre o que transbordou para a rua.