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domingo, 15 de julho de 2012

A Escola dos Combatentes [2]


Já apresentei aqui e incluída na rubrica Memórias do Meu Bairro a fotografia na minha 4ª classe [1948/49] realizada na escola que inaugurei com os meus colegas vindo transferido da do Pereiro, da velhinha que destruíram.

Talvez devido a essa publicação e a muitas referências que este  blogue faz a este já velhinho bairro da cidade, fui contactado de França por um antigo morador do Meu Bairro que também fez lá a sua 4ª classe e que está há muito radicado naquele país encontrando-se na situação de reforma.

Este grupo de 40 elementos, como eram as turmas de então, foram alunos do prof. Agnelo da Silva Lázaro que igualmente foi meu professor. No ano seguinte à minha 4ª classe, iniciaram estes a 1ª com o professor Agnelo, vulgo entre os alunos Bintóito, devido à sua pronúncia de beirão que nunca perdeu. Esta fotografia representa a 3ª classe.

É graças à amabilidade do meu amigo Carlos Isidoro que a posso publicar com a identificação que fez passados tantos anos o que motivou algumas falhas e interrogações absolutamente naturais.

O nº 1 é o José Pinto, 2-Narciso, 3- Quim Fontes, 4- Coelho, 5-Matos, 6-Luís Filipe, 7-Ernesto, 8. CARLOS ISIDORO, por alcunha o “pcanino”, 9-Manuel Castro, 10-Rui de Oliveira, 11-Branco, 12- por alcunha o Tejo, 3-Salvador, 14 – Samouco, 15-Hilário da Rampa, 16 – Faia, 17- Valdemar, 18- Conde (dos cestos), 19- Manuel José, irmão do Maroca, 20 – Caiado, 21- (não identificado), 22- Conceição, 23 (não identificado), 24- Ramiro, 25-Mariano, 26- Plaza, 27- Valente, 28 – Defensor, da ribanceira, 29 – Verdasca, da estrada das Padeiras, 30(não identificado), 31 – Pedro, 32 – Ribeiro, 33 – por alcunha o avô, 34 (irmão de uma empregada da sapataria Plaza), 35 (não identificado), 36 – António Alfaro Matias, 37-António Oliveira (?), 38- Maroca Santana (?), 39- Cruz.

A contínua é a Menina Marcelina.

Lembro-me bem da maior parte deles, principalmente dos que viviam mais próximo de mim e muitos deles nunca mais os vi e não sei por onde andam. Os últimos que me lembro de ter encontrado foram o Quim Fontes, o Valdemar e o Carlos Mariano.

Se alguém procurar dar uma achega a este texto tem na página o meu e-mail de contacto e será bem-vindo.
Actual edifício escolar, muito aumentado em relação ao original. Foto JV

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Escola dos Combatentes - 4ª classe do ano 1948/49. Prof. Agnelo da Silva Lázaro



TENTATIVA DE IDENTIFICAÇÃO
(1) – Braga, (2) Hernâni, (3) Adelino, (4) Bretes, (5) Joãozinho, (6) Neto, (7) Lázaro, (8) Carlos, (9) Cadima, (10) João, (11) Pacheco, (12) Mário Leal, (13) Óscar, (14) N.N. das Ómnias, (15) Neves Trindade, (16) António Miguel, (17) Virgílio Cardoso, (18) José Torgal, (19) Minderico, (20) Vicente, (21) Capelo, (22) Serralha, (23) Orlando, (24) Júlio Leal, (25) Vale, (26) Carlos Mariano, (27) Emídio, (28) Cascalheira, (29) Gaivoto, (30) Francisco, (31) NN, (32) NN, (33) Lúcio, (24) F. Trindade, (35) José, (36) Romão, (37) Renato, (38) Vítor Vasconcelos, (39) Júlio Cruz, (40) Silas, (41) Pedro, (42) Faustino, (43) Rui, (44) Joaquim José.

E a figura magistral do professor Agnelo (vulgo Bintóito entre os alunos e não só devido à sua pronúncia de origem) que neste ano teve pelo menos 46 anos visto na fotografia e que eu me lembre, faltam o Rogério Soares e o José Joaquim, irmão gémeo do (44) Joaquim José.

Que eu saiba, já não estão entre nós seis mas possivelmente serão mais pois grande parte nunca mais vi e desconheço o seu percurso.

O professor Agnelo, natural de Celorico da Beira era uma grande figura pela sua estatura mas principalmente pelo seu porte. Trabalhador incansável, pelas suas mãos passaram gerações de escalabitanos que penso nunca o terão esquecido pela educação e conhecimentos que a todos ministrou. Além disso era um democrata nunca se enfeudando ao regime vigente.

Após a aposentação regressou ao seu concelho de origem.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um poeta

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 13 DE ABRIL DE 2006)

Chegou-me há dias, por e-mail, um poema acabadinho de sair da verve de um velho amigo que já não vejo à perto de trinta anos mas nem por isso deixamos de contactar, por vezes com distância de anos, conforma as ocupações e confusão da vida nos possibilitam, em momentos especiais nunca nos esquecemos.

Nada me admirou a origem até porque conheço o pseudónimo de Ricardo Ilhéu, à volta de cinquenta e cinco anos, ou seja, praticamente desde a altura em que começou a rimar.

Fui sempre um confidente, como o ser humano gosta de usufruir e naquelas idades ainda mais. Mostrava-os e procurava-me explicar, como só um poeta sabe, o jogo e significado das palavras com a liberdade que lhe é própria.

Não lhe podia retribuir na mesma moeda pois nunca tive engenho para tal mas, mesmo assim consegui fazer a muito custo, ainda que mal feitas meia dúzia de coisas, confirmando a gíria popular de que todos os portugueses alguma vez na vida, fizeram rimas ou jogaram com as palavras.

Ricardo Ilhéu, cujo pseudónimo tem a ver com as suas origens, é neto materno de um poeta laureado e a que me referi, pelo menos duas vezes, nos meus Temas Varzeenses, apresentando mesmo poesia inédita.

Conheci o meu velho amigo nos bancos do liceu de Santarém, no primeiro ano, ele era o nº 3 e eu o 6, o que nunca nos esqueceu.

No ano seguinte vem viver com a família para o MEU BAIRRO, morando junto às escadinhas da Rua Fernão Lopes de Castanheda num prédio acabado de construir e aqui passou toda a adolescência, entrando com facilidade no ambiente que se vivia no bairro, sendo um dos fundadores do Grupo Desportivo Bairro dos Combatentes.

[Escadinhas da Rua Fernão Lopes de Castanheda. Foto JV]

Eu não sou ninguém para avaliar o trabalho. Há poemas que por mais que leia, não me dizem nada. Possivelmente o mal é meu; contudo, outros soam-me bem ao ouvido, o jogo de palavras é harmonioso e consigo aproximar-me, julgo eu, do sentir do poeta, foi o que aconteceu com este.


GAIVOTA? HUM!...













Ali estava ela!
Gaivota, beleza alada,
Perdida, pousada
No peitoril da janela.

Que queria ela?

Está perto do mar,
É certo,
Mas para ela, decerto
Aqui é deserto!!

Que tenho para lhe dar?

O aconchego de um lar
Que não tenho?

Restos de um repasto que não tive?

Remanso de um lugar
Onde não estive?

Gaivota
É como velha devota.
Volta sempre ao lugar que a alimenta,
Quieta no silêncio,
Para depois soltar o grito
Aflito
Afastando-se da tormenta,
Voando no vazio.
Pássaro vadio,
Filho, enteado do mar
Que o acolhe quando escurece,
Que o afasta quando se enfurece.

Esconde-se entre os penedos
Sem os mesmos medos
Que me assolam
Nas noites sós,
Agora já não atormentadas
De dependente, superdependente
De um amor ardente
Que me consumiu
- lugar comum –
para depois me reabilitar
e voltar
a permitir-me viver,
Viver,
VIVER!
Como sempre quis estar
Nesta vida
Sofrida,
Bailada,
Balanceada
entre o comum e o erudito,
entre o dito e o não dito,
rasgo luminoso que me orienta.
Placenta
que serve de caldo
a um novo ser
que há-de viver,
sem sofrer,
igualar,
egualitar,
estar com ela com verdade,
sem ansiedade

gritando:

VIVA A LIBERDADE!!!


Algures no Porto, 2006.03.03

RICARDO ILHÉU


Aqui fica este poema que eu não sei avaliar tecnicamente mas que me soa bem e onde sinto perpassarem angústias e desilusões mas ainda e sempre, vontade de VIVER.

Ricardo Ilhéu que viveu no MEU BAIRRO, ainda que não tantos anos como eu, mas na minha época e que acabou por motivar esta MEMÓRIA, está preparando nesta fase de vida o seu primeiro livro de poesia.

Que venha ele, meu velho e que a vontade de VIVER nunca te falte.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um fantasma chamado bicicleta

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 16 DE JANEIRO DE 2009)

Há quanto tempo eu não escrevo uma MEMÓRIA DO MEU BAIRRO!

Tive que recorrer ao meu arquivo pessoal para me certificar!

A LXVI teve por título UM POETA e foi publicada em 13 de Abril de 2006! Já lá vão quase três anos!

A falta de publicação não tem a ver com a menor falta de interesse pela rubrica, mas sim pela falta de assuntos que venham à nossa memória.

Quem escreve principalmente sobre o passado, como acontece comigo, tem que encontrar assunto para o fazer, que aparece quando menos se espera. Salta o clique e o tema começa a germinar até dar origem a um pequeno escrito sobre o passado distante mas que a memória ainda conserva, se não com total rigor, pelo menos no que é fundamental.

Avô babado não tenho vergonha de o dizer, apesar da minha neta ainda não ter três anos, além daquilo que ela desejava, um tambor, resolvi comprar-lhe uma bicicleta com o argumento de que para o ano posso já não estar cá. Até agora não pensava nisso, mas pela idade ou pela presença da neta, já me vem muito ao pensamento.

Afinal eu não estou a escrever para falar da minha neta, mas sim de algo que me fez recuar cerca de sessenta anos.

Depois de escolhido o velocípede (tamanho, cor etc.) em casa da especialidade e não naquelas grandes que têm à porta para chamar a atenção, muitas vezes uns grandes “balões”com uns hieróglifos que desconhecemos, fomos efectuar o pagamento.

O balcão servia de montra para mostrar interessantes miniaturas de veículos de duas e três rodas, havendo um que me atraiu especialmente, prendendo a minha atenção. Tratava-se de um biciclo muito parecido com um que via circular lentamente no MEU BAIRRO e que levava toda a garotada atrás.

A roda dianteira é muito maior do que a traseira e é essa circunstância que define o biciclo.

Para nós era uma bicicleta FANTASMA com o condutor lá em cima. Bastaria isto para nos despertar a curiosidade, mas havia mais. O homem vestia um fato branco e penso que tinha um laço em vez de gravata. Usava chapéu alto (preto? branco? não posso precisar). Para ser bem ouvido, falava através de um altifalante (espécie de funil), lançando pregões no sentido de vender o seu jogo (lotaria).

Não era muito frequente a sua aparição no MEU BAIRRO, pelo contrário, mas quando aparecia funcionava como dia de festa para a rapaziada que aos magotes o seguiam, isto enquanto estivesse no bairro porque a partir daí, a grande maioria, como a mim me acontecia, não tinha autorização dos pais para ir para a cidade, como na altura se dizia. O Bairro era o bairro, a Cidade a cidade!

Se a memória não me atraiçoa, o meu pai dizia-me que aquela bicicleta era propriedade de um meu tio-avô, que a alugava aos interessados.

Certamente haverá leitores que recordarão este quadro tão bem ou melhor do que eu.

Quando irá acontecer uma nova MEMÓRIA? Não faço ideia, é preciso que o clique apareça e faça faísca.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O rouxinol do Meu Bairro

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 10 DE DEZEMBRO DE 2004)

[Dilma Melo]

No centro da cidade onde vivo, em Setembro último, quando estava prestes a concluir o meu passeio higiénico, depois do almoço, dirigindo-me para casa e entretenga do escrevinhar, deparei ao longe com a figura de uma senhora, observando uma montra, que me pereceu não me ser estranha. Ao aproximar-me, não tive dúvidas mas, como há muita gente parecida, pedi desculpe e perguntei se não era a Dona F. de tal. A resposta afirmativa, não se fez esperar. Não me reconheceu naturalmente, apesar da nossa diferença de idades não ser muito acentuada. Disse-lhe que a reconheci logo pois apesar dos muitos anos passados, mantinha os traços que a definiam. Com a senhora um pouco atrapalhada sem saber com quem falava, fui-lhe dizendo que há vinte e quatro anos vivia nesta cidade onde exerci a minha profissão durante dezasseis anos e que a conhecia do MEU BAIRRO, onde ela também viveu algum tempo, ao fundo da Rua Almeida Garrett no primeiro andar de um prédio que já não existe e para o qual se ia por longa e desconfortável escadaria.


Teria na altura, catorze ou quinze anos e em casa, andava sempre cantando. Tinha uma voz potente e doce de tal maneira que punha a vizinhança de ouvido à escuta, o que também acontecia comigo e com a minha família que morava na rua em frente. Tínhamos a vantagem de entre a sua casa e a nossa, não haver prédios mas sim quintais por onde a voz fazia a sua propagação com facilidade. Toda a gente gostava da ouvir cantar e elogiava as suas qualidades vocais que naturalmente não passaram despercebidas às pessoas dessa área artística.

Depressa se tornou conhecida em toda a cidade e vocalista de uma instituição que há dezenas de anos leva a todo o país e ao estrangeiro o nome da cidade.

Penso que não teria nascido em Santarém mas sim no distrito de Aveiro, de onde é originária a família. Lembro-me principalmente de um seu tio que morou no MEU BAIRRO em frente da minha casa e que faleceu em África e de sua avó paterna, toda de preto, adornada de peças de ouro e com o sotaque inconfundível da Beira. Até me lembro de uma sua prima falecida com poucos meses, tendo ainda presente o seu nome e as suas feições já que existia em minha casa uma sua fotografia. Bem pequenino, como eu me lembro destas coisas!

O rouxinol do MEU BAIRRO não permaneceu por ali muito tempo tendo a família mudado para os lados do Milagre., se não estou enganado.Foi pena não ter enveredado pelo profissionalismo onde certamente teria feito carreira a nível nacional.

Toda a gente a conhece em Santarém.

Quando nos despedimos, não deixou de afirmar que AINDA CANTAVA.
Que continue ainda por muitos anos, são os nossos votos.

Já se passaram mais de cinquenta anos!

MAIS UMA FIGURA QUE HONROU O MEU BAIRRO.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Uma indústria artesanal

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO EM 15 DE OUTUBRO DE 2004)

Os assuntos aparecem sem sabermos explicar, ou por outra, um pequeno pormenor a isso nos leva.

No mês canícula de Agosto encontrava-me, com o é meu hábito, naquilo que considero o “Fim do Mundo”, onde se quiser, durante todo o dia não vejo ninguém mas em que nunca me aborreço visto o trabalho, de que gosto, a efectuar, não o conseguir acabar. E podem crer, que é do mais variado!

Quando uma pessoa chega à conclusão de não ter nada para fazer, a não ser sentar-se num banco de jardim, esperando que “ela” chegue, está tudo acabado! Mais vale chamar o “barco” e “embarcar”.

Deixemos este assunto, que é matéria a que não se pode fugir e iremos ao encontro do motivo que originou esta MEMÓRIA DO MEU BAIRRO.

A carrinha que accionou a sua música identificativa quando chegou ao pequeno povoado e cuja sede da empresa se situa a duzentos quilómetros de distância , pára no largo frente à nossa casa esperando que alguém apareça para fazer alguma compra.

A sua paragem quase que nos obriga a comprar qualquer coisa, ainda que dela não precisemos na altura!

Trata-se de uma carrinha de congelados, peixe, carne, alguns vegetais, pasteis, croquetes e rissóis e até caixas de gelados!

Sou freguês principalmente de peixe, já que a nível hortícola a minha produção chega, tal como a carne de aves.

De tudo tinha e acabei por comprar uma caixa de gelados pois isto de se caminhar para velho começa a dar as suas indicações - todos sabemos que as crianças e os velhos gostam de coisas doces, não é verdade ?

GELADOS! Fez-me regressar à minha infância e consequentemente ao MEU BAIRRO.

Não havia dinheiro para gelados na grande maioria das bolsas e os que o tinham, consideravam isso como supérfluo.

Hoje, qualquer estabelecimento comercial tem uma arca de gelados, havendo variadíssimas marcas e o consumo é constante. Naquele tempo as coisas eram bem diferentes, uma vez por outra lá se comprava um geladinho, o que era uma festa !

Não havia gelados industriais, pelo menos não os conhecia. No MEU BAIRRO e no Pátio Frazão, durante muitos anos funcionou o fabrico artesanal de gelados. Penso que tinham o nome de Gelados Escalabitanos. A sua venda era ambulante e feita através de uns carrinhos que se moviam por intermédio de três rodas (triciclo). Até ao guiador, cuja função era substituída por um varão, era igual a uma bicicleta. Daqui para a frente existia uma caixa de madeira, cuja parte dianteira era em forma de quilha para que na deslocação se sentisse menor resistência do vento. A caixa, cuja altura se situava a nível do peito de uma pessoa, era suportada por um eixo nas extremidades do qual giravam duas rodas de bicicleta.

[Pátio Frazão. Foto JV]

A caixa era pintada de branco e as faces laterais tinham uma cercadura vegetalista de tons de azul se a memória não me atraiçoa, na parte central um motivo alusivo ao conteúdo e a marca - gelados escalabitanos.

O tampo tinha uns varões circundantes, ao centro e interiormente o depósito de alumínio (?) ou inox (?) do gelado e uma caixa, exterior, de quatro faces rectangulares, envidraçadas, de tapa em tronco piramidal e na qual se encontravam os copos cónicos de massa de farinha, penso que de dois ou três tamanhos. Julgo que havia igualmente um pequeno reservatório onde era colocada a espátula - colher que se destinava a aviar os gelados.

Os recipientes dos gelados e da espátula eram cobertos por tampa de forma cónica de borla na ponta e que os fechava hermeticamente.

Fica deste modo apresentado o carrinho dos gelados que era, devido às suas características e cores, muito atraente para os adolescentes e petizada.

Esquecia-me de uma coisa, os carinhos tinham buzina de borracha, ou seja um fole de borracha que quando apertado pela pão, fazia passar o ar por uma palheta metálica, produzindo assim um som que de uma maneira geral era diferente de buzina para buzina.
O proprietário e fabricante dos gelados, raramente fazia a sua venda mas ainda me lembro de o ver com um boné redondo e de pala. Era um homem franzino, seco de carnes e pouco falador. A venda estava destinada aos empregados, rapazes de catorze ou quinze anos. Digo rapazes porque existiam vários carros mas não posso precisar o número, talvez uns três ou quatro.

Esta actividade dava-se naturalmente nos meses de verão. Como é evidente desconheço as ordens que os rapazes recebiam, sei sim que se deslocavam aos locais onde havia mais crianças e adolescentes como eram os estabelecimentos de ensino e nesta altura, com significado só havia o liceu e o externato Braamcamp Freire (EBF). O principal negócio era feito por ali. Nos intervalos, a venda estava assegurada pois sempre havia aqueles que compravam sempre. Alguns até eram conhecidos por alcunhas relacionadas com isso.

O vendedor perguntava qual o sabor desejado e depois era a discussão perante a quantidade! Uma bolsa de cabedal e de correia recebia o dinheiro.

Os restantes carros faziam a cobertura da cidade não conhecendo eu outro fabricante.

Ao cair da tarde era o regresso a casa.

Esta actividade não dava para a manutenção anual da família pelo que tinha de haver outras complementares.

Assim, outros carrinhos de base semelhante, eram transformados em assadores de castanhas e que na época própria percorriam a cidade batendo por vezes as portas das tabernas onde os apreciadores as compravam para acompanharem a água-pé.

O assador de barro, reforçado de arame, o abano e os jornais cortados em quadrículas, são coisas que ainda hoje se vêem.

Em muitas tabernas havia a concorrência de mulheres que junto à sua porta se colocavam, sentadas num banco ou pequena cadeira, com o seu assador e que quase monopolizavam o negócio.

Sempre ouvi dizer que as castanhas assadas com sal que tinha servido sardinhas, tornavam-se mais gostosas. Ainda hoje não sei se é verdade, mas é capaz de ter a sua lógica.

Havia mais outra actividade a que o “industrial” recorria para se poder manter:- a venda de barquilhos através de um jogo.

O barquilho, termo originário do castelhano barquillo, constitui uma guloseima, feita de uma massa rija e estaladiça, espécie de bolacha e em forma de cone.

Um cilindro, de folha-de-flandres que colocado no chão, ficaria pela altura das mãos de um adulto, era o recipiente transportador dos barquilhos, colocados aos maços, formando longos canudos.

A caixa dos barquilhos, chamemos-lhe assim, teria um diâmetro de base de cerca de um quarto da altura e era exteriormente pintada de um tom acastanhado, semelhante ao utilizado nos latões das vindimas, presumindo que a tinta fosse da mesma qualidade.

A face, que constituía a tampa, era abaulada no sentido convexo. O círculo era dividido, na sua periferia por uma rede de quadrículas entre as quais estavam escritos, a tinta branca, os vários dígitos e em dois ou três casos, dois algarismos que eu penso não ultrapassaria três dezenas.

De um eixo central, rodava pequeno braço na extremidade do qual se encontrava uma palheta maleável mas resistente que depois de ser accionada pelo jogador, parava determinando a sorte da jogada. Se a memória não me falha, no meu tempo de miúdo, cada jogada custava dois tostões!

A caixa, que tinha uma correia de cabedal da largura de dois dedos, colocada nas extremidades, era transportada às costa do vendedor que ia anunciando o jogo e a possibilidades de ganhar barquilhos. Utilizava naturalmente os mesmos locais que percorria para vender os gelados.

Nunca mais vi tal a vender mas ainda me parece ter o gosto daquela massa estaladiça e onde era notório o gosta a canela.

Nas minhas MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO toquei neste assunto de uma maneira mais superficial quando me referi em 23 de Dezembro de 1993, sobre OS PÁTIOS.

Já se passaram quase onze anos ! A título de curiosidade diremos que a primeira MEMÓRIA foi publicada no número de 27 de Novembro de 1992. Como o tempo passa!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quem é aquele Senhor?

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 8 DE OUTUBRO DE 2004)




Quando Bernardo de Figueiredo faleceu em Palma de Maiorca, aos setenta e três anos, e já se passaram três, não me encontrava na minha residência oficial e para onde me é enviado o “Correio do Ribatejo”.

Nessas alturas, o meu afastamento do “Mundo” é quase total, pelo que só tive conhecimento do funesto acontecimento quando regressei e li os vários jornais que entretanto tinham chegado.

Naturalmente que a notícia é acompanhada por dados biográficos oriundos de vários quadrantes, desenhando e pondo em relevo o percurso do que era então classificado como o decano dos jornalistas de Santarém e que tinha sobre os seus ombros a difícil missão de substituir, o Dr. Virgílio Arruda, grande jornalista e escritor (homem de Cultura) que no campo da história escalabitana, deixou vasta obra em trabalhos publicados e nos milhares de páginas escritas no seu e em outros jornais e revistas.

Quando Bernardo de Figueiredo era um homem, era eu um rapazeco que sempre reparei naquela figura esguia, testa alta, cabelo liso, puxado para trás, passo cadenciado, fato inteiro e invariavelmente com livros ou jornais debaixo do braço, descendo a avenida do MEU BAIRRO.

Aquela figura mexia comigo e um dia, já próximo dos muros do antigo hospital de Jesus Cristo, aproveitei a companhia de meu pai e perguntei-lhe:- Quem é aquele senhor ? A resposta não se fez esperar:- É jornalista, escreve para os jornais.

Penso que nesta altura já era casado, (ou namoraria aquela que veio a ser sua esposa) que eu conhecia igualmente de vista, do MEU BAIRRO. Julgo que sempre teriam morado na Rua 2º Visconde de Santarém cujo último quarteirão então constituía uma das partes novas do MEU BAIRRO e onde as construções já começavam a ser de dois pisos. Deixei o MEU BAIRRO em fins da década de cinquenta, dando início na Beira-Alta à minha vida profissional, começando então a receber semanalmente, sem nunca ter falhado uma semana, este velhinho jornal que comecei por ler na barbearia do MEU BAIRRO.

Na segunda metade da década de oitenta, comecei a compilar elementos sobre a minha freguesia natal, percorrendo passo a passo o seu território, recolhendo usos e tradições, investigando o arquivo da Junta de Freguesia e procurando algo que estivesse escrito sobre ela, ainda que vivesse distante.

Com o trabalho desenvolvido foi-me possível organizar um “volume” dactilografado que intitulei A Freguesia da Várzea (do concelho de Santarém) - achegas para uma monografia que não veio a ser publicado por falta de conjugação de esforços.

Atendendo a que os destinatários principais deste humilde trabalho eram os meus conterrâneos, pensei em transformá-lo em escritos a publicar, se possível, no Correio do Ribatejo.

Nesta altura já dirigia o semanário, Bernardo de Figueiredo que solicitado a isso, deu a sua adesão. Foi assim que entre 22 de Janeiro de 1991 e 10 de Julho de 1992 foram publicados cinquenta e dois escritos sob o tema “Temas Varzeenses”.

Tivemos então oportunidade de nos conhecermos pessoalmente, conhecendo ele, naturalmente as minhas raízes com as indicações que lhe dei.

Nas poucas vezes que falámos, trocávamos impressões, transmitia-me os comentários que lhe faziam sobre os escritos e principalmente a procura da minha identificação que nunca fez, sem a minha autorização.

Bernardo de Figueiredo certamente me desculpará que aqui transcreva um pequeno trecho da carta que teve a amabilidade de me escrever e datada de 4 de Abril de 1992.

Lamento que os seus artigos sobre os temas Varzeenses, estejam a chegar ao fim, pois têm desfrutado o maior interesse. Contudo, tomo a liberdade de lhe sugerir que escreva sobre outros assuntos. O jornal está inteiramente aberto à sua (...) colaboração. Por isso, vá pensando no assunto.

Foi assim que vieram a aparecer AS MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO e as FIGURAS RIBATEJANAS, que ainda se vão mantendo, aliás como os TEMAS VARZEENSES, ainda que esporadicamente.

Como fica demonstrado, isso se deve a Bernardo de Figueiredo.

Está tudo ou quase tudo dito sobre José Bernardo de Figueiredo Duarte. Nunca li contudo qualquer referência à sua habilidade nata para o desenho e pintura. Vi um ou outro trabalho seu, de jovem, publicado no jornal e se não estou errando ilustrou um convite de casamento de um familiar próximo. Esta conversa veio a propósito dos meus bonecas que têm ilustrados alguns dos meus escritos.

QUEM É AQUELE SENHOR ?

Hoje digo:- Uma FIGURA RIBATEJANA, uma personalidade do MEU BAIRRO.
Aqui ficam estas despretensiosas palavras que a mim mesmo prometi escrever de simples homenagem a um jornalista que honrou a sua Terra e o seu BAIRRO.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Utensílios desaparecidos ou... quase

Isto das MEMÓRIAS DO MEU BAIRRO, são como as cerejas, come-se uma e ... as outras vão atrás. As arcas que estão no sótão, cheias de teaças, passa-se-lhe um pano, um spray milagroso na fechadura e após várias tentativas, vão-se abrindo. Umas têm mais conteúdo, de outras, pouco se aproveita.

Caros leitores (estou-me referindo à juventude do meu tempo, ainda que pense não sejam eles os únicos leitores) já pensou nos utensílios indispensáveis que existiram na sua casa ou na do vizinho que desapareceram completamente ou quase e se os quer recordar terá de ir a um museu situado não sei aonde ?

No primeiro quartel do século passado quase não existiam casas de banho ! A higienemuitas vezes fazia-se no quarto de dormir onde havia um lavatório de louça colocado em armação de madeira artisticamente trabalhada. A bacia assentava em placa de pedra mármore onde se encontrava também uma saboneteira e um jarro de louça, para a água. O móvel tinha duas portas no interior do qual se encontrava o balde que penso, originalmente, ter sido de louça, passando depois a esmalte. Existia uma ou duas gavetas onde se arrecadavam as toalhas, na altura de linho. Incorporado no móvel ou solto, o espelho oval com trabalhada moldura de madeira.

Isto passava-se nas casas ricas. Como era nas pobres ? Existia também um lavatório de armação de ferro, de bacia esmaltada com jarro e balde do mesmo material. Um pequeno espelho de simples moldura de madeira de forma rectangular era fixado com dois parafusos no lugar adequado. Por baixo do espelho situava-se o local de colocação das toalhas.

Mais simples ainda, existiam armações sem espelho, com local para a colocação de uma toalha ou pano de mãos e uma simples bacia e onde não havia balde.

Isto era o que se passava a nível geral e consequentemente no MEU BAIRRO.

A casa que sempre habitei no MEU BAIRRO devia ter sido construída no início da década de quarenta do século passado. Já tinha casa de banho. Era um luxo ! Sabem como era ? Uma pequena divisão, com janela para o quintal, tinha uma pia (sanita) com resguardo de madeira e autoclismo (de ferro) que avariava muitas vezes ! Para o accionar, puxava-se uma corrente de ferro em cuja extremidade havia uma pega em louça. Uma torneira de metal que minha mãe procurava ter sempre bem amarelinha à custa da selarine (?). Era tudo, o resto competia ao rendeiro.

Aí se encontrava um grande lavatório de armação de ferro, sempre pintado de branco, com bacia de louça e a saída através de um cano afunilado, com tampa de metal que devia igualmente de andar sempre bem limpa. Antes de chegar ao balde branco esmaltado, com pega de barrinha amoldável, ao centro da qual girava a pega propriamente dita e de madeira torneada, situava -se uma divisão circular de mármore onde se colocava a saboneteira esmaltada e como não podia deixar de ser, branca. A água encontrava-se num grande jarro esmaltado e igualmente branco mas cuja boca era debruada de azul. Era frequente também a pedra-pomes.

A armação de ferro tinha lugar próprio para se estenderem duas toalhas.

A um canto o bidé de louça que assentava igualmente em armação de ferro e que tinha a particularidade de ter uma coberta de pano leve, ao seu molde.

Uma banheira circular, um pouco chata, de grande bico para o despejo da água, de zinco ou folha zincada, cuja base era reforçada com ripas de madeira, para melhor aguentar o peso, estava pendurada na parede.

A higiene oral era praticada com o auxílio do bicarbonato de sódio que estava num frasco transparente e de tampa preta de baquelite. Punha-se um bocadinho na cova da mão que a escova agarrava. Depois, era esfregar, como se faz hoje com a pasta de dentes.

Ainda que aparecesse de vez em quando o sabonete “Musgo”, o que mais funcionava era o sabão azul e branco, que hoje se sabe ser mais saudável.

Em determinada altura funcionou na casa de banho uma selha circular, de madeira, onde com o auxílio de uma tábua, de forma rectangular em que um dos lados mais estreitos era levemente abaulado e que tinha um buraco ao meio para se poder pendurar e o outro era côncavo, terminando em dois bicos. A tábua, no seu sentido longitudinal, era às lombas para possibilitar um melhor esfregar da roupa.

Pouco tempo depois a selha foi substituída por um tanque de cimento armado de que nunca lhe vi o fim, se já o teve.

Mas onde eu gostava de tomar banho, era no grande tanque feito de pedra, cal e cimento do vizinho do lado. Servia de piscina, o que nós não sabíamos o que era e dava para grandes brincadeiras - tínhamos de ser intimados a acabar com o banho !

Velhos tempos !

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O comércio ambulante

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 16 DE JULHO DE 2004)

Já referimos nestas pequenas croniquetas, especificamente, algum comércio ambulante como aconteceu com PADEIROS e ultimamente com OS CARVOEIROS. Quando nas primeiras MEMÓRIAS recordámos o comércio em geral referimos mais superficialmente algum ambulante.

Sentámo-nos em frente da “máquina” para tentar desbobinar o sótão da memória, abrindo esta ou aquela arca velha que ainda não apodreceu, mas que já não falta muito, para ver se lá encontramos alguma coisa que possamos oferecer aos nossos leitores.

Quem não se lembra dos leiteiros? Nessa altura, a venda do leite era fundamentalmente feita através da venda ambulante, ao domicílio. Lembro-me de um leiteiro, que parece estar a ver, com o seu vestir acotinado, era um homem de estatura média que numa bilha de zinco ou folha zincada, trazia o leite proveniente das suas vacas. Este homem tinha um filho muito mais velho do que eu; os nomes é que já passaram! Só depois, aparece a “Análise do Leite”, como nós dizíamos, ao Choupal, onde os vendedores ambulantes se abasteciam. É claro que desconheço, se havia, as cláusulas do contracto, sei sim que a leiteira do MEU BAIRRO era lá que se abastecia as vezes necessárias para satisfazer a população. Não seriam assim tantas, pois na altura bebia-se muitíssimo menos leite do que hoje por variadíssimos motivos:- económicos, educacionais, entre outros.

A leiteira do MEU BAIRRO era uma mulher já madura, para o forte. Trazia sempre bata branca, muito limpa. A bilha, que muitas vezes transportava à cabeça, principalmente quando estava mais cheia, era de latão, brilhando como oiro! Estava sempre impecavelmente limpa, dava gosto olhar para ela. Uma bolsa da mesma liga, abaulada para se poder ajustar ao corpo e de correia, transportava as medidas necessárias, de alumínio e devidamente aferidas. A bolsa (caixa) tinha uma pequena porta por onde se movimentavam as medidas. Tinha fregueses certos mas vendia a quem o desejasse. Por vezes era ajudada pela filha, moça já casadoira.

Oriunda de um casal próximo, aparecia de vez em quando uma velhota, miudinha, vestida de preto, com uma burrinha carregada de molhinhos de carqueja que custariam a vinte centavos cada e que eram determinantes no acender dos fogareiros. Para o fim e para se despachar, vendia o resto mais barato pois o regresso ao casal levava o seu tempo. A mesma velhota aparecia noutras ocasiões com uma cestinha de verga, de asa, cheia de queijos frescos, protegidos por alvo pano. De uma maneira geral tinha fregueses certos, dois aqui, meia dúzia acolá, vendia sempre tudo. Batia sempre à nossa porta.

Chegava a trazer ovos mas aqui havia mais dificuldade na venda pois nessa altura, a grande maioria das casas do MEU BAIRRO tinha um quintalzinho onde havia sempre espaço para um pequeno galinheiro, fazendo o aproveitamento dos restos da comida, com o auxílio de sêmeas

Na época propícia aparecia o caleiro percorrendo as ruas do MEU BAIRRO, conduzindo a sua carroça cheia de pedras de cal e apregoando: - Cal branca. Uma balança rudimentar e de pratos determinava o peso aproximado.

Às horas adequadas passava o vendedor de jornais, o Sr. Eugénio, amigo de infância de meu pai a atender pela saudação afectiva que praticavam. Também aqui, havia fregueses certos. Os jornais eram transportados numa bolsa forte de cotim que se pendurava ao ombro. É o Século ou Diário de Notícias, anunciava num tom pausado.

Por pouco tempo e quando eu já era grandote, apareceu um homem forte, de bigode, conduzindo uma carroça, puxada por um macho. Vendia por medida, azeite, petróleo e vinagre, isto se mais uma vez a memória não falhar. Foi negócio que por estes lados não pegou. “Pitrolino” era a designação popular e anunciava a sua presença com uma corneta semelhante à utilizada pelos carvoeiros. Foram os seguidores dos recoveiros que transportavam os produtos em odres.

Duas moças de batas azuis e com a palavra “Frutidor” bordada a vermelho, se a memória não me atraiçoa, transportavam uma vasilha (cesta, latão?) com laranjas descascadas que vendiam a preços económicos pelas ruas do bairro. Era um comércio de certa maneira inovador.

Raramente aparecia o gravateiro que preferia as ruas do velho burgo, tentando vender alguma gravata que trazia em expositor que prendia ao pescoço e constituído por um bom número de exemplares. Era uma actividade que dava colorido às ruas da cidade! Nessa altura os homens luxavam mudando quase diariamente de gravata!

Oferecendo não produtos, mas trabalho, aparecia o amolador com a sua roda que encaixava numa armação de madeira. A roda servia de veículo transportador da “oficina”. Quando fosse necessário, parava-se, mudava-se a máquina de posição e a roda transformava-se por intermédio de uma correia e com o auxílio de um pedal na força que actuava na pequena roda do esmerilador Estes artistas anunciavam a sua presença através de uma gaita muito própria que só conheço por eles utilizada. Uma crença popular diz que quando eles aparecem e a tocam, chove!

Apareciam vários no MEU BAIRRO mas em minha casa e a indicação de meu pai, só se dava trabalho a um senhor, magrinho, alto, que vestia uma bata comprida e que meu pai considerava como grande artista e tinha estabelecimento na Rua Direita, próximo da Praça Velha.

Era o senhor Luís “Alemão” que se terá refugiado em Portugal na altura da Grande Guerra.

Aparecia também o funileiro que transformava a sua oficina em carrinho de mão, os gateiros que punham gatos (pedaço de metal que prende a louça quebrada) e os chapeleiros que arranjavam chapéus de chuva, substituindo principalmente varetas estragadas por outras que aproveitavam de velhos chapéus.

Para terminar esta MEMÓRIA falta referir outro tipo de comerciante ambulante, alguém que vinha comprar e não vender. Quem se lembra? Pois claro, são eles mesmo, os compradores de peles de coelho, garrafas e ferro velho que, com o seu pregão forte chamavam a atenção dos mais distraídos.

Pois é, nessa altura aproveitava-se a pele do coelho que se salgava e se armava em canas, que a estendiam. E as garrafinhas que hoje por vezes temos dificuldade em nos vermos livres delas, eram guardadas para vender ao ferro velho. Como as coisas eram!
Aqui tem, caro leitor o que recolhi nas minhas arcas da memória.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Os carvoeiros

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 9 DE JULHO DE 2004)



Vieram os PADEIROS, depois OS SAPATEIROS, hoje virão OS CARVOEIROS!
Na nossa MEMÓRIA - XI - O COMÉRCIO E ACTIVIDADES SIMILARES, publicada no jornal de 12 de Fevereiro de 1993, (como o tempo passa ! como não hei-de estar velho !) aflorámos sucintamente este assunto que iremos hoje desenvolver com a “riqueza” que nos for possível.

A MEMÓRIA da presença de carvoeiros no MEU BAIRRO, está cá muito para trás.

Não consigo identificar o mais antigo, parece-me contudo que teria sido o existente à entrada do Pátio do Matafome, ali, ao lado do corredor do acesso ao pátio e onde, por incrível que pareça, nunca entrei e não me perguntem porquê. Não faço ideia de quem seria o vendedor ainda que me pareça que o negócio estaria a cargo de uma família muito conhecida que lá viveu muitos anos e de que conheci os cinco elementos, pais, duas filhas e um filho.

Depois, qual seria ? Talvez ao fundo da Rua Frei Gaspar do Casal e que nessa altura era um beco. Aí, lembro-me de muitas vezes pela mão de minha irmã mais nova e com uma cesta ou alcofa ir ao carvão. Gostava muito de fazer este trajecto pois a filha dos proprietários, uma moça forte, muito desinibida, de cabelos compridos e armados em grande penteado e amiga de minha irmã, cumulava-me de meiguices que eu, criança, muito gostava. A Maria Amélia, para mim, era tudo. Não sei se ainda lá vive e se se lembra deste miúdo que tanto apaparicava. Lembro-me do seu casamento.

A carvoaria era conhecida pela do Pitau, certamente fazendo referência a seu pai, não sabendo eu se era nome ou alcunha. Lembro-me bem do pai que penso seria pedreiro e da mãe, uma mulher alta e magra que despachava a freguesia. Aquela zona pertencia-lhes de raiz.

Que eu me lembre e no MEU BAIRRO, só havia outro local onde se vendeu carvão, logo à entrada num estabelecimento comercial misto, mercearias, fazendas (riscados), taberna e... carvão. Eu gostava de lá comprar o carvão pois tinha a oportunidade de assistir a renhidas partidas de chinquilho disputadas a jarros de vinho, que os vencidos pagavam.

Tanto quanto me lembro, não tenho identificado mais nenhum lugar onde se tivesse vendido carvão no MEU BAIRRO.

O carvão estava posto a granel. A balança de ferro, no lugar de um dos pratos, tinha um cesto de ferro de forma cilíndrica que deixava passar o pó e o cisco (aparas de carvão). O carvoeiro colocava o carvão que retirava do monte com uma pá, no cesto, dando-lhe duas ou três voltas a fim do pó e do cisco sair.

Todas as casas nessa altura tinham uma cesta velha ou alcofa que destinavam ao carvão que muitas vezes se arrumava debaixo da chaminé, lugar resguardado por uma cortina de chita. Nesta altura, meados da década de quarenta, o carvão e a lenha eram o combustível utilizado por toda a gente.

Havia três tipos de fogareiros, os de barro, os de ferro fundido e os mistos (esmalte, barro e ferro) que muitos homens sabiam fazer. Quando uma panela já não merecia arranjo, fazia-se-lhe uma abertura (tipo porta) que ficasse centrada com as asas. Depois, dois ou três buracos no rebordo onde assentava a tampa que nesta altura já não servia e que iriam constituir respiradouros. Com barro bem amassado faziam-se interiormente as paredes com o auxílio de pedaços de telha ou de matéria semelhante. Entretanto, pontinhas de ferro faziam uma espécie de grelha para suspender o carvão. Três locais da parede equitativamente dispostos e mais elevados, eram reforçados com uma chapinha, sendo os sítios onde assentavam tachos, panelas e outros objectos que iam ao lume. Depois, era a cal que tudo tapava, tornando mais sólido e respirando limpeza. Estes eram os mais vulgares e os que minha mãe preferia. Existia um de ferro fundido mas que não era utilizado, não despachava as coisas, como ela dizia.

As famílias tinham de uma maneira geral dois fogareiros deste tipo, verdadeiramente artesanais, um maior e outro mais pequeno que utilizavam conforme o tipo e quantidade de comida. É claro que de vez em quando necessitavam de reparações.

Tinham fama no BAIRRO e penso que em toda a cidade, os fogareiros feitos por uma figura típica da cidade, o Zé U, de Alfange. Percorria as ruas do MEU BAIRRO apregoando o seu trabalho.

Nunca fiz nenhum, não tinha idade para isso, mas vi fazer muitos e tenho a impressão que ainda hoje seria capaz de construir um exemplar!

Muitas casas possuíam igualmente um fogão a lenha que se utilizava normalmente em dias de festa.
Este assunto dos fogareiros já foi abordado por mim na MEMÓRIA - XVIII - O LUME, publicado no jornal de 8 de Abril de 1993, mas falando hoje dos carvoeiros, não podia deixar de voltar ao tema, ainda que de uma maneira diferente.

O carvão, além da sua utilização de combustível na alimentação, era igualmente utilizado nos ferros, de ferro fundido que se destinavam a passar a roupa e que causavam grandes arrelias e prejuízos quando saltava alguma fagulha e queimava a roupa.

Além do carvão, os carvoeiros vendiam igualmente o cisco, constituído por aparas do carvão e que se destinava ao aquecimento das pessoas e das casas. Havia “braseiras” de cobre, de latão e de zinco, conforme as possibilidades económicas e havia mesmo quem utilizasse qualquer caneco de barro ou de qualquer outro material. As “braseiras” tinham de uma maneira geral um estrado de madeira, sextavado ou de oito faces, no centro do qual existia uma abertura circular onde se colocava a “braseira” propriamente dita. Em casa de meus pais existiu uma que durou mais de sessenta anos!

Com o aparecimento de outros combustíveis, como o petróleo, por exemplo, o MEU BAIRRO deixou de ter carvoarias e então, quando se precisava de carvão íamos às “Velhas”, numa travessa que dava para a rua do Matadouro ou então no Campo Sá da Bandeira numas casinhas que julgo pertenciam ao Seminário e onde nasceu o meu avô paterno.

Entretanto o problema do abastecimento de carvão e seus derivados ao MEU BAIRRO fica resolvido com o aparecimento de um vendedor ambulante. Uma pequena carroça, puxada por um burrico de pêlo castanho, o vendedor, moço das minhas idades tocando a corneta, percorria a horas certas as ruas vendendo carvão, cisco e bolas (pó de carvão amassado), produto evoluído e que se tornava mais económico devido à sua durabilidade.

Os meios de combustão foram-se transformando quase sem darmos por isso, o negócio deixou de ser rentável, acabou.

Hoje, onde se compra carvão? Na cidade onde vivo, só nos super mercados de alguma dimensão e nem sempre. Na minha cidade natal, será o mesmo.

Agora, penso que se utiliza fundamentalmente para grelhar peixe ou carne, por um diminuto grupo de pessoas. Qualquer dia, nem isso.

Como as coisas vão mudando!

sábado, 18 de setembro de 2010

Os sapateiros

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 2 DE JULHO DE 2002)

Na recente passagem pela minha cidade natal e que aqui já referi muito superficialmente, um amigo do MEU BAIRRO disse-me que agora, depois dos padeiros, seriam os sapateiros !

Comecei a pensar nisso e a verdade é que aproveitei a sua sugestão, veremos, contudo, se a minha memória me ajuda e se consigo articular o assunto com o mínimo possível de falhas.

A arte de fazer calçado manualmente era uma actividade muito importante ainda no século XIX o que se estendeu até meados do século seguinte. A par desta existiam os moleiros, ferreiros, oleiros, marceneiros, tanoeiros, atafoneiros, abegões, correeiros, alvanéis, albardeiros etc., etc, em maior ou menor número conforme as zonas em que se inseriam.

Algumas destas actividades, senão todas, encontram-se extintas ou em vias de extinção. A evolução das coisas com o desenvolvimento da indústria, tudo transformou.

Os sapateiros distribuíam-se por todo o país, desde as cidades aos mais recônditos lugares. Também eles sofreram o ataque da indústria transformadora e foram-se aguentando nos primeiros tempos pois continuava a haver quem não dispensasse o sapatinho manufacturado. O aperfeiçoamento industrial e principalmente o preço competitivo obrigaram a balança a pender para um dos lados.

O sapateiro mais antigo no MEU BAIRRO, sempre me lembro dele, possivelmente teria sido dos primeiros moradores, tinha a sua oficina a meio da Avenida dos Combatentes, com entrada para esta e para o Pátio Frazão. A casa ainda lá se encontra, com pequenas modificações e funciona como estabelecimento comercial.

[Pátio Frazão. Foto JV]

O sapateiro, para mim na altura o único no bairro, ali veio a falecer já de idade avançada.

Era uma figura típica do MEU BAIRRO, com características físicas bem diferenciadas.

Toda a gente o conhecia por um nome que não tinha, ao seu antropónimo juntaram o da mãe, como então era vulgar.

Considerava-se e efectivamente era, tanto quanto sei, um bom sapateiro, ou melhor, um manufactor de calçado como sempre se considerou.

Trabalhava do lado direito de quem entrasse na oficina, sentando-se em pequeno mocho de madeira, de gaveta, tendo na sua frente pequena banca onde colocava a ferramenta, quando não necessária. Punha o pequeno avental de cabedal, para se proteger. Ao lado, um velho alguidar de barro era o recipiente indicado para pôr a sola de molho, para amaciar e poder bater, tornando-a mais concisa e durável. Para isso havia um seixo que se acomodava entre as pernas e sobre o qual a sola era fortemente batido com um martelo próprio, de base larga.

Penduradas na parede ou numa prateleira alta, encontravam-se por ordem as formas de madeira, de diferentes números que se utilizavam a obra nova e em determinados consertos.

Havia igualmente uma forma de ferro, de três pés, destinada a outros tipos de consertos. Nessas alturas, além de se mandarem pôr meias-solas e saltos, também se punham tombas e viras pois o calçado aguentava mais uns tempos sem necessidade de comprar outro.

A turquês especial, de bico, proporcionava o esticar conveniente do cabedal, fixado com o prego adequado. Os furos para coser eram feitos com uma sovela pela qual passavam os fios devidamente preparados, penso que com cera e em cuja extremidade lhe era colocada uma cerda. O sapateiro para poder esticar convenientemente o fio, utilizava uma protecção nas mãos, de que não recordo o nome, se o tinha, como penso. Mesmo assim as suas mãos não deixavam de ficar marcadas por fissuras provocadas pela linha.

O sapateiro utilizava vários tipos de prego, incluindo o de cobre, conforme o trabalho a executar.

Por essas alturas, não se dispensava o uso de protectores nos sapatos e as botas eram cardadas. Quando utilizadas pelos jovens, transformavam-nas em patins, sobre o cimento.

A colocação de capas no calçado de senhora era uma constante. Os saltos eram de madeira só aparecendo depois os de alumínio. Nessa altura ainda não havia as capas de plástico.

Os buracos provocados pelos pregos, eram tapados com os paus dos fósforos, aguçados e embutidos com cola própria. A faca, que se afiava com muita frequência, fazia o acerto. Depois de pregado o bocadinho de sola, era facilmente cortado pelo artista pelo sítio devido. Depois, punha-se a cera com o retoque do ferro.

Só bem mais tarde aparece outro sapateiro a abrir oficina no MEU BAIRRO, igualmente na avenida e próximo do Pátio do Parente e onde penso ainda estar uma tabacaria e venda de jornais e revistas.
Ainda que nela trabalhassem dois irmãos, infelizmente um já desaparecido há anos, era da responsabilidade do mais velho. Não vou repetir os trabalhos que aí se faziam que eram iguais aos já referidos, mas existem coisas interessantes para recordar.

As oficinas de sapateiro foram sempre locais de encontro e era esta que eu frequentava pela maior proximidade de idades. Eram ambos desportistas e guarda-redes de futebol, tendo sido o mais velho, como por várias vezes tenho escrito neste jornal, um dos melhores que Santarém já deu.

[Local de venda de Jornais e onde trabalharam dois sapateiros. Foto JV]

Comprava sempre o jornal “A Bola” e era lá que eu aproveitava para o ler. Eram muito espirituosos e brincalhões e a rapaziada era sempre bem recebida e esgotava facilmente os poucos lugares disponíveis, já que era uma pequena divisão. Quando não havia lugar disponível o pessoal ficava à porta e então era ouvir a voz firme do patrão:- Vá, tirem os taipais, quero trabalhar e não vejo nada. Então a “malta” tinha que desandar.

Na época de férias, passei muitas horas junto deles. Quando estavam bem dispostos, assobiavam e com os martelos e outras ferramentas faziam uma “orquestra”. O mais velho era mais letrado e brincava muitas vezes com a falta de conhecimentos do irmão, mas este retorquia sempre defendendo-se como podia e por vezes com tal espiritualidade que o mais velho e eu partíamo-nos a rir.

De vez em quando eu era posto à prova com perguntas de algibeira do mais velho, tais como, qual e onde era a maior profundidade do Oceano Pacífico; em que arquipélago ficava a ilha tal, etc, etc, perguntas a que de uma maneira geral não sabia responder - de vez em quando lá aparecia uma mais acessível e que acertava !

O trabalho ia dando para os dois mas não se podiam descuidar para safar o dia. Ao Sábado havia grande azáfama e trabalhavam até tarde para cumprir os compromissos. Uma freguesa que era minha vizinha era considerada a melhor pelo muito trabalho que dava. A ela, por mais trabalho que houvesse, nunca se dizia que não!

O mais velho, é apanhado numa altura em que a lei obrigava a ter a quarta classe para jogar futebol e então calhou-me a mim a prepará-lo para esse exame, apesar de já saber ler e escrever com alguma fluidez. Quanto a isso estava tudo bem mas tivemos que dar uma volta à aritmética e aos problemas mas tudo decorreu depressa e bem.

Na oficina, até em política se chegou a falar. Dizia-me o Mestre Sapateiro:- Alpiarça é uma Nação e (na altura das manifestações estudantis), estes tipos são todos os mesmos, depois de terem os cursos, querem é poleiro, mudam logo de ideias !

Depois de sair do MEU BAIRRO e iniciar a minha vida profissional, o que foi feito bem longe, sempre que passava por Santarém não deixava de fazer a visita, sendo sempre recebido com a mesma espiritualidade e com o título de senhor professor, que não era. A partir daí, nunca mudou a agulha.

Entretanto o irmão emigrou e ele arranjou emprego. Ainda vi o irmão uma vez junto da desaparecida Papelaria Silva. Foi então a conversa possível. Pouco tempo depois tive conhecimento da sua morte através deste jornal.

O mais velho vi-o pela última vez à cerca de vinte anos! Encontrei-o na estrada para Rio Maior e parei para o abraçar.

Nas horas ali passadas, acabei por aprender a pôr capas, tacões e outros pequenos trabalhos. Possuo forma de ferro, faca, ferro de bornir mas há muito que não lhe toco. Tenho saudades !


Para terminar direi que antes desta oficina trabalhar nestes termos, havia no mesmo local uma espécie de fabriqueta que só se destinava a obra nova e que passou para a traseira do prédio.

No início da avenida existiu outra fabriqueta de maior dimensão e fundada por indivíduo originário do país vizinho.

Aqui fica o que consegui recolher no sótão da minha memória.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Os polícias

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 25 DE JUNHO DE 2004)

[Rua Fernão Teles de Menezes]

Mais uma vez as insónias me atormentaram. Cansei-me por querer dormir e não poder. Aproveitei contudo para dar uma volta à vida e... lá fui parar ao MEU BAIRRO.

Não vou recordar as correrias que fiz à frente dos polícias por jogar à bola na rua ou no átrio da escola, aliás o que já aqui recordei quando falei dos entretenimentos das crianças de então. Jogar à bola nessa altura era um crime já que não tínhamos onde fazê-lo!

Esta MEMÓRIA começou por pensar num bom amigo, desaparecido há volta de vinte anos. Era meu vizinho e era chefe da polícia. Quando falo em chefe refiro-me a todos os que tinham essa designação mas com diferenças nas categorias que não sei nem nunca soube distinguir.

A fama que tinha como profissional, principalmente entre os subordinados, não era boa (fama e não sei se proveito) mas a verdade é que para mim e para toda a minha família, foi sempre grande amigo.

Era originário da Beira - Baixa e tinha uma única filha.

A partir daqui comecei a recordar outros profissionais da polícia. Outro chefe, depois comissário, também morava no MEU BAIRRO e se a memória não me falha residia na Rua Frei Gaspar do Casal. Tinha um único filho que foi meu contemporâneo no liceu, jogava muito bem voleibol, pertencendo à respectiva equipa e licenciou-se na área das línguas.

O chefe e depois comissário era uma pessoa muito conceituada na cidade, sendo estimado por todos.

Outro graduado da polícia vivia na minha rua e no mesmo quarteirão, relativamente perto da minha residência. Era um homem forte, que enviuvou sedo e tinha um único filho, mais velho do que eu mas ainda meu contemporâneo no liceu. Era bom jogador de ténis de mesa e representou a Associação Académica de Santarém. Depois do 7º ano, nunca mais soube nada dele.

Ainda na minha rua e no Pátio Frazão, morava um guarda bem conhecido que tinha dois filhos, um pouco mais novos do que eu. Era originário da zona das Caldas da Rainha. Igualmente na mesma rua e no pátio do Matafome morou outro guarda que tinha um filho que foi meu colega na instrução primária e que seguiu uma carreira militar alcançando alta patente.

Na Rua Almeida Garrett, antiga Rua B, no início do último quarteirão e do lado esquerdo, vivia um velhote que me diziam ter sido polícia, mas que eu não conheci nessa actividade. Tinha uma neta da minha idade que chegou a frequentar o liceu mas desistiu penso que logo no primeiro ano. Ao fundo e do mesmo lado a figura inconfundível de um chefe, ainda novo que marcava pela sua estatura, farto bigode preto, de capa e bengalim.

Na Rua 2º Visconde de Santarém e ao fundo, morava igualmente outro chefe de polícia que entre outros, tinha um filho da minha idade. Mal me lembro de estar no activo. Ele ou familiar foi proprietário de um pequeno estabelecimento comercial (mercearia).

Lá para a Rua do P. Inácio da Piedade e Vasconcelos residia outro guarda da polícia que tinha um filho das minhas idades e que depois de reformado também montou um estabelecimento comercial na Rua Fernão Teles de Meneses.

Certamente que no MEU BAIRRO moravam mais polícias mas não consigo lembrar-me de mais nenhum. A verdade é que encontrei mais graduados do que guardas.

Quem se lembra de mais, diga.

Penso que os moradores no MEU BAIRRO, da minha época, todos identificaram, não é verdade?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os partos

Surgiu há dias no meu pensamento, esta MEMÓRIA DO MEU BAIRRO. Veremos se lhe consigo dar sequência, com princípio, meio e fim, estrutura indispensável para poder ser apresentada aos nossos leitores.

Há três ou quatro dias passei pela minha cidade, depois de longa viagem, desta vez não tive tempo de passar pelo MEU BAIRRO de que continuo a ter saudades, dei uma pequena volta pela cidade, comprei uns livros, estive no “Correio” para um cumprimento rápido, obtive informações sobre alguns comentários que as MEMÓRIAS fazem chegar à redacção e tem graça que os poucos amigos que visitei na minha fugaz passagem, todos referiram as MEMÓRIAS como leitura que não lhes escapa e alguns só muito recentemente “conheceram” o José Varzeano, seu modesto autor.



Bem, deixemos este pequeno arrazoado que apareceu esporadicamente para abordarmos mais uma MEMÓRIA.

A adjudicação da empreitada de arruamentos e alcatroamento do MEU BAIRRO, ocorreu em 1941. Eu devia ter dois, três anos quando para lá fui morar e lembro-me perfeitamente de ser asfaltado o último troço da minha rua, a avenida que nessa altura não tinha saída, o que só veio a acontecer depois de ter deixado o MEU BAIRRO.

Como se vê, não nasci no MEU BAIRRO mas quatro dos meus sobrinhos ali viram pela primeira vez a luz do dia. Dois, na Avenida dos Combatentes, outro na Rua 2º Visconde de Santarém e o quarto na Rua Frei Gaspar do Casal. Infelizmente um faleceu bem jovem e os restantes já ultrapassaram a casa dos cinquenta. Só uma ficou ligada a Santarém onde exerce a sua actividade profissional.

Há cinquenta anos ainda se nascia em casa apesar de haver bem perto o hospital a que quase ninguém recorria. Quando abordei a Memória “A Doença”, referi a relação entre doente e hospital.

Já então existia uma maternidade no Hospital Jesus Cristo e a que recorriam as grávidas de menores recursos. Exerciam a sua actividade em Santarém, nessas alturas, várias enfermeiras - parteiras, devidamente diplomadas. Já não estávamos na época das “curiosas”. As parturientes já eram acompanhadas clinicamente. Na “hora”(era fundamental ter uma boa hora, como então as pessoas experientes diziam) familiares e vizinhas davam o seu apoio e o marido ou outro familiar próximo despachava-se a ir chamar a parteira, já que os telefones eram bem poucos - um luxo da época, a que hoje se opõe o “português - telemóvel”.

A parteira lá vinha toda apressada e quando necessário recorria-se ao aluguer de um automóvel, cuja praça se situava no centro da cidade, no vulgo Largo do Padre Chiquito.

De uma maneira geral as coisas decorriam com normalidade e o parto efectuava-se com maior ou menor dificuldade. Contudo, quando as coisas se complicavam, chamava-se um médico que tivesse nome nessa arte.

Já eu era grandote, no pátio do Sr. Leonel Padeiro, um parto começou a complicar-se e chamaram um médico que quando chegou, já a criança tinha nascido. A minha mãe que como vizinha prestou o seu auxílio, comentava sempre que o médico para justificar o dinheiro que ganhou, limitou-se a dar banho ao bebé e com muito pouco jeito!

[Pátio de Leonel da Trindade Pinto (vulgo Leonel Padeiro)]
Quando nasceu a minha sobrinha mais velha, tinha eu nove anos. Estava ansioso para ser tio, pois a parteira, de que ainda me lembro do nome, vem com a menina nos braços e põe-na no meu colo, pois estava sentado numa cadeirinha. Agarrei-a de tal maneira que não a queria dar a ninguém ! Foi o primeiro colo que conheceu e sem ser seu padrinho, na igreja, quando a mãe pensava que a madrinha tinha escolhido o nome e a madrinha pensado precisamente o oposto, eu, com os meus nove anitos não me fiz rogado e alvitrei um nome que a madrinha, que era minha tia materna, logo aproveitou. Era o nome de uma miúda com quem brincava e de quem gostava.

No mesmo dia e bem perto, nasceu outra menina que vim a habilitar para o exame de admissão ao liceu e à escola técnica.

Tudo mudou. A medicina e a obstetrícia evoluíram muito. Equipas especializadas mantêm-se em trabalho contínuo e assim dá-se a concentração de meios. É mais fácil nascer na ambulância do que em casa !

Certamente que alguns dos meus leitores dirão:- Eu ainda nasci no MEU BAIRRO, é verdade, como as coisas eram e como são agora !

sábado, 7 de agosto de 2010

A misse

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 11 DE JUNHO DE 2004)



Será que desta vez consigo escrever a MEMÓRIA que há muito me anda na cabeça?

Há cinquenta ou mais anos também havia misse no MEU BAIRRO, mas o significado do termo nada tinha a ver com o de hoje. A eleição era feita à boca fechada, ainda que notoriamente o resultado transpirasse para o exterior.

A verdade é que havia no meu bairro uma jovem que todos, ou quase todos, velhos e novos consideravam a mais bela. No sexo masculino, o resultado era de uma maneira geral, consensual, no oposto, de vez em quando havia uma ou outra opinião contrária, colocando este ou aquele “defeito”afinal o que valorizava a “eleição democrática”.

Morava relativamente perto de mim e quando era já uma senhora, era eu um miúdo. Vivia numa vivenda das poucas existentes no MEU BAIRRO. Filha única, sendo os pais funcionários públicos. Além de elegante e feições correctas, tinha gosto para se vestir e havia algum poder económico. Nunca me esqueci de um vestido às ramagens, verdes e amarelas que a tornava, na minha apreciação de rapaz, ainda mais bela. Era viva, espirituosa, andava com elegância, pisando bem o chão. Quando eu fui para o liceu, andaria ela nos últimos anos.

Quando apareceu com namorado, foi acontecimento no bairro! Para mim, e lembro-me bem, foi uma desilusão - fosse quem fosse, nunca seria merecedor de tão grande beldade, era isto que pensava o rapazeco de onze, doze anos que eu teria na altura, se a memória não me falha.

O namoro deu casamento e a prendada menina acompanhou naturalmente o marido para a capital onde penso terá feito toda a sua vida.

Os pais continuaram vivendo na sua vivenda, no MEU BAIRRO. Primeiro partiu ele, depois ela e não há muitos anos, segundo me consta.

A bonita menina continua a utilizar a casa que era dos seus pais, onde foi criada e certamente se sente bem. Penso que seja já septuagenária e pelo menos, avó babada. Consta--me que não perde a leitura destas modestas croniquetas, que parece apreciar, reconhecendo e lembrando-se deste miúdo. À volta de cinquenta anos que não a vejo - só possuo a imagem que ficou, tanto dela como do marido e pais.

Ela que me perdoe a sua utilização para uma MEMÓRIA DO MEU BAIRRO mas efectivamente para mim e grande parte dos moradores de então, é sempre UMA MEMÓRIA agradável de recordar. O seu marido que me desculpe de não gostar dele para seu namorado mas eu, naquela altura, não gostaria de ninguém, ninguém a merecia!

Parece mentira, mas é verdade:- Ainda hoje desconheço o seu nome - só sei o hipocorístico! Possivelmente não serei só eu.

Estou convencido que, qualquer morador no MEU BAIRRO, do meu tempo, que ler esta MEMÓRIA, saberá de quem estou falando.

Minha Senhora, muita saúde, muitos anos de vida. As netas são parecidas com
a avó?

domingo, 18 de julho de 2010

Padeiros

Padeiro é, segundo os dicionários, o homem que fabrica ou vende pão; dono de padaria. Neste caso, o título da MEMÓRIA apresentada, só significa o homem que venda pão, já que, pelo menos enquanto vivi no MEU BAIRRO, não me lembro da existência de qualquer padaria. Que eu saiba, viveu contudo no MEU BAIRRO um industrial de panificação que penso também sabia fazer pão e a sua padaria situava-se em instalações que fizeram parte do solar dos Saldanha, ainda com pedra de armas, frente ao mercado municipal (vulgo praça).

Padeiro de profissão, isto é fabricante de pão, durante toda a vida e sempre o conheci vivendo em casa própria, no meu bairro, mas trabalhando na cidade, como então dizíamos, o meu saudoso amigo, alentejano de Mértola, o Sr. José Gomes. (1) A sua primeira mulher e mãe dos seus filhos, de que bem me lembro apesar do seu desaparecimento já ter ocorrido há muitos anos, penso que há mais de cinquenta, desempenhava uma actividade relacionada com o pão, pensando eu ter sido vendedeira.




Vendedeiras de pão, além da já referida e que me lembro ser oriunda da freguesia de Achete, tivemos pelo menos três pessoas do sexo feminino que exerciam a sua actividade nos depósitos do mercado municipal, (mas que viviam no MEU BAIRRO) lojas que circundavam o ainda belo edifício. Havia depósitos de pão, mercearias, talhos, depósito de sementes, pequenos cafés principalmente utilizados pelos trabalhadores do mercado. Destas três figuras, duas eram familiares, mãe e filha, e a outra, ajudou-me a criar.

Sempre me lembro de existir no MEU BAIRRO um depósito de pão que era explorado pelo Sr. Ribeiro, mais tarde por seu filho e depois alugado a quem o explorou por muitos anos, pelo menos até eu lá ter vivido (1959/60). Era aí que eu me deslocava a mandado de minha mãe, para a compra do indispensável pão, o que acontecia com grande parte dos residentes.

Além de toda esta gente que tinha a sua actividade relacionado com o pão, viviam no bairro também os vendedores ambulantes de pão.

O transporte era feito de bicicleta a pedal. Um grande seirão de duas bolsas, confeccionado de verga, era colocado no porta-bagagens da pasteleira. Devido ao peso, muitas vezes os padeiros mandavam adaptar uma roda traseira mais robusta, de secção mais avantajada para assim poder aguentar o peso do padeiro, do pão e da verga, ainda que esta fosse relativamente leve.

O vendedor tinha um contrato com o fabricante, comprando a determinado preço por cada quilo, já que cem pães, não pesavam cem quilos. Depois, vendia à unidade e não ao peso.

O seirão era forrado de pano branco sendo o pão igualmente tapado com o mesmo pano.

Levantavam-se bem cedo para ao sair dos fornos estarem aptos a recebê-lo, bem quentinho, a estalar e lá iam à sua vida, correndo toda a cidade, com roteiro elaborado e fregueses certos, vendendo contudo a quem o solicitasse. Acabava-se a carrada, ia-se buscar outra e outra, até satisfazer toda a freguesia.

Havia aqui um pequeno pormenor a considerar. O pão era tabelado e ao quilo. Naturalmente que os exemplares tinham quase sempre, ou mesmo sempre, um pouco menos pelo que nos depósitos o peso era corrigido pelo contrapeso (o que nem sempre acontecia) o que nunca vi nos vendedores ambulantes, possivelmente seria a compensação para o serviço ao domicílio, aliás o que era justo.

As suas buzinas, de borracha, tinham um toque que os fregueses distinguiam. Conheci três no MEU BAIRRO, o Sr. Leonel Padeiro (Leonel da Trindade Pinto, falecido não há muitos anos, apaixonado pela columbofilia, sócio e dirigente do extinto Sport Grupo União Operária), depois o seu filho e também o Sr. Manuel Fazenda.

Tudo isto desapareceu com a evolução dos tempos. Hoje nem sei como as coisas se processam mas será igual ao que acontece nas outras terras. Nas pequenas e por esse país fora, continua a fazer-se a venda ao domicílio em carrinhas que vendem pão de toda a espécie, bolos, folares, etc. e que se deslocam a distâncias consideráveis.

Também eu compro pão em tais circunstâncias quando não estou na cidade, mas no campo e costumo receber o vendedor de pão dizendo: - Aqui está o padeiro que não sabe fazer pão -, ao que ele me responde, : lá isso é verdade, este homem está sempre a querer pôr-me em cheque!

_________________________

(1) - Passando em Maio de 1975 pela vila em que me encontrava exercendo a minha profissão e a cerca de trezentos quilómetros de distância de Santarém, onde vivia, não deixou de procurar este seu amigo, que conhecia quase desde que nasceu. Nunca esqueci tal amabilidade e prova de amizade.

domingo, 4 de julho de 2010

O porquito

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 30 DE ABRIL DE 2004)

A insónia por vezes leva-nos a rememorar. Assim aconteceu mais uma vez, dando origem a esta pequena croniqueta.

O MEU BAIRRO era habitado por gente de todas as condições mas a maioria era gente da classe operária, de prestação de serviços, o pequeno funcionário público. Aqui se fixaram também pessoas oriundas das freguesias rurais circundantes e até de bem mais distante. Procuravam fugir ao trabalho da enxada de dois bicos, da ceifa dos trigais, do varejo e apanha da azeitona, mal pagos e incertos. Por aqui se iam fixando e livrando os filhos desses trabalhos pois tinham possibilidades de lhe proporcionarem um ofício que após a instrução primária aprendiam nesta ou naquela oficina ou então ocupavam-nos no comércio local, relativo ao vestuário ou à alimentação. Em todos estes ramos houve gente que deu a volta por cima, tornando-se conceituados industriais ou comerciantes.

Esta possibilidade era bastante mais difícil se os pais continuassem nos meios rurais.

É natural que tivessem trazido, a acompanhar a sua força de trabalho e o desejo de ter uma vida melhor, os seus usos e costumes, o que aprenderam com pais e avós.

Uma das coisas que alguns moradores no MEU BAIRRO faziam era criar o seu porquito como tinham feito nas suas aldeias ou visto fazer a seus pais. Nesta altura, se ainda se podia ter nos quintais, uma capoeirita com dois ou três bicos ou um casal de coelhos, não era possível ter porcos como existiam nas aldeias. Nos terrenos agrícolas das proximidades, normalmente ocupados por hortas e olivais, arranjava-se um bocado (não sei se havia qualquer renda ou se era gracioso, mas penso que era a última hipótese) onde se construía a pocilga, sendo a construção feita à base de madeira. Nesse tempo as coisas embalavam-se em madeira ou em folha pois não existiam plásticos e o papelão que era pouco não tinha esse destino. Essa matéria-prima era utilizada no fabrico de pacotes de vários tamanhos (vulgo papeluchos) pois tudo era a granel.

[Era por perto da Escola Primária que construiam os pocilgos onde criavam os seus porquitos. Foto JV, 1992]
Com umas tábuas, paus, chapas e umas telhas de canudo, lá se engenhocava uma pocilga para receber um ou mais bichos. Acontecia que havia várias pocilgas mas eram sempre umas junto às outras.

Quem comprava um porquinho para engordar, pedia aos vizinhos no bairro que lhe guardassem os restos de comida, hortaliças, etc. (nesse tempo não havia o perigoso de fungicidas e afins) vulgo lavadura, e para o efeito deixavam uma lata para a recolha. De uma maneira geral as pessoas compreendiam e guardavam, como fazia a minha mãe. Normalmente era a proprietária do animal que fazia a recolha, levando um latão maior. Depois, com um em cada mão lá andava aquela distância que por vezes era bem considerável. Há tarde era ajudada pelo marido, quando regressa do trabalho e ainda tinham que levar a água!

Era muito trabalhoso, sem dúvida, mas tornava-se um mealheiro já que pouco gastavam, penso que um pouco de farelo ou farinha de milho, quando muito. A engorda não se destinava a abate para consumo próprio mas sim para venda.

Alguns dos meus amigos os pais criavam os seus porquitos e eu gastava de ir vê-los, mas só o fazia quando iam os donos.

O último local que me lembro de pocilgos, era atrás da escola num terreno do Louro. Não tenho ideia de alguma vez se ter feito mal aos bichos, nem a rapaziada, nem os adultos!

A vida era muito diferente. Se fosse hoje... ...

domingo, 20 de junho de 2010

Duas mentiras

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 23 DE ABRIL DE 2004)

A passagem recente do dia 1 de Abril fez-me recuar no tempo pois é um dia significativo na minha vida, tendo começado, tanto quanto eu me lembro, em 1960, por isso, já lá vão quarenta e quatro anos! Depois desse, outros se foram verificando que os meus papéis registam.

Antes do de sessenta, uns bons anos antes, mas que não posso precisar pois era um rapazeco, o dia das mentiras funcionou no MEU BAIRRO e de que maneira! Tanto assim, que nunca mais o esqueci.

Ao fundo da rua principal do meu bairro, a chamada Avenida, frente à casa que minha família habitava, vivia, em prédio já desaparecido, um casal, bons vizinhos, gente muito pacata, mais velhos do que os meus pais e de que me lembro três filhos. Talvez nesta altura, já todos tivessem a sua vida própria. Era um rapaz, mais velho e duas raparigas, sabendo ainda hoje o nome de todos, apesar de pelo menos há cinquenta anos não os ver nem saber por onde param! Tenho mais na memória uma delas, então uma jovem alta muito viva que me apaparicava dando-me guloseimas – junto dela estava sempre protegido, fosse de quem fosse! Esta família tinha vivido antes no Pátio Augusto Manuel, igualmente no MEU BAIRRO.

À noite, quando o marido chegou a casa para jantar, a mulher disse-lhe que tinha encontrado fulano, dando-lhe a notícia que tinha morrido o Dr. Sicrano, médico lá na terra, pessoa muito considerada e a quem deviam muitos favores, sendo o funeral no dia seguinte.

Ora o nosso bom vizinho, cuja profissão obrigava ao uso de farda, mas que não era militar, nem polícia, contactou os seus chefes no sentido de obter a competente dispensa e no dia seguinte, logo ao raiar da manhã monta a velha pasteleira, de gravata preta, lá vai vencendo a custo os cerca de nove quilómetros que o levavam à sua terra e isto numa estrada esburacada e por alcatroar.

A Ti M. ... quando o viu partir, esfregou as mãos, dizendo para consigo, já te enganei. Fez as camas, arrumou a casa e à hora habitual, pega na alcofa de esteira e vai a caminho do mercado que ainda ficava longe, com o seu andar pachorrento, fazer as compras diárias.

O homem, logo que chegou à terra, perguntou à primeira pessoa que encontrou, então todas as pessoas se conheciam, onde se encontraria o corpo do Dr. Fulano, ao que o outro lhe terá retorquido:- O quê ? morreu, só se foi agora pois ainda ontem à noite o vi. Só então o nosso bom vizinho viu que tinha caído na esparrela pois era o 1º de Abril! Não perdeu mais tempo e inverte o sentido de marcha. Só havia um caminho a seguir, procurar vingar-se da mentira que a mulher lhe tinha pregado. À medida que ia arquitectando a mentira, pedalava com mais força para chegar a tempo.

[Casa próxima do local onde o "caso" aconteceu, mas na Rua Almeida Garrett. Foto JV]
Uma vez em casa e como tinha calculado, a mulher tinha ido à praça e ainda não tinha regressado - aparece sempre uma vizinha ou uma amiga que faz perder algum tempo na conversa e hoje o almoço podia ser mais tarde já que o marido tinha ido para o funeral, ah ! ah!

O nosso Amigo, apesar de míope, era desembaraçado, pega na sua farda habitual de trabalho, enche-a como pode de trapos e papel, constrói o melhor possível o boneco e pendura-o com um cinto numa trave do quarto e, ó pernas para que te quero, foi enfiar-se na cave.

Sentiu o abrir da porta da sua M... e ficou de ouvido atento, que lá de ouvir, ouvia bem.

Depois de arrumar as compras, era natural que fosse ao quarto mudar de roupa, para estar mais à vontade. O grito profundo de grande aflição não se fez esperar e o nosso vizinho, para evitar a viuvez teve que correr depressa para dizer que estava vivo!

A mentira foi bem pregada, mas podia ter dado mau resultado.

Nunca me esqueci disto, ainda que no texto haja um pouco de criação, o fundamental, é real.
Quem se lembra disto que tão badalado foi no MEU BAIRRO?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

À borda do Tejo

(PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 18 DE ABRIL DE 2004)

[Ómnias]

É velha a romaria que os escalabitanos fazem em Honra de São José, protector dos operários, às Ómnias, no dia 19 de Março que desde 1977 é feriado municipal no concelho de Santarém.

Fi-la algumas vezes pela mão dos meus familiares nos meados da década de quarenta, princípios da seguinte, quando ainda tinha alguma expressão tal romaria que a pouco e pouco foi desaparecendo.

Após 1975 houve tentativa de revitalizar tal prática, ao ponto do dia 19 de Março passar a ser Feriado Municipal, mas disso só conheço o que li na imprensa local.

Quando eu era menino, várias famílias do meu bairro não deixavam de ir à romaria de S. José, como era o caso por exemplo da família Duarte com os seus sete elementos ou da família Pires, mais numerosa. Os vizinhos combinavam e partiam juntos. Os mais pequenos, como era o meu caso, ainda dormitavam, mas o fresco da manhã, espevitava-nos.

Atravessávamos a estrada das Padeiras, seguíamos pela travessa das Velhas que tinha um comprido muro de uma Quinta e que no outro lado tinha umas casitas onde moravam e vendiam carvão e seus derivados, duas velhotas, vestidas de preto, irmãs e que talvez fossem gémeas, o que não posso precisar. Daí nós lhe chamarmos a rua ou a travessa das Velhas e onde íamos comprar tão indispensáveis produtos, na época. Esta rua ia desembocar na Rua do Matadouro, mais propriamente na Avenida Laurentino (Veríssimo).

Depois de passarmos ao largo do Cerco de S. Lázaro, cortávamos à esquerda, seguindo a calçada da Junqueira.

Mas afinal não é sobre a romaria a S. José (ou das Ómnias) que nos propusemos escrever mas sim sobre os passeios à borda do Tejo.

Nessas alturas trabalhava-se todo o sábado, só o domingo era dia de descanso ou então algum feriado ou dia santificado. Nestes últimos, por vezes havia uma dispensa de chefes e patrões!

No MEU BAIRRO, no Verão, com a forte canícula, muitas famílias tinham o hábito de ir passar o dia livre à margem do Tejo, beneficiando da fresquidão dos banhos e das sombras que os salgueirais proporcionavam

O trajecto já o indicámos. A calçada da Junqueira era estreita e esburacada e a poeira era mais que muita. O que valia é que raramente passava um veículo automóvel (quando isso acontecia, ficava tudo branco). O tráfego era constituído por veículos de tracção animal e animais de carga e sela que já era suficiente para nos empoeirar.

Desejava-se a chegada à Fonte da Junqueira, do lado direito da estrada, com o seu enorme paredão de alvenaria, estruturado de pedraria e encimado por objectos decorativos de interesse artístico. Se a memória não me falha, eram quatro as bicas que continuamente deitava o precioso líquido que nos dessedentava. Ouvia logo dizer que bebesse agora porque depois escusava de pedir porque não havia! Então, enchíamos a barriga.

Não faltavam os tanques de pedra cheios para que os animais bebessem e recuperassem forças para continuar as caminhadas.

[Tejo e borda d`Água num guache de Vitor Faria]

Depois, para mim a sempre desejada passagem no túnel, sobre o qual passava o comboio e quando isso acontecia, era uma festa, o gritar de alegria, o adeus.

Estava-se próximo. Os homens, então chamados chefes de família, escolhiam o lugar para assentar arraiais, na margem do rio, e que nós designávamos por borda do Tejo. Procuravam-se sítios espaçosos, proximidade de água potável (havia quem bebesse do rio, fazendo um poço no areal) e onde os salgueiros proporcionassem boas sombras.

As famílias mais amigas ficavam sempre muito próximo para se proporcionar um melhor convívio. Depois da limpeza do terreno, as crianças entravam logo na brincadeira, correndo umas atrás das outras, sendo a areia uma atracção. Havia sempre limites fortemente impostos pelos pais por causa da proximidade da água, já que o Tejo era falso com as suas correntes e remoinhos.

Os homens construíam as suas fornalhas cavando a terra de aluvião que com a sua contextura compacta, isso proporcionavam. Depois era ir à lenha, tarefa em que gostava de ajudar e que consistia em recolher raízes e outra lenha que as águas iam trazendo e armazenando pelas margens, principalmente quando as invadiam.

Nas Ómnias, onde além de uma quinta existiam algumas construções dispersas e mesmo uma taberna, adquiriam-se nas hortas que povoavam a zona (ómnia significa precisamente horta, pomar de plantação variada) produtos hortícolas de boa qualidade e a preços inferiores aos do mercado.

Mesmo aqui, as sopas substanciais (legumes e hortaliças) não eram dispensadas pois eram elas que aconchegavam o estômago, como os pais diziam e... bem. Hoje comem-se pizas, hamburgueres e outra comida sintética!

Depois, como era “festa”, lá vinha o peixe assado (sardinha, bacalhau, então comida de pobres, fataça ou enguia, estes últimos adquiridos aos pescadores das Caneiras) e isto quando não se fazia uma caldeirada, o que era frequente. O vinho ia-se comprar à taberna que ainda fica longe e quando lá ia, calhava-me às vezes um pirolito, o que era uma alegria.

Comia-se e bebia-se sentado no chão onde se estendiam alvas toalhas. Banco, nem pensar, a não ser algum madeiro a jeito que aparecesse ou um tronco de árvore mais propício pela sua pronunciada inclinação. Levava-se o indispensável pois tudo era transportado a braços. As alcofas, metiam-se as asas numa vara para que dois as pudessem levar melhor, chegando mesmo, nas famílias mais numerosas a utilização de padiolas. A verdade é que todos tinham que ajudar.

Cantava-se, declamava-se, faziam-se jogos, mostravam-se habilidades, tudo com a presença e o olhar atento dos pais. Estes, jogavam às cartas enquanto as mulheres lavavam a louça no rio, com a ajuda das filhas mais velhas. Um ou outro entusiasta, aproveitava o tempo para pescar e raramente se fazia um passeio de barco, alugado a um pescador que sempre aparecia a oferecer os seus serviços. O banho era para os homens e rapazes feitos, os miúdos e o sexo feminino molhava os pés até aos joelhos. Dormir uma soneca, sabia bem.

[Caneiras, típica aldeia de pescadores]
Ao cair da tarde, arrumavam-se as coisas para o regresso ao bairro e agora, não se ia para a “festa” mas vinha-se da “festa” ! Além disso, era sempre a subir!

Há sessenta anos, as coisas eram assim. A vida muito difícil para quase todos. O pouco dinheiro que se ganhava, e era só um a ganhar, tinha que ser esticado. Não havia dinheiro para praia ou para férias. O Tejo era a praia dos tesos, como se dizia! Havia contudo um grande sustentáculo para ajudar a vencer as dificuldades da vida, era a existência da família. O bom e o mau era dividido e compartilhado por todos. O que se passa HOJE? Meditem.

Aqui fica mais uma MEMÓRIA DO MEU BAIRRO que o tempo ainda não diluiu. Até quando?